Mostra Internacional de Cinema de SP – 30/10/2009

Redigido por Daniel Esteves de Barros ao 01 de novembro de 2.009, editado pelo mesmo aos 02 de novembro de 2.009 e publicado aos 03 de novembro de 2.009

Amor Extremo (The Edge of Love, Inglaterra, 2008). ****

Amor-Extremo

Direção: John Maybury.

Elenco: Keira Knightley, Sienna Miller, Matthew Rhys e Cillian Murphy.

Crítica:

É fato que, com o final da Primeira Grande Guerra, o mundo (mais precisamente a Europa) se tornou um lugar moralmente liberal. Pode-se notar isso não apenas em obras de arte dadaístas ou surrealistas (onde pintores como o alemão Marcel Duchamp e o francês Salvador Dali tomaram certas liberdades artísticas a fim de mudar todo o contexto convencional de uma era), como também (e principalmente, eu diria) ao notar a drástica mudança de comportamento experimentada pela sociedade da época, sobretudo no que diz respeito às questões amorosas. Quando surgiu a Segunda Grande Guerra então, é mais do que óbvio que tais comportamentos haviam se solidificado ainda mais e ocasionado uma sociedade gradativamente pródiga, contando com os seus aspectos positivos e negativos.

Amor Extremo” começa exatamente nesta época, em uma Londres onde festanças contrastavam com bombas nazistas que chegavam a arrasar quarteirões inteiros. E é neste cenário paradoxalmente jovial e sorumbático, acalorado e fúnebre, pilhérico e circunspecto que temos traçada a também paradoxalmente jovial e sorumbática, acalorada e fúnebre, pilhérica e circunspecta estória envolvendo o impulsivo romance entre Vera Phillips (Keira Knightley), Caitlin Thomas (Sienna Miller), William Killick (Cilian Murphy) e o personagem mais chamativo do ponto de vista histórico, mas menos vistoso do ponto de vista diegético: o poeta Dylan Thomas (Matthew Rhys).

E quando digo que Thomas é o personagem historicamente mais importante, mas diegéticamente menos atrativo, é porque o roteiro opta, sabiamente, por estudar a vida deste e, consequentemente, a fonte de inspiração de muitos de seus poemas, direcionando o foco às duas mulheres mais marcantes que teve em toda a sua vida, fazendo assim com que a obra se mostre uma cinebiografia pouco convencional, embora excessivamente episódica (assim como o magistral “Amadeus” também o foi).

Mesmo que seja o amálgama entre Vera Phillips e Caitlin Thomas, Dylan é um homem talentoso, mas que causa repulsas ao espectador. Assim como a grande maioria dos poetas (e aí se incluem também os aspirantes a poetas, que é o caso deste que vos escreve), é um sujeito boa vida, oportunista, desprezível e que vive às custas da sociedade, sobretudo de Caitlin. É claro que, conforme ocorre diariamente, um indivíduo patético deste naipe acaba despertando o interesse de duas belíssimas mulheres: a atual esposa, e Vera, seu amor durante a infância, ambas assaz infantis e imaturas, apesar de financeiramente independentes. O triângulo amoroso torna-se então um quadrado quase que perfeito com a inserção de William Killick e é aí que rumamos a um drama romântico muito parecido com o clássico “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois” e os recentes “Vicky Cristina Barcelona” e “Amantes” (este último nem tanto, mas vale a pena citá-lo mesmo assim).

Em outras palavras, caminhamos a uma eficiente e cativante “baderna” amorosa do tipo: fulano ama (mas não sabe se ama de verdade) cicrano, que ama (mas não sabe se ama de verdade) beltrano, que ama (mas não sabe se ama de verdade) ‘cicrabeltrano’ e… bem… e por aí vai.

No fim, o longa torna-se um interessantíssimo levantamento sobre personagens confusos e perdidos nas entrelinhas dos aspectos negativos nascidos com a sociedade sexualmente liberal que citei no primeiro parágrafo deste texto.

Quando a projeção se encerra, no entanto, concluímos que, muito provavelmente, o único e verdadeiro amor que presenciamos durante os últimos cento e cinqüenta minutos foi aquele que nunca ocorreu: o de Vera e Caitlin.

Revelando-se um ótimo e eficiente drama romântico, “Amor Extremo” apenas sofre leves arranhões que são proporcionados por um desfecho com um ritmo demasiado lento e ligeiramente piegas. Ainda assim, é uma obra bastante acima da média e agraciada por uma ótima direção, uma edição eficaz (salvo em seu terceiro ato), e convincentes atuações, além da belíssima recriação de época.

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Vencer (Vincere, Itália, França, 2009). ****

vincerepostercannes

Direção: Marco Bellocchio.

Elenco: Giovana Mezzogiorno, Filippo Timi, Fausto Russo Alesi, Michela Cescon.

Crítica:

Opinião extremamente subjetiva (assim como toda e qualquer opinião que posto aqui neste espaço virtual, seja ela de âmbito cinematográfico ou não), mas considero a estória de Benito Mussolini mais interessante que a do próprio Adolf Hitler. Hitler foi um artista frustrado que, ao ser reprovado duas vezes seguidas em exames para o ingresso na Academia de Belas Artes de Viena (que, reza a lenda, era administrada por um diretor judeu na época), tornou-se anti-semita e decidiu erradicar os seguidores do judaísmo da face da Terra. É claro que muitos outros fatores extremamente complexos colaboraram imensamente para que a figura militar mais polêmica do Século XX aderisse a ideais tão radicais, mas a verdade é que Hitler sempre foi um indivíduo de extrema direita, e de um indivíduo de extrema direita não pode se esperar outra coisa senão atitudes de extrema direita, correto?

Mais imprevisível (e, por isso, mais interessante, em minha humilde opinião) foi Benito Mussolini. Natural de uma cidade deveras pequena e filho de pais pobres, o futuro ditador sempre foi humilde e, durante todo o início de sua carreira como jornalista e político, demonstrou total interesse por ideais socialistas, vindo inclusive a se tornar marxista com o passar do tempo. Não bastasse a sua paixão pela política de esquerda, Mussolini ainda era leitor assíduo de Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão que afirmava que o Estado é “o mais feio dos monstros feios”. Logo, como um homem que fora tão influenciado por intelectuais alemães e líderes russos antitolitaristas pôde aderir a um sistema econômico tão centralizado? Como uma pessoa pode alternar completamente de uma polaridade para a outra? São questões como estas que tornam um estudo sobre Mussolini suficientemente interessante para ser adaptado às telonas, não?

Pois é, e é logo quando “Vencer” tem o seu início que nos deparamos com um jovem e sonhador Mussolini, rapaz de temperamento arrebatado, socialista radical e amplamente impetuoso e audacioso. Em menos de um minuto de projeção o sujeito lança um desafio ao próprio Deus, a fim de provar a não existência Deste. Suas atitudes geram polêmicas, causam discussões e muitos passam a questionar o radicalismo do mancebo. Passam-se alguns minutos e conhecemos Ida Dalser, amante do jovem militante. Notamos então que Mussolini não é agressivo somente em suas atitudes e palavras, mas até mesmo (e principalmente, eu diria) durante o desenrolar de uma simples relação sexual. O filme vai então ganhando cada vez mais força conforme retrata o gênio impetuoso desta figura histórica, seja em seus relacionamentos amorosos, seja em sua inquietação política e intelectual. Mussolini é uma peça poderosa, e conta com o poder necessário para manter-nos entretidos em uma sala de cinema por até mesmo três horas.

Repentinamente, quando menos poderíamos esperar, o roteiro, sem mais nem menos, nos “puxa o tapete”. Ocorre uma mudança radical (tal como a mudança política radical de Mussolini) e o criador do Fascismo, que até então mostrava ser o protagonista desta trama, sai de cena bruscamente e é substituído pela bela Dalser. Falha total de Marco Bellocchio que, com justiça é considerado um dos melhores cineastas da história da Itália, deveria aproveitar a sua vasta experiência a fim de preparar o leitor para tal variação de uma forma mais natural.

De todo o modo, demora, mas aos poucos vamos nos acostumando com a presença de Dalser e passamos a nos interessar ainda mais quando nos damos conta de que estamos, talvez pela primeira vez na história do Cinema, assistindo a uma trama alternativa e diretamente (ou seria indiretamente?) ligada ao maior ícone italiano do século passado.

O longa ganha ritmo, as injustiças sofridas pela protagonista chamam, e muito, a nossa atenção e, quando menos percebemos, a trama já nos captura novamente e não nos abandona jamais, proporcionando-nos uma sessão excessivamente emocionante e, principalmente, revoltante e perturbadora, sobretudo quando chegamos à última cena em que o filho de Dalser com Mussolini é filmado, digno de fazer com que qualquer pessoa saia fortemente angustiada da sala de cinema após o término da projeção.

Contando com um belo trabalho de direção por parte de Bellocchio (a cena em que Dalser trepa as grades e joga um volume de cartas (que deveriam ter sido destinadas ao filho Benito) ao léu enquanto neva do lado de fora, é plasticamente linda e magistralmente conduzida pelo cineasta) e resultando em uma experiência suficientemente interessante e emocionante o bastante a ponto de “convidar” o espectador a assistir-lhe até o último segundo de projeção, “Vencer” perde pontos somente quando opta, bruscamente e sem prévio aviso, por alternar inteiramente o imo de seu roteiro. No mais, é uma ótima produção italiana agraciada pelas brilhantes atuações de Giovanna Mezzogiorno e, principalmente, Filippo Timi, que encarna Benito Mussolini e Benito Albino com uma perfeição irretocável.

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Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009). **

abraçospartidos

Direção: Pedro Almodóvar.

Elenco: Penélope Cruz, Lluís Homar, Ángela Molina, Carmen Machi, Blanca Portillo, José Luis Gómez, Tamar Novas, Rubén Ochandiano.

Crítica:

Costumo comparar Pedro Amoldóvar a Woody Allen. Da mesma forma que o diretor judeu, o cineasta espanhol investe em filmes com uma premissa aparentemente simples, mas carregados de personagens complexos e diversos acontecimentos que propiciam uma “bagunçada” (no melhor sentido o possível da palavra) atmosfera que torna a estória em si muito mais emaranhada do que ela simulava ser até então.

Em “Abraços Partidos”, a comparação, a menos para mim, torna-se ainda mais inevitável. Assim como em muitos filmes de Allen, o tema abordado aqui é traição conjugal. Assim como em muitos filmes de Allen, há uma trama de amor em primeiro plano e, como pano de fundo, personagens diretamente ligados ao Cinema. Assim como no ótimo “Dirigindo no Escuro”, aqui o protagonista também é um cineasta apaixonado pela arte e que se encontra com uma grave deficiência visual (com a diferença de que, neste filme, a visão do personagem principal é afetada permanentemente e não apenas temporariamente, como na obra de Allen).

Não obstante as semelhanças supracitadas, há uma outra equiparação que pode ser efetuada entre Allen e Amoldóvar e que, sinceramente, não me agrada muito ter de fazê-la: assim como em muitos filmes do cineasta judeu (dentre os quais destaco o fraquíssimo “Scoop – O Grande Furo”), neste “Abraços Partidos” o diretor responsável pela obra-prima “Ata-me!” erra a mão terrivelmente e nos entrega um produto bem aquém de seus costumeiros trabalhos (que é claro, são bastante acima da média em sua grande maioria).

A estória aqui simplesmente não decola, apela para os mais variados clichês e, o que é pior, mostra-se imperdoavelmente previsível (até mesmo quando faz um leve esforço para tentar se mostrar inesperada). A primeira meia hora de filme é parcialmente dispensável, poderia muito bem ter sido limada a oito eficientes minutos, pois acabaria exercendo a mesma importância narrativa ao final da obra. Quando a verdadeira trama começa a ser desenvolvida, logo nos damos de cara com os chavões já comentados. O empresário, um velho caquético, sente algo muito forte pela secretária (sempre a secretária, não? Parece até filme hollywoodiano), uma espanhola bonitona (é Penélope Cruz, afinal de contas, oras), mas pobre. É óbvio que brotará um casamento a partir daí onde o pólo passivo terá como interesse a fortuna do pólo ativo que, por sua vez, nutrirá forte interesse pelo sexo oferecido pelo pólo passivo, correto (essa pergunta foi retórica)?

Mais óbvio ainda é inferirmos que, quando a, agora esposa, do milionário passa a nutrir forte interesse em ser atriz e aparenta se entender muito bem com o diretor do filme o qual ela fará parte (que por sinal revela-se uma espécie de sátira a “Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos”, magistral obra que revelou Amoldóvar para o mundo todo), surgirá então um affair entre ambas as pessoas, não? Pois é, e tudo o que o roteiro nos apresentar a partir daí será nada mais do que uma enxurrada de episódios previsíveis, salvo um ou outro acontecimento, como o destino que tem a personagem de Penélope Cruz e um acidente o qual sofre o protagonista.

Rumamos a um final desnecessariamente longo e que não nos traz surpresa alguma, seja por parte das confissões realizadas por Judit Garcia, seja, principalmente, ao descobrirmos qual é a verdadeira relação entre Mateo Blanco (ou Harry Caine, se preferir) e o jovem Diego (algo que soa como um arco extremamente artificial criado pelo roteiro a fim de tentar surpreender o público, o que não ocorre de forma alguma).

Sem contar com uma trama cativante, como o excelente “Carne Trêmula” contava, ou com um notável vigor artístico por parte de Pedro Almodóvar, conforme este havia mostrado no ótimo “Fale Com Ela”, ou ainda com um tempo da comédia tão bem desenvolvido, como víamos no interessante “Volver”, “Abraços Partidos” é, talvez, o maior deslize na carreira do cineasta espanhol que só não cai na completa desgraça em face de seus personagens moralmente incorretos (ainda que não sejam suficientemente interessantes) e das atuações de Lluís Homar, Blanca Portillo e, é claro, Penélope Cruz.

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