Os Incompreendidos – ***** de *****

Crítica:
Interessante que eu tenha visto, pouco antes de assistir a este “Os Incompreendidos”, uma matéria no Jornal Hoje, da Rede Globo de Televisão (e por mais que não goste do jornalismo global (sobretudo do Jornal Hoje que perde um precioso tempo dando dicas de como se deve pentear o cabelo, entre outras inúmeras nugacidades da mesmíssima natureza) achei a seguinte reportagem deveras interessante), que estudá-se ligeiramente um sistema educacional excessivamente patriarcal onde câmeras passaram a ser instaladas dentro das salas de aula com o intuito de permitir com que os pais, através da internet, pudessem acompanhar tudo o que os seus filhos fazem, ou não fazem (como foi bem colocado por Evaristo Costa, âncora do telejornal ao lado de Sandra Annenberg), dentro de seus respectivos ambientes letivos.
Muitos consideram tal atitude ótima, pois além de se revelar uma eficiente medida de segurança, impede com que os alunos infrinjam certas “leis” impostas pela entidade educacional. Outros acusam a mesma de invadir a privacidade individual, resultando em um terrível desconforto, fora a imoralidade que tal medida adota ao bisbilhotar fatos que não são de interesse educacional, mas sim de âmbito privativo dos alunos. Particularmente, creio que ambos os lados estão corretos em suas afirmações, mas, acima de tudo, deixando de lado a eficiência de um estudo supervisionado por câmeras e a quebra da individualidade que esta causa, o maior problema encontra-se na ditadura imposta por este sistema. Aluno X deverá se portar assim, assim e assado, pois do contrário os pais verão tudo e aplicarão castigos severos ao mesmo. Mas será que o ensino ditatorial realmente funciona? Este é um dos vários temas debatidos em “Os Incompreendidos”.
Empregando um sábio uso de horizontals travelings durante todo o início do filme (e durante boa parte do desenrolar deste também, diga-se), Truffaut exibe uma bela Paris, dando certo enfoque à monumental Torre Eifel. Logo, somos direcionados a uma família parisiense e em poucos minutos percebemos que a beleza mostrada no desenvolvimento do intróito do longa não será mais adotada daqui para frente.
Vemo-nos então diante de uma família pobre e que vive em condições muito aquém do charme emanado pelo início da projeção. O pai é um sujeito sem pulso firme, que vive sob a falsa ilusão de fazer contatos importantes que lhe resultem uma promoção. A mãe, sem obter o devido carinho do marido, mostra-se uma mulher excessivamente rígida e estúpida para com o restante da família, principalmente quando esta se direciona ao filho Antoine, protagonista da trama. A fim de obter êxito na vida, Gilberte Doinel mantém um affair com o seu empregador, demonstrando ser a típica mulher pós-revolução feminina, que conquistou direitos como o de trabalhar, mas ainda sente na pele as desigualdades sexuais tão comuns no ambiente de trabalho até mesmo nos dias de hoje. E quanto ao protagonista Antoine? Bem, esse já merece um parágrafo à parte para que possa ser mais bem desenvolvido.
Muitos afirmam que Antoine Doinel é o alter ego de François Truffaut. Garoto cercado de fortíssimas crises existências, Antoine parece não ver propósito algum na vida, nos valores morais e, principalmente, na sociedade (pronto, Antoine não é apenas alter ego de Truffaut como é também o meu alter ego) e, a fim de preencher o vazio existencial, passa a dedicar-se à apreciação do cinema (definitivamente, sou eu) e à prática de pequenos furtos (desse mal nunca sofri), além das constantes fugas de casa.
Mas o que seria Antoine? Um rebelde sem causa? Um filho de uma geração perdida? Um caso a ser cuidadosamente estudado? Antoine representa uma vítima de um sistema educacional ditador e patriarcal, e é aqui que faço a conexidade com a introdução desta análise cinematográfica. Até onde a escola tem o direito de interferir diretamente na vida de seus alunos? Moldar o caráter de cada um, não aparenta ser uma atitude um tanto o quanto repulsiva? E não apenas repulsiva, como também falha? Passemos a enxergar com os olhos dos educadores ditatoriais: qual é a melhor forma de você manter um grupo de alunos sob controle? Impondo rigidamente duras penas a quem ousar desobedecer as suas regras? Pudemos comprovar perfeitamente que a Revolução Francesa é a prova de que isso não funciona.
Qual seria o método correto (se é que se pode chamar de “correto” algo tão repulsivo quanto uma ditadura, seja ela política ou, como é o caso agora, moral) então de se controlar um grupo de pessoas, podendo essas ser um grupo de estudantes, sem que haja posteriores revoltas? Talvez os ditadores à lá Maquiavel, não? Afinal de contas, qual é a atitude mais eficiente a ser adotada por alguém que almeja obter um poder absoluto: ditar as suas regras e obrigar os cidadãos a segui-las sem realizar questionamentos acerca destas, causando assim um medo geral que certamente se transformará em ódio com o passar do tempo, ou “acariciar” a cabeça do povo com a mão esquerda enquanto subtrai a carteira do bolso deste com a mão direita?
Talvez tenha faltado este jogo de cintura aos profissionais responsáveis pela educação francesa dos anos 1.940, que preferiam impor suas regras de modo brusco, criando então jovens como Antoine, cujo medo e incerteza (também provocado pelo autoritarismo dos pais) viriam a resultar em uma geração rebelde e desvirtuada, fazendo com que o feitiço, definitivamente voltá-se contra o feiticeiro.
Mais do que um dos grandes filmes de abertura do movimento artístico francês que viria a ser chamado de “Nouvelle Vague”, “Os Incompreendidos” se revela o filme que o ótimo “Juventude Transviada” deveria ter se revelado, realizando uma contundente abordagem sobre a relação pais e filhos e acrescentando ainda nessa trama toda a interferência do sistema educacional, resultando em uma geração completamente perdida nas entrelinhas dos valores morais que as gerações anteriores haviam esculpido de forma tão insistente e inútil, conforme o leitor poderá confirmar ao assistir aos filmes de Jean Renoir, uma das maiores inspirações de François Truffaut.
Obs.: Para assistir a este filme inteiro legal e gratuitamente, basta clicar aqui, mas é preciso fazer um cadastro gratuito no site.
Obs. 2: Gostaria de agradecer ao portal Net Movies pela oportunidade que o mesmo me proporcionou ao disponibilizar este magistral e importantíssimo filme gratuitamente em seu site, permitindo assim com que eu pudesse assistí-lo e avaliá-lo aqui no Cine-Phylum.
Obs. 3: Gostaria também de parabenizar o portal Net Movies pela encantadora iniciativa que teve ao disponibilizar diversos filmes para que estes possam ser assistidos diretamente do computador, sem precisar realizar downloads, gastar dinheiro ou infringir a lei para conferir a várias obras-primas inteiras.
Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.
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