Alice no País das Maravilhas (2010)

Redigido por Daniel Esteves de Barros aos 23 e 24 de abril de 2010. Editado e publicado por este aos 24 de abril de 2010.

Avaliação: rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501 (Bom Filme).

alice540

Ficha Técnica:
Título Original: Alice in Wonderland.
Gênero: Aventura.
Tempo de Duração: 108 minutos.
Ano de Lançamento: 2010.
Site Oficial: http://disney.go.com/disneypictures/aliceinwonderland/
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Tim Burton.
Roteiro: Linda Woolverton, baseado em romance de Lewis Carroll.
Elenco: Mia Wasikowska (Alice Kingsley), Johnny Depp (Chapeleiro Maluco), Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha), Crispin Glover (Valete de Copas), Anne Hathaway (Rainha Branca),Christopher Lee (Jabberwock), Michael Sheen (Coelho Branco), Alan Rickman (Lagarta), Matt Lucas (Tweedledee / Tweedledum), Stephen Fry (Gato Risonho), Barbara Windsor (Rato), Marton Csokas (Charles Kingsley), Lindsay Duncan (Helen Kingsley), Eleanor Tomlinson (Fiona Chataway), Frances de la Tour (Tio Imogene), Tim Pigott-Smith (Lorde Ascot), John Hopkins (Lowell Manchester), Geraldine James (Lady Ascot), Amy Bailey (Hatteress), Jemma Powell (Margaret Manchester), Leo Bill (Hamish Ascot), Eleanor Gecks (Faith Chataway), Lucy Davenport (Lady Long Ears), Arick Salmea (Nobre da Rainha Vermelha) e Paul Whitehouse (Coelho March Hare).

Sinopse: Alice (Mia Wasikowska) é uma jovem de 17 anos que passa a seguir um coelho branco apressado, que sempre olha no relógio. Ela entra em um buraco que a leva ao País das Maravilhas, um local onde esteve há dez anos apesar de nada se lembrar dele. Lá ela é recepcionada pelo Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e passa a lidar com seres fantásticos e mágicos, além da ira da poderosa Rainha de Copas (Helena Bonham Carter) (Adoro Cinema).

Alice in Wonderland – Trailer:

Crítica:

Coincidência que, ao comentar no Twitter sobre o clássico de 1951, também realizado pelos estúdios Disney, eu tenha mencionado que a graça daquela estória estava justamente no fato de não ter propriamente uma grande trama por trás de si, o que permitiria com que o roteiro direciona-se o seu foco na elaboração dos personagens curiosamente excêntricos que residiam no mundo subterrâneo o qual a protagonista Alice havia entrado após cair na toca do Coelho Branco.

Indo na contramão da clássica obra produzida nos anos 1950, no entanto, essa nova investida da Disney, de Tim Burton e de Johnny Depp, opta por fazer uma abordagem mais circunspeta de suas figuras dramáticas, permitindo assim com que o seu roteiro trabalhe de maneira mais confortável na elaboração de uma trama. O resultado? Uma estória minimamente interessante, mas não suficientemente cativante a ponto de substituir o carisma que as suas personas tiveram em outras ocasiões, como na já citada animação de 1951, no tradicional filme de 1972, estrelado pelo sempre excelente Petter Sellers, e, é claro, no livro de Lewis Caroll.

Na versão de Tim Burton, temos a louvável intenção de não trazer ao público mais do mesmo (afinal, pra quê explorar, ainda mais, personagens que já haviam sido construídos de maneira bastante ampla em versões anteriores, incluindo-se aqui o simples, embora ótimo, curta-metragem de 1903?) e nos dirigimos a uma obra que pretende, ao menos, acrescentar algo de novo à mais do que batida trama da garotinha curiosa que entra na toca de um coelho e cai em um mundo paralelo incrivelmente fantástico. Infelizmente, acabamos parando na intenção.

Por mais notável que seja a tentativa de humanizar Alice, que nas outras versões acabava assumindo o papel de mera cobaia humana diante de personagens infinitamente mais chamativos, como o Dodô (para não citar outras figuras ainda mais marcantes), por exemplo, o roteiro falha incrivelmente ao frustrar o espectador logo em seu primeiro ato, quando nos submete a uma sequência irritantemente dispensável, envolvendo a protagonista em um noivado intensamente indesejável da parte desta.

Pior ainda é constatarmos que, mesmo após adentrar no mundo subterrâneo, a trama que passa a ser desenvolvida a partir de então é formulaica, seguindo de perto o estilo “Star Wars / Matrix”: um oráculo (ou uma profecia, caso prefiram), um mentor (a lagarta), um conselheiro (o Chapeleiro Louco), uma escolhida que trará o equilíbrio à força… digo… ao país das maravilhas, e eticetera.

Os personagens, em sua maioria, são pouco aprofundados (uns chegam a beirar o estereótipo, como o Valete que, após enganar um cão farejador com falsas promessas, anuncia a sua maldade soltando uma risada blasé ao extremo) e carismáticos, a estória é levemente preguiçosa e o desenvolvimento da trama não nos traz grandes surpresas, mas ainda assim deve-se elogiar o roteiro em alguns acertos, como, por exemplo, no convincente emprego do conceito de “pista” e “recompensa” (caracteristicas fundamentais para a construção de um roteiro bem elaborado), quando Alice utiliza o olho de uma criatura (pista) a fim de ganhar a simpatia (recompensa) desta que, até então, havia lhe colocado em situações de relevante periculosidade.

O grande destaque desta aventura, todavia, acaba mesmo é ficando por conta de uma peculiaridade que encontramos em boa parte das obras cinematográficas que compõem a filmografia de Tim Burton: a direção de arte.

Se em “Sweeney Todd”, assim como em boa parte dos filmes que compõem a carreira de Burton como cineasta, tínhamos como chamariz o estilo excessivamente gótico e dark, em Alice no País das Maravilhas o diretor continua investindo nos cenários sombrios realçados por uma fotografia igualmente sombria, mas se mostra capaz também de filmar, de maneira incrivelmente invejável, ambientes que enfatizam tons mais claros e limpos, como a própria floresta pela qual a protagonista retorna ao seu país encantado e revê a maior parte das criaturas as quais havia conhecido em visita anterior àquele mundo paralelo, como também o palacete inteiramente branco pertencente à Rainha Branca (a propósito, se na obra literária já tínhamos uma clara, embora sutil, metáfora à Guerra das Duas Rosas (a partir do momento que a Rainha de Copas alega odiar rosas brancas, mas adorar as rosas carmim), nesta releitura de Tim Burton tal alegoria torna-se convenientemente descarada ao sugerir uma espécie de guerra civil entre a casa vermelha (liderada pela Rainha de Copas, em uma clara metáfora aos Lencastres) e a casa branca (liderada pela Rainha Branca, em uma clara metáfora aos Iorques). Referência histórica esta que, é claro, confere um tom mais curioso à trama).

A maquiagem não fica atrás da direção de arte e não apenas destaca-se nos mínimos detalhes, como o pequeno coração pintado de batom vermelho nos lábios da Rainha Vermelha (e das demais habitantes da corte desta), mas também se mostra bastante competente ao fazer o que a equipe de “Edward Mãos de Tesouro” e “Piratas do Caribe” fizeram outrora: transformar Johnny Depp numa persona irreconhecível, sem ter de aderir a efeitos visuais para tal.

E falando nos efeitos visuais, não há como negarmos que estes são irrepreensíveis em seu propósito. Se a direção de arte é a “carta na manga” de “Alice no País das Maravilhas”, esta certamente não teria a mesma força caso os efeitos especiais não tivessem se encarregado de dar movimentos verossímeis às estranhas criaturas, dentre as quais destaco as cartas de baralho que compõem a guarda real da Rainha Vermelha. Personagem esta, cuja personificação é feita de maneira adequadamente bizarra (afinal, o filme todo é voluntariamente bizarro), usando para tal, corpos computadorizados unidos às cabeças de seus respectivos atores.

Atores estes que cumprem muito bem os seus papéis, salvo a própria Mia Wasikowska, que nos oferece uma Alice tão inexpressiva quanto uma Bella Swan da vida. E se a sua própria personagem nunca foi das protagonistas mais interessantes e dignas de um estudo mais aprofundado, as outras “Alices” sempre acabavam nos cativando graças às suas curiosidades irrefreáveis e os seus leves surtos de espanto, ocorridos sempre que as personagens se deparavam com algo incomum pela frente. Na adaptação de Tim Burton, Wasikowska nada mais faz do que manter uma postura indiferente diante de tudo o que acontece à sua volta, soltando apenas um gritinho aqui, outro acolá.

E se por um lado o roteiro não ajuda a Alice de Mia, por outro lado é sempre bom lembrar que cabe ao ator também adotar sempre uma postura mais ativa diante das limitações impostas pelos roteiros dos filmes os quais atuam. Vide Johnny Depp, em “Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra”, por exemplo, onde o ator discorda do flibusteiro insosso e convencional que lhe fora composto e opta por conferir a este tons afeminados inspirados em Keith Richards e Pepe, Le Gambá, originando assim o tão famoso ícone pop dos anos 2000, conhecido como Jack Sparrow.

É frustrante, no entanto, repararmos que o Johnny depp de 2002/2003, definitivamente, não é o mesmo Johnny depp de 2009/2010. Se em um passado muito próximo o ator tomou uma atitude honrada, transformando assim o seu protagonista em algo nunca (ou raramente) visto no Cinema até então, atualmente o astro hollywoodiano confiou demais em seu mentor, Tim Burton, e, mesmo realizando uma atuação bastante acima da média, aceitou com que o diretor conduzisse o seu personagem a ponto de transformá-lo em uma figura bizarra (mais uma para a carreira de Depp), como já era de se imaginar, mas não tão interessante o quanto supúnhamos, uma vez que diálogos como “___ Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha” estão longe de ilustrar a loucura desse tão famoso personagem literário e (por que não dizer?) cinematográfico.

Helena Bonhan Carter, por sua vez, não tem o mesmo azar que os seus colegas de elenco. Sua atuação é muito boa, mas mesmo se esforçando bem menos que Depp, consegue criar uma personagem infinitamente mais interessante. É fato que a sua Rainha mostra-se bem mais caricata que a das demais versões cinematográficas, mas ao mesmo passo, esta também se revela infinitamente mais complexa que as outras, já que toda a sua maldade pode ser resumida a um complexo de inferioridade que detém em virtude de sua estranha e desequilibrada aparência (corpo pequeno, cabeça enorme), o que certamente acabou lhe proporcionando uma rejeição por parte da sociedade, até mesmo tratando-se de uma terra povoada por indivíduos tão semelhantemente estranhos.

O quê? Tim Burton? Sim, realmente não se pode comentar sobre um filme de Tim Burton e deixar de falar sobre o trabalho do dito cujo. Afinal, trata-se de um ícone gótico, indie e cult. Burton arrasta consigo uma legião de fãs, principalmente por conseguir trabalhar sempre, com maestria e frieza emocional, em cima de personagens desajeitados e com sérios problemas em se encaixar nos padrões sociais, tornando-se um membro excluído da civilização a qual faz parte.

Alice, indubitavelmente, encaixa-se neste perfil burtoniano (se é que tal adjetivo existe), mas o diretor, desta vez, parece intimidado em comandar uma produção dos estúdios Disney e nos entrega um produto com poucas características de sua filmografia, nos oferecendo então um longa metragem ligeiramente bizarro e estranho, mas ao mesmo tempo, paradoxalmente comum e sem o toque especial que a assinatura do cineasta por trás de “Os Fantasmas Se Divertem” geralmente nos apresenta.

Em suma, “Alice no País das Maravilhas” conta com uma estória ligeiramente atraente (até certo ponto) e uma proposta interessante (também até certo ponto), mas cujo roteiro pouco audacioso de Linda Woolverton, “amparado” por um Tim Burton muito mais burocrático do que o normal, acaba boicotando uma produção que tinha tudo para ser uma obra-prima nas mãos de profissionais que sabem a receita certa para isso. Só não defrauda o espectador completamente no que se refere ao seu aspecto visual.

E se a qualidade da obra é satisfatória o bastante para não fazer com que os ossos de Lewis Caroll se revirem no túmulo onde se encontram enterrados neste exato momento, é muito provável também que o escritor e matemático, caso ainda estivesse vivo, jamais fosse capaz de nutrir qualquer interesse pela Alice incorporada por Mia Wasikowska. Sob esta perspectiva, uma inocente garotinha de dez anos de idade e de cabelos negros e alisados à lá Alex Turner (e até mesmo à lá Daniel Esteves de Barros) se mostra uma figura muito mais interessante do que a apresentada por Tim Burton.

Comments are closed.

Selecione um assunto
Arquivos
Siga-nos pelo Twitter