Invictus

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 31 de janeiro de 2010.

Avaliação: rolo-de-filme-150x1501 (Filme Ruim).

Invictus

Ficha Técnica:
Título Original: Invictus.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 134 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://wwws.pt.warnerbros.com/invictus/
Nacionalidade: Estados Unidos da América.
Direção: Clint Eastwood.
Roteiro: Anthony Peckham, baseado em livro de John Carlin.
Elenco: Morgan Freeman (Nelson Mandela), Matt Damon (Francois Pienaar), Tony Kgoroge (Jason Tshabalala), Patrick Mofokeng (Linda Moonsamy), Matt Stern (Hendrick Booyens), Julian Lewis Jones (Etienne Feyder), Adjoa Andoh (Brenda Mazibuko), Marguerite Wheatley (Nerine), Leleti Khumalo (Mary), Patrick Lyster (Sr. Pienaar), Penny Downie (Sra. Pienaar), Sibongile Nojila (Eunice), Bonnie Henna (Zindzi), Shakes Myeko (Ministro dos Esportes), Robin Smith (Johan De Villiers), Dan Robbertse (Boer), Zak Feaunati (Jonah Lomu), Langley Kirkwood (George) e Grant Roberts (Ruben Kruger).

Sinopse: Recentemente eleito presidente, Nelson Mandela (Morgan Freeman) tinha consciência que a África do Sul continuava sendo um país racista e economicamente dividido, em decorrência do apartheid. A proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi, pela primeira vez realizada no país, fez com que Mandela resolvesse usar o esporte para unir a população. Para tanto chama para uma reunião Francois Pienaar (Matt Damon), capitão da equipe sul-africano, e o incentiva para que a selação nacional seja campeã (Adoro Cinema).

Gran Torino – Trailer:

Crítica:

Nelson Rolihlahla Mandela, consagrado líder político sul-africano e maior ícone na luta contra o Apartheid, já teve a saga de sua vida adaptada às telonas algumas vezes, inclusive no recente “Mandela – Luta Pela Liberdade” (o qual não cheguei a assistir). Contudo, assim como acontece com muitas figuras icônicas como: Ernesto “Che” Guevara e Fidel Castro, a Arte sempre se propôs a relatar os feitos deste na pele de revolucionário, sendo que raramente (ou nunca) acabou se importando em estudar as contribuições que este proporcionou à humanidade (ou a um determinado grupo de pessoas, que seja) quando conquistou a chance de pôr em prática aquilo que tanto pregou outrora.

Clint Eastwood, junto ao roteirista Anthony Peckham, optou então por fazer o caminho inverso ao que era tido como padrão e tomou uma inovadora atitude: a de retratar a estória de Nelson Mandela a partir do momento em que este assumiu a presidência da África do Sul. Infelizmente, tal inovação pára por aí.

O que temos a seguir é uma obra cinematográfica cujo excesso de futilidade irrita imensamente o espectador. Ao invés de focar a trama nas decisões que o líder sul-africano adotou a fim de resolver os problemas que o país tinha com a economia e a desigualdade social (e principalmente étnica e racial, diga-se), “Invictus” (e a megalomania do filme encontra-se estampada no ridículo título em latim) se propõe a, acredite, direcionar-se às relações que Mandela teve com a seleção sul-africana de rugby, campeã da Copa do Mundo de Rugby em 1995 (e, atualmente, campeã do último torneio, realizado em 2007).

Acontece que tal relação não seria necessariamente um problema caso estivéssemos dispostos a abdicar de um roteiro mais politizado (ou seja, mais realista… apenas isso) e a química estabelecida entre o protagonista e o time de rugby, ou até mesmo entre ele e o atleta líder e capitão da equipe: François Pienaar, funciona-se de acordo, mas isso jamais se concretiza. A cena em que Pienaar toma um chá com o presidente, por exemplo, é recheada de diálogos pragmáticos sobre “fontes de inspiração” (ironicamente, o que mais falta às falas proferidas pelos seus personagens é justamente: “inspiração”), o que acaba conferindo um tom excessivamente artificial à mesma.

Artificial, aliás, é uma palavra que define bem “Invictus”, já que tudo aqui soa deveras forçado: desde a narrativa (a cena em que Pienaar adentra a cela a qual o presidente fora aprisionado a fim de sentir na própria pele o que o mesmo passou enquanto esteve encarcerado, estabelecendo assim um elo ainda maior com este, é o mais claro exemplo que me vem à mente) até a caracterização de um Mandela bondoso e humilde ao extremo (o que também soa irônico, já que em determinado momento do filme um personagem comenta com outro: “___Ele não é um santo. É um homem, com problemas de homem.”, e o que falta ao protagonista é justamente características que o torne mais humano, mais sujeito a falhas e menos “Deus”).

Os diálogos também são muito falhos em sua maioria, soando até mesmo infantis, piegas e óbvios em muitos momentos, como na ocasião em que Pienaar, ao ser questionado sobre o apoio que o time teve dos torcedores que compareceram ao estádio, afirma: “___ Não tivemos o apoio de 63 mil sul-africanos. Tivemos o apoio de 43 milhões de sul-africanos (referindo-se à nação inteira, e não apenas ao público pagante)”.

Muito provavelmente o filme só não pode ser avaliado como um péssimo exemplar da sétima Arte em face da direção de Clint Eastwood que, apesar de artificial em muitos momentos, tais como a longa tomada em slow motion utilizada para capturar os últimos instantes da partida final da Copa do Mundo de Rugby e tentar conferir um pouco de emoção à trama, algo que o incompetente roteiro de Peckham não faz, trata-se de um bom trabalho de um cineasta que já rendeu frutos muito mais maduros do que este que, de longe, revela-se o pior filme de sua carreira como cineasta.

Palmas também para o trabalho de Morgan Freeman que, em mais uma atuação contida de sua longa carreira, fez uso de seu costumeiro carisma com o intuito de transferir um pouco de calor humano a um personagem tão interessante, mas visivelmente destruído por um roteiro nada profissional. O restante do elenco, incluindo Matt Damon que vem injustamente sendo indicado a importante prêmios, está apenas correto e não merece grande destaque.

Lastimável vermos um talentoso cineasta como Clint Eastwood decair de forma tão exacerbada ao realizar porcarias como “Gran Torino” e “Invictus”. Mais lastimável ainda é um ícone da estirpe de Nelson Rolihlahla Mandela ter a sua gloriosa vida esmiuçada em 134 minutos de puro amadorismo cinematográfico.

E, sinceramente, se Eastwood utilizou-se de “Gran Torino” a fim de se despedir de sua carreira de ator, talvez este seja o melhor momento de se utilizar de “Invictus” para despedir-se de sua carreira de diretor.

6 Responses to “Invictus”

  • Alyson disse:

    Nossa! Até agora a critica menos favorável ao filme que leio. Em outros lugares deram até notas razoáveis, mas aqui pelo jeito não teve perdão..rs!

    Abraços!

  • Talvez eu seja exigente demais, :D

    Abraços Alyson!

  • Marcos Vinícios Jobim disse:

    Não vejo que o filme tenha se dedicado à futilidade. Está mais do que claro que a relação com o time de rugby tem a ver com a necessidade de uma identidade nacional acima da divisão racial naquela sociedade. Além disto, os exemplos de anti-revanchismo deixados por Mandela, no filme, são o norte que precisamos hoje, cujas visões turvas da realidade se dedicam a criar conflitos desnecessários, com revisionismo histórico, conflito de classes, diferenças raciais(inevitável lembrar que o conceito de raça inexiste para a genética), etc. A América do Sul está infestada de governos que veem no revanchismo a solução para os problemas vividos em nosso continente, por exemplo…

  • Identidade nacional? Saúde pública de primeira qualidade e distribuição de renda aceitável (Noruega), quem sabe? Ou talvez baixos índices de corrupção (Finlândia)?
    Enfim, entendi o seu ponto de vista (e o respeito veementemente, é claro), mas não creio que um jogo (ou um campeonato mundial) de rugby, ou qualquer outra disputa esportiva que seja, resolva questões raciais (para se ter uma idéia, houve uma época, aqui em minha cidade inclusive, que Pelé, no auge de sua carreira, foi barrado na entrada de um clube de campo por ser negro). Isso cabe à criação de leis propícias e que funcionem com a devida eficácia para tal.
    Sobre Mandela, ainda acredito que o filme tenha ficado bem aquém deste que foi um dos grandes líderes da história do continente africano.

    Abraços, muitíssimo obrigado pela visita e volte sempre (and in peace, for sure!)!

  • Marcos Vinícios Jobim disse:

    Bom, opinião é como o orifício anal: cada um com o seu. Mas, para mim, o rugby foi só pano de fundo. Eu vi um Mandela que demonstrou como é possível se fazer política visando à identidade nacional em um ambiente segregado. Atento aos mínimos detalhes. Um destes foi o rugby, que foi tratado especialmente no filme. Para mim, a questão toda está acima do rugby; trata-se de como um político tem de ser atencioso aos conflitos existentes, buscando um equilíbrio entre as partes, superando até mesmo as vontades revanchistas do seu eleitorado. A identidade nacional entra aí: um sentimento generalizado de determinada comunidade de que pertence a uma nação, independente de diferenças raciais. Esse é o mérito de Mandela que Clint foca. Não se trata de uma biografia do ex-presidente sul-africano, mas de um relato de uma época conturbada e um ensinamento a políticos atuais, vívidos por populismo e desconstruções históricas.

    Abraços e espero não te chatear com minhas intervenções.

  • Sim, de fato, opinião equipara-se ao orifício anal hehehe.

    Creio que o filme tome praticamente o filme todo, questões mais importantes ficam em segundo plano, mas tudo bem, não vamos discutir isso agora, pois é como disse, cada um tem a sua opinião e é praticamente impossível mudar a forma de pensar de outrém.

    E de forma alguma fiquei chateado, muito pelo contrário, adorei as suas “intervenções”, pois ambas foram feitas de forma civilizada, algo raro de se ver na internet dos dias de hoje.

    Muito obrigado pela visita, pelos comentários, e volte sempre!

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