33ª Mostra Internacional de Cinema de SP – Últimas Críticas
Cansado, esgotado e estressado. Não é pela falta de tempo, admito, mas sim graças aos três adjetivos a pouco mencionados, que não escreverei mais críticas durante este ano (que se encerra em instantes). É levando-se em conta que vou deixar de lado os textos convencionais e aderir à críticas (se é que as posso chamar de críticas) formadas por apenas um parágrafo longo, como fazia no início deste espaço virtual. Na verdade, tratam-se apenas de comentários que anotei em meu caderno de notas sobre três filmes que pude conferir na Mostra Internacional de Cinema de SP. Vamos às “críticas”?
Alga Doce – **** de *****
Sou fã incondicional de Andrzej Wajda (salvo quando arriscou, fora da Polônia, uma carreira pouco confiável). A forma como o diretor trata de certos sentimentos chega a me lembrar muito Ingmar Bergman (mas sem a mesma sensibilidade do cineasta sueco, é claro). Tomemos um filme recente do diretor, “Katyn”. À medida em que o filme de 2.007 vai se desenvolvendo, o espectador parece dividir a tela com a morte (dos soldados), o desespero (das famílias) e a melancolia (da nação inteira), todos aparentemente personificados. É neste “Alga Doce”, no entanto, que Wajda constrói um “personagem” ainda mais concreto calcando-se no primeiro sentimento mencionado. A trama principal é simples, diria que até mesmo trivial (do sentido de ser “comum”, sem jamais soar “banal”) e previsível em alguns instantes. A fonte de inspiração foi, assim como “Cinzas e Diamantes” (meu ‘Wajda’ predileto e que acaba sendo homenageado no momento em que a protagonista presenteia um rapaz com o livro em questão), um conto homônimo de Jerzy Andrzejewski. Tal trama, todavia, é sobreposta pela estória real envolvendo a atriz principal do longa, Krystyna Janda, que perdeu o marido Edward Klosinski, diretor de fotografia, pouco antes das filmagens começarem. Logo, vemos fantasia e realidade (no sentido mais literal o possível da palavra) se contrastando com um único propósito: o de unir a dor e a melancolia direta de Marta com a dor e a melancolia indireta da estrela Janda. Ficção e realidade acabam se misturando em um filme assaz introspectivo, reflexivo e experimental, revelando-se um genial trabalho de metalinguagem por parte do maior gênio da história do cinema polonês. Destaque para as locações que se passam em um vilarejo rodeado por um imenso rio, onde o balanço de suas águas representa com exímia sensibilidade a instabilidade de sua existência, que pode ficar inerte (representando a morte) a qualquer instante.
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A Mulher do Lado – **** de *****
É possível que “A Mulher do Lado” seja um drama romântico consideravelmente datado (o que não implicará, de forma alguma, uma crítica negativa de minha parte por este motivo, uma vez que entraria em contradição com os meus princípios mais básicos), levando-se em conta o quão readaptada a sinopse deste filme já foi. Inspirando-se ligeiramente em um filme hollywoodiano (assim como muitos dos outros filmes de François Truffaut e dos demais cineastas franceses que formaram a Nouvelle Vague o são), que no caso vem a ser “O Pecado Mora ao Lado”, a trama narra o tormento que duas pessoas passam a viver em função de acontecimentos passados. Sabe aquela estória em que uma família bem estruturada passa a ser assombrada por fantasmas do passado que, na maioria das vezes, são representados por uma pessoa que marcou a vida do “homem da casa” e, repentinamente, volta a fazer parte diretamente da vida deste? Pois é, essas estórias, em sua maioria, foram inspiradas neste “A Mulher do Lado”. Contando com uma eficiente direção por parte do sempre genial François Truffaut, o longa acerta muito em, logo no início da projeção, nos avisar que uma tragédia estar por vir. É esse o principal chamariz para fazer com que assistamos o romance extra-conjugal entre Mathilde e Bernard. Não que o risco quase sempre presente no envolvimento entre ambos não se mostre forte o bastante para nos segurar até o seu desfecho, mas o bem da verdade é que a tal futura tragédia que torna implacável a estória que, convenhamos, tem um início pouco interessante (principalmente pelo modo como os seus personagens não são tão bem explorados logo de início). Entretanto, a trama ganha um ritmo bem relevante durante o seu desenrolar e as atuações de Gérard Depardieu e Fanny Ardant (cá entre nós: quem resistiria a uma Ardant linda, deliciosa e sensual desse jeito?) elevam o longa a um patamar bem alto.
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Distante Nós Vamos – **** de *****
Quando Sam Mendes lançou “Beleza Americana” imaginei estar nascendo um novo gênio dos dramas existenciais produzidos na Terra do Tio Sam. O filme contava com uma trama bem atípica, personagens ainda mais bizarros (e sem soar artificiais, o que é mais importante) e, como ingrediente principal do pacote, realiza críticas ferrenhas à nugacidade presente no American Way-of-Life. Tentando repetir o feito nove anos mais tarde, e convocando a esposa Kate Winslet e o par romântico desta na maior bilheteria da história do Cinema, Leonardo DiCaprio, para compor a dupla de protagonistas, Mendes comandou “Foi Apenas um Sonho”, longa que visa tecer várias críticas à trivialidade existencial de uma típica família estadunidense, mas acaba se perdendo em meio aos seus reais intentos e jamais se encontra definitivamente. É de se estranhar, no entanto, que Mendes venha a concluir o seu objetivo com êxito em uma obra que conta com uma trama bem mais simples e que tenha algumas semelhanças com o longa de 2.008. Assim como naquele, “Distante Nós Vamos” trata de um casal insatisfeito com a vida bucólica que levam atualmente e planejam imigrar-se para outras regiões dos Estados Unidos. A diferença entre um filme e outro é que, neste em questão, tais planos se concretizam e o casal se muda não apenas para um determinado local, mas para vários outros também. Depois de idas e mais idas (mas nunca uma volta), os protagonistas contracenam com vários personagens secundários interessantes (típico do diretor) e, quanto mais os conhecem, mais chegam à conclusão de que não há o estereótipo da família perfeita, seja procurando-o em Montreal ou Miami. No fim, fica a mensagem de que, para mudar de vida, é imprescindível uma prévia mudança interna, sendo as mudanças externas meros resultados. Óbvio? Até demais, eu diria, mas que é bastante verdadeiro, isso não se pode negar. Destaque para o final feliz (algo atípico nos filmes do gênero), mas nada artificial.
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Bathory – *** de *****
Já comentei inúmeras vezes e repetirei aqui: amo, incondicionalmente, épicos cinematográficos que se propõem a retratar a vida de personagens históricos pouco comuns em adaptações cinematográficas. Quando tais adaptações cinematográficas se propõem então a traçar uma estória alternativa, mas plausível, sobre o objeto de estudo, a meta do autor se torna ainda mais interessante. Contudo, o roteirista que se propor a relatar um importante fato histórico a partir de sua ótica, deve tomar o devido cuidado para não tomar liberdades poéticas em excesso e que acabem prejudicando a obra sob vários aspectos, sobretudo sob o prisma da “cine-biografia”. Digo isto pois, apesar da obra ser irrepreensivelmente interessante, não apenas do ponto de vista dramático, mas também pela sua fidelidade histórica, a inserção de alguns personagens fictícios à trama é um tanto o quanto inconveniente, principalmente no que diz respeito ao pintor Merisi, que consome um longo e desnecessário (salvo para mostrar o quão vaidosa era a condessa que almejava muito ter um retrato que captura-se a sua beleza de modo com que a mesma ficasse registrada ao longo dos anos) tempo em cena. No mais, excluindo-se a narrativa episódica, o longa tem força graças às lendas que envolvem a sua protagonista e o modo como o roteiro vai-nos fazendo enxergar o quão injustiçada (a menos na visão de Juraj Jakubisko) fôra aquela nobre poderosa. Destaque para a fotografia que realça os tons claros dos cenários cobertos pela neve, para a direção de arte que recria com maestria e suntuosidade o período o qual se desenvolve a trama e para os figurinos, totalmente condizentes com os trajes típicos utilizados na República Eslovaca durante os Séculos XVI e XVII (período em que a pequena nação ainda pertencia ao Reino da Hungria).
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