O Lutador – **** de *****
Título Original: The Wrestler.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: www.foxsearchlight.com/thewrestler
Nacionalidade: Estados Unidos da América.
Tempo de Duração: 115 minutos.
Direção: Darren Aronofsky.
Roteiro: Robert D. Siegel.
Elenco: Mickey Rourke (Randy “Ram” Robinson), Marisa Tomei (Cassidy), Evan Rachel Wood (Stephanie Robinson), Mark Margolis (Lenny), Todd Barry (Wayne), Wass Stevens (Nick Volpe), Judah Friedlander (Scott Brumberg), Ernest Miller (Aiatolá), Tommy Farra (Tommy Rotten), Mike Miller (Lex Lethal), John D’Leo (Adam), Ron Killings (Ron Killings) e Dylan Keith Summers.
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Quando o brutamontes sobe nos ringues, sua vida se transforma. Ele se torna um herói, alguém de respeito, alguém que muitas pessoas admiram e adorariam estar no lugar. Quando o mesmo não está na lona, porém, ele se torna um fracassado, alguém que mal possui dinheiro para pagar o aluguel do trailer ordinário que habita. “Ram” vê então a necessidade de fazer “bicos” em um mercado local, algo que o faz sentir inferior. E não é a toa que o lutador detesta ser chamado de qualquer outra coisa que não seja o seu nome de guerra: “Ram”. Afinal de contas, como alguém que é, ninguém mais, ninguém menos, do que “Ram”, um ícone nacional, pode conformar-se em ser apenas Randy Robinson, um indivíduo fracassado aos olhos do “American Way of Life”, cujo preenchimento emocional consiste em abrir-se com uma stripper que o trata apenas como um mero cliente?
É evidente então que a vida de “Ram” resuma-se aos ringues, pois é somente lá que ele se torna um vencedor, mesmo que a sua vitória seja previamente combinada. Mesmo a luta sendo parcialmente “arranjada”, o protagonista, é claro, precisa ter um físico digno de um campeão. Digno de alguém que possa escancarar um veículo qualquer em questão de minutos, com apenas socos e pontapés. “Ram” faz então o uso pesadíssimo de drogas para tal, como anabolisantes e afins. Esta é outra questão que o filme aborda muito bem também. Com o uso de tantos suplementos alimentares, o protagonista ganha um físico extremamente forte, mas a sua saúde fica completamente debilitada. O seu coração, sobretudo, fica deveras vulnerável e as chances de um enfarto passam a ser gigantescas. O médico aconselha “aposentar” “Ram”.
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E o que será da vida do mesmo, agora que ele abandonou a única coisa na vida que lhe dava um pouco de ânimo para seguir com a mesma adiante? O personagem passa então a tentar se reerguer. Nisso vemos um novo Rocky Balboa surgir. Entretanto, antes deste Rocky Balboa aparecer em cena, tínhamos um Jack La Motta. Afinal de contas, Randy também era um “Touro Indomável” nos ringues, mas a sua vida fora dos mesmos era ridícula, sem propósito, sem razão de ser. O mesmo era odiado pela família (na verdade, uma única filha que possuía, como será comentado mais adiante) e dependia veementemente de sua fama para poder se destacar na sociedade. Randy era a típica pessoa que era a sua profissão, e nada além disso.
O que acontece então quando ele se aposenta e se torna um indivíduo que precisa trabalhar para garantir a subsistência, sendo que não sabe trabalhar em absolutamente nada? Randy passa então a ser um Rocky Balboa (protagonizando precisamente o ótimo segundo episódio da saga de Sylvester Stallone) mesclado com um Travis Brickle (em virtude de suas constantes crises de solidão). E, francamente, essa salada de personagens com crises existenciais funciona bem, mas não há como negar que, ao “arranhar” a personalidade de La Motta, Balboa e Brickle, o filme assume a pretensão de construir um protagonista quase tão complexo quanto estes outros três. É aí que a trama tropeça, pois o Cinema já nos apresentou vários personagens (inclusive os outros três citados) idênticos a “Ram”, só que, na maioria das vezes, tais personagens se mostraram mais interessantes que Randy.
É claro que o personagem de Mickey Rourke tem as suas peculiaridades, afinal de contas, diferentemente de Rocky Balboa, apenas para citar um exemplo, ele consegue se sair razoavelmente bem em uma outra profissão, bem como a de balconista em um supermercado local, mas não restam dúvidas de que o drama do personagem de Stallone conseguia nos cativar bem mais e era abordado de uma forma muito mais interessante. O mesmo acontece com os personagens Jack La Motta e Travis Brickle. E antes que o leitor diga, digo eu. Sei muito bem que detesto criticar um filme comparando-o com outro, mas no caso de “O Lutador”, não há como fugir de tal artifício, pois as semelhanças com os demais filmes do gênero é evidente.
Outras falhas que o longa possui são os pequenos clichês embutidos em seu roteiro (e lá vem esse cara falar de clichê de novo, mas fazer o quê, que culpa tenho eu se o Cinema não tem inovado muito recentemente?). Temos o protagonista que sofre com problemas de saúde e resolve repensar a sua vida a partir daí, um drama familiar envolvendo o pai que abandonou a filha e o interesse deste pela única pessoa com quem consegue manter um contato, digamos, ligeiramente aceitável, uma vez que Randy é o típico pessoa que consegue a façanha de comunicar-se verbalmente com menos frequência do que este que vos escreve. Todavia, assim como parafraseei Alfred Hitchcock em meu texto sobre o excelente “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” faço-o novamente aqui: “melhor começar no clichê do que terminar no mesmo.”. E “O Lutador” realmente faz isso, pois o final bonitinho e redondinho que o longa prometia apresentar-nos, felizmente, é deixado para trás devido à filosofia de vida autodestrutiva de seu protagonista, que aparenta ser muito mais forte do que a vontade do mesmo em reparar os seus erros do passado.
Uma vez abordado o que o filme tem de melhor e, ironicamente, de pior também (é claro que refiro-me à construção de seu protagonista), vamos encerrar esta crítica utilizando outros dois aspectos de suma importância? Primeiramente, devo mencionar a direção de Aronofsky. Além de criar planos-sequências fabulosos (como a cena em que o diretor simboliza o caminho que o protagonista percorria até chegar a um ringue, com a diferença de que agora ele está adentrando um balcão de um supermercado), o diretor ainda prima por adotar um estilo de direção que nos faz sentir dentro da trama. O trabalho de Darren faz nos ter a sensação de que fora adotado o sistema de filmagem típico do movimento Dogma 95, onde filma-se apenas com uma câmera em um dos ombros. O resultado? Temos uma filmagem propositadamente balançada e que nos faz ter a impressão de estarmos acompanhando a ação como se fossemos um narrador-observador da trama. Fascinante.
Encerrarei com as atuações agora, que tal? Afinal de contas, são as atuações que acabaram chamando mais a atenção de “O Lutador”, pois tanto Mickey Rourke quanto Marisa Tomei entraram na disputa do Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente, sendo que o primeiro tem chances fortíssimas de faturar o prêmio. Rourke sempre foi tido como um ator canastrão, e não é para menos. Contudo, o mesmo deu uma guinada em sua carreira desde que atuou no superestimado “Sin City – A Cidade do Pecado”, chegando a render uma excelente atuação até mesmo no fraquíssimo “Domino – A Caçadora de Recompensas”. O seu trabalho em “O Lutador” parece ter fechado com chave de ouro essa maravilhosa fase de sua carreira e nada mais justo do que o ator ser premiado com um Oscar. Rourke faz aqui um trabalho maravilhoso, ele resmunga na medida em que deve resmungar, ri na medida em que deve rir, chora na medida em que deve chorar, gagueja na medida em que tem que gaguejar, se revolta na medida em que deve se revoltar, enfim, Rourke capta toda a essência de seu personagem e a sua atuação é digna de ser aplaudida de pé. O mesmo pode-se dizer do trabalho de Marisa Tomei. Encarnando uma complexa personagem que aparenta ser o alter ego feminino de “Ram” (afinal de contas, ambos precisam trabalhar com o físico e à medida em que suas idades avançam, eles vão começando a se preocupar com a hipótese de abandonarem a única coisa que sabem fazer na vida), Marisa também realiza uma atuação sob medida e serve de total apoio para Rourke realizar uma de suas melhores cenas no filme (a sequência em que ambos conversam em um bar).
“O Lutador” revela-se, no final das contas, um drama existencial um pouco aquém dos demais já lançados no mercado. O drama de seu protagonista pode ser facilmente comparado com protagonistas de outros filmes do mesmo gênero, com a diferença de que aqui ele é abordado de maneira menos convincente que nos grandes clássicos do gênero. O longa se apóia em alguns clichês durante alguns momentos, mas os abandona durante o desenrolar da trama. O protagonista, por sua vez, pode não ser tão bem desenvolvido quanto os protagonistas de outros filmes desta natureza, mas não há como negar que o mesmo, ainda assim, é extraordinariamente fascinante e conta com as suas peculiaridades. O drama do mesmo não deixa de ser realmente cativante. A direção de Aronofsky é extraordinária e, além de criar planos fantásticos, utiliza um sistema de filmagem inteligente que nos introduz definitivamente na trama. Mickey Rourke encarna o seu personagem na medida certa, realizando aqui uma atuação digna do Oscar que vai, e merece, vencer e Marisa Tomei desempenha otimamente uma importante função no filme. Vale destacar a irretocável e empolgante trilha-sonora que, sabe-se lá porquê, ficou de fora do Oscar deste ano.
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