Karate Kid

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 30 de agosto de 2010.
Avaliação: rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501rolo-de-filme-150x1501 (Bom Filme).

The-Karate-Kid-2010Ficha Técnica:
Título Original: The Karate Kid.
Gênero: Aventura.
Ano de Lançamento: 2010.
Site Oficial: http://www.karatekidofilme.com.br
Nacionalidade: Estados Unidos da América.
Tempo de Duração: 140 minutos.
Direção: Harald Zwart.
Roteiro: Christopher Murphey, baseado em argumento de Robert Mark Kamen.
Elenco: Jaden Smith (Dre Parker), Jackie Chan (Senhor Han), Taraji P. Henson (Sherry Parker), Zhenwei Wang (Cheng), Han Wenwen (Meiying), Yu Rongguang (Mestre Li), Wu Zhensu (Pai de Mei Ying), Wang Zhiheng (Mãe de Mei Ying), Shijia Lü (Liang), Zhao Yi (Zhuang), Zhang Bo (Song), Luke Carberry (Harry), Cameron Hillman (Mark), Ghye Samuel Brown (Oz), Wang Ji (Sra. Po) e Tess Liu (Professora de História).

Sinopse: Dre Parker (Jaden Smith) se mudou com a mãe (Taraji P. Henson) para Pequim, devido ao trabalho dela. Logo ao chegar ele se interessa por Meiying (Han Wenwen), uma garota que conhece praticando violino na praça. A aproximação deles provoca a irritação de Cheng (Zhenwei Wang), que lhe dá uma surra usando a técnica do kung fu. A partir de então a vida de Dre se torna um inferno, já que passa a ser perseguido na escola por Cheng e seus colegas. Um dia, ao escapar deles, Dre é auxiliado pelo sr. Han (Jackie Chan), o zelador de seu prédio, que é também um mestre de kung fu (Adoro Cinema).

The Karate Kid – Trailer:

Crítica:

Jackie Chan e Will Smith: o que ambos os atores tem em comum, além do envolvimento (direto por parte do primeiro e indireto por parte do segundo) com este “Karate Kid”? Os dois são muitíssimo carismáticos, mas emplacam em poucos projetos que realmente funcionam, concordam (vide minha crítica de “Hancock”)?

É claro que Chan fez um “Quem Sou Eu?” aqui e Smith fez um “Eu, Robô” ali (e vale dizer que considero ambos os filmes apenas divertidos, embora longe de serem memoráveis), mas a maioria dos projetos contidos na filmografia desses dois atores não é lá muito invejável. No caso de Chan, o filme mais deplorável protagonizado por ele, e que me vem à mente, é a refilmagem do clássico da década de 1950: “Volta ao Mundo em 80 Dias – Uma Aposta Muito Louca” (que só não me irritou o bastante em face do visível charme de Cécile de France, que segurava um pouco esta horrenda comédia), cujo subtítulo já exibe toda a (falta de) qualidade do projeto.

Eis que o “mais-do-que-hábil” lutador chinês de kung fu (e não perguntem se ele é melhor que Jet Li no que tange às artes marciais, pois julgo impossível responder tal questão) surge novamente como uma das principais cabeças de um elenco que (tensão) participará de uma outra refilmagem de um outro clássico do Cinema (medo!).

Somamos isso ao fato de o papel principal ficar com o filho de Will Smith e, pronto, o que teremos pela frente? Uma refilmagem com propósitos meramente comerciais (o que não é necessariamente um problema, já que até o mais cult/indie/alternative dentre todos os filmes tem como principal escopo arrecadar dinheiro) que visa, além de dar um up na carreira de Jackie Chan e Will Smith (que participa como produtor do projeto), alavancar a carreira do ator mirim filho de um dos chefões que bancou a conta dessa “brincadeira” toda.

Entretanto, se a proposta do filme não é das melhores, é mister levarmos em conta que, quando vamos ao cinema conferir alguma produção, seja ela qual for, devemos nos focar somente na tal produção, e em absolutamente nada mais. Os fatores externos a esta devem ser todos esquecidos, exceto, é claro, se tais fatores acabarem influenciando diretamente naquilo que nos é exibido em campo.

Felizmente, nenhum fator meramente capitalista atrapalha o desenvolvimento de “Karate Kid”. O problema aqui está realmente na dificuldade a qual encontramos em desvencilhar a imagem desta refilmagem com o filme original, com Ralph Macchio e Pet Morita nos papéis de suas carreiras.

Esta nova versão traz um Jackie Chan mais apático que o usual, o que soa conveniente em alguns momentos (a cena do carro destruído e o desabafo sobre a perda de sua família) e inconveniente na maioria deles, uma vez que a química entre ele e o personagem de Jaden Smith nem em sonhos mostra-se tão cativante e natural quanto a que era emanada por Pet Morita e Ralph Macchio. Por que? Por pequenos detalhes que fazem toda a diferença, como, por exemplo, na cena em que o Sr. Miyagi, ao entrar no apartamento de Daniel Larusso para consertar a torneira, nota que o garoto está treinando caratê e comenta o fato com este. Pode parecer besteira, mas o simples, e óbvio, “___Ah, você está treinando caratê, é?”, proferido no filme de 1984, já se mostrava o suficiente para criar uma leve aproximação entre a dupla, algo que neste filme, em face da frieza do personagem que substitui a figura dramática de Pet Morita, simplesmente não acontece.

Mas se a união entre mestre e discípulo soa relativamente forçada, uma vez que esta tem o seu início, a trama começa, finalmente, dar tímidos passos para que possamos caminhar a um filme minimamente interessante.

É evidente que o treinamento do jovem Dre nem de longe conta com tantos momentos marcantes quanto à instrução do icônico “Daniel-san”, mas ainda assim possui os seus méritos, e eles não são poucos. Se a sequência inicial do treinamento contida neste filme não causa uma inversão de expectativa tão grande no espectador como o original causava (afinal, todos imaginavam que o que estava ocorrendo ali era uma troca de favores: Miyagi ensinaria Daniel a lutar em troca de serviços domésticos, bem como o polimento de carros e pintura de cerca, realizados pelo jovem aprendiz), por outro lado ela conta com um ar rejuvenescido e empregou muito do humor non-sense (não no melhor estilo Monty Python, mas ainda assim funciona muitíssimo bem) para laborar de acordo com o esperado, afinal, em que diabos o agasalho de Dre poderia auxiliar em seu treinamento e por que cargas d’água o mestre Han insistia tanto nisso?

E se cenas plasticamente sensíveis, como Daniel Larusso imitando os movimentos de uma gaivota na beira do mar em pleno pôr do sol, não conseguem ser reproduzidas com tanto peso aqui, não podemos discordar, no entanto, que o treinamento de Dre Parker conta com o seu quê de formosura, como pode-se constatar principalmente em sua bela caminhada pelas muralhas da China e no simples, mas artisticamente eficaz, “duelo de sombras” travado entre mestre e aprendiz.

Ponto positivo também para o relacionamento entre Dre e a jovem Cheng. Wang, é claro, não é tão boa atriz quanto Elisabeth Shue (e sim, gostei muitíssimo mesmo da atuação da carismática atriz mirim chinesa, mas Elisabeth Shue é Elisabeth Shue), todavia o roteiro sabiamente confere à garota aquilo que realmente deveria ter conferido: um papel secundário. Se uma das poucas falhas do filme de 1984 residia na importância que o roteiro dava ao relacionamento entre Daniel e Ali (Ali com “i”, lembram-se?), algo que servia apenas para criar um típico romance teen desequilibrado pela situação financeira desigual dos dois pólos – o quê era muito usual na época – aqui a relação entre Dre e Wang não passa da inocência da amizade (bem, ao menos o roteiro não concretiza necessariamente um relacionamento amoroso) entre os dois e acaba consumindo o tempo necessário da projeção, sem que isso atrapalhe o foco principal da obra: a harmonia nascida entre o garoto e o seu sensei (que, repito, só é atrapalhada pela frieza a qual o roteiro aborda o personagem de Jackie Chan).

O roteiro também acerta quando opta por fazer várias referências ao longa original que realmente funcionam, como é o caso de diálogos do tipo: “___ Não existe mau aluno, apenas mau professor”, “___ Ganhar ou perder não importa. Apenas lute bem e será respeitado” e “___ O senhor é o melhor amigo que já tive” e a sequência em que Han, após tentar matar moscas utilizando dois hashi (assim como o Sr. Miyagi fazia no longa de 1984), perde a paciência e utiliza um método mais prático (que não revelarei aqui para não estragar a piada). Todavia, se tal “método” funciona perfeitamente como gag e referência à produção original, ele também falha visivelmente como uma tentativa de anteceder ao espectador que o filme em questão, apesar de tratar-se de uma refilmagem, será uma revisão independente da obra que o inspirou, algo que não acontece já que, conforme aleguei durante todo este texto, o longa raramente consegue se desvencilhar do projeto que o inspirou.

Aliás, vale dizer que, ao menos tecnicamente, “Karate Kid” foge bastante da sombra de “Karatê Kid – A Hora da Verdade”. Se John G. Avildsen preocupava-se mais com a criação de ângulos que traziam sensibilidade à produção dos anos 1980 (o plano geral que combinava a harmonia dos golpes de Daniel com a beleza natural do lago onde ele realiza a sua preparação, por exemplo), Harald Zwart investe em um trabalho mais técnico que  funciona muito bem, apesar de ser desnecessariamente exibicionista em alguns momentos, como é o caso do plano contra-plongé que emprega a fim de distanciar a câmera de Dre, após este ser nocauteado. O que Zwart parece não entender é que tal movimentação de câmera é geralmente utilizada a fim de retratar um suposto distanciamento do plano espiritual com o plano metafísico. E o que dizer do emprego de panorâmicas verticais com o propósito unicamente de filmar a mãe de Dre se abaixando para pegar o casaco do garoto, algo que muito me fez lembrar da igualmente exibicionista direção de Ridley Scott no razoavelmente fraco “Robin Hood”?

Contudo, Zwart acerta na maioria das decisões que toma como diretor do filme. Se a técnica da handcam pode soar estranha em uma produção que está mais para uma fábula do que de uma obra que contenha características que a aproxime da realidade, algo que não só é comum como também plausivelmente conveniente quando empregada em filmes da categoria de “Acossado” e “O Lutador”, devemos reconhecer que a câmera na mão confere aqui uma afinidade maior entre o público e os personagens. Igualmente correta é a atitude do cineasta de realizar tomadas aéreas e travellings que retratam bem as características das belíssimas locações escolhidas para as filmagens, já que a suavidade dos movimentos que compõem o treinamento de Dre tem uma clara ligação com a natureza local (ainda assim repito que isso não chega aos pés do que nos era exibido no filme original, mais especificamente na cena do lago, conforme já fora mencionado mais acima).

Pois bem. Escrevi, escrevi e escrevi, mas não comentei de forma mais aprofundada sobre o segundo (ou seria o terceiro? Enfim…) maior propósito desta produção: Jaden Smith. Mesmo que o filho do produtor (que maldade a minha) não seja um novo Ralph Macchio (até porque o seu personagem é completamente diferente de Daniel Larusso), ele demonstra aqui um carisma bem parecido com o do pai e consegue nos cativar com o seu jeito extrovertido e “moleque” de ser. Sob essa ótica, o jovem Smith dá show no “meia-idade” Chan, que vê o seu talento reduzido a um papel apático demais, algo inerente à habitual afabilidade do “novo Bruce Lee”.

Prejudicado principalmente pela tentativa de se revelar cada vez mais parecido com o clássico de 1984, “Karate Kid” ainda inicia a relação entre os dois principais personagens de forma artificial, mas ganha méritos quando opta por aprofundar esta baseando-se no desejo do jovem discípulo aprender a lutar e do experiente mestre ensinar o que o seu pupilo tanto busca. Enriquecido também por uma direção técnica que acerta na maior parte dos casos, o filme ainda conta com momentos memoráveis, como o que o personagem de Jackie Chan, apesar de cair no ridículo ao lutar com seis garotos de apenas doze anos de idade, se redime ao utilizar a inteligência fazendo com que os golpes dos jovens atinjam a eles mesmos sem que isso os machuque.

E se a versão comandada por John G. Avildsen superava facilmente esta mostrando-se uma obra “quatro estrelas”, mas com tendências a “cinco estrelas”, o longa comandado por Zwart é, ao menos, uma obra “três estrelas”, mas com tendências a “quatro estrelas”, o que já é muito levando-se em conta os reais propósitos desta obra e a atual e deplorável qualidade das refilmagens que brotam por aí.

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