Onde Vivem os Monstros
Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 16 de janeiro de 2010.
Avaliação:
(Bom Filme).

Ficha Técnica:
Título Original: Where The Wild Things Are.
Gênero: Fantasia, Drama.
Tempo de Duração: 101 minutos.
Ano de Lançamento: 2.009.
Países de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Spike Jonze.
Roteiro: Spike Jonze.
Elenco: Max Records (Max), James Gandolfini (Carol – voz), Catherine Keener (Connie), Alice Parkinson (KW), Lauren Ambrose (KW – voz), Nick Farnell (Judith), Catherine O’Hara (Judith – voz), John Leary (Douglas), Tom Noonan (Douglas – voz), Sam Longley (Ira), Forest Whitaker (Ira – voz), Paul Dano (Alexander – voz), Michael Berry Jr. (Daniel – voz), Robby D. Bruce (Bully) e Steve Mouzakis (Sr. Elliott).
Sinopse: Max (Max Records) é um garoto que está fantasiado de lobo, perseguindo o cachorro e também gritando com sua mãe (Catherine Keener). Como castigo, ele é mandado para o quarto sem janta. Lá sua imaginação cria uma misteriosa floresta selvagem, onde está a terra das Coisas Selvagens. As Coisas Selvagens são monstros amedrontadores, os quais Max consegue dominar se encará-los nos olhos sem piscar nenhuma vez (Adoro Cinema).
Where The Wild Things Are – Trailer:
Crítica:
A obra literária “Onde Vivem os Monstros”, escrita pelo estadunidense Maurice Sendak no ano de 1963, tinha como âmago uma estória que nos remetia a um mundo imaginário desenhado na mente de um criativo garoto que, traçando um egrégio paralelo com a realidade, mergulharia nesta existência alternativa a fim de enfrentar os seus demônios interiores e inferir que, o mundo adulto, do qual ele tanto tinha medo, não se alimenta apenas de crueldades e racionalidades, mas também de ternuras e esperanças.
Uma característica peculiar contida no livro de Maurice Sendak, no entanto, diz respeito ao fato do escritor conseguir realizar a façanha de “enxugar” o reflexivo debate supracitado em pouco mais (ou menos? Confesso que não me lembro) de uma dúzia de frases, o que fazia com que, pelo bem ou pelo mal, o protagonista Max deixa-se um pouco a desejar como personagem psicologicamente complexo.
Eis que Spike Jonze (reza a lenda que o próprio Sendak procurou o cineasta, pois imaginou que o mesmo fosse suficientemente capaz de engrandecer a sua obra literária), ousado como sempre, decide realizar a, aparentemente simples embora verdadeiramente hercúlea, missão de transformar um punhado de frases em uma obra cinematográfica de seus 101 minutos de projeção. O resultado final é positivo, sem dúvidas, mas deixa muito a desejar.
Max, magistralmente encarnado pelo talentoso ator mirim Max Records que parece se sentir muito bem a vontade com o seu papel, é um garoto assustadoramente perturbado e que sofre constantemente de transtorno bi-polar. Ora ele inicia uma brincadeira e se diverte à beça, ora ele chora com os resultados da mesma. Filho de pais separados e irmão de uma garota que, aos poucos, adentra a puberdade, ele sente-se confuso e perdido no mundo real, resolvendo então adotar uma postura voluntariamente altista onde cria um universo paralelo e o utiliza não necessariamente como escapismo, mas como uma forma de entender a si mesmo (e aos seus atos e atitudes também).
Mas, esperem! Transtorno bi-polar? Realidade alternativa criada com o propósito de entender a si mesmo? Pois é, complicado demais para as crianças, não? Sim, e além de excessivamente complexo para o público infantil, a trama ainda conta com um grau de violência considerável, onde podemos observar criaturas serem apedrejadas gratuitamente e braços serem separados dos corpos de seus respectivos donos após uma série de discussões mal concluídas.
Logo, se o filme não foi feito para as crianças (e era de se estranhar que Jonze, responsável por longas da espécie de “Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”, além de ter produzido a porcaria mor chamada “Jackass – O Filme” (lembrando também que ele é produtor executivo e criador da asquerosa série televisa que inspirou e recebe o mesmo título do filme, que de filme mesmo não tem é nada) e ter dirigido excelentes videoclipes de bandas alternativas exageradamente intelectuais, bem como: “100%” (tido por muitos como a maior representante do Rock Alternativo em todos os tempos), do Sonic Youth, “Buddy Holly”, do Weezer, “Feel the Pain”, do Dinosaur Jr., “It’s Oh So Quiet”, da Björk e “Y Control”, dos Yeah Yeah Yeahs – que fazem parte da cena Indie e Art Rock estadunidense – fizesse algo direcionado ao público infantil, não?), obviamente foi feito para adultos, não? Eis a questão: não se sabe.
Apesar de fazer com que confrontemos nossos “monstrinhos” internos, tais como: a melancolia (Judith), a necessidade da aventura (KW, que também representa um incômodo externo do garoto: a sua mãe), a esperança (Douglas), a criatividade (Ira) e o ódio reprimido (Carol, alter ego do jovem Max), por vezes ele soa muito bobo a nós, adultos. O quê de intelectualidade que tem a obra é constantemente atrapalhado pelos gritinhos e brincadeirinhas de Max, o que faz com que o longa sofra sérios problemas de identidade, já que mostra-se pouco satisfatório quando tenta agradar tanto a gregos, quanto a troianos (leia-se: “tanto a adultos, quanto a crianças”, e/ou vice-versa).
Já a direção de Jonze, ao contrário de seu roteiro, não conta nem um pouco com essa crise de identidade. Trata-se de um trabalho maduro, onde a handcam é devidamente empregada a fim de ilustrar, do modo mais notório o possível, os sentimentos de seus personagens, como na cena em que, ao fugir de casa, o cineasta acompanha Max com uma câmera excessivamente balançada, a fim de capturar, visualmente, a tensão do momento.
Em suma, é um filme com características underground, mas de grande orçamento, e que, da mesma forma que dificilmente agradará completamente (e deem ênfase ao “completamente”) ao povão, consumidor de cultura pop, e ao povinho, consumidor de cultura indie, dificilmente agradará completamente também às crianças, que buscam algo menos complexo, e aos adultos, que buscam algo mais sazonado. Em todo o caso, é um bom filme, e só.
Obs.: destaque para a ótima trilha-sonora composta por Karen O (outro indício da bizarrice do filme, já que Karen é líder da banda Yeah Yeah Yeahs, cujas letras contam com um sentido ambíguo voltado ao sexo. E por mais que os temas musicais do longa estejam longe de ter essa conotação sexual, seria o mesmo que convidarmos estrelas pornôs como Sasha Grey ou Silvia Saint para comporem o papel da Rainha de Copas (que, convenhamos, deixaria de ser uma megera louca e passaria a ser uma ninfa bastante gostosa e sexy), em uma nova versão (não-alternativa, é claro) de “Alice no País das Maravilhas”).
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Amigo querido, li sua crítica por curiosidade. Amo cinema, é minha grande paixão. Já a crítica de filmes me despertam menor afeto que palavras cruzadas! A figura do crítico está exemplificada no início do “História do Mundo Parte 1″ do Mel Brooks, quando um homem das cavernas pedante mija na pintura rupestre de seu contemporâneo! Críticas nunca me influenciaram no gostar ou não de filmes, exceto as da folha, que sempre que falam mal me impelem a ver o filme, e se falam bem, me deixam com uma pulga atrás da orelha! Sempre curti o Jonze, mas devo confessar que bloqueei no meu cérebro a informação que Jack Ass era dele!!
Devo ver esse dos monstros em breve!
Abraço!
Olá, anda sumido do Twitter, não (apesar que eu também me afastei muito)?
A função da crítica de cinema não é formar opiniões, muito menos dizer se o leitor deve, ou não, perder ou ganhar o seu tempo vendo determinado filme. A função da crítica de arte é, segundo Pablo Villaça (e adianto que concordo imensamente com ele): “…eternizar, de uma forma ou de outra, a própria mídia que analisa. Caso não existissem profissionais responsáveis pela análise das obras cinematográficas (literárias, musicais, e assim por diante), dificilmente a arte em si evoluiria, já que não haveria a elaboração de teorias e estudos sobre seus rumos – e não há dúvidas sobre a importância de ensaios como os elaborados por André Bazin, S.M. Eisenstein, Jean Epstein, Béla Balázs e Guy Gauthier, entre outros, para a evolução (e compreensão) da linguagem e da técnica cinematográficas… (eis o link para que se possa conferir este texto na íntegra)“.
Agora, nas minhas palavras: não fosse a crítica pegar no pé dos responsáveis pelas obras de arte, estas se resumiriam apenas a agradar o público, ou seja, não se importariam em agradar a crítica e a arte a fim de serem honrosamente rotuladas de “obras-de-arte” em um futuro muito distante.
Um forte abraço!
Ah, e simplesmente amei o índice de “confiança” seu perante a Folha de São Paulo hahahahahaha!
Outro forte abraço!