O Último Mestre do Ar

Redigido por Daniel Esteves de Barros aos 23 e 24 de agosto de 2.010. Editado e publicado por este aos 25 de agosto de 2.010.

Avaliação: rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501(Bom Filme).

the-last-airbender-new-images-9Ficha Técnica:
Título Original: The Last Airbender.
Gênero: Aventura.
Tempo de Duração: 103 minutos.
Ano de Lançamento: 2.010.
Site Oficial: http://www.thelastairbendermovie.com/
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: M. Night Shyamalan.
Roteiro: M. Night Shyamalan.
Elenco: Noah Ringer (Aang), Nicola Peltz (Katara), Jackson Rathbone (Sokka), Cliff Curtis (Firelord Ozai), Dev Patel (Zuko), Jessica Andres (Suki), Seychelle Gabriel (Princesa Yue), Shaun Toub (Tio Iroh), Randall Duk Kim (Ancião no Templo), Dee Bradley Baker (Appa / Momo (voz)), Ali Khan (Ancião Firebender), Aasif Mandvi (Comandante Zhao) e Ben Cooke (Avatar Roku).

Sinopse: A Nação do Fogo está em guerra com as nações da Água, do Ar e da Terra porque pretende dominar o mundo. O conflito já dura um século e não há a menor previsão de quando chegará ao fim. Somente o aparecimento de um Avatar, único capaz de controlar os quatro elementos, poderá ajudar a restabelecer o equilíbrio. Quando Katara (Nicola Peltz) e seu irmão Sokka (Jackson Rathbone) encontram o jovem e poderoso Aang (Noah Ringer), logo percebem que estão diante de uma possível solução e para isso partem juntos numa grande e perigosa aventura em busca da paz (Roberto Cunha – Adoro Cinema).

The Last Airbender – Trailer:

Crítica:

M. Night Shyamalan (que muitos cinéfilos, “carinhosamente”, apelidam de M. Night Shyamalan‘dro’ graças à falsa promessa que o cineasta (segundo a maioria das pessoas que se entusiasmaram com o diretor no início de sua carreira) mostrou ser quando exibiu muito talento na direção de “O Sexto Sentido”, mas passou a se revelar uma grande farsa com o decorrer dos anos comandando produções que em nada agradou muitos de seus fãs) representa, ao menos para mim, o mesmo que a saga “Crepúsculo”: superestimação por parte de alguns e subestimação por parte de outros, resultando em algo na média, e nada além, nem aquém, disso.

Algumas pessoas o consideram um gênio, outras um charlatão, já eu (se é que a minha opinião interessa, mas enfim…), o considero somente “um cara a mais na multidão”, mas que acaba, desnecessariamente, ganhando destaque quando é questionado pela crítica e quando é ovacionado pelos seus fãs que cometem um exagero em larga escala ao compará-lo com Hitchcock (e é lamentável também que o próprio diretor indiano se compare ao genial cineasta inglês).

Os seus filmes seguem praticamente o mesmo rumo. Dentre os quais eu assisti (e confesso não ter assistido a “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado” ou “A Dama da Água”… shame on me!), “A Vila” está longe de ser uma bomba, mas está mais longe ainda de ser um eficientíssimo tratado filosófico, como muitos fãs asseguraram; “Sinais” não é um exemplo nato de inteligência, mas também não falha em seu objetivo principal: conferir tensão em seus espectadores, e “Fim dos Tempos” é de uma idiotice fora do comum, mas merece alguns créditos pela originalidade de sua trama corajosamente absurda. Quanto a “O Último Mestre do Ar”, bem, aqui falta tensão (e muito), mas o filme estranhamente funciona por motivos ainda mais estranhos, conforme passarei a discorrer a partir de agora.

Comentei em minha crítica de “Predadores” que o fenômeno da identificação espectador/personagem provavelmente está ligado diretamente ao fato de o ser humano espelhar-se no pólo inferiorizado de uma determinada disputa (e quem quiser saber mais detalhes em relação a tal teoria, sugiro a leitura do excelente “A Estética do Filme”, de Jacques Aumont, principalmente no que tange o quinto, e último, capítulo do livro), independentemente deste “pólo inferiorizado” ser o “mocinho” ou o “bandido” da trama. Exemplo? Por mais que Alex deLarge mostre-se uma das figuras mais repugnantes da história do Cinema, passamos a nos cativar, em maior ou menor grau, com o jovem e sádico marginal a partir do momento em que ocorre uma reviravolta em sua vida e a sociedade a qual ele fizera de vítima outrora passa a fazê-lo de vítima a partir de então.

Contudo, é de conhecimento geral que “Laranja Mecânica” não se trata de uma produção cinematográfica cujo foco principal é um duelo entre o “bem” e o “mal”, conforme é o caso de “O Último Mestre do Ar”. Tendo isso em vista, como fazer o espectador se identificar com o “mal” sem que isso soe imoral para o público mediano, que está acostumado a torcer para o “bem” em um embate desta natureza (se é que em uma guerra existe o “bem” e o “mal”)?

Francamente, não sei dizer se Shyamalan (tanto na função de diretor, como na de roteirista) respondeu tal questionamento – com certa parcela de acerto, diga-se – voluntaria ou involuntariamente (e para ser ainda mais sincero, nem ao menos sei dizer se tal questionamento foi sequer feito pelo cineasta indiano), só sei dizer que, em alguns pontos, conseguiu fazê-lo sem muitos problemas.

É aí que reside a estranheza que mencionei pouco acima. Em um filme em que o comum era cativar-nos com os propósitos do povo da nação da Água, acabamos selecionando uma figura bastante atípica para depositar os nossos afetos: Zuko, o filho injustiçado do Mestre do Fogo.

Afinal, por mais que Aang, Katara e Sokka sejam o trio de heróis da vez, não há como negar que o primeiro é uma figura dramática um tanto o quanto fria e os demais, apesar de órfãos, acabam recebendo um tratamento inconvenientemente (ou convenientemente, dependendo da ótica a qual você encarar o filme) desprovido de emoção por parte do roteiro, já que, sempre que toca na morte dos pais dos garotos, o filme não faz muita questão de explorar o fato de um modo aprofundado o bastante a ponto de fazer o espectador cativar-se com o sofrimento destes.

Sofrimento? Pois é, sofrimento este que é muito mal encarnado por parte dos atores Jackson Rathbone e Nicola Peltz, que parecem mencionar “___ Nossos pais morreram em uma batalha contra a nação do Fogo” com o mesmo peso dramático que mencionariam “___ Vou ao banheiro e já volto”.

Destarte, o único personagem realmente capaz de cativar o público de forma convincente é Zuko, já que, após tomar uma decisão aparentemente correta no passado e fugir de uma batalha que levaria todo o seu exército a uma eminente derrota e, como consequência, a um massacre, passa a ser encarado com desdém pelo pai. Toda a sua ganância então nos vem à tona como uma triste aliada de seu complexo de inferioridade, que exerce a função de ponte para que o jovem apeteça apenas reconquistar a confiança do progenitor e a sua própria honra, ao contrário de seus compatriotas da nação do Fogo, que seguem o estereótipo dos vilões que almejam dominar o mundo.

Parte da eficiência de Zuko, aliás, provém da satisfatória composição do bom, embora superestimado, ator inglês Dev Patel, mais conhecido como o Jamal Malik do “também bom, embora superestimado” “Quem Quer Ser um Milionário?”. Realizando uma atuação contida na medida certa e retratando a frustração que o seu personagem tem para com a vida através de expressões vazias (leia-se blasé), mas realçadas por olhares que ocultam uma fúria (algo que me fez lembrar um pouco (e por tudo o que há de mais sagrado neste mundo, eu disse: “um pouco”, não estou tecendo analogias relevantes) do Michael Corleone de Al Pacino) interior muito grande, Patel ainda entrega o fim triste o qual o seu personagem teve conferindo um tom de voz rouco e inseguro a este (note a cena em que ele, passando-se por uma pessoa pouco conhecida, solicita a um garoto que lhe conte a real estória de Zuko).

Outro ator que está bem em cena é Noah Ringer, mas o bem da verdade é que o papel do garoto não exige tudo o que pode deste, que acaba alterando o tom de sua voz aqui e acolá, mas se vê boicotado por um roteiro que não faz questão alguma de transformar a sua figura dramática em um personagem mais humano e próximo do público, algo imprescindível a um indivíduo que carrega consigo características messiânicas.

E se Zuko, o vilão da trama, acaba nos cativando muito mais do que o próprio Aang em função de sua dramática história, era de se esperar que o roteiro ao menos criasse situações adversas o bastante para colocar os “mocinhos” em total perigo durante as cenas de batalha, o que acabaria fazendo com que a tensão do público fosse muito maior e, principalmente, desenvolveria um elo mais eficaz entre os heróis da trama e aqueles que pagaram o ingresso para vê-los agindo dentro de campo. Infelizmente, isso não acontece.

Seja pelo roteiro, que coloca os “mocinhos” em situações de igualdade (ou até mesmo de superioridade, principalmente se levarmos em conta que o Avatar encontra-se do lado deles na guerra) em relação aos “bandidos”, seja pela direção de Shyamalan, que não apenas mostra-se incapaz de criar ângulos que acompanhem as lutas de maneira verdadeiramente satisfatória, como também abusa erroneamente de uma mise en scéne que combina coreografias de batalha pouco inspiradas com um travelling horizontal em slow motion, que nada faz além de ressaltar ainda mais a falta de criatividade as quais as lutas são arquitetadas, seja pela montagem, que não consegue alternar entre as cenas conferindo ritmo a estas, seja também pela edição, que peca por não retirar certas “gordurinhas” do filme, “O Último Mestre do Ar” definitivamente não funciona como fita de aventura.

Funciona como o quê, então? Como um filme moderadamente divertido que, longe de ser grandioso, nos remete a um mundo satisfatoriamente novo. Um mundo onde um vilão pode se mostrar muito mais interessante que um herói, um mundo onde uma direção de arte simples e despretensiosa (simples e despretensiosa se comparada a outros exemplares do gênero, certamente) pode nos oferecer um reino que surpreende pela forma como a cor azul é convenientemente bem explorada (isso, aliado, é claro, a uma fotografia que realça muito bem tal tonalidade), um mundo onde o “escolhido” já sabe de sua importância pouco depois do início de sua jornada e deixa de lado o batido “será que eu sou o escolhido realmente?” para pôr em prática o questionamento: “o que eu farei na condição de escolhido?”.

Pois é, pensando bem, talvez esteja aí um motivo para nos cativarmos um pouco com o protagonista. Talvez ele não seja tão frio e insuficientemente humanizado, conforme mencionei acima. Se por um lado Aang é um personagem bem menos interessante que o antagonista Zuko (o que, estranhamente, confere um tom de curiosidade e originalidade ao longa), por outro lado as suas inseguranças perante o seu objetivo principal o tornam uma figura dramática um pouco mais atraente do que vinha se mostrando nos dois primeiros atos do filme.

Quanto a M. Night Shyamalan, bem, “O Último Mestre do Ar” é mais um exemplo de que ele é só um passatempo esquecível e não deve ser enaltecido, nem odiado.

Obs.: Serei tachado de misógino se disser que Seychelle Gabriel está uma gracinha de cabelo branco?

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