Ilha do Medo

Redigido por Daniel Esteves de Barros aos 13 de março de 2010. Editado e publicado pelo mesmo aos 14 de março de 2010.

Avaliação: rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501 (Ótimo Filme).

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Ficha Técnica:
Título Original: Shutter Island.
Gênero: Suspense.
Tempo de Duração: 148 minutos.
Ano de Lançamento: 2010.
Site Oficial: http://www.shutterisland.com/
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Martin Scorsese.
Roteiro: Laeta Kalogridis, baseado em livro de Dennis Lehane.
Elenco: Leonardo DiCaprio (Teddy Daniels), Mark Ruffalo (Chuck Aule), Ben Kingsley (Dr. John Crawley), Emily Mortimer (Rachel Solando), Michelle Williams (Dolores Chanal), Max Von Sydow (Dr. Jeremiah Naehring), Jackie Earle Haley (George Noyce), Elias Koteas (Andrew Laeddis), Ted Levine (Warden), John Carroll Lynch (Deputado Warden McPherson), Christopher Denham (Peter Breene), Nellie Sciutto (Enfermeira Marino), Curtiss Cook (Trey Washington), Tom Kemp (Ward C. Guard), Drew Beasley (Henry), Joseph McKenna (Billings), Damian Zuk (Elijah Tookey) e Patricia Clarkson.

Sinopse: 1954. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) investiga o desaparecimento de um paciente no Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston. No local, ele descobre que os médicos realizam experiências radicais com os pacientes, envolvendo métodos ilegais e anti-éticos. Teddy tenta buscar mais informações, mas enfrenta a resistência dos médicos em lhe fornecer os arquivos que possam permitir que o caso seja aberto. Quando um furacão deixa a ilha sem comunicação, diversos prisioneiros conseguem escapar e tornam a situação ainda mais perigosa. (Adoro Cinema).

Shutter Island – Trailer:

Crítica:

(Antes de qualquer coisa, a leitura da crítica infra é recomendada somente àqueles que já tiveram a oportunidade de assistir a “Ilha do Medo”, do contrário, pontos cuja ocultação mostra-se importantíssima para a criação de um clímax durante a sessão serão revelados, tornando o ato de assistir ao referido filme uma experiência infinitamente menos surpreendente e interessante aos que optarem pela leitura deste texto previamente à conferência do longa).

Desde que Leonardo Di Caprio se uniu a Martin Scorsese, o galã (Di Caprio, não Scorsese) tem rendido um leque de personagens atípicos e incomuns. Se fizermos um balanço sobre a sua parceria com o velho Marty até então, concluiremos que o ator começou com um personagem um pouco mais simples (Amsterdam Vallon) e foi evoluindo (apesar que eu colocaria Howard Hughes em um patamar de complexidade um pouco superior ao de Billy Costigan) a ponto de chegar ao ápice com este Teddy Daniels (e mesmo reconhecendo que Di Caprio esteve ligeiramente melhor em “O Aviador” (atuação esta que julgo como sendo a melhor de sua carreira), o seu papel em “Ilha do Medo” é, de fato, notavelmente mais complexo do que o do filme de 2004), que já nos primeiros vinte minutos de projeção se mostra detentor de um incrível “mecanismo de defesa” (palavras proferidas pelo personagem de Max Von Sydor).

Martin Scorsese, por sua vez, vem se esforçando cada vez mais para “faturar” o “título” de maior lenda viva do Cinema estadunidense (já que Stanley Kubrick faleceu em 2004 e não pode mais entrar nesta “disputa”) e opta por abordar vários dos temas os quais já abordou em seus filmes mais clássicos, adotando, todavia, formatos diferentes para tal. Explico. A loucura causada pelo vazio existencial que nos devora cotidianamente já fora utilizada pelo cineasta a fim de ilustrar o excepcional “Taxi Driver” (meu ‘Scorsese’ favorito e um de meus dez filmes prediletos), entretanto, durante um período menos produtivo da carreira do genial diretor, o mesmo utilizou tal “loucura” para compor o ótimo, embora consideravelmente abaixo do esperado: “Vivendo no Limite”. Já em “Ilha do Medo” a “insanidade” (e desta vez, tal estado psíquico não estabelece uma ligação necessariamente direta com o vazio existencial a pouco citado) passa a nos exibir uma proporção visivelmente diferente à que fora exibida nos filmes anteriores e, como resultado, temos, é claro, um produto bastante distinto dos demais.

Utilizando o protagonista Teddy como cobaia da vez, o roteiro de Laeta Kalogridis estuda um personagem atormentado pelo fantasma do passado, mas não pelo cotidiano patético que leva em uma cidade dominada por uma sociedade decadente, assim como ocorria com Travis Brickle e/ou Frank Pierce. A loucura dele não é pressuposta, mas sim, aparentemente criada (e reparem que mencionei “aparentemente criada”) e desenvolvida ao longo da trama, onde presenciamos a construção de uma persona que, a cada instante da projeção, passa a lutar contra o meio que o cerca a fim de evitar fazer parte do mesmo.

E é justamente nessa luta contra o meio pelo o qual Daniels encontra-se cercado que o roteiro nos vai preparando para um final arrebatador, que pretende surpreender até mesmos àqueles que já se contorceram de espanto ao testemunhar qual era a real relação entre os personagens de Edward Norton e Brad Pitt no magistral “Clube da Luta”.

Esse final, aliás, é o ponto máximo de “Ilha do Medo” e, por mais “pistas” que o roteiro nos dê sobre a verdadeira (verdadeira?) situação a qual o personagem de Di Caprio se encontra (os inúmeros ratos que saem das tocas aparentemente sem motivo algum (coisa que não poderia ser construída em uma mente sã); o medo de realizar uma viagem em um navio cercado por água, já que, na ilha (lugar que tanto lhe causava desespero), ele convivia constantemente com situações parecidas; o “parceiro” inexperiente que é designado para acompanhar-lhe em uma missão de certo grau de periculosidade (algo pouco típico partindo da polícia federal estadunidense, uma vez que a mesma é organizada o bastante e, na pior das hipóteses, enviaria dois profissionais de habilidades pouco, ou quase nada, desproporcionais); o fraco empenho com o qual os médicos, psiquiatras e seguranças locais trabalhavam a fim de localizar Rachel Solando, que havia desaparecido e, a princípio, revelava-se a real causa da visita de Teddy à ilha; entre muitas (muitas mesmo) outras), ainda saímos da sala de projeção desconfiados e com inúmeros questionamentos que parecem nos atormentar cada vez mais.

Afinal, por mais que a versão de Dr. Crawley (Ben Kingsley, em ótima atuação, como já era de se esperar) seja suficientemente coerente, como podemos ter certeza absoluta de que tudo não passou de uma conspiração organizada para atormentar a mente do protagonista? Em qual estória deveríamos acreditar então? Na louca realidade de Daniels? Na realidade louca de Crawley? Quem estava certo? Quem estava errado? Alguém, de fato, estava certo? Alguém, de fato, estava errado? Quem é o mocinho? Quem é o bandido? Existe, realmente, um (ou mais) mocinho(s) e um (ou mais) bandido(s)? Teddy Daniels, enfim, viveu como um monstro, ou morreu como um homem bom (e por mais que a última cena do longa se dedique a focar o farol presente na ilha e acabe nos direcionando à segunda hipótese, não há como termos certeza absoluta de nada, já que não vimos exatamente o que aconteceu, de fato)?

Enfim, se Machado de Assis, na Literatura, imortalizou o seu Bentinho, em Dom Casmurro, com o eterno e infindável impasse sobre a possível traição de Capitu, seria exagero mencionarmos que Laeta Kalogridis e Martin Scorsese, no Cinema, contam com algumas chances de imortalizarem o seu Teddy Daniels com o eterno e infindável impasse sobre a sua possível loucura? Bem, isso só o tempo irá nos dizer (adoro utilizar esta frase clichê). Mas que “Ilha do Medo” merece esta “imortalidade”, ah isso merece!

O quê? Atribuí quatro rolos de filme (ou estrelas, caso prefiram) à obra cinematográfica e não justifiquei o porquê extraí um ponto da avaliação da produção? Pois então vamos lá. Quando nos dirigimos ao cinema para assistir a um filme scorsesiano, realmente nos dirigimos ao cinema para assistir a um filme scorsesiano, não? E “Ilha do Medo”, particularmente, de scorsesiano tem muito pouco, como a rápida movimentação de câmeras que o diretor adota a fim de apresentar os pavilhões A, B e C do hospital/prisão psiquiatra (que muito me fez lembrar da cena do magistral “Os Bons Companheiros” onde Henry Hill, durante um julgamento próximo ao final do filme, aponta para Jimmy Conway e Paul Cícero e a câmera, através de um eficiente traveling, percorre o cenário e foca os rostos dos personagens) e o suave traveling empregado durante o massacre de um grupo de soldados nazistas.

No mais, a sensação que fica é a de que, por trás da ação, temos um diretor menos ousado (no que se refere à movimentação de câmeras, e não à condução da trama, é claro) do que o usual. Um cineasta que, inutilmente, opta pela humildade de não conferir à obra a marca registrada de seu trabalho e prefere adotar aspectos da estética kubrickiana, fazendo com que “Ilha do Medo”, durante muitos de seus momentos (a tomada aérea que segue um carro adentrando os portões do hospital/prisão (idêntico à sequência em que Kubrick acompanha a família Torrance dirigindo o seu veículo, por entre as montanhas, com destino ao Hotel Overlook), o sangue do soldado nazista escorrendo escada abaixo (que lembra muito a cena do elevador), entre muitas outras) mostre uma clara relação com o excelente “O Iluminado”.

Em suma, um ótimo exemplar da Sétima Arte que conta com um roteiro bastante atípico para uma produção hollywoodiana e, ao mesmo tempo, uma direção bem atípica para um filme scorsesiano.

One Response to “Ilha do Medo”

  • Rogério Picerni disse:

    Realmente faltou uma direção mais autoral por parte de Marty.

    Ele que muitas vezes faz de um filme com roteiro mediocre uma grande produção através de sua excepcional direção (lembrei-me de A Cor Do Dinheiro agora) traçou um caminho bastante diferente aqui e fez de Ilha do Medo um filme com grande roteiro mas sem grandes destaques no que diz respeito à direção, que é muito boa, mas bastante aquém tratando-se de Martin Scorsese.

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