Bastardos Inglórios

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 06 de outubro de 2.009.

Avaliação (na escala de 0 a 5): claqueteclaqueteclaquete (Bom filme).

Inglorious Basterds 00

Ficha Técnica:
Título Original: Inglourious Basterds.
Gênero: Guerra, Drama, Ação.
Tempo de Duração: 153 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://www.inglouriousbasterds-movie.com/
Países de Origem: Alemanha e Estados Unidos da América.
Direção: Quentin Tarantino.
Roteiro: Quentin Tarantino.
Elenco: Brad Pitt (Tenente Aldo Raine), Mélanie Laurent (Shosanna Dreyfuss), Eli Roth (Sargento Donny Donowitz), Christoph Waltz (Coronel Hans Landa), Michael Fassbender (Tenente Archie Hicox), Diane Krueger (Bridget von Hammersmark), Daniel Brühl (Fredrik Zoller), Til Schweiger (Sargento Hugo Stiglitz), Gedeon Burkhard (Wilhelm Wicki), Jacky Ido (Marcel), B.J. Novak (Smithson Utvich), Omar Doom (Omar Ulmer), August Diehl (Major Dieter Hellstrom), Denis Menochet (Perrier LaPadite), Sylvester Groth (Joseph Goebbels), Martin Wuttke (Adolph Hitler), Mike Myers (General Ed Fenech), Julie Dreyfus (Francesca Mondino), Richard Sammel (Sargento Werner Rachtman), Rod Taylor (Winston Churchill), Léa Seydoux (Charlotte LaPadite), Tina Rodriguez (Julie LaPadite), Lena Friedrich (Suzanne LaPadite), Maggie Cheung (Madame Mimieux), Samuel Jackson (Narrador), Cloris Leachman (Sra. Himmelstein) e Samm Levine (Gerold Hirschberg).

Sinopse: 2ª Guerra Mundial. A França está ocupada pelos nazistas. O tenente Aldo Raine (Brad Pitt) é o encarregado de reunir um pelotão de soldados de origem judaica, com o objetivo de realizar uma missão suicida contra os alemães. O objetivo é matar o maior número possível de nazistas, da forma mais cruel possível. Paralelamente Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) assiste a execução de sua família pelas mãos do coronel Hans Landa (Christoph Waltz), o que faz com que fuja para Paris. Lá ela se disfarça como operadora e dona de um cinema local, enquanto planeja um meio de se vingar (Fonte: Adoro Cinema).

Inglourious Basterds – Trailer:

Crítica:

Quando você vai assistir a uma produção assinada por Quentin Tarantino deve tomar prévia ciência de uma coisa: irá assistir a uma obra Inglorious Basterds 04cinematográfica com inúmeras características do “cinemão” clássico, mas recicladas na medida certa.

Bastardos Inglórios”, em seu primeiro ato, dá a entender que será uma espécie de western de guerra. Western de guerra? Pois é, eis uma prova clara da ousadia e invencionice ‘tarantiniana’.

Recheado de vários aspectos classicamente oriundos dos western spaghettis, o longa apresenta os tais bastardos do título planejando, ainda nos Estados Unidos, uma campanha na França dos anos 1.940, durante a invasão nazista, onde o grupo, formado por membros judeu-americanos, opta por se unir e vingar-se de Hitler e de seus compatriotas. A trilha-sonora e os letreiros que apresentam os personagens parecem ter sido extraídas do extraordinário “Três Homens em Conflito”, de Sergio Leone (alguém por um acaso duvida que o cineasta italiano foi a maior fonte de inspiração para o roteirista e diretor de “Pulp Fiction – Tempos de Violência”?) ou até mesmo do bom (e apenas bom) filme japonês “Sukiyaki Western Django” (que, por sinal, conta com a eficiente atuação de Tarantino).

Rumamos então para a Europa. Os Bastardos Inglórios arregaçam as mangas, Inglorious Basterds Brad Pittpegam os seus bastões e partem para cima dos nacional-socialistas espalhando pânico e terror entre os mesmos. Ei, espere aí! Judeus espalhando medo e ojeriza entre soldados nazistas?! Pois é, senhoras e senhores, bem-vindos à “A Lista de Schindler” versão revisada (e totalmente invertida) by Quentin Tarantino.

Esqueçam-se dos livros de história. Nada, absolutamente nada do que testemunhamos aqui é baseado em fatos reais. Tarantino brinca com a história do nazismo, simplesmente a reinventa e a transforma em uma ficção.

E é nesta ficção que, mais uma vez, um dos mais importantes cineastas dos anos 1.990 nos coloca cara a cara com uma antiga conhecida: a violência. Violência essa que é tartufamente ocultada por nós, seres humanos, que fingimos não apreciar a mesma, quando esta é, na verdade, inerente à nossa personalidade.

Inglorious Basterds 03Como não vibrar de prazer ao ver um soldado nazista tendo os seus miolos arrebentados por um pesadíssimo bastão? Pois é, é quase tão impossível quanto deixar de se agitar ao ver o chefão do crime organizado sofrendo, merecidamente, com as dores de um atentado violento ao pudor, ou não se revirar de aflição ao testemunhar uma cena onde um policial tem a orelha decepada por uma lâmina de barbear ou até mesmo evitar torcer para que Beatrix Kiddo, mais conhecida como “A Noiva”, mutile os bandidos que assassinaram a sua família no dia de seu casamento.

Tarantino retrata aqui uma imaginária ofensiva judia. É como se as vítimas de “A Lista de Schindler” se rebelassem e virassem a mesa para cima de seus opressores. Contudo, ao invés de nos emocionarmos com o sofrimento dos pupilos de Hitler, nos deliciamos com o ocorrido.

Mas não somente de violência vive “Bastardos Inglórios”. Não, de forma Inglorious Basterds 02alguma. Assim como a grande maioria dos filmes de Quentin Tarantino, esta releitura, com total livre adaptação da invasão nazista ocorrida na França, conta com fantásticos diálogos que variam desde o soldado Frederik Zoller afirmando que nutre paixão maior por Max Linder a Charles Chaplin, apesar de considerar “O Garoto” uma obra superior às demais realizadas pelo cineasta alemão, ao Coronel Hans Landa justificando o porquê de seus compatriotas nutrirem total repulsa aos indivíduos judeus, utilizando para tal uma estranha, embora altamente pertinente, analogia entre ratos e esquilos que, escrita por um outro roteirista que não fosse Quentin Tarantino, soaria consideravelmente desconexa se analisada com o restante da trama.

E já que mencionei o nome do Coronel Hans Landa, talvez ele seja realmente o grande trunfo do filme. Muito distante do estereótipo do carrasco nazista que só falta eliminar fogo pelas ventas enquanto esbraveja, Landa é um sujeito que esconde toda a sua psicopatia através da maquiagem de um Inglorious Basterds 08homem excessivamente charmoso, refinado, requintado e tão bem educado quanto um lorde inglês, fora a sua cultura que lhe permite falar fluentemente alemão (até aqui tudo bem, ele nasceu naquele país), inglês, italiano e francês (que no começo do filme ele afirma sofrer alguns tropeços, mas com o passar dos anos passa a dominar o idioma de forma mais aceitável). Por trás do garboso uniforme que traja, entretanto, esconde-se um homem ardiloso, traiçoeiro e que sabe persuadir terceiros como poucos personagens que já passaram pela sétima arte o sabem.

Parte do sucesso por trás de Landa deve-se, no entanto, à magistral interpretação de Christoph Waltz. Dono de um carisma mais do que fora do comum, até mesmo tratando-se de um profissional visivelmente acima da média, que é o caso de Waltz, o ator interpreta o sagaz Coronel com uma naturalidade surpreendente, sem jamais soar caricato em face do excesso de cavalheirismo o qual é composto. A Palma de Ouro de Melhor Ator foi mais do que merecida e, caso o Oscar do ano que vem caia em suas mãos, será um dos mais meritórios de todos os tempos. O restante do elenco também se sai muito bem (nem Mike Meyers atrapalha). Brad Pitt mais uma vez se destaca, Inglorious Basterds 09mas tem a cena roubada por Waltz e a gostosona… digo… e a bonitona da Diane Krueger rende, enfim, a primeira atuação decente de sua carreira. Um ótimo desempenho na pele da estrela Bridget von Hammersmark.

Porém, mesmo com tantos pontos a favor, “Bastardos Inglórios” erra a mão e comete os mesmos erros que os ótimos “Jackie Brown” e “Kill Bill – Volume II” cometeram: a estrutura narrativa desnecessariamente lenta. Repleto de cenas excessiva e escusadamente prolixas, a produção torna-se cansativa e entediante durante boa parte de seus minutos, revelando-se muito mais extensa do que verdadeiramente deveria se revelar.

Outra falha digna de nota reside no modo excessivo como o roteiro explora a estória paralela (e chata, diga-se) protagonizada por Shosanna Dreyfuss, chegando a deixar de lado uma imprescindível abordagem ainda mais Inglorious Basterds 01detalhada realizada ao bando formado pelo Tenente Aldo Raine, o que, indubitavelmente, conferiria ainda mais dinamicidade à obra.

Soando como uma espécie de “A Lista de Schindler” às avessas, mesclado com uma ofensiva à lá “Operação Valquíria”, “Bastardos Inglórios” conta ainda com as geniais pinceladas de Quentin Tarantino resultando em um projeto inovador, irreverente, audacioso, criativo e inspirador, mas que acaba tropeçando em sua estrutura narrativa desnecessária e excessivamente lenta. Uma pena, tinha tudo para ser uma incomparável obra-prima, não fosse a megalomania predicada de seu diretor e roteirista.

Avaliação Final: 7,0 na escala de 10,0.

8 Responses to “Bastardos Inglórios”

  • Menachem Cohen disse:

    Caro Daniel,

    Ótima crítica, mas preciso comentar essa impressão que, erroneamente, deixaste de que os judeus não partiram para a ofensiva contra os nazistas. Afinal, não é da natureza humana desaparecer passivamente, sem luta.

    Inúmeros levantes aconteceram em mais de 100 guetos de toda Polônia e em áreas da União Soviética ocupada. Mais notadamente no de Varsóvia, onde,em abril/maio de 1943, mesmo com o local em ruínas, ainda restaram inúmeros combatentes atacando ferozmente os alemães.

    Os membros da Zydowska Organizacja Bojowa/ZOB, “Organização da Luta Judaica”, atacavam os tanques nazistas com coqueteís Molotov, granadas de mão e revólveres de pequeno calibre.

    Muitos jovens judeus fugiram para florestas, onde se incorporavam ao exército soviético ou formavam seu próprios grupos de resitência contra os alemães.

    Na França, muitos da resistência judaica criaram diferentes grupos, um exemplo deste foi a Armée Juive (Exército Judeu), que atuava no sul da França. Muitos outros judeus lutaram como membros de movimentos de resistência nacional na Bélgica, na França, na Itália, na Polônia, na Iugoslávia, na Grécia e na Eslováquia.

    Além disso,levantes ocorreram nos campos de concentração, até mesmo em Auschwitz- Bikernau, em outubro de 1944, onde formaram o “Comando Especial Judaico” (Sonderkommando).

    Assim, como se vê, houve uma resitência judaica, não sendo uma invenção escatológica e “tarantinesca”, escontrando esteio nos anais e testemunhos históricos da Segunda Guerra.

    Grande Abraço.

  • Daniel Esteves de Barros disse:

    Olá Menachen, tudo bem?

    Primeiramente, grato pelo: ótima crítica.

    Em segundo lugar, parabéns pela vasta cultura e admito humildemente que desconhecia muitas ocorrências por você relatadas aqui, o que só vem a enriquecer este post.

    Quanto às resistências polonesas, tinha ciência de muitas delas (a maioria, sem apetecer me gabar), como você poderá constatar caso opte por ler a análise que escrevi sobre “Um Ato de Liberdade” (Defiance), filme este que concorreu ao Oscar de Melhor Trilha-Sonora neste ano e relata a oposição dos irmãos Tuvia e Zus Bielski (o último, inclusive, incorporou-se ao exército soviético, conforme você mesmo mencionou, e o primeiro manteve-se fiel ao grupo Partisan, do qual fizera parte desde o início dos ataques alemães) aos exércitos nazistas que invadiram a Polônia durante a 2ª Guerra Mundial e passaram a “caçar” os judeus que ali habitavam.

    Sinceramente, não lembro de ter mencionado em minha crítica que os judeus portaram-se exclusivamente de forma passiva diante dos ataques nazistas. Lembro-me sim de ter mencionado o quão estranho era testemunhar os mesmos aterrorizando de forma tão visível e gradativa os seguidores de Hitler, uma vez que sabemos que, conforme relatos da 2ª Guerra Mundial, o ocorrido era justamente o contrário, por mais que muitos judeus, de fato, tenham se manifestado em menores ou maiores proporções (e vale lembrar que eles jamais chegaram a ameaçar Hitler de forma tão direta como é vista aqui em “Bastardos Inglórios”), conforme fora sabiamente mencionado por ti.

    Muitíssimo obrigado por ter comentado e volte sempre!

    Abraços e ótimas experiências cinematográficas!

  • hélio benhossi disse:

    não querendo defender o daniel novamente mas já o defendendo… também acho q ele não quis insinuar que os judeus nunca se levantaram contra os nazistas mas sim q é bastante estranho ve-los espalhando medo entre os mesmos em igual proporção a q o exercito de hitler fazia durante aquele mesmo periodo

  • E não querendo lhe agradecer novamente, Hélio, mas já o agradecendo, muito obrigado! ;D

  • Ticooooooooo ! disse:

    Ô rapaaaazz, gostei muito de sua critica e do filme também. Embora tenha citado fatos que realmente destacam o filme, o senhor esqueceu de um deles, a parte em que aparece aquele maravilhoso e apetitoso Strudel(acredito que de maça) com creme, confesso que estava morrendo de fome antes de começar a assistir esse filme e na hora em que vi essa iguaria, fiquei com muita água na boca.
    Mais uma vez parabens pela critica. Obrigado

  • Muito obrigado pelo comentário, Tico (e, principalmente, pelos elogios)!
    Mas devo lembrá-lo de que não sou crítico de culinária, muito menos culinária alemã, logo, não achei conveniente tecer uma crítica ao strudel de maçã que Landa oferece à Shossana. :D
    Quanto ao filme, gostei, mas Tarantino já esteve em melhor fase (vide “Pulp Fiction: Tempo de Violência”, “Cães de Aluguel” e “Kill Bill – Volume I”).
    Abração!

  • Ticooooooooo ! disse:

    Sir Daniel Esteves de Barros.
    É com imenso prazer que eu elogio sua critica, porem o senhor deve procurar saber mais sobre criticas culinarias, é o que falta para que o senhor se de bem em sua carreira de critico cinematografico.
    Torço por voce rapaz. Obrigado novamente

  • Mas quem deve agradecer sou eu rapaz!
    E sim, seguirei o seu pertinente conselho e tentarei aprender mais sobre críticas culinárias, já que tem total nexo com a crítica de cinema, principalmente para podermos analisar comidas inseridas no filme e que não podemos saboreá-las na vida real, mas tudo bem.
    Abraço e obrigado!

Selecione um assunto
Arquivos
Siga-nos pelo Twitter