Um Olhar do Paraíso

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 24 de janeiro de 2010.
Avaliação: rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501 (Filme Razoável).

The-Lovely-Bones-001

Ficha Técnica:
Título Original: The Lovely Bones.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 135 minutos.
Ano de Lançamento: 2.009.
Países de Origem: Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos da América.
Direção: Peter Jackson.
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson, baseados em livro de Alice Sebold.
Elenco: Saoirse Ronan (Susie Salmon), Mark Wahlberg (Jack Salmon), Rachel Weisz (Abigail Salmon), Susan Sarandon (Vovó Lynn), Stanley Tucci (George Harvey), Michael Imperioli (Len Fenerman), Jake Abel (Brian Nelson), Amanda Michalka (Clarissa), Reece Ritchie (Ray Singh), Rose McIver (Lindsey Salmon), Andrew James Allen (Samuel Heckler), Nikki SooHoo (Holly), Anna George (Sra. Singh), Charlie Saxton (Ronald Drake), Carolyn Dando (Ruth), Stink Fisher (Sr. Connors), Christian Thomas Ashdale (Buckley Salmon), Stefania Owen (Flora Hernandez), Tina Graham (Sophie Cichetti) e Thomas McCarthy (Diretor Caden).

Sinopse: 6 de dezembro de 1973. Norristown, Pensilvania, subúrbio da Filadélfia. Susie Salmon (Saoirse Ronan) está voltando para casa quando é abordada por George Harvey (Stanley Tucci), um vizinho que mora sozinho. Ele a convence a entrar em um retiro, por ele construído. Lá dentro, George estupra Susie, a esfaqueia e posteriormente desmembra seu corpo. A única parte de seu corpo encontrada é o cotovelo, que George deixa cair de sua bolsa ao retornar para casa. Os pais de Susie, Jack (Mark Wahlberg) e Abigail (Rachel Weisz), inicialmente não aceitam a morte da filha, mas precisam aceitar a situação quando o pedaço do corpo dela é encontrado. Em meio às investigações, a polícia conversa com George mas não o coloca entre os suspeitos. Jack e Lindsey (Rose McIver), a irmã de Susie, desconfiam de George e passam a atormentar sua vida. Paralelamente, Jack é consumido pela culpa de não ter conseguido proteger a filha. Toda esta situação é observada por Susie, que agora está no paraíso. Lá ela precisa lidar com o sentimento de vingança que nutre em relação a George e a vontade de ajudar sua família a superar o trauma de sua morte (Adoro Cinema).

The Lovely Bones – Trailer:

Crítica:

Costumo dizer que, sempre que os envolvidos por trás de uma produção cinematográfica tentam inovar a Arte e fugir dos típicos chavões, devemos “tirar o chapéu” para os mesmos, por mais que o resultado final seja incrivelmente negativo. E talvez seja este o maior motivo que faz com que “Um Olhar do Paraíso” não possa ser considerado uma obra inteiramente ruim.

Orquestrada sob a batuta do extremamente competente (mas que falha surpreendentemente aqui) Peter Jackson, a produção estrelada por Saoirse Ronan opta por seguir um caminho original (ainda que tropece em um ou em outro personagem estereotipado, como a avó Lynn, apenas para citar um exemplo) e o resultado, apesar de ser uma trama que desafia a nossa imaginação a todo o instante, é inconveniente e extremamente bizarro e confuso.

Focando-se em uma garota que é estuprada e assassinada por um maníaco e passa a acompanhar o sofrimento da família através de um mundo paralelo ao que conhecemos, o filme não define exatamente o seu propósito e embarca em uma viagem muito mais complexa do que precisava ser para funcionar corretamente. Afinal, jamais conseguimos compreender inteiramente de que forma o “paraíso” em que a protagonista passa a viver após o seu assassinato influencia no que tomamos por “mundo real”.

Resta-nos então acompanhar tudo como se estivéssemos dentro de uma letárgica viagem onde o que não falta é criatividade e inovação. O paraíso aqui, para se ter uma idéia, trata-se de um vazio que vai sendo moldado de acordo com a imaginação da protagonista Susie Salmon, baseando-se em experiências as quais vivenciou, ou gostaria de ter vivenciado, durante a sua curta vida no planeta Terra.

A direção de Arte, a fotografia e os efeitos visuais, por sua vez, dão o tom necessário a este “plano superior” e criam um espetáculo visório esplendoroso, nos remetendo a um show de fantasia inimaginável, até mesmo quando este provém de um cineasta responsável por uma saga cinematográfica tão visualmente fecunda quanto “O Senhor dos Anéis”. Afinal de contas, por mais desnecessários que estes momentos que marcam a passagem de Susie pelo “paraíso” sejam, não há como negar que, testemunharmos estátuas gigantescas (e ponha “gigantescas” nisso) feitas de gelo ou de arbustos, navios grandiosos engarrafados e navegando normalmente pelo oceano e uma personagem pisando nas nuvens como se estivesse sobre o mais sólido espelho (vide a foto que selecionei e postei logo no início deste artigo), seja uma experiência um tanto o quanto fantástica do ponto de vista cinematográfico.

Porém, o filme pára nisso, no visual arrebatador, na tentativa de inovar o modo de se contar a trama (tentando (frustradamente, diga-se) estabelecer ligações entre o mundo material e o mundo espiritual) e mais em algumas poucas qualidades, como as satisfatórias atuações de Saoirse Ronan, Mark Wahlberg e, principalmente, Stanley Tucci na pele de um psicopata simpático e agradável, a direção de Peter Jackson (que apesar de conduzir a trama com uma incompetência que nem de longe lhe é característica, faz um satisfatório (e apenas satisfatório) jogo de movimentação de câmeras) e o início da projeção que, apesar de ter cara de um suspense à lá “Supercine” (no que se refere à atmosfera que cria um pouco antes do assassinato da garota, que é anunciado logo em seus momentos iniciais), trabalha bem ao desenvolver Susie como uma garota feliz, talentosa (já que fazia ótimas fotografias) e prestes a ter um dos momentos mais marcantes de sua existência, já que está para ter o primeiro encontro de sua vida com um rapaz pelo qual nutre certa paixão, pois dessa forma, o roteiro faz com que sintamos uma angústia ainda maior quando presenciamos a sua vida ser interrompida e ver-lhe escapar das mãos tudo aquilo que poderia ter tido de bom no decorrer de sua passagem por este plano.

No mais, o longa ganha um pouco de força ao investigar o modo como o desaparecimento de Susie cai penosamente sobre os demais membros de sua família, mas os tropeços que uma sub-trama dá sobre a outra (já que, desnecessariamente, a estória parece almejar se dividir em duas) acabam tornando a situação deveras insustentável, a ponto de sugerir que uma mãe, que já não suporta mais a paranóia que se apoderou do marido após a morte da filha, decida largar tudo, inclusive os próprios filhos, para ir colher orquídeas em uma fazenda em outro estado (hã?!).

E é quando tudo parece estar perdido em um infindável devaneio que mais aparenta ter sido extraído do livro “As Portas da Percepção” (com a diferença de que a letargia emanada pela obra literária de Leonard Aldous Huxley, que inclusive inspirou o título e a criação da mais famosa banda de Rock Psicodélico de todos os tempos: The Doors, tinha um propósito (coisa que “Um Olhar do Paraíso” não tem, a não ser criar um espetáculo visual, conforme já fora mencionado neste texto) com tal escapismo: estudar o modo como o nosso cérebro filtra a quantidade de informações que recebe), que o mais novo exemplar cinematográfico da carreira de Peter Jackson chega ao seu ponto mais baixo: o final estoicista e moralista que instiga o espectador a crer cegamente na máxima cristã (e que fique claro que nada tenho contra cristãos, judeus e afins) de que: se não podemos confiar na justiça humana, devemos ter a plena certeza de que a justiça divina (ou a “justiça da vida”, caso o leitor prefira) nunca falha.

Eis o preço da inovação: quando a mesma não é trabalhada da maneira conveniente, o resultado se revela um tanto o quanto frustrante. Que sirva de lição a Peter Jackson e à sua esposa e roteirista habitual: Fran Walsh.

3 Responses to “Um Olhar do Paraíso”

  • Alyson disse:

    Acho um filme triste. Triste pelo resultado e não pela história. Com tanta dificuldade de apresentar algo original, ou devidamente contado, Peter mesmo quando possui todas as premissas que pareciam serem boas faz com que estas sejam embutidas em excesso sobre uma parte da história, mas só mostra que diretor foi autorizado a transbordar de seus limites, resultados disso visto em conjuntos do caráter fantástico que ele sempre sonhou expor em uma confusão grande, extremamente exagerado. É preciso um diretor muito talentoso para fazer um filme sobre a vida após a morte. É muito fácil cair em espiritismo fácil e numa retórica banal, mas parou no interesse em coreografar as cenas do paraíso que aguarda o personagem principal.

    Abraços!

  • Rafa disse:

    “Um Olhar do Paraíso”,é um filme fantasioso e tem várias deficiências.A fantasia é ilustrar algo que a imaginação limitada não consegue projetar,outra prega o “meio termo” uma espécie de purgatório,onde a alma da pessoa fica pairando observando todos e influenciando as pessoas.Ficou num tom de misticismo,onde as pessoas mortas ainda tem influência nas pessoas vivas.
    Talvez ninguém já tenha experimentado esse tipo de experiência.

    Mas fica um versículo na Bíblia que diz assim

    “Ao homem é ordenado que viva uma VEZ,vindo depois disso
    o juízo”
    Hebreus 9:27b
    Ou seja o que foi bom do filme?efeitos ou a mensagem que quis passar?

  • “Ou seja o que foi bom do filme?efeitos ou a mensagem que quis passar?”

    Os efeitos.
    Levar mensagens bíblicas a sério é o mesmo que levar mitologia egípcia a sério. Ambas carecem de experiências científicas que comprovem, empiricamente, aquilo que acusam ser verdade.

Selecione um assunto
Arquivos
Siga-nos pelo Twitter