Robin Hood
Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 29 de maio de 2010.
Avaliação: ![]()
(Filme Razoável).

Ficha Técnica:
Título Original: Robin Hood.
Gênero: Épico / Aventura.
Tempo de Duração: 148 minutos.
Ano de Lnçamento: 2010.
Site Oficial: http://www.robinhoodthemovie.com/
País de Origem: Reino Unido e Estados Unidos da América.
Direção: Ridley Scott.
Roteiro: Brian Helgeland, baseado em história de Brian Helgeland, Ethan Reiff e Cyrus Voris.
Elenco: Russell Crowe (Robin Hood), Cate Blanchett (Marion Loxley), Max Von Sydow (Sir Walter Loxley), Mark Strong (Godfrey), William Hurt (William Marshall), Mark Addy (Frei Tuck), Danny Huston (Rei Ricardo Coração de Leão), Oscar Isaac (Príncipe João), Kevin Durand (João Pequeno), Matthew Macfadyen (Xerife de Nottingham), Alan Doyle (Alan A’Daley), Scott Grimes (Will Scarlet), Robert Pugh (Barão Baldwin), Douglas Hodge (Sir Robert Loxley), Léa Seydoux (Princesa Isabella), Eileen Atkins (Eleanor de Aquitaine) e Simon McBurney (Padre Tancredo).
Sinopse: Robin Longstride (Russell Crowe) integra o exército do rei Ricardo Coração de Leão (Danny Huston), que está em plenas cruzadas. Após a morte do rei, ele consegue escapar juntamente com alguns companheiros. Em sua tentativa de fuga eles encontram Sir Robert Loxley (Douglas Hodge), que tinha por missão levar a coroa do rei a Londres. Loxley foi atacado por Godfrey (Mark Strong), um inglês que serve secretamente aos interesses do rei Filipe, da França. À beira da morte, Loxley pede a Robin que entregue a seu pai uma espada tradicional da família. Ele aceita a missão e, vestido como se fosse um cavaleiro real, parte para Londres. Após entregar a coroa ao príncipe João (Oscar Isaac), que é nomeado rei, Robin parte para Nottingham. Lá conhece Sir Walter (Max von Sydow) e Marion (Cate Blanchett), respectivamente pai e esposa de Loxley. (Adoro Cinema).
Robin Hood – Trailer:
Crítica:
Vez ou outra Hollywood seleciona um mito europeu e reformula completamente a história que tornou célebre a figura escolhida. Isso ocorreu em “Rei Arthur” (épico que todos odeiam, mas eu adoro, apesar de reconhecer as diversas falhas), em 2.004, onde a lenda dava lugar ao homem, ou melhor, a um dos homens que a inspirou. E por mais que a produção de Jerry Bruckheimer cometa erros crassos atropelando períodos históricos (Lucius Artorius Castus, general romano que originou o protagonista da obra em questão, liderou os cavaleiros sarmatianos entre os séculos II e III (não se sabe a data ao certo), ou seja, jamais chegou a confrontar os saxões, que pisaram na Grã-Bretanha pela primeira vez somente no século V), ela ao menos traz sangue novo a um personagem que já fora infinitamente explorado pela sétima arte.
A proposta de Ridley Scott com o seu mais novo épico: “Robin Hood”, por sua vez, é bastante parecida com a do filme dirigido por Fuqua, mas infinitamente menos bem sucedida do que aquela. Por quê? Simples, se em “Rei Arthur” o roteiro adotava medidas que alteravam a coerência com os fatos históricos que o inspiraram, com o propósito de conferir uma carga dramática maior ao filme (e se isso funcionava corretamente, ou não, é algo a ser debatido em uma outra ocasião), na mais nova produção protagonizada por Russel Crowe a trama parece fazer questão de alterar acontecimentos históricos com o propósito de afundar a obra em regras do cinema comercial hollywoodiano.
Exageradamente formulaico, o longa já submete o espectador ao típico letreiro preguiçoso adotado por muitas das produções do gênero, explicando as ocorrências antes que a primeira imagem, com as figuras dramáticas as quais iremos acompanhar a partir daquele momento, entre em cena. O problema é que, além de mândria, a legenda passa a ser desnecessária, uma vez que a função desta era informar algo que, logo nos primeiros segundos de projeção, deixa o espectador a par de tudo o que está acontecendo.
O que vem a partir daí, no entanto, não deixa de ser interessante, até certo ponto. Que o Rei Richard I (também tido como Richard “Lionheart”) tenha morrido em uma batalha na França antes mesmo de retornar a Inglaterra e derrubar o seu irmão John, que vinha assumindo o trono com extremo abuso de poder, tem-se lá as suas dúvidas, e isso será comentado com maior enfoque no parágrafo abaixo. É notável, no entanto, constatarmos que o roteiro se preocupa em desmistificar a figura do rei que, em versões anteriores, era-nos apresentado como um monarca bondoso e de caráter ilibado, mas que aqui assume um aspecto infinitamente mais bárbaro, surgindo como uma figura cruel, ambiciosa e desumana, algo que o aproxima muito mais da realidade.
Por outro lado, não é nada fácil o esforço que temos que fazer para tolerarmos a hipótese de o nobre ter morrido em uma batalha na França, atingido por uma flecha no pescoço (sendo que a flecha que o matou havia sido disparada contra o seu coração), sem nem ao menos ter regressado a Inglaterra e destronado o seu irmão, o Rei John, o que nos leva a crer que esta atitude do roteiro só vem mesmo a ser empregada a fim de poder conferir ao protagonista uma oportunidade extremamente artificial de se passar por impostor e assumir a identidade de Sir Robert Loxley (essa que, por sinal, é a identidade do Robin Hood da lenda, exceto pelo fato de seu sobrenome se escrever ‘Locksley’, e não ‘Loxley’).
Aliás, toda a cena que “prepara” o protagonista para tal usurpação é assaz artificial, a começar pelo fato de ele, após ter conseguido se esquivar da morte em um campo de batalha, traçar o exato caminho do cavalo que carregava consigo a coroa do rei e, não obstante, parar exatamente ao pé do moribundo Sir Robert Loxley, que, em seus últimos segundos de vida (um clichê exagerado do gênero, onde uma pessoa, por mais próxima da morte que esteja, sempre “ganha” um tempo de vida extra para conseguir confidenciar uma importante revelação), pede para que ele devolva a espada que havia furtado do pai.
Falando na espada, a propósito, é curioso notarmos o quão Ridley Scott está ciente de que o roteiro que está comandando é falho e, por isso, vê-se na necessidade de, sempre que possível (e até mesmo quando não é possível), mostrar o seu conhecimento em linguagem cinematográfica. Logo após cair, atingido por uma flecha, o verdadeiro Sir Robert Loxley crava a sua arma no chão e o diretor, com o intento de mostrar o quão importante a arma será a partir de então, faz questão de colocá-la em primeiro plano e no canto direito da tela (onde, conforme já fora empiricamente comprovado por Tim J. Smith, é o lado o qual a maior parte dos espectadores direciona o seu olhar). Até então, pode-se dizer que Scott agiu perfeitamente bem, não fosse o fato de o diretor, desnecessariamente, adotar uma profundidade de campo pequena a fim de empanar a imagem de um cavalo que, por sinal, já estava devidamente ocultado no ponto de fuga (canto esquerdo) do quadro.
E o exibicionismo do irregular cineasta responsável pelo excelente “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, mas que também já dirigiu filmes medianos superestimados do naipe de “Gladiador”, não pára por aí. Tentando provar para o público que sabe como manejar uma câmera de forma correta, Scott faz questão de, quase sempre que um personagem se locomove, acompanhá-lo através do uso de travellings horizontais. O problema é que tais movimentos, além de realizados incorretamente (já que, sempre que adota a técnica, a câmera treme de forma inconveniente), são empregados sem propósito algum, principalmente se levarmos em conta que, durante o trajeto, não há nada a ser revelado ao espectador que necessite a utilização de tal movimento.
As panorâmicas empregadas pelo cineasta também são utilizadas sem propósito algum, já que, sempre que um personagem se agacha para pegar um objeto que se encontra no chão, a lente da câmera se move para acompanhá-lo, algo que Scott poderia ter feito muito bem, e de maneira simples, adotando um plano mais aberto (uma vez que, o fato de ele não explorar os seus personagens nestas cenas, mas sim as ações destes, os close up, os primeiros planos e os planos aproximados tornam-se, não apenas despropositais, como também inconvenientes e incômodos, já que os movimentos que a lente da câmera necessitam fazer acabam confundindo à visão do espectador, que é obrigada a direcionar-se, de forma inoportuna, a outro ponto da tela) e que fosse capaz de enquadrar o corpo inteiro de seus atores.
Todavia, nem tudo o que Scott faz aqui se resume a erros. A steady cam, adotada durante alguns momentos de batalha, torna a ação do filme mais frenética e realista do que ela seria caso fosse filmada de modo convencional. Há também uma conveniente tentativa (pára na tentativa, mas nesse caso, a intenção já diz muito) de se empregar um competente plano contra-plongé após a morte de um personagem secundário encarnado por um ator veterano (e é claro que não revelarei aqui o nome do personagem, nem o do ator) e um travelling que o diretor faz direcionado ao rosto de Lady Marion, após esta receber a notícia da morte de Sir Robert Loxley. Por outro lado, se a técnica do diretor mostra-se interessante neste último caso, o pouco esforço expressivo de Cate Blanchett, que mal movimenta os lábios, frustra a finalidade que Scott pretendia alcançar com o movimento de câmera adotado para tal.
É lamentável, no entanto, constatarmos que Blanchett não é a única atriz pouco inspirada entre o elenco todo. Se a intérprete de Marion Loxley consegue ao menos alterar o tom de voz vez ou outra, Russel Crowe, na pele do protagonista, só o faz quando decide discursar, mas sejamos francos, aumentar o volume da voz quando o seu personagem deseja falar em público não é algo que exige lá muito esforço por parte do ator, é? No mais, temos um intérprete contido demais para compor um personagem malandro e metido a esperto que, apesar de ser apresentado aqui com uma energia vital bem inferior à do protagonista de Errol Flynn, no ótimo “As Aventuras de Robin Hood”, está longe de contar com uma carga dramática tão grande quanto a de seu Maximus (a propósito, é impressionante como, em “Robin Hood”, Russel Crowe jamais consegue desvencilhar a sua atuação da que realizou em “Gladiador”), a ponto de aparecer em cena de forma tão apática.
O restante do elenco também está muito mal (salvo Max Von Sydow, em um papel sutil, e William Hurt, conferindo vigor à trama). Oscar Isaac como o Rei John nada faz além de gritar histericamente para os quatro cantos e, quando o roteiro parecia interessado em explorar o lado inseguro do personagem, logo muda de idéia e decide transformá-lo em uma mera caricatura, amplamente amparado por Isaac, que emprega os mesmos sorrisinhos clichês de canto de boca de Marton Csokas, como Guy de Lusignan, em “Cruzada”. Mas o pior fica para o final: Mark Strong. Sempre com uma forçosa expressão bad ass (e, durante a projeção inteira, o semblante de Strong jamais se altera) e utilizando um tom de voz risível para empregar diálogos ainda mais risíveis da estirpe de: “___ Sou aquele que o matou”, o ator realiza um trabalho (trabalho?) que irrita a inteligência do espectador, já que, para anunciar a sua maldade, só faltou o profissional (profissional?) comer criancinhas vivas e rosnar enquanto o fizesse. Não basta-se isso, o roteiro ainda dá mais corda para que Strong se enforque e coloca o personagem em situações de exagerada (e artificial, diga-se) crueldade, como no momento em que este corta as amarras de um pesadíssimo lustre que cai sobre um padre indefeso e agonizante.
Entretanto, é mister deixar claro que boa parte dos apontamentos que defendi nesta crítica poderia ser perdoada. Poderíamos ignorar também os furos de roteiro, as bizarrices históricas propostas pelo filme (franceses invadindo a Inglaterra durante o reinado de John? Não foram os normandos que fizeram isso e… enfim… melhor deixar para lá…), a direção insegura à lá “mamãe sou diretor de cinema” de Ridley Scott, os personagens caricatos e pessimamente explorados, as atuações pavorosas, e até mesmo o fato de o roteiro duvidar da inteligência do espectador ao supor que Robin Longstride poderia se passar por Robert Loxley sem que o povo de Nottingham, que já conhecia o nobre muito bem, desconfia-se das diferenças físicas exageradas entre um sujeito e o outro. Boa parte disso tudo poderia ser perdoado, caso “Robin Hood” cumpri-se aquilo que se compromete: acrescentar algo de novo a uma história velha. O problema, porém, é que isso não acontece.
Como podemos acrescentar algo de novo, se a maioria dos incidentes levantados pelo roteiro jamais foram, sequer, abordados por qualquer historiador que seja (ao contrário de “Rei Arthur”, onde vários historiadores concordam que Lucius Artorius Castus foi, realmente, um dos heróis mais influentes para a criação da lenda)? Como podemos acrescentar algo de novo se o protagonista da trama, a priori, revela-se um calhorda oportunista que, para ajustar-se aos moldes da lenda, conta com uma mudança de caráter completamente mal explorada pelo roteiro (ora ele se vê tentado em furtar tesouros de homens mortos, ora, sem mais nem menos, ele saqueia sementes dos ricos para semear o campo dos pobres)? Pior ainda: como podemos querer acrescentar algo de novo, se para tal, fazemo-nos valer do uso de uma enxurrada de clichês e situações forçadas, como é o caso do romance entre Robin e Marion, que aqui soa tão forçado e sem química quanto um relacionamento inserido em uma novela das oito (que agora começa às nove horas)?
Salvando-se do fracasso absoluto graças a uma ou outra cena de batalha, à interessante caracterização do Rei Richard “Lionheart” e a uma fotografia cinzenta que, bem como os figurinos sujos e nada enobrecidos da maioria de seus personagens e a direção de arte que constrói cenários envelhecidos e pouco requintados, dá um tom tétrico a um período onde o povo inglês carecia de todo o tipo de esperança imaginável, “Robin Hood” nada mais é do que um trabalho irregular comandado por um diretor igualmente irregular.
E, da próxima vez que Hollywood se comprometer a reformular a história de um mito, que o faça de modo com que as coisas fluam naturalmente, sem almejar se adequar a padrões comerciais da indústria cinematográfica, soando altamente artificial para o seu propósito fundamental: o de acrescentar aspectos que enriqueçam a figura histórica homenageada, ao invés de modificá-la completamente, conforme ocorre aqui.
Obs.: Havia cometido um equívoco quanto à utilização de uma técnica de linguagem cinematográfica na seguinte afirmação: “…Até então, pode-se dizer que Scott agiu perfeitamente bem, não fosse o fato de o diretor, desnecessariamente, adotar a técnica do soft focus a fim de empanar a imagem de um cavalo que…”. Na realidade, a técnica do soft focus não é adotada nesta cena, aliás, ela nem sequer é utilizada no filme. O correto seria eu ter mencionado que, a fim de tornar a imagem do cavalo embaçada, o diretor fez o uso de uma profundidade de campo pequena, conforme retifiquei agora.
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