Mostra Internacional de Cinema de SP – 01/11/2009
Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 07 de dezembro de 2009.
A Fita Branca (Das weisse Band – Eine deutsche Kingergeschichte, Alemanha, 2009). *****

Direção: Michael Haneke.
Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch, Rainer Bock, Susanne Lothar, Burghart Klaußner e Ulrich Tukur.
Crítica:
Para compor este “A Fita Branca”, o polêmico cineasta alemão Michael Haneke parece ter extraído vários aspectos das mais diversas obras cinematográficas já produzidas até então.
O burgo onde se passa a trama, por exemplo, confere a sensação de ter sido claramente inspirado no local em que se desenvolveu a estória do ótimo “Diário de um Pároco de Aldeia”, do genial cineasta Robert Bresson. No entanto, trata-se de um vilarejo aparentemente (e deem ênfase ao “aparentemente”, por favor) menos melancólico, embora visivelmente mais tártufo (no que diz respeito às suas relações sociais internas), do que o povoado retratado no filme francês.
Há também um quê de “Dogville”, no que diz respeito à hostilidade reprimida dos personagens que habitam a referida aldeia.
Todavia, nenhum outro filme nos vem tão claramente à memória quanto “Os Incompreendidos”, de François Truffaut. O choque entre duas gerações completamente distintas, embora separadas apenas por um curto período entre o nascimento de ambas, novamente nos é apresentado pela Sétima Arte, mas agora, com o toque do diretor de “Violência Gratuita”, irrefutavelmente um dos dez melhores em atividade (assim como Truffaut também o era em sua época).
Haneke prima por conseguir inserir sensibilidade a uma obra onde o que não falta é assaz brutalidade e, até mesmo, pitadas de sadismo e crueldade por parte de muitos (quase todos) de seus personagens. O cineasta natural de Munique mostra-se invejavelmente capaz de ministrar beleza a uma vila apática, devorada por uma visível heterogeneidade social e povoada por habitantes excessivamente manipulados e corroídos por rígidos dogmas sociais, morais e, mormente, cristãos.
E é neste cenário repressor, onde pais disciplinam os filhos empregando o uso da Doutrina do Medo e da Punição Divina, que presenciamos o desenvolvimento de um grupo de jovens marcados por uma geração subversiva, sádica e beócia, que se mostrava diretamente influenciada por uma estirpe anterior que consigo carregava a mossa de fortes doses de autoritarismo, paranóia e pseudo-moralismo (e vale dizer que o embate (ativo por parte do primeiro a ser citado e passivo por parte do segundo) entre o diretor da escola e Antoine Doinel vem claramente à tona durante este conflito de gerações que “A Fita Branca” magistralmente retrata).
Contando com uma direção de arte impecável, uma fotografia em preto-e-branco que confere beleza e, simultaneamente, angústia ao cenário onde se desenrola a trama, “A Fita Branca” ainda é complementado por uma direção convenientemente sensível por parte de Michael Haneke (conforme fora mencionado a pouco) e resquícios característicos de um filme clássico que, somado a um roteiro que explora com egrégio profissionalismo uma geração marcada pelos filhos ignóbeis de uma nação corrompida pela sede de poder (responsável pelo surgimento do Nazismo, diga-se), concluem-se em um aglomerado de auto-justificativas que tornam a Palma de Ouro de 2009 um prêmio mais do que digno da magnificência da obra.
Não só o melhor filme lançado mundialmente em 2009 (dentre os quais eu fui capaz de assistir, é claro), como também a obra cinematográfica que mais me agradou desde o lançamento de “Sangue Negro”.
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