Kick Ass – Quebrando Tudo
Redigido por Daniel Esteves de Barros aos 13 de junho de 2010. Editado por este aos 14 de junho de 2010 e publicado aos 15 de junho de 2010.
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(Ótimo Filme).

Ficha Técnica:
Título Original: Kick Ass.
Gênero: Comédia.
Tempo de Duração: 117 minutos.
Ano de Lançamento: 2.010.
Site Oficial: http://www.kickass-themovie.com
Países de Origem: Reino Unido / Estados Unidos da América.
Direção: Matthew Vaughn.
Roteiro: Jane Goldman e Matthew Vaughn, baseados nos quadrinhos de Mark Millar & John Romita Jr.
Elenco: Aaron Johnson (Dave Lizewski / Kick-Ass), Chloe Moretz (Mindy Macready / Hit-Girl), Mark Strong (Frank D’Amico), Nicolas Cage (Damon Macready / Big Daddy), Christopher Mintz-Plasse (Chris D’Amico / Red Mist), Lyndsy Fonseca (Katie Deauxma), Garrett M. Brown (Sr. Lizewski), Elizabeth McGovern (Sra. Lizewski), Clark Duke (Marty), Evan Peters (Todd), Deborah Twiss (Sra. Zane), Sophie Wu (Erika Cho), Stu Riley (Huge Goon), Michael Rispoli (Big Joe), Randall Batinkoff (Tre Fernandez), Dexter Fletcher (Cody), Yancy Butler (Angie D’Amico), Omari Hardwick (Sargento Marcus Williams) e Xander Berkeley (Detetive Gigante).
Sinopse: Dave (Aaron Johnson) é viciado em quadrinhos e está cansado de ser roubado. Um belo dia, ele resolve criar sua própria roupa de super herói e vai combater o crime como Kick Ass, seu alter ego, nas ruas da cidade. Quando uma imagem sua, defendendo alguém contra bandidos, chega na internet, logo vem a fama e novos personagens se juntam a ele nesta verdadeira aventura violenta e de vinganças pessoais (Adoro Cinema).
Kick Ass – Trailer (apenas para maiores de 18 (dezoito) anos):
Crítica:
Uma coisa é certa, não há gênero fílmico mais batido do que a comédia. De tal forma, não há gênero fílmico que exija maior esforço por parte dos envolvidos com um determinado projeto do que a comédia, em especial no que tange o quesito originalidade. Originalidade esta que, geralmente, nos oferece produtos muito bem realizados, como é o caso dos ótimos “Superbad – É Hoje!” e “Se Beber, Não Case” que, embora contem com uma dose excessiva de situações absurdas, conseguem arrancar boas gargalhadas de seu público alvo.
Seguindo a linha destas comédias originais (embora absurdas) vem “Kick Ass – Quebrando Tudo” que, por mais que fique um pouco (bem pouco) aquém das demais obras mencionadas, conta com muitíssimas qualidades a seu favor.
Trazendo-nos uma trama que, em muitos casos, faz-nos lembrar dos protagonistas de “Superbad – É Hoje!” (afinal, tratam-se de jovens frustrados, complexados e inseguros, principalmente quando o assunto em pauta é o sexo), o longa nos apresenta ao personagem principal, Dave Lizewski, de maneira convenientemente não convencional. Aliás, desde os primeiros segundos de projeção o roteiro já nos prepara para algo diferente, quando Dave, assim como a maioria das pessoas frustradas (incluam aqui este que vos escreve), entra em cena traçando questionamentos existenciais sobre a mesmice dos cotidianos das pessoas comuns. Ele decide então tornar-se um super-herói, a fim de dar um up em sua vida.
O que vemos a partir de então é um jovem nerd e as suas frustradamente hilárias tentativas de transformar-se em uma pessoa notável para a sociedade. E se isso não é o suficiente para comprovar os elogios que fiz ao filme, no início deste texto, no que se refere à sua originalidade, é importante mencionarmos que o roteiro parece ter plena ciência disso e, pouco tempo depois de sua abertura, já nos apresenta a outros dois personagens interessantíssimos: Hit Girl e Big Daddy, sendo a primeira, filha do segundo.
Da mesma forma que o protagonista, pai e filha também ambicionam se tornarem heróis, com a diferença de que estes, realmente, tem talento para tal. E se esta habilidade poderia facilmente tirar destes personagens a carga de humor que eles certamente confeririam ao filme (afinal, que graça teria assistirmos a um grupo de heróis que tomam apenas atitudes corretas e não fazem nenhum tipo de trapalhada?), o roteiro novamente assume a postura do espectador e tenta conferir aos personagens características irrepreensivelmente interessantes.
Logo, o pai nos é apresentado em uma sequência assustadoramente engraçada, quando tenta convencer a filha a deixá-lo dar-lhe um tiro no peito. A garotinha Mindy, por sua vez, passa a ter a sua personalidade (pouco comum para uma personagem do tipo, diga-se) desenvolvida quando esta tenta pregar uma peça no pai que, ao perguntar o que gostaria de ganhar de presente de aniversário, ouve a seguinte resposta: “um cachorrinho bem fofinho”. Inconformado com a solicitação da filha, o sujeito só volta ao normal quando fica sabendo que aquilo não passava de uma brincadeira por parte da garota e que esta, na realidade, gostaria mesmo é de ganhar uma faca Benchmade.
Anormal? Sim, mas não apenas anormal, como também bizarro, original (é claro) e, consequentemente, hilário. E se personagens como Mindy, uma criança prodígio, tendem a irritar o espectador em face de sua artificialidade (assim como acontece com a personagem que a mesmíssima Chloe Moretz encarna no ótimo “(500) Dias Com Ela”), aqui, o roteiro, mais uma vez, parece estar preparado para tal situação e, a fim de evitar que a sua personagem se torne uma reles caricatura barata, realiza eficientes sátiras à garotinha, chegando, inclusive, a adotar a excelente trilha-sonora que o excelente Ennio Moricone compôs para o excelente “Por uns Dólares a Mais” com o intuito de estabelecer analogias entre ela e o excelente Homem-Sem-Nome, que também se revelava uma sátira de si mesmo nos filmes do excelente Sergio Leone (e peço desculpas mais do que atrasadas pelo excesso de “excelentes”, mas é que não consigo reagir de outra forma quando o assunto da vez é Ennio Moricone, a trilogia dos dólares, seu protagonista, e, é claro, Sergio Leone).
E por mais que Mindy seja, realmente, a figura mais interessante e engraçada do filme, não podemos deixar de mencionar também outros personagens, como o vilão Frank D’Amico, que soa estereotipado, mas tal caricatura logo é quebrada pela eficiência com a qual Mark Strong – que, em uma ironia do destino, esteve péssimo em “Robin Hood”, interpretando um tipo parecido – encarna o seu papel, podendo alternar com exímia naturalidade e frieza entre um amigável aperto de mão, um chute na cabeça e um tiro na nuca. Tudo em uma fração de segundos.
Dentre as demais personagens, contudo, não se pode falar bem de Katie Deauxma, futura namorada do protagonista. Além de poucos atributos a seu favor – salvo a beleza, é claro – o romance que ela passa a desenvolver com Dave transforma este num sujeito um tanto o quanto normal, sendo assim, a perda de toda a excentricidade que caracterizava o alter ego do personagem-título acaba tornando-o insuportavelmente desinteressante.
Mas se o roteiro poderia ter sido bem melhor do que realmente foi, apesar de falhar apenas em alguns poucos casos, tecnicamente falando, “Kick Ass” mostra-se surpreendentemente superior à grande maioria dos filmes do gênero, principalmente no que se refere à união entre a direção detalhista de Matthew Vaughn e a montagem rítmica de Eddie Hamilton, Jon Harris e Pietro Scalia.
Com o propósito de manter o espectador constantemente “dentro” da narrativa, os três montadores / editores, sempre que oportuno, substituem os cortes tradicionais pelas clássicas figuras de montagem denominadas raccord, como na cena em que, após ser atropelado e ficar estirado na rua, Dave, sem jamais mudar de posição, logo vê o asfalto o qual se encontrava retesado se “transformar” em uma maca de ambulância e a equipe de paramédicos que o estava atendendo no interior do veículo se “transformar” em uma equipe de médicos e enfermeiros que passam a atendê-lo em um hospital.
Já Vaughn, visando conferir melhor qualidade às cenas de ação (que já são excepcionais, apesar de propositadamente absurdas, por si só), usa e abusa das tomadas em slow motion e se preocupa com detalhes importantíssimos com o intuito de manter a adrenalina presente nestas, como, por exemplo, filmar pentes carregados de munição para pistolas “voando” pelo cenário. Outra grande idéia do diretor foi a de adotar um visual parecido com o de um game de tiro em primeira pessoa para filmar a cena em que Hit Girl mata vários oponentes no escuro com o infravermelho ativado, conferindo um tom favoravelmente inverossímil a toda a sequência (outra sátira realizada à sua personagem).
Isso sem mencionar, é claro, no modo como o cineasta trabalha com o seu elenco, fazendo com que todos os atores – em especial Chloe Moretz que, em uma única cena, consegue expressar aflição (“Perdi os meus pais”), esperança (“Quer ligar de meu celular?” e ela aquiesce radiantemente com a cabeça) e agressividade, de modo natural e em pouco mais de um minuto – rendam belas atuações.
Embora não se mostre tão engraçado quanto filmes da linha de “Superbad – É Hoje!” e “Se Beber, Não Case”, em virtude de uma atitude duvidosa adotada pelo roteiro que, em determinado momento, tira do protagonista a carga de excentricidade que este vinha mostrando até então, “Kick Ass – Quebrando Tudo” revela-se superior aos outros dois filmes citados no que tange os seus aspectos técnicos, além, é claro, de conter uma infinidade de personagens interessantíssimos e, acima de tudo, manter a originalidade que há tempos vem fazendo falta aos filmes do gênero.
Obs.: Prestem atenção nas diversas homenagens que o filme realiza à sétima arte: “Deixe Ela Entrar” (mordida no pescoço de D’Amico), “Sin City” (filme que todos amam e eu odeio), “Crepúsculo dos Deuses”, “Beleza Americana”, “Scarface” (“___ Say hello to my little friend”), “Lost” e o seu tão comentado final (é, eu sei, “Lost” nada tem a ver com a sétima arte, mas achei conveniente citá-lo aqui) e, será que vale mencionar “Kill Bill” (toda aquela chacina com um irretocável tom satírico e realizada por uma pessoa do sexo feminino)?
Obs. 2: Se Chloe Moretz encarnar outra personagem com tanta beleza, amabilidade (uma amabilidade violenta, mas que não deixa de ser amável) e graciosidade como fez com a sua Mindy, juro que me apaixono ardentemente por ela (só espero que amor platônico cinematográfico não figure pedofilia).
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