Fúria de Titãs (2010)
Redigido por Daniel Esteves de Barros aos 21 e 22 de maio de 2.010. Editado e publicado por este aos 22 de maio de 2.010.
Avaliação: ![]()
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(Bom Filme).

Ficha Técnica:
Título Original: Clash of the Titans.
Gênero: Épico / Aventura.
Tempo de Duração: 118 minutos.
Ano de Lançamento: 2010.
Site Oficial: http://www.furiadetitas.com.br
País de Origem: Estados Unidos da América e Reino Unido.
Direção: Louis Leterrier.
Roteiro: Travis Beacham, Phil Hay e Matt Manfredi, baseado em roteiro de Beverley Cross.
Elenco: Sam Worthington (Perseus), Gemma Arterton (Io), Mads Mikkelsen (Draco), Hans Matheson (Ixas), Ralph Fiennes (Hades), Liam Neeson (Zeus), Danny Huston (Poseidon), Izabella Miko (Athena), Alexa Davalos (Andromeda), Polly Walker (Cassiopéia), Jason Flemyng (Acrisius), Kaya Scodelario (Peshet), Nathalie Cox (Artemis), Tamer Hassan (Deus da Guerra), Vincent Regan (Kepheus), Luke Evans (Apollo), William Houston (Ammon), Ian Whyte (Xeique Sulieman), Luke Treadaway (Prokopion), Martin McCann (Pheadrus), Nina Young (Hera), Pete Postlethwaite , Liam Cunningham e Nicholas Hoult.
Sinopse: Perseus (Sam Worthington) descobre que é o filho mortal de Zeus (Liam Neeson), mas recusa-se a aceitar tal condição. Contudo, para salvar a cidade de Argos da fúria dos deuses do olimpo e da vingança de seu tio Hades (Ralph Fiennes), ele vai ter que enfrentar uma perigosa jornada contra terríveis criaturas como a Medusa para salvar os simples mortais e a bela Andrômeda (Alexa Davalos) do sacrifício para o monstro Kraken (Roberto Cunha, Adoro Cinema).
Clash of the Titans – Trailer:
Crítica:
Em determinado momento do clássico “Fúria de Titãs (1981)”, o diretor Desmond Davis emprega uma câmera subjetiva (assumindo assim os olhos do personagem Zeus) e, através de um travelling, conduz o espectador a uma estátua que, mediante o uso de um falso-raccord (o que não quer dizer que a figura de montagem seja necessariamente má utilizada nesta ocasião), transforma-se na imagem real de Dânea amamentando o seu filho Perseu. Já no remake “Fúria de Titãs (2010)”, Louis Leterrier, assumindo o comando do filme, “passeia” com a sua câmera pelo universo através de travellings e planos plongé (muito utilizados por vários cineastas (Kenneth Branagh, no ótimo “Frankstein de Mary Shelley”, por exemplo) com o intuito de retratar espíritos (no filme em questão: “Deuses”) imergindo em nosso plano) enquanto uma conveniente e breve narração explica sucintamente as disputas entre as três principais figuras da mitologia grega: Zeus, Poseidon e Hades (aqui, bem encarnado pelo quase sempre excelente Ralph Fiennes, assumindo um visual que mais lhe remete à lembrança de um vocalista de uma banda de True Norwegian Black Metal à lá Gorgoroth ou Throne of Katarsis).
E se estou iniciando o artigo em questão abordando os acertos de direção por parte de Davis e de Leterrier, é porque ambos os filmes: o original e a adaptação, contam com alguns pontos em comum, não apenas no que diz respeito aos detalhes que se encontram em campo, como também aos que se situam fora deste (sobretudo no que se refere ao satisfatório trabalho de seus cineastas que apresentam uma reconhecível noção em linguagem cinematográfica (e sim, gosto muito de Louis Leterrier, mesmo após os dois primeiros “Carga Explosiva”) a ponto de encobrir certos aspectos dos roteiros incompletos que os dois tem em mãos).
Em campo, temos personagens razoavelmente parecidos com os da versão dos anos 1980, porém, com várias alterações (interessante, aliás, a cena onde – através de uma homenagem/sátira, o protagonista segura a Coruja Bubo (que, com todo o respeito aos fãs do filme original, do qual eu gosto muito, estava mais para uma cópia do robozinho R2D2 da saga “Star Wars”) e, após ouvir um “___ Deixe isso para lá”, deposita a criatura de volta ao baú em que a encontrou – temos uma visível metáfora às intenções desta refilmagem (além das financeiras, é claro): deixar clara a inspiração no filme de 1981, embora fazendo um remake nos moldes do Cinema atual, que trata com certo desdém as criaturinhas engraçadinhas que exercem, mormente, a função de alívio cômico à obra), dentre as quais, as mais notáveis incidem sobre o protagonista Perseu.
Se na produção original o herói revelava-se insuportavelmente unidimensional (era o mocinho destemido, e só), aqui este se mostra ligeiramente mais interessante (apesar de seguir o incômodo estereótipo do guerreiro inexperiente que, repentinamente, sob a justificativa de possuir poderes divinos, aparenta dominar as mais milenares técnicas de artes marciais já existentes na história da humanidade). O semideus, com um passado até então misterioso, conta com uma carga dramática suavemente mais forte que o personagem de Harry Hamlin, tornando-o mais humano, como podemos constatar, por exemplo, na cena em que este chora a morte do pai adotivo (e palmas para Leterrier que utiliza aqui um contra-plongé a fim de ilustrar a alma do falecido emergindo do nosso plano e direcionando-se a um plano espiritual superior).
Outra característica fundamental na humanização do Perseu de Worthington (que aqui realiza uma atuação levemente mais satisfatória do que a que havia realizado em “Avatar” (que já não era lá grande coisa), empregando expressões raivosas a fim de ilustrar o caráter explosivo de sua figura dramática) reside nos conflitos existenciais oriundos do personagem que, a todo o instante, apresenta-se perturbado com o fato de ser filho de Zeus, uma vez que ele se mostra sempre distante dos deuses do Olimpo, chegando, inclusive, a culpá-los pela morte dos pais humanos.
Aliás, Perseu não é a única persona que encontramos em ambas as versões cinematográficas, mas que possui um determinado número de características que o diferencia do longa de 1981. Zeus (muito bem encarnado por Liam Neeson que, ao que tudo indica, deve ter recebido, após a conclusão deste filme, o certificado de pós-doutorado em interpretações desta natureza), por exemplo, entra em cena como uma deidade com sérios problemas de caráter (apetecer destruir a própria criação, por mera empáfia, é um destes problemas) em face de seu orgulho irrefreável. Andrômeda, por sua vez, tem uma participação bem mais reduzida aqui, mas sempre aparece em campo com uma imagem que a distingue claramente da beldade apaixonada de Judi Bowker, transformando-a em uma figura com mais personalidade (sempre rebelde e determinada, nos poucos minutos em que aparece em cena), embora bem menos participativa.
O ponto negativo no quesito “personagens” fica, no entanto, a cargo de Calibos. Na versão original nos víamos capazes de nos identificar com a criatura deformada por Zeus justamente quando passávamos a sentir pena deste que, apesar de ter recebido um merecido castigo, teve a vida arruinada ao ver-se distanciado, graças à vontade do Deus supremo, da mulher que tanto almejava. Nesta versão, todavia, Calibos revela-se infinitamente menos humano, sendo que os seus motivos de vingança são simplórios e infundados demais a ponto de não emplacar o público.
Infundados também são os propósitos que, no início da projeção, levam os soldados de Argos a declararem guerra contra os Deuses, resultando assim na fúria de Zeus, fato este que dá início à vingança divina que impulsiona a trama. Tais propósitos, aliás, são tão artificiais que o roteiro tenta complementá-los com uma “blasfêmia” por parte da rainha Cassiopeia, que compara a beleza da filha com a de Afrodite (no longa original, a Deusa escolhida era Tétis; na lenda, as escolhidas foram as Nereidas, filhas de Poseidon). E se esta analogia funcionava perfeitamente bem no filme comandado por Davis (até porque, na cena em que esta era utilizada, a rainha desejava argumentar os motivos pelos quais a filha era o prêmio mais belo que Perseu poderia receber), aqui, tudo funciona do modo mais artificial o possível, já que a comparação nem de longe se mostra conveniente diante da situação que mostra nobres humanos se reunindo no salão com o intento de insultar as divindades levianamente.
Falando em artificialidades, o que dizer então das criaturas Djins (esta que, por sinal, foi uma péssima idéia do roteiro. Afinal de contas, misturar mitologia grega com mitologia árabe pré-islâmica não é uma combinação das melhores)? Sem nem ao menos serem previamente anunciados, os espíritos, além de construídos pessimamente pelo mau emprego de CGI, surgem em meio ao nada apenas para salvarem os personagens que, naquele momento, encontravam-se em uma situação aparentemente insolúvel (e para quem sempre encontrou dificuldades em exemplificar o termo “Deus ex machina”, eis aqui uma excelente oportunidade para tal).
Quanto às demais criaturas, estas atrapalham ainda mais o filme, principalmente falando sob a perspectiva visual. O uso de tecnologia moderna faz com que os efeitos visuais consigam recriar as três Bruxas Tenebrosas de forma bastante ameaçadora, designando traços convenientemente tétricos a estas (tez escura e dentes pontiagudos, além de aspectos sonoros, como as vozes roucas e trêmulas), mas o mesmo não pode se dizer sobre Caronte, que desponta como um mero esqueleto nada original (ao contrário de sua fúnebre embarcação, que fora realmente bem desenhada) e, principalmente, da Medusa.
Esta criatura que, apesar de ter a sua origem convenientemente descrita por Io (que na mitologia tratava-se apenas de uma ninfa e estava a anos luz de ser uma guerreira, conforme sugere o longa), conta com uma aparência que pouco condiz com a historieta narrada pela personagem de Gemma Arterton que, em determinado momento, afirma o fato de a criatura já ter sido bela outrora. O problema, no entanto, ocorre quando constatamos que a Górgona, apesar dos cabelos e da cauda bizarra, não contém tantos defeitos visuais a ponto de tornar a declaração “já foi bela” (que, subjetivamente falando, corresponde a: “é horrorosa atualmente”) totalmente válida. Muito pelo contrário. Ao tentar apresentar uma Medusa com um quê de sensualidade (seios firmes cobertos por um sutiã de couro preto e pouco discreto), o pessoal encarregado pelos efeitos visuais acaba sabotando o próprio roteiro que, equivocadamente, nos prepara para uma criatura com um grau de beleza igual, ou até mesmo inferior, ao de uma Dercy Gonçalves, sendo que o resultado acaba não sendo bem esse.
O quê? As cenas de ação? Ah sim, a maior parte do público que vai aos cinemas conferir “Fúria de Titãs” não está necessariamente interessada em testemunhar travellings, planos plongé e personagens interessantes, ou não. Os que desejam assistir a este remake certamente esperam entrar em uma sala de projeção e ver o “quebra-pau” que esta adaptação vem prometendo nos trailers. Pois se a sua expectativa for essa, o filme não irá decepcioná-lo. Além de contar com uma curta duração a seu favor, o que impede com que a produção se torne enfadonha, o roteiro distribui bem as cenas de ação, acompanhadas de modo competente por Leterrier que, na medida do possível, emprega uma suave handycam e planos fechados a fim de aproximar o público cada vez mais do perigo eminente. A trilha-sonora utilizada, apesar de conter muitos acordes repetitivos, confere ritmo às lutas, que são bem coreografadas e ganham uma agilidade relevante em face da montagem que utiliza cortes rápidos, mas não necessariamente confusos, ao contrário do que um diretor do quilate de Michael Bay costuma fazer.
Quanto à cena mais esperada do filme (o confronto com o Kraken), deve-se mencionar que, apesar de mais espetaculosa do que a da produção comandada por Desmond Davis, esta conta com uma carga épica bem menor, já que o contato do protagonista com a criatura (que é concebida de forma gigantesca e realista, embora bem menos original do que se esperava, afinal, trata-se apenas de um monstro enorme com uma fisionomia que lembra às criaturas do ótimo trash “O Ataque dos Vermes Malditos” somado a tentáculos igualmente desmesurados) é relativamente pequeno e a carga emocional da sequência acaba mesmo ficando por conta do caminho que Perseu percorre a cavalo, em slow motion, até chegar à criatura.
Concluindo esta análise da maneira a qual escolhi para iniciá-la, ou seja, elogiando os diretores, “Fúria de Titãs” (e o que mencionarei a partir de agora, até o próximo “ponto final”, vale para ambas as versões cinematográficas) conta com sérios problemas em seu roteiro, mas que acabam sendo parcialmente maquiados por um eficaz trabalho realizado pelo cineasta responsável que, caso opta-se por adotar uma direção menos atuante, acabaria criando um grande desastre cinematográfico que, com o prévio perdão pelo péssimo trocadilho (péssimo mesmo), resultaria em uma possível fúria de espectadores.
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