Archive for the ‘Filmes Clássicos’ Category

O Encouraçado Potenkim – ***** de *****

Pensava em fazer deste texto uma mini-crítica onde fosse capaz de discorrer sobre as principais características da obra em questão de maneira objetiva e direta, sem prolongar-me demasiadamente, mas, em face da grandeza de “O Encouraçado Potenkim”, tanto do ponto de vista artístico, quanto político, histórico e, até mesmo, social e (por que não dizer?) filosófico, e do fanatismo que passei a nutrir pelo mesmo a partir do momento em que o assisti pela primeira vez (confesso que foi apenas ontem), não me vi capaz de analisá-lo em apenas 500 ou 600 palavras. Mas convenhamos, como seria capaz criticar um filme que narra um dos principais fatos que vieram a contribuir com a Revolução Russa de 1917 em tão poucas palavras? Foi justamente com base nisso que me estendi demais na confecção deste texto. Enfim, garanto ao leitor que, mesmo com tantas palavras por mim utilizadas, não fui capaz de captar toda a essência da obra, tamanho a grandeza da mesma e, humildemente, reconheço que este texto acabou ficando pequeno demais para um filme tão completo quanto“O Encouraçado Potenkim”é.

Título Original: Bronenosets Potyomkin.
Gênero: Guerra.
Tempo de Duração: 74 minutos.
Ano de Lançamento (Rússia): 1925.
Estúdio: Goskino / Mosfilm.
Distribuição: Amkino Corporation.
Direção: Sergei Eisenstein.
Roteiro: Nina Agadzhanova e Sergei Eisenstein.
Produção: Jacob Bliokh.
Música: Edmund Meisel.
Fotografia: Vladimir Popov e Eduard Tisse.
Direção de Arte: Vasili Rakhals.
Edição: Sergei Eisenstein.
Elenco: Aleksandr Antonov (Vakulinchuk), Vladimir Barsky (Comandante Golikov), Grigori Aleksandrov (Oficial Giliarovsky), Mikhail Gomorov (Marujo), Ivan Bobrov (Marujo), Sergei Eisenstein (Cidadão de Odessa), Julia Eisenstein (Cidadã de Odessa), Beatrice Vitoldi e N. Poltavseva.

Sinopse: Um dos estopins da Revolução Bolchevista de 1917 encontra-se descrito neste filme quase que documental. Após um grupo de marinheiros do cruzador Potenkim se amotinar contra os oficiais alegando maus tratos, a população da cidade russa, Odessa, decide apoiar os mesmos organizando-se em praça pública e realizando protestos contra o czarismo. A fim de evitar manifestações de grandes proporções, a tropa czarista massacra todos os rebeldes, aumentando ainda mais a revolta dos amotinados que acabam reunindo cada vez mais aliados em prol de sua causa.

Bronenosets Potyomkin – Trailer:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=LDKKN-KILIY&hl=pt-br&fs=1]

Crítica:

Certa vez, ao comentar sobre “O Escafandro e a Borboleta”, mencionei que na próxima ocasião em que me fosse questionada uma posição sobre o que viria a ser, verdadeiramente, Arte, eu aconselharia que o filme de Julien Schnabel fosse assistido, pois, desta forma, a pessoa poderia ter uma idéia mais clara de como realmente seria a minha resposta. Entretanto, falando (ou escrevendo, como ocorre agora) objetivamente, creio que Arte vem a ser o modo como uma pessoa (no caso, o artista) externa os seus sentimentos de maneira individual ou global, tomando por base o mundo em que vive (vale utilizar também um outro mundo qualquer para tal, contanto que sejam empregadas metáforas que nos remetam, direta ou indiretamente, ao mundo onde vivemos, como é o caso de “O Senhor dos Anéis”, para citar apenas um exemplo). Em “O Encouraçado Potenkim” o roteirista e diretor Sergei Eisenstein certamente fez Arte, pois externou toda a sua visão com relação ao sentimento esquerdista característico da Rússia de 1925.

Tomando como pano de fundo a revolta dos amotinados a bordo do cruzador Potenkim, em 1905 (período em que o povo russo ainda era subordinado a um Czar), Eisenstein capta todo o sentimento anti-burguês que densamente marcou aquela época. O modo como o motim é retratado aqui faz com que todos nós sintamos na pele a mesma revolta que os marujos locais sentiam. Não há como não nos identificarmos com os mesmos e, de uma certa forma, nos transportamos para dentro da película, almejando fazer parte de toda a ação de uma forma direta. A luta dos protagonistas do filme inspira um sentimento de liberdade jamais visto no Cinema outrora (e confesso que, dentre os demais filmes a que já assisti (e isso inclui até mesmo as obras que foram posteriormente produzidas a “O Encouraçado Potenkim”), nenhum outro inspirou-me tal sentimento de um modo tão profundo). É a Luta de Classes marxista elevada à sua máxima potência, é a justa revolta de marujos trabalhadores contra seus oficiais autoritários, é o vital e direto embate entre classe baixa e classe alta, operários e burgueses, subordinados e subordinantes.

A direção de Eisenstein é um ponto que torna a temática do filme ainda mais forte do que ela já é por si só. Realizando ângulos fantásticos durante a obra inteira (repare no modo como o diretor posiciona a câmera e cria várias tomadas aéreas durante o motim, ou na maneira como o mesmo foca, em uma única tomada, a clássica cena em que centenas de pessoas descem desesperadamente a escadaria de Odessa), o cineasta russo também mostra total competência no que diz respeito à riqueza de detalhes de “O Encouraçado Potenkim”, conforme ocorre na seqüência em que, a fim de oferecer ao espectador uma prévia justificativa dos atos que os amotinados viriam a cometer, o diretor realiza um estratégico close em um pedaço de carne sorteado de vermes, retratando o quão inumanos eram os maus tratos pelos quais os marinheiros da época passavam (a propósito, há uma seqüência, logo no início do filme, onde vemos todos os marinheiros dormindo em um cômodo extremamente desconfortável e apertado; uma cena parecida com esta viria a ser utilizada no início de “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo” com o mesmo propósito). Vale citar também o cuidado que Eisenstein atribui a uma outra cena cujo propósito também é preparar o espectador para uma revolta que viria a acontecer. Refiro-me, é claro, à seqüência em que os amotinados enviam o corpo de um marinheiro que fora morto, pelo simples fato de reivindicar comida, às praias de Odessa. Tal cena viria a causar a revolta de milhares de pessoas que passariam a se aliar aos amotinados do Potenkim e, juntos destes, se revoltariam contra as autoridades locais, fato que deu origem ao conhecido massacre nas escadarias de Odessa.

E já que mencionei tal seqüência, não há como deixar de conferir um único parágrafo deste texto apenas para descrevê-la individualmente. Se “O Encouraçado Potenkim” conta com um motivo (além dos demais que já foram supracitados e de alguns outros que virão a ser citados mais tarde) que, definitivamente, colaborou para que o mesmo fosse imortalizado, este motivo diz respeito à chocante crueldade conferida em sua mais clássica cena: “o massacre nas escadarias de Odessa”. Imagine você, caro leitor, vivendo no ano de 1925, em uma época onde o Cinema possuía exatos 30 anos de existência e, mesmo já tendo produzido, há dez anos atrás, um épico violento (e não digo “violento” no sentido visual da palavra, mas sim no que diz respeito à forte descriminação racial inserida no contexto do filme) do naipe de “O Nascimento de
uma Nação”, se depara com algo tão frio e cruel quanto o massacre civil realizado pelas autoridades russas em Odessa. Não é de se estranhar que tal seqüência tenha marcado gerações inteiras, afinal de contas, é algo que nos transmite repulsas e aflições até mesmo nos dias atuais (imagine então na época em que o longa fora lançado, onde o Cinema era bem mais, digamos, puro e inocente). A dramaticidade de tal cena (que fora reproduzida anos mais tarde em um formato um pouco diferente no longa “Os Intocáveis”) se torna ainda mais poderosa após vermos uma mãe carregando nos braços o filho, que acabara de ser pisoteado, suplicar clemência às tropas czaristas, que não se conscientizam com o pedido. A propósito, se alguém me pedisse para citar uma única imagem que resumisse o filme inteiro, esta certamente seria a eleita.

Por fim, encerro este texto comentando outro aspecto que fez de “O Encouraçado Potenkim” um longa inovador e marcante: a edição do mesmo. Sobrepondo inúmeras imagens a fim de construir uma narrativa seqüencialmente estruturada, Eisenstein cria aqui uma revolucionária edição que conclui magistralmente a manipuladora (e digo isto no sentido positivo da palavra) função de conferir ao seu público o sentimento de afronta que o cineasta realmente desejava transmitir ao mesmo. “___ E tal manipulação não torna o filme todo um tanto o quanto parcial?” ___ Me pergunta o astuto leitor. E eu respondo esta pergunta empregando, para tal, uma outra pergunta: “___ Existe uma forma de retratar tal barbárie de modo imparcial?”. Seria o mesmo que exigir de Steven Spielberg uma abordagem imparcial do holocausto retratado em “A Lista de Schindler”. E, neste caso, Eisenstein não apenas criou uma verdadeira obra-prima, como também, da mesma forma que Steven Spielberg, colaborou imensamente com a humanidade, possibilitando que um dos atos mais imbecis que a nossa espécie já fora capaz de cometer ficasse eternamente gravado em nossas mentes, para que assim façamos o possível a fim de evitar que barbaridades de tal natureza venham a ocorrer novamente.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

Matar ou Morrer – ***** de *****

Matar ou Morrer (High Noon, 1952, de Fred Zimmermann) – ***** de *****

O leitor provavelmente já deve ter visto em algum outro filme, série de televisão, ou até mesmo desenho animado, uma cena onde uma pessoa adentra um saloon empurrando a porta com toda a força, ou então alguma outra seqüência onde um indivíduo, após ter sido provocado dentro de um bar, desfere um soco em seu desafeto iniciando uma rixa no estabelecimento comercial, ou então alguma outra cena onde a câmera realiza um horizontal travelling acompanhando lateralmente o trajeto do mocinho e do bandido antes destes iniciarem um duelo. Pois é, todas estas seqüências foram originalmente exibidas no clássico western de Fred Zinnemann, “Matar ou Morrer”, lançado oficialmente em 1952.
O bang bang tem como principal atrativo o clima extremamente tenso que ele passa ao espectador logo no início. Em seus primeiros minutos já sabemos que a situação que o Marshall (uma espécie de delegado federal) Will Kane se encontra é de extrema urgência. A partir de então, temos uma estória contada em tempo real (outra inovação no Cinema) onde cada minuto desperdiçado aparenta ser de uma fatalidade irreversível ao protagonista da estória. A eficiente edição de Elmo Williams e a direção de Fred Zinnemann, no entanto, conferem ainda mais tensão ao filme e revela-se imprescindível para o resultado final do mesmo. Repare, por exemplo, na inteligente decisão que o diretor toma ao, sempre que possível e conveniente, realizar um close in em um relógio, mostrando o ponteiro deste se movendo lentamente.
Os personagens também são magistralmente desenvolvidos, principalmente se levarmos em conta o pouco tempo que eles têm em cena, e o protagonista, interpretado por Gary Cooper, é o que mais se destaca neste quesito. Longe de ser o esteriotipado xerife durão dos filmes do gênero, Will Kane mostra algumas ressalvas quanto à sua valentia, como na cena em que um personagem lhe pergunta se está com medo de morrer e ele, humildemente, responde que sim. Mas o grande destaque, no que se refere à exploração do protagonista, está nas atitudes do mesmo. Afinal de contas, por que Kane simplesmente não vai embora da cidade, ao invés de confrontar os bandidos, uma vez que ele já se encontra aposentado? Seria por motivos morais? Motivos pessoais? Amor à profissão? Ou talvez seria para proteger a sua própria esposa? E já que mencionei a personagem de Gracy Kelly, devo atribuir um destaque especial a essa, cuja função no filme não é simplesmente ser a bela e meiga mocinha indefesa do mesmo, mas sim conter uma participação crucial no final do longa, quando o resultado do embate poderia ter sido completamente diferente, não fosse por sua intervenção. “Matar ou Morrer” é, de fato, o pai dos westerns xerife versus bandido e só isto já é o bastante para exigir de todo o cinéfilo uma conferida.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

A Lista de Schindler – ***** de *****

Voltando a postar na sessão de “Filmes Clássicos”, optei por reeditar este texto de “A Lista de Schindler”, que havia publicado no site Cinema em Cena a cerca de dois ou três anos atrás e postá-lo aqui no Papo Cinema. Entretanto, minha intenção não era assistir ao longa novamente, almejava apenas dar uma analisada no texto, mudá-lo em alguns pontos, e postá-lo, mas não resisti e acabei assistindo ao filme pela terceira vez em minha vida. A sensação não pôde ser diferente, mais uma vez me derreti em lágrimas ao final da obra-prima de Steven Spielberg (oras, homens também choram, e também possuem sentimentos, não?). Logo após o término da sessão, reli o meu texto e optei por alterá-lo em algumas partes. O resultado o leitor poderá conferir logo mais abaixo, onde não poupei elogios para explanar sobre um de meus quinze filmes prediletos.


Ficha Técnica:
Título Original: The Schindler’s List.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 1993.
Nacionalidade: EUA.
Tempo de Duração: 195 minutos.
Diretor: Steven Spielberg.
Roteirista: Steven Zaillian, baseado em obra-literária de Thomas Keneally.
Elenco: Liam Neeson (Oskar Schindler), Ben Kingsley (Itzhak Stern),Ralph Fiennes (Amon Goeth), Caroline Goodall (Emilie Schindler), JonathanSagall (Poldek Pfefferberg), Embeth Davidtz (Helen Hirsch), Malgoscha Gebel(Victoria Klonowska), Shmulik Levy (Wilek Chilowicz), Mark Ivanir (MarcelGoldberg), Béatrice Macola (Ingrid) e Andrzej Seweryn (Julian Scherner).

Sinopse: Oskar Schindler é um homem ganancioso, egoísta, totalitário e membro honorário do Partido Nazista. Um sujeito tão inescrupuloso que utiliza toda a sua malícia e o seu poder de persuasão para enriquecer-se cada vez mais através da guerra e do trabalho escravo judeu. No entanto, após assistir ao extermínio de um gueto judeu em uma cidade na Alemanha e se chocar completamente ao presenciar a maneira como estes eram tratados nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, Schindler muda completamente o seu modo de pensar e agir, a ponto de sensibilizar-se totalmente com a causa judia e criar uma lista gigantesca de trabalhadores judeus que viria a precisar para trabalhar em sua fábrica de armas. Com isto, Schindler gasta toda a sua fortuna a fim de comprar o maior número possível de trabalhadores judeus, fazendo assim com que os nazistas não os maltratem nos campos de concentração, providenciando com que estes tenham uma vida bem melhor e mais digna como funcionários de suas fábricas.

The Schindler’s List – Trailer:

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Crítica:

“A Lista de Schindler” é o tipo de filme que Steven Spielberg (“E.T. – O Extraterrestre”), infelizmente, não está acostumado a dirigir. Não que eu tenha algo contra os demais projetos do diretor estadunidense, mas, convenhamos, nenhum deles se equipara a este longa em questão.

Inicialmente, os produtores de “A Lista…”almejavam que o diretor do longa fosse Martin Scorsese (este que considero comosendo um dos ícones máximos da história do Cinema mundial). No entanto, odiretor ítalo-americano recusou a proposta alegando que um cineasta estadunidense descendente de judeus poderia capturar muito mais a alma e a essência do filme do que ele próprio capturaria. Foi aí que Scorsese recomendou Spielberg.
O resultado, por incrível que pareça, foi altamente positivo e, quando digo:“por incrível que pareça”, é porque não sou um grande fã do trabalho de Spielberg como diretor e confesso que o julgo ligeiramente superestimado pelopúblico e pela crítica. Devo dizer também que considero a direção deste pouco ousada e que os seus filmes sempre dependem muito de efeitos visuais para funcionarem bem.
Neste longa, no entanto, a proposta de Spielberg é totalmente diferente. Desta vez o diretor descendente de judeus abandona os efeitos especiais que estão presentes em 90% de seus filmes, e nos brinda com uma estória deveras interessante que, ao invés de ser focada em alienígenas, dinossauros e outras coisas do tipo, retrata fielmente o holocausto que os nazistas exerceram sobre os judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
A propósito, umdos maiores responsáveis pela fidelidade com que o longa aborda os verdadeiros acontecimentos históricos é Steven Zaillian que nos presenteia com um roteiro adaptado com perfeição (tanto que foi eleito pelos críticos de cinema do mundotodo como sendo o 49° melhor roteiro da história do Cinema, em uma pesquisarealizada recentemente) do livro de Thomas Keneally, também intitulado de “A Lista de Schindler”. E já que mencionei o livro de Keneally, gostaria de dizer que considero o roteiro adaptado de Zaillian ainda melhor que o livro original, já que este é muito mais dinâmico do que aquele.
Mas voltando à direção de Spielberg, devo dizer que o grande destaque desta vai para a maneira descritiva com que ele retrata, por trás de sua detalhista câmera, o modo desumano como os judeus eram tratados nos campos de concentração nazistas. Outro ponto positivo, com relação à direção do filme, é que em momento algum Spielberg apela para a violência gratuita, sendo que, caso adireção do filme fosse de Scorsese provavelmente o diretor ítalo-americano iria acabar apelando um pouco mais para as cenas de violência tornando o longa ligeiramente sensacionalista, fato que não acontece com Spielberg (por mais que eu seja fã incondicional de Scorsese, reconheço que Spielberg dirigiu “A Lista de Schindler” de um modo que fez com que o longa soasse bastante realista, cruel e, ao mesmo tempo, nem um pouco apelativo, fato que não acredito que teria ocorrido caso a direção fosse do ítalo-americano responsável por “Touro Indomável”).
As atuações magníficas por parte do trio principal de atores também acrescentam muito ao longa. Ralph Fiennes (“O Morro dos Ventos Uivantes”) encarna com maestria o cruel e insano comandante Amon Goeth, um homem que odeia os judeus acima de tudo, mas que ainda assim, acaba se apaixonando pela sua própria empregada doméstica, que vem a ser uma judia. Para tentar esconder o amor que sente por esta, Goeth espanca a moça com freqüência e sofre a cada dia mais com isso. São poucos os atores que conseguiriam interpretar um personagem com uma mente tão complexa como a de Goeth de maneira tão perfeita como Fiennes o faz aqui, e é por este motivo queconsidero a sua atuação uma das 50 melhores atuações masculinas de todos ostempos.

Ben Kingsley (“Gandhi”) também não fica muito atrás eencarna com extrema competência Itzhak Stern, realizando uma atuação completamente segura e convincente, figurando também entre as 50 melhores atuações masculinas da história do cinema.

No entanto, a melhor atuação do filme é, de longe, a de Liam Neeson (“Fé Demais Não Cheira Bem”), interpretando com uma incrívelperfeição o protagonista do filme, Oskar Schindler. Neeson encarna seu papel deuma maneira tão natural, que em momento algum a mudança de personalidade de Schindler soa de maneira artificial e falsa, algo que dificilmente seria obtido com tanta perfeição por qualquer outro ator que fosse. Particularmente, creio que a atuação de Neeson neste filme figura entre as dez melhores atuações masculinas da história do Cinema, e sim, encontr
o-me em pleno uso da razão quando afirmo isso.

A fotografia em preto e branco de Janusz Kaminski também é outro grande acerto do filme, já que confere ao mesmo um ar de profunda melancolia, fazendo com que o espectador se sensibilize ainda mais com as barbáries cometidas contra os judeus durante este assombroso episódio da história da humanidade.
A trilha-sonora de John Williams (que também assinou por “Star Wars” e “Indiana Jones”),por sua vez, figura facilmente entre as melhores e, ao mesmo tempo, mais tristes, da história do Cinema. O grande destaque para a trilha do filme ficacom a cena final (que sem dúvida alguma é uma das mais emocionantes já produzidas pela Sétima Arte), quando a música tema é colocada de fundo aumentando ainda mais os sentimentos de melancolia e de tristeza presentes no momento, enquanto os milhares de judeus, que escaparam do holocausto graças a Oskar Schindler, colocam várias pedras no túmulo do industrial alemão como uma formade gratidão a este.
“A Lista de Schindler” conta ainda com uma infinidade de cenas inesquecíveis, tais como: o massacre do gueto judeu, o extermínio de vários judeus nos campos de concentração, o espancamentoda empregada doméstica de Amon Goeth, os prantos desesperados de Schindler quando este lamenta por não ter trocado seu broche de ouro e seu carro pelavida de outros vários judeus (esta inclusive é a cena mais marcante da carreirade Liam Neeson), o cantarolar dos judeus sobreviventes ao holocausto enquanto estes caminham para uma nova vida após o término da guerra, além é claro, da magnífica cena que encerra o filme com chave de ouro: a homenagem que os judeus, salvos por Oskar Schindler, prestam a ele, depositando várias pedras simbólicas em seu túmulo (mencionei esta cena ao final do parágrafo anterior).
Quase tão memoráveis quanto às cenas supracitadas, são duas frases ditas pelo personagem de Ben Kingsley, que marcaram, e muito, o filme: “___ Esta lista é um bem absoluto. Esta lista… é a vida. Em volta das suas margens fica o abismo, a morte.” e “___ Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro.”.
Finalizando, este é o tipo de filme que aquece a alma de quem o assiste e nosleva a pensar que, por mais cruel que o mundo possa ser, sempre há uma boa pessoa disposta a arriscar tudo o que tem a fim de salvar milhares de vidas.
Em suma, “A Lista de Schindler” é um filme praticamente perfeito, onde todos os realizadores parecem ter se esforçado ao máximo a fim de obter um magnífico resultado final, que é justamente o que acaba acontecendo. A direção de Spielberg é detalhista e não contém quaisquer apelos que seja, as atuações do elenco não poderiam ser melhores, o roteiro de Zaillian foi perfeitamente bem adaptado do livro, a trilha-sonora de Williams está entre as melhores e mais tristes da história do Cinema e a fotografia em preto e branco de Kaminski realça ainda mais a melancolia que a película almeja nos passar.
Completando o parágrafo acima, “A Lista de Schindler” não só é o melhor trabalho de toda a carreira de Steven Spielberg como também se revela um dos melhores filmes já realizados até então. É uma verdadeira lástima que Spielberg não dirija mais películas deste tipo e com a mesma competência demonstrada aqui.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

Crítica – Um Cão Andaluz

Já que publiquei a crítica de um dos curtas-metragens mais importantes não apenas da história do Cinema Mudo como também da história do Cinema em si, creio que seja extremamente conveniente publicar a crítica do curta-metragem mais importante de todos os tempos (fato que eu discordo plenamente, apesar de considerar o filme uma obra-prima dadaísta). É claro que estou falando de “Um Cão Andaluz” dirigido por Luis Buñuel e roteirizado por ele e, ninguém mais ninguém menos, que Salvador Dali, considerado o pintor mais importante do Surrealismo. Tentar encontrar um sentido para o filme em si certamente é algo inconcebível, pois este não possuí sentido algum. Provavelmente Buñuel e Dalí almejavam criar uma nova linguagem para o Cinema, ou então tentaram transportar o non-sense do movimento Dadaísta e Surrealista à Sétima Arte. Enfim, independentemente de qual foi a intenção de ambos, o curta é, no mínimo, inovador e só isto faz com que ele mereça ser conferido.

Ficha Técnica:
Título Original: Un Chien Andalou.
Gênero: Fantasia.
Tempo de Duração: 16 minutos.
Ano de Lançamento (França): 1929.
Direção: Luis Buñuel.
Roteiro: Salvador Dali e Luis Buñuel.
Produção: Luis Buñuel.
Música: Wagner.
Edição: Luis Buñuel.
Direção de Arte: Pierre Schild.
Fotografia: Albert Duverger e Jimmy Berliet.
Elenco: Simonne Mareuil (esposa) e Pierre Batchef (marido).

Sinopse: Através de um roteiro altamente não-linear, Luis Buñuel e Salvador Dali retratam o relacionamento de um casal contando com uma forte pintada de surrealismo, dadaísmo e, acima de tudo, criatividade.


Un Chien Andalou – Trailer

Crítica:

O Ministério da Saúde adverte: tentar encontrar um sentido lógico para “Um Cão Andaluz” pode causar distúrbios mentais e levar um indivíduo à loucura”. Este é o tipo de advertência que deveria ser introduzida na abertura da obra-prima de Luis Buñuel. “Um Cão Andaluz” é o tipo de filme em que o espectador, de maneira alguma, pode esperar uma resolução lógica para tudo o que está vendo. Considerado o curta-metragem mais revolucionário e importante da história do Cinema, o filme de Buñuel foi rodado durante o chamado, período “entre-guerras”. Nesta época, a Arte encarava o mundo como sendo algo sem propósito, sem nexo, desfragmentado. Como um país do porte da Alemanha poderia almejar arriscar toda a sua economia investindo em uma guerra megalomaníaca contra, praticamente, todo o resto da Europa? Havia tido início a Primeira Guerra Mundial, daí para frente o mundo e, principalmente, a Arte, jamais seriam os mesmos. Artistas como Pablo Picasso, Wassily Kandinsky, Gustav Klimt, Edward Münch, Juan Miró, Marc Chagall, Jackson Pollock, Marcel Duchamp e Salvador Dali (este último, inclusive, junto com Luis Buñuel assinou o roteiro do curta) simplesmente ignoraram os conceitos de Arte defendidos outrora por Leonardo da Vinci, Jacques Louis David e William Turner, dando preferência a um estilo de pintura tão desconexo quanto o mundo em que viviam, adotando assim, uma Arte mais desfragmentada. Portanto, ao assistir a este curta, é importante que se valorize apenas a originalidade e a criatividade de Buñuel e Dali, a ousadia de ambos ao tentar criar uma nova linguagem cinematográfica e a maneira perfeita como a trilha-sonora de Wagner se mescla com o que é exibido na tela realizando um casamento perfeito entre som e imagem, evitando assim exigir uma explicação lógica para cenas como: um olho sendo cortado por uma navalha, um punhado de formigas saindo das mãos de uma pessoa ou uma mulher sendo atropelada por um carro que surge do nada. Particularmente, não sei dizer se aprecio ou não o filme de Buñuel, mas que é Arte, isso é.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

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