Guerra ao Terror

Redigido por Daniel Esteves de Barros aos 02, 03 e 04 de dezembro de 2009. Editado e publicado pelo mesmo aos 05 de dezembro de 2009.

Avaliação (na escala de 0 a 5): rolo de filmerolo de filmerolo de filmerolo de filme (Ótimo Filme).

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Ficha Técnica:
Título Original: The Hurt Locker.
Gênero: Ação, Drama, Thriller e Guerra.
Tempo de Duração: 131 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.thehurtlocker-movie.com/
Países de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Kathryn Bigelow.
Roteiro: Mark Boal.
Elenco: Jeremy Renner (Primeiro Sargento William James), Anthony Mackie (Sargento JT Sanborn), Brian Geraghty (Especialista Owen Eldridge), Guy Pearce (Sargento Matt Thompson), Ralph Fiennes (Líder da Equipe de Mercenários), David Morse (Coronel Reed), Christopher Sayegh (Beckham), Suhail Aldabbach (Homem de Traje Negro), Evangeline Lilly (Connie James), Nabil Koni (Professor Nabil), Sam Spruell (Mercenário Charlie), Sam Redford (Mercenário Jimmy), Feisal Sadoun (Mercenário Feisal) e Barrie Rice (Mercenário Chris).

Sinopse: Para um grupo de soldados americanos, alguns dias os separam do retorno para casa. Um período relativamente curto, se não fosse por tantas ocorrências que transformassem esse fim de jornada em um verdadeiro inferno. As forças armadas precisam de especialistas não só nos campos de combate mas também no dia a dia, na proteção do grupo contra insurgentes que promovem atentados, matando milhares de cidadãos. Conheça a dura realidade destes soldados e descubra que, ao contrário do que todos eles pensam, a luta jamais terminará (Fonte: Cine Anarquia).

The Hurt Locker – Trailer:

Crítica:

___ A emoção da batalha costuma ser um vício forte e letal, pois a guerra é uma droga”.

É com esta epígrafe contundente e de forte impacto inferida pelo jornalista e correspondente de guerra estadunidense, Chris Hedges, que “Guerra ao Terror” (esperem um pouco, “Guerra ao Terror”?! Sério, desisto de discutir sobre certas atitudes incompreensíveis adotadas pelas distribuidoras tupiniquins, bem como títulos pavorosos como este, e até mesmo o desprezo com o qual a mesma trata certas preciosidades, como esta pérola aqui que, até então, é o grande favorito para “abocanhar” os principais prêmios (sim, inclua aqui Melhor Ator, Roteiro, Direção e, é claro, Filme) da cerimônia do Oscar 2010, mas foi lançado no Brasil diretamente em DVD e sem uma campanha de marketing digna de sua atual importância) tem o seu início, e é justamente através desta epígrafe contundente e de forte impacto que podemos, de certa forma, tecer um efêmero resumo sobre o longa em questão.

Jeremy Renner (e juro que, em alguns momentos, o ator me pareceu uma versão ianque de Oskar Werner, em face de suas feições) é o Sargento William James. Tipo durão, valentão, obstinado, arrogante, cínico e sarcástico. Uma mescla de John Wayne (mais precisamente um Ethan Edwards) com Bruce Willis (mais precisamente um John McClane). A frase que abre o filme (e esta crítica também) é destinada ao protagonista, afinal, ele é o tal viciado na “droga” chamada “guerra” (o que nos remete também à clara lembrança do Capitão Benjamin L. Willard (encarnado por Martin Sheen) em “Apocalypse Now”).

O personagem de Renner, ao lado da direção de Kathryn Bigelow (que comentarei mais abertamente alguns parágrafos abaixo), é a alma do filme.

A princípio, um homem com as características de seu William James soaria um tanto o quanto caricato, mas aos poucos vamos notando que o sujeito, de fato, sofre de alguma patologia psíquica, o que o transforma em um tipo diferente dos demais valentões já apresentados pelo Cinema.

Afinal, o que faz dele uma pessoa que se sente totalmente desconfortável ao realizar uma tarefa simples como, por exemplo, escolher um cereal nas prateleiras de um supermercado, mas não dá a mínima quando está desarmando uma bomba que pode explodir diante de suas mãos a qualquer instante (e é claro que ele, de uma certa forma, teme a morte, conforme podemos notar em sua respiração ofegante quando encontra-se diante do perigo, mas a tensão do momento parece relegar claramente o medo do Sargento a um segundo plano)? O que faz dele uma pessoa desesperada em busca de adrenalina, mas extremamente passivo quando leva um soco no rosto, oriundo de um soldado com posto hierarquicamente inferior ao seu? O que faz dele um sujeito capaz de encostar a arma na cabeça de sua vítima e a ameaçar friamente, mas que, nas horas vagas, opta por fazer amizade com um garoto iraquiano que se chama Beckham (sim, isso mesmo, o mesmo nome do craque do time de Los Angeles) e vende DVDs piratas nas ruas, passando, inclusive, a jogar futebol consigo?

Essas perguntas, e algumas outras (bem como: por que William, que tem família e tudo mais, não dá a mínima à própria vida, enquanto que o seu parceiro, Sanborn, que, segundo ele mesmo, não tem nada a perder, teme tanto a própria morte?), são o que mantém o filme visivelmente interessante durante toda a sua projeção e, mesmo que “Guerra ao Terror” (francamente, que título mais ridículo este, não?) nos cause a falsa impressão de que nada será esclarecido totalmente até o seu desfecho, não tem como tais indagações não nos instigarem (e quando tudo é finalmente esclarecido em um curto dialogo ocorrido nos minutos finais do longa, elas nos instigam ainda mais).

As sequências de ação também são um espetáculo à parte, e muito disso deve-se a Bigelow. Rompendo paradigmas machistas e adotando uma postura digna de se invejar uma Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir (conhecida simplesmente como Simone de Beauvoir), Bigelow ignora a tradição do gênero cinematográfico de guerra e prova que uma mulher é capaz de dirigir um filme deste tipo de um modo tão eficiente e competente como muitos outros diretores (do sexo masculino, é claro) já o fizeram.

Empregando, com exímio talento (algo que ela não havia conseguido realizar em muitos de seus filmes anteriores), planos abertos que refletem toda a tensão do momento (afinal, o perigo pode surgir, literalmente, a cada esquina do cenário onde se desenrola a ação) e planos fechados nos rostos de seus atores (sobretudo Renner), a fim de ilustrar a angústia que faz parte do cotidiano dos mesmos, Bigelow se mostra capaz de conferir ainda mais força ao filme quando opta por acompanhar os seus protagonistas no exercício de suas funções com a câmera na mão e seguindo-os bem de perto, o que confere ao longa o tom realista o qual o mesmo tanto necessita para funcionar da devida maneira (e o destaque vai para o cuidado que esta tem para com certos detalhes, como por exemplo na cena que abre o filme e Bigelow faz questão de nos exibir vários grãos de terra separando-se da porta de um veículo devido ao impacto de uma bomba que acabara de explodir).

Mas voltando às cenas de ação, há uma em especial que resume bem o filme todo, e não, não é uma de suas típicas sequências envolvendo desarmes de bombas ou coisas do tipo. Refiro-me ao momento (que conta com uma ligeira, embora eficiente, participação de Ralph Fiennes) em que o grupo de protagonistas, sozinhos no deserto, é cercado por iraquianos rebeldes que tentam elimina-los a todo o custo. Não é preciso ter muita criatividade para tecermos, no mesmo instante, uma analogia que visualiza um pequeno grupo de cowboys defendendo-se, em um ponto central, de um bando de apaches loucos para escalpelá-los.

Esperem aí? Personagem durão à lá John Wayne, clima árido, muita areia (apesar de o longa se desenrolar muito mais no perímetro urbano do que em um deserto propriamente dito) e batalhas que nos remetem à conflitos da natureza “pele vermelha/homem branco”? Características que nos remetem a um longa do gênero western? Pois é, assim como “Bastardos Inglórios”, “Guerra ao Terror” também tem o seu quê de western de guerra, embora abandone, assim como o filme de Tarantino, este rótulo (se é que tal rotulo realmente existe, o que é muito pouco provável) durante o desenrolar de sua trama.

De qualquer forma, não há como negar que, ao assumir (ainda que de soslaio) a “cara” de um bang bang, “Guerra ao Terror” entra em um campo um tanto o quanto comercial. E por mais “cabeça” que o filme seja (e, de fato, é), não restam dúvidas de que o excesso de cenas de ação, principalmente as que envolvem explosivos (que também me fizeram lembrar muito de “SWAT” e juro que isso não se deve unicamente ao fato de Renner ter também trabalhado naquele filme), o tornam ligeiramente mainstream. Não que isso seja necessariamente ruim, de forma alguma, mas para uma obra que visa debater questões existenciais e políticas, a ponto, inclusive, de ter sido apelidada recentemente por James Cameron (ex-marido de Bigelow) de “o “Platoon” da Guerra do Iraque”, faltou um pouco de refinamento intelectual ao longa, já que assuntos como Abu Ghraib nem sequer são arranhados (e por mais que este não seja o intento da obra cinematográfica, deixar de mencionar os incidentes ocorridos na prisão soa tão deselegante quanto um filme sobre a Segunda Guerra Mundial optar por nem ao menos mencionar o holocausto).

Beneficiado por um personagem principal irrepreensivelmente complexo e digno do graúdo estudo que o roteiro tece sobre si, “Guerra ao Terror” ainda encontra tempo para nos levantar vários questionamentos existenciais e permitir com que testemunhemos Kathryn Bigelow efetuando a melhor direção de toda a sua carreira (que, por sinal, é marcada de porcarias do naipe de “Caçadores de Emoção”, “Estranhos Prazeres” e “O Peso da Água”, sendo este seu mais novo filme uma espécie de contraponto à boa parte de sua vida como profissional do Cinema). Jeremy Renner também colabora para o resultado positivo da obra e atribui a seu William James a sensibilidade exata para que a sua composição aparentemente caricata soe perfeitamente natural à medida que vai sendo desenvolvida. Lamentável que o gosto de Bigelow pelo Cinema de ação tire um pouco do peso político do longa, que nem a menos aborda os absurdos cometidos pelos soldados estadunidenses aos prisioneiros de Abu Ghraib durante o decorrer da guerra.

Particularmente, não sei dizer se “Guerra ao Terror” merece a antecipada nomeação de “favorito aos principais prêmios do Oscar 2010” que vem recebendo atualmente (salvo no quesito direção, onde Bigelow se destaca como profissional algum conseguiu o fazer neste ano, a menos até o momento), só sei dizer que este é, inquestionavelmente, um filme superior a todos os outros cinco indicados a Melhor Filme na premiação do Oscar 2009, o que nos faz concluir que, felizmente, teremos uma cerimônia bem menos insuportável ano que vem.

Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.

2 Responses to “Guerra ao Terror”

  • Vitor Melo disse:

    Melhor que Avatar? Uma piada, final ridiculo, a única coisa que salva é a qualidade da filmagem e os locais, pois a história não tem pé nem cabeça.

  • Hum… vejamos, no final de “Guerra ao Terror” comprovamos que a guerra viciou o protagonista, pois o mesmo já não vê mais propósito em uma existência fatídica, cujos pontos altos tratam-se de brincar com o filho e escolher uma caixa de cereais no mercado, fugindo do eterno clichê que os filmes de guerra menos inteligentes adotariam, bem como o protagonista feliz da vida por ter chegado em casa, beijando a esposa, suspendendo o filho nos braços, sorrindo e chorando ao mesmo tempo e blá, blá, blá… Em outras palavras é um filme que aborda o existencialismo sartriano (a falta de propósito em sua existência) correlacionando-se com o eterno retorno nietzschiano (a falta de propósito em sua existência cíclica).

    E o final de “Avatar”? O protagonista vence uma batalha aparentemente impossível, fica com a mocinha, torna-se um deles e… e é isso… apenas isso. Filmes iguaizinhos a “Avatar” já foram produzidos em larga escala. Trata-se da mais que batida fórmula do sujeito civilizado que tem uma missão moralmente incorreta em cima dos povos sem conhecimentos tecnológicos, entretanto, por algum motivo, ele passa a se cativar com a classe dos sujeitos que, a primo, eram seus objetos de espionagem e, ao final, não apenas defende a causa deles como também torna-se um deles. Sério, até mesmo Dolph Lundgren (”Homem de Guerra”) e Steven Seagal (”Em Terreno Selvagem”), que são dois atores assaz pavorosos, contam com filmes que seguem essa mesmíssima fórmula em suas filmografias!
    “Avatar” tem um roteiro visivelmente falho, que salva-se pela direção de James Cameron.


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