A Chinesa
Redigido por Daniel Esteves de Barros aos 08 de outubro de 2.009 e editado e publicado pelo mesmo autor aos 09 de outubro de 2.009.
Avaliação (na escala de 0 a 5): ![]()
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(Obra-Prima).

Ficha Técnica:
Título Original: La Chinoise.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 96 minutos.
Ano de Lançamento: 1.967.
Países de Origem: França.
Direção: Jean-Luc Godard.
Roteiro: Jean-Luc Godard.
Elenco: Anne Wiazemsky (Veronique), Jean-Pierre Léaud (Guillaume), Juliet Berto (Yvonne), Michel Semeniako (Henri), Lex De Bruijn (Kirilov), Omar Diop (Omar), Francis Jeanson (Ele Mesmo), Blandine Jeanson (Blandine) e Eliane Giovagnoli (Son ami).
Sinopse: Um grupo de estudantes franceses se tranca em um apartamento durante as férias e, enquanto discutem sobre diferentes temas político-sociais, também planejam ações terroristas (Fonte: Cine Menu).
La Chinoise – Trailer:
Crítica:
Provavelmente todo pseudo-intelectual de esquerda que se preze nutre uma forte admiração pelo “Maio de ’68”, rebelião ocorrida na França tendo como base para o seu início a prévia greve geral feita pela classe operária francesa. O que marcou este pequeno grande embate político ideológico foi que, ao contrário de outras conflagrações de igual natureza, o “Maio de ‘68”
destacou-se por romper barreiras de todas as espécies, uma vez que a sua causa não fora apoiada apenas por um determinado grupo de pessoas, mas por indivíduos de todos os jaezes e castas sociais.
É justamente aí que entra um grupo de jovens irresponsáveis e pseudo-intelectuais que, sob um alicerce psicológico extremamente limitado, edificam inúmeras teorias marxista-leninistas que acabam fugindo gradativamente do controle e dos limites aceitáveis da razão, empregando o uso extremado da violência e do terrorismo niilista a fim de, incongruentemente, atracar-se por ideais que deveriam ser benéficos ao povo.
Direcionando o foco a um grupo inicialmente formado por cinco destes jovens, o roteiro, magistralmente composto por Jean-Luc Godard, constrói
uma antevisão do movimento estudantil de 1.968 e analisa minuciosamente as ideologias e o modo como os rapazes pretendem as utilizar em favor do povo. A estrutura narrativa opta por duas alternativas: ora ela é convencional e apenas mostra o grupo de jovens se preparando para o “Maio de ‘68”, ora ela é um pouco mais original e gira em torno de um pseudo-documentário à lá “Cidadão Kane” onde os revolucionários púberes concebem entrevistas a jornalistas políticos. Dois deles revelam-se mais interessantes que os demais: Veronique e Henri.
Henri é um jovem racional, amante da ciência e que, assim como o próprio Marx, crê que o capitalismo jamais sofrerá uma crise econômica tão grande a
ponto de permitir que o comunismo se instaure definitivamente. A luta de classes é e sempre será inerente à construção de um sistema econômico que se foque nas massas, mas isso deverá ocorrer em um momento pertinente, nem que para tal seja necessário permitir que o capitalismo vigore durante algum tempo, o tempo que for cogente para que a sociedade esteja preparada para uma mudança radical (e é claro que este “tempo” não tende a ser tão longo quanto o sugerido pelos socialistas-fabianistas, onde há uma exacerbação do quimérico que marcou o socialismo-revisionista).
Veronique já segue um marxismo mais extremado. Dotada de forte conhecimento político e filosófico (sobretudo filosófico), há uma
possibilidade muito grande de a garota ser a mais culta dentre todo o grupo, porém, jamais pode ser tachada como a mais inteligente, em face de seu fanatismo desenfreado e irracional. A mesma é, na realidade, uma espécie de sinédoque dentre os demais jovens da época, já que trata-se da típica menina mimada e rica (o pai é banqueiro) dotada de repletos e aprofundados conhecimentos sobre comunismo e filosofia em geral. Pergunte a ela o que é marxismo e, em questão de segundos, inundará o seu cérebro com informações que, até então, não eram de seu conhecimento. Pergunte então a ela o porquê segue o marxismo e a única coisa que ouvirá serão críticas feitas ao capitalismo e mais nada.
Os outros jovens seguem filosofias semelhantes a dos dois amigos
supracitados e, no mais, são adeptos ferrenhos de Mao Tsé-Tung (que aqui é transformado em música pop/rock), marxista-leninistas, odeiam a atual União Soviética (e quando digo: “atual União Soviética” é claro que refiro-me ao contexto diegético da obra), Stalin e Trotsky, por acharem que o último colaborou para o fim da arte de Sergei Eisenstein (cuja crítica de sua obra-prima pode ser lida aqui, no Cine-Phylum) no cinema e Vladimir Maiakovski na poesia.
O que esta obra-prima magnífica tem a nos apresentar de melhor é a sátira que Godard tece em cima disso tudo. Jovens que se mostram tão terrivelmente avessos ao reacionarismo político acabam assoalhando ideais igualmente reacionários ao ponto de uma jovem
(Veronique, é claro) se ver no direito de “pensar pelo povo”. A mesma pessoa que prega a liberdade da plebe, irônica e involuntariamente, prega uma distinção quase hierárquica em simples e pequenos, embora significativos, atos como, por exemplo, pedir, aos berros, para que o namorado Guillaume atenda ao telefone. O mesmo jovem que propala que um comunista jamais pode ser arrogante, acusa o amigo de revisionista (revisionismo nada mais é que uma ramificação do comunismo, criada pelo estadunidense descendente de alemães Leonard Bernstein, onde a revolução era substituída por reformas que visavam moldar o capitalismo em um sistema econômico bem menos desigual do que ele realmente é) somente pelo fato deste assumir uma postura mais ponderada e menos radical perante os ideais dos colegas.
Funcionando também como ponto marcante para a carreira de Godard como diretor de cinema, “A Chinesa” destaca-se por ser um filme onde percebemos
que o cineasta, brandamente, passa a deixar um pouco de lado alguns aspectos que se tornaram alegóricos em sua primeira nouvelle vague, bem como a handcam (câmera movimentada diretamente com a mão, onde esta recebe maior mobilidade), os longos planos-sequências e a tão famosa edição jump-cut, ainda que a montagem do longa mantenha-se descontínua. Em compensação, os travellings horizontais e a dedicação à criação de ângulos e planos fechados perfeitos continuam fazendo parte de seu trabalho nesta produção.
Como bom vanguardista e maoísta que Jean-Luc Godard foi durante a década de 1.960, “A Chinesa” não se revela apenas um dos melhores filmes de sua carreira (o segundo melhor, em minha humilde opinião, além de ser também
o meu filme político predileto), como também uma completíssima homenagem que o diretor dedicou à verdadeira filosofia de esquerda que, aqui, é abordada da forma mais aprofundada que a sétima arte já conseguiu nos proporcionar. Paralelamente, o cineasta francês traça também uma exímia sátira às contraditórias militâncias políticas e ao extremismo praticado pelas mesmas (afinal de contas, uma ditadura de esquerda é tão execrável quanto uma ditadura de direita, não?).
Destaque para a frase proferida por Henri ao final do filme, que resume bastante o mesmo: “Marxismo é, antes de tudo, uma ciência, e lá, os argumentos estavam uma bagunça.”.
Obs.: Essa obra-prima do cinema francês e mundial pode ser conferida na íntegra e sem quaisquer custos no site NetMovies.
Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.
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