À Prova de Morte

Redigido por Daniel Esteves de Barros aos 14, 15, 16 e 17 de julho de 2.010. Editado e publicado por este aos 18 de julho de 2.010.
Avaliação: rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501 (Ótimo Filme).

deathproof

Ficha Técnica:
Título Original: Death Proof.
Gênero: Suspense / Comédia.
Tempo de Duração: 113 minutos.
Ano de Lançamento: 2007.
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Quentin Tarantino.
Roteiro: Quentin Tarantino.
Elenco: Kurt Russell (Stuntman Mike), Rosario Dawson (Abernathy), Vanessa Ferlito (Arlene), Jordan Ladd (Shanna), Rose McGowan (Pam), Sydney Tamiia Poitier (Jungle Julia), Tracie Thoms (Kim), Mary Elizabeth Winstead (Lee), Zoe Bell (Zoë Bell), Michael Parks (Earl McGraw), James Parks (Edgar McGraw), Quentin Tarantino (Warren), Monica Staggs (Lanna Frank), Michael Bacall (Omar), Omar Doom (Nate), Marcy Harriell (Marcy), Helen Kim (Peg), Eli Roth (Dov) e Marley Shelton (Dra. Dakota McGraw Block).

Sinopse: Ao cair da noite, Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier), a DJ mais sexy de Austin, pode enfim se divertir com as suas duas melhores amigas. As três garotas saem noite adentro, atraindo a atenção de todos os freqüentadores masculinos dos bares e boates do Texas. Mas nem toda a atenção é inocente. Cobrindo de perto seus movimentos está Stuntman Mike (Kurt Russell), um rebelde inquieto e temperamental que se esconde atrás do volante do seu carro indestrutível (Adoro Cinema).

Death Proof – Trailer:

Crítica:

Um senhor estava sentado à poltrona à minha direita durante a sessão de “À Prova de Morte”, realizada no último dez de julho, às 19h15min, e, com o passar do tempo, mencionou: “___ Que cópia mais vagabunda esta, não?”, ao perceber que a projeção dava, com certa freqüência, uns leves saltos aparentemente involuntários na trama.

Como o sujeito de meia idade já havia demonstrado ser uma pessoa bastante simpática alguns minutos antes, quando compartilhou comigo várias das gargalhadas que dei previamente à sua reivindicação, decidi explicar-lhe o propósito de Tarantino em “À Prova de Morte”: homenagear o Cinema trash, que contava com filmes frequentemente exibidos nas típicas grindhouse (daí o nome do projeto desenvolvido pelo cineasta em conjunto com Robert Rodrigues, que assinou “Planeta Terror”, o qual eu ainda não assisti), espécie de drive-in, estadunidenses durante as décadas de 1950, 1960 e, mormente, 1970. Em outras palavras, a “podreira” técnica do longa (neste caso em específico: a edição falha) era visivelmente proposital. O sujeito então aquiesceu e comentou: “___ Você está certo! Tarantino é louco mesmo! É característico dele realizar essas coisas e, até mesmo quando deseja ser ruim, ele é genial… genial e louco!”.

Genial, ou não; louco, ou não; uma coisa é certa: Tarantino é audacioso. Audacioso o bastante, aliás, a ponto de realizar produções as quais ele gostaria de poder assistir assumindo a função do espectador. Audacioso o bastante, aliás, a ponto de se ver no direito de dirigir e roteirizar filmes feitos para ele mesmo e pouco se importar com o que o restante da população mundial irá pensar a respeito de seus trabalhos.

Destarte, um filme que conte com o nome de Quentin Tarantino envolvido entre as principais figuras por trás das câmeras é, antes de qualquer coisa, um filme que seguramente irá “brincar” com as convenções que foram criadas durante as várias décadas de existência da linguagem cinematográfica. É um filme experimental, um filme que, de uma forma ou de outra, não tem como escopo estabelecer um foco, mas sim um exercício de estilo.

É com essa ideia na cabeça que o renomado diretor de “Pulp Fiction – Tempos de Violência” faz de “À Prova de Morte” uma divertidíssima mescla das características da cena exploitation (preste atenção nas referências que ele faz ao filme “Corrida Contra o Destino”), que ele tanto admira, adicionadas a aspectos que fazem o filme alternar do cult ao trash em questão de segundos, ou, até mesmo, simultaneamente, como nos comprova a cena em que a câmera é posicionada no vidro dianteiro de um veículo (o que nos remete à lembrança de “Acossado”) ao mesmo tempo em que Tarantino dá um close no pé direito (repousado sobre o painel do carro, diga-se) da motorista do veículo, o que já de início nos faz soltar gostosas gargalhadas em razão da excentricidade típica do cineasta, que em momento algum parece fazer questão de ocultar do público o seu bizarro fetiche pelos pés femininos.

É através desta excentricidade que Tarantino traz às telonas um filme que visa justamente homenagear obras igualmente excêntricas, no caso, as produções B já citadas.

A primeira metade de “À Prova de Morte” nos oferece uma releitura fiel às sessões exibidas outrora nas grindhouse. Contando com aspectos característicos dos filmes do gênero, passando por clichês como: personagens femininas amorais e imorais, um vilão caricato ao extremo (que, além de dirigir um carro negro com uma caveira desenhada no capô, conta com uma cicatriz enorme no olho esquerdo) e uma trama propositadamente batida envolvendo um serial killer misógino, o cineasta ainda estabelece um padrão saudosista ao longa empregando a já mencionada edição repleta de falhas de continuidade e somando a isso uma qualidade de imagem pavorosa, com direito a riscos nas telas e a uma fotografia inconvenientemente granulada.

Todavia, por mais fidedigno que este tributo seja aos produtos que lhe serviram de inspiração, ele ainda conta com aspectos reciclados pelo diretor, algo que vem tornando-se cada vez mais comum em sua filmografia. A composição do vilão e protagonista da trama, por exemplo, por mais voluntariamente caricata que seja, acaba tendo a sua seriedade adequadamente quebrada em virtude de alguns pontos curiosos, como o fato de o cruel e sanguinário sujeito, além de simpático e ligeiramente extrovertido e articulado, não seguir o estereótipo do serial killer compulsivo e beberrão, uma vez que este é abstêmio.

E se a câmera de Tarantino faz questão de retratar de forma repulsiva – realizando closes ups no rosto do personagem a ser registrado a fim de tornar a cena toda ainda mais nauseante do que ela já é por si só – o personagem de Kurt Russel devorando um prato de nachos de um modo que dá a entender que o indivíduo desconhece todo e qualquer código do bom senso alimentar, o roteiro logo se preocupa em estabelecer um contraponto fazendo com que o asqueroso personagem simpatize com o público ao protagonizar diálogos carismaticamente hilários como: “___ Se é o aspecto de meu carro que a assusta, não se preocupe, o veículo pertence à minha mãe.” (lembrando que a frase não é dita exatamente nessas palavras. Alterei-a propositadamente).

A mesma coisa Tarantino faz com as mulheres que compõem esta primeira trama. Abordadas sob uma ótica intencionalmente frívola (usuárias de narcóticos e maníacas sexuais, algo típico nas produções do gênero), o roteiro logo insere uma subtrama envolvendo uma conversa através de mensagens de celular que nos faz sugerir que o estilo de vida adotado por uma das personagens (e que acaba refletindo e resumindo o das demais) é, na realidade, uma espécie de escapismo de uma fortíssima frustração amorosa que esta amarga. E não há como negar que isto a torna muito mais complexa, bem como as suas companheiras de “agito”.

Eis que um “acidente” ocorre. Sangue, braços e pernas voam para todos os lados e o diretor sabiamente opta por refilmar a mesmíssima cena várias vezes com o intento de retratar minuciosamente o que acontece a cada uma das vítimas. Chegamos então à segunda metade do filme.

É aqui que o longa deixa de ser uma homenagem e assume um ar mais “tarantinesco”. A imagem passa a ter um melhor tratamento, bem como todos os outros aspectos técnicos da produção. Personagens bem mais interessantes nos são apresentadas e as futilidades que estas cometem parecem decorrer dos mesmos motivos que os personagens de Jean-Paul Belmondo e Anna Karina cometeram no excepcional “O Demônio das Onze Horas”: a cura do vazio existencial mediante a atitudes relativamente imbecis e nonsense.

Na direção, Tarantino passa a investir em movimentos de câmera mais refinados, como travelings rotatórios idênticos aos que ele utilizou na abertura do ótimo “Cães de Aluguel” e com a mesma finalidade daquele filme: o de retratar as impressões que cada personagem vai demonstrando durante a conversa sem realizar cortes para tal, o que acabaria quebrando, ainda que levemente, a linha narrativa do momento. Outro ponto interessante no que tange a direção é o modo como Quentin emprega sabiamente o uso de um split screen, trazendo uma personagem ao lado direito da tela, e em primeiro plano, e colocando a outra personagem, que faz um monólogo, no canto esquerdo da tela e em segundo plano, o que nos leva a crer que, por mais que a personagem da esquerda seja a parte ativa na situação, as palavras da interlocutora não se mostram tão importantes quanto às reações da receptora.

Os diálogos também assumem um ar mais inteligente e criativo aqui (“___ Jamais compare um neozelandês a um australiano”) e as situações mostram-se ainda mais hilárias do que haviam se revelado na primeira estória (vide a cena em que a personagem de Rosario Dawson oferece uma “habilidade sexual” da figura dramática de Mary Elizabeth Winstead em troca do aluguel de um veículo, para se ter uma idéia).

Todavia, com tantos pontos que esta segunda metade do longa tem em seu favor, o grande trunfo desta parte de “À Prova de Morte” acaba residindo mesmo é na inversão de expectativa que o protagonista de Kurt Russel oferece ao público. De bad ass motha fucka, o dublê Mike passa a ser o bode expiatório da maioria das situações que levará o público a impagáveis gargalhadas (dentre as quais, destaco o “the end”, que nunca teve um impacto tão forte do ponto de vista cômico como teve na obra em questão, já que se revelou a forma menos sutil o possível de Tarantino “puxar o tapete” do espectador e dizer: “já chega, não? Já tivemos muito disso, agora é hora de encerrar o filme!”) e que farão valer cada centavo investido no valor do ingresso.

E respondendo à sugestão de meu simpático e divertido colega de sessão: não sei afirmar ao certo se Quentin Tarantino é louco, gênio, ou ambas as coisas concomitantemente. Só sei dizer que, se a falta de propósito característica de seus filmes acaba gerando unicamente uma oportunidade de se realizar um exercício de estilo cinematográfico, tais experimentações resultam, no geral, em um produto superior à maior parte da produção cinematográfica mundial. E apenas isso se mostra respaldo o suficiente para considerar o diretor de “Kill Bill” um profissional visivelmente acima da média, sendo gênio, ou não; sendo louco, ou não.

Obs.: Preste atenção na perseguição automobilística ocorrida ao final da trama. O momento em que os carros clássicos dos anos 1960, dirigidos pelos personagens de Kurt Russel e Tracie Tohms, entram na pista e passam a contrastar com os carros contemporâneos, temos a alma do filme captada. Em campo: o antigo “desfilando” lado a lado com o novo. Na telona: uma obra que, outrora, adotou ares do Cinema antigo, sendo trazida à nova geração.

Obs. 2:À Prova de Morte” revela-se também uma homenagem aos profissionais que exercem a função de dublês no Cinema. Não bastasse o protagonista ser dublê, Zoë Bell, que realizou notáveis trabalhos na referida profissão ao longo de sua carreira (onde o destaque fica com “Kill Bill”, filme que também fora dirigido por Quentin Tarantino e que, em face de sua aparência física com Uma Thurman, Bell acabou realizando muitas das cenas de ação protagonizada pela Noiva), interpreta ela mesma aqui e é o grande destaque no que diz respeito à tensão que a perseguição automobilística nos proporciona, já que os efeitos especiais contidos nessa sequência são mínimos e cabe a Bell coreografar os malabarismos que a sua personagem sofre neste momento.

Comments are closed.

Selecione um assunto
Arquivos
Siga-nos pelo Twitter