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Alphaville – ***** de *****

alphaville

Crítica:

Certa vez afirmei (e o fiz há muito tempo atrás, antes mesmo de criar o “Cine-Phylum”, para que vocês possam ter uma noção) que, se algum dia o extraordinário “Admirável Mundo Novo”, obra-prima literária de 1932 do escritor inglês Leonard Aldous Huxley, fosse fidedignamente adaptado às telonas, teríamos então a maior obra cinematográfica da história da sétima Arte. Ao afirmar isso, contudo, não sabia da existência deste “Alphaville”, que sim, em muito me lembrou o livro de Huxley. Mas antes de realizar quaisquer analogias que seja, vamos falar da obra em questão e da pessoa responsável por ela: o genial Jean-Luc Godard.

Uma palavra resume bem este mestre do cinema: inovação. Seja como crítico de cinema, seja como cineasta, Godard sempre fez questão absoluta de inovar, seja para o bem, seja para o mal (e mesmo que adore “Je Vous Salue, Marie”, admito que a direção de Godard, por mais inovadora que tenha sido naquele filme, acabou se revelando exagerada e desnecessariamente estilizada). Em “Alphaville”, o mais importante diretor francês de todos os tempos, fez uso de vários aspectos do cinema de ficção científica e do cinema noir para que assim pudesse obter um resultado bastante completo. Reavivando o clássico detetive à lá Dick Trace e inserindo-o em um contexto futurista pouco e, ao mesmo tempo, muito convencional, Godard aposta alto em uma mistura que assustaria a qualquer espectador que se possa imaginar. Afinal de contas, um personagem como Lemmy Caution está para um filme de ficção científica assim como o Dr. Von Braun está para um filme gângster saído diretamente dos anos 1.930.

E essa salada de gêneros e gerações com aspecto visual pouco convidativo (e é claro que não me refiro ao aspecto visual diegético da obra, mas sim à estranha aparência que esta salada cinematográfica abstrata entre ficção científica / filme policial noir possui), mas palatavelmente digerível, reflete praticamente toda a carreira de Godard: um gênio ousado, inovador, intrépido, impertinente e que sempre une aspectos do passado com o presente, visionando assim um futuro mais do que aceitável na grande maioria de seus filmes. “Acossado” é a maior prova disso. Em sua obra-prima máxima, Jean-Luc pega características de um Humphrey Bogart oriundo de “O Falcão Maltês”, soma com aspectos sui generes, insere-o em um drama romântico existencialista protagonizado por um casal bastante desconexo, mas muito comum para a época e, com isso, estuda os típicos relacionamentos amorosos desestruturados que viria tomar conta de nosso mundo atual.

Em “Alphaville” a estória é praticamente a mesma. Godard extrai a premissa Homem versus máquina pertencente à obra-prima máxima de Fritz Lang, “Metrópolis” (muitos acreditam que “M – O Vampiro de Düsseldorf” seja mais digno deste título, mas continuo preferindo a ficção científica de 1.926 ao pai dos policiais noir de 1.931), soma esta com o seu toque especial de sempre, mescla o fruto de tudo isso com o cinema noir e diversos aspectos criados com o surgimento da nouvelle vague e, como resultado final, temos uma obra-prima excepcional que já nasce bem a frente de seu tempo.

Quanto mais os anos se desenrolam, mais “Alphaville” se torna moderno, verossímil, plausível de ser absorvido dentro de nosso contexto real. Quanto mais as décadas se desenvolvem, mais percebemos que as máquinas estão se tornando o lobo do Homem. Mais intensamente podemos notar o quão o criador passou a depender de sua cria. Nesta magistral ficção-científica, Godard deixa tudo isso extremamente claro, nos apresentando a uma cidade futurista, mas com um visual extremamente parecido com a Paris dos anos 1.960 (o que resulta em um grande acerto do filme, afinal de contas, é muito mais pertinente, aqui nesta trama, a criação de um futuro cujas evoluções tecnológicas não trazem benefício algum à humanidade), onde o cérebro do governo é representado pelo supercomputador Alpha 60, o irmão mais velho ou, de repente, o pai de Hal 9000 de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, que controla a “galáxia” (assim como é chamada no filme) inteira.

Não basta-se o fato de a sociedade toda ser controlada por este supercomputador, os habitantes da cidade de Alphaville ainda são proibidos de sentir quaisquer tipo de emoção que seja. Todas as pessoas aqui são obrigadas a unicamente trabalhar e nada mais. Não há questionamentos (jamais diga “por que”, diga apenas “porque”), não há liberdade de expressão, não há sentimentos (“Por que o mataram?” ___ Pergunta uma pessoa. A outra responde: “___Porque ele chorou a morte da esposa.”), não há nem mesmo a Arte. Não há absolutamente nada que fuja, ainda que de soslaio, da razão, da mais pura ciência e do enfadonho e cíclico cotidiano, que em hipótese alguma pode ser questionado.

Alphaville é o lar dos alienados, das pessoas que não possuem alma, que não possuem emoções, que não possuem vida e nem sentido. Uma cidade aterrorizantemente dominada pela falta de propósito individual, onde cada cidadão constitui apenas um número, um mero parafuso que permite com que a máquina do Estado continue funcionando corretamente. O Sistema controla a tudo e a todos, e as pessoas são apenas meros órgãos vitais, mas que podem ser substituídos a qualquer instante e que colaboram para com a sobrevivência do mesmo, sem obter quaisquer gratificações por isso.

Assim como em “Admirável Mundo Novo”, “Alphaville” também é tomado por pessoas que nada mais são do que meras ferramentas aprisionadas em um sistema político-econômico exacerbadamente totalitário, onde todas as regras da fria Teoria Clássica da Administração, idealizadas por Henry Fayol, são adotadas ao extremo, transformando operários em indivíduos literalmente descartáveis.

E já que mencionei a obra literária encantadoramente redigida por Huxley no parágrafo acima, como não comparar a conversação ocorrida entre Caution e o computador Alpha 60 (um dos melhores e mais instigantes diálogos da história do cinema, diga-se), ocorrido durante o segundo ato da projeção, com a confabulação entre o Selvagem e o Diretor do Centro de Incubação, descrito pouco antes do término da leitura de “Admirável Mundo Novo”? O formato do colóquio é diferente, mas o conteúdo é praticamente o mesmo. Se no livro o Selvagem defende William Shakespeare, nas telas o personagem Lemmy Caution defende a poesia em si (“___ O que transforma as trevas em luz?” ___ Pergunta a máquina. O homem responde: “___ A poesia.”), no que nos soa como uma clara referência de Godard à inerência de um mundo recheado com a sua maior paixão: a Arte.

Fortemente enriquecido por uma direção de arte fantástica, que, mesmo embasada na Paris dos anos 1.960, consegue nos remeter à idéia de um futuro não tão distante, “Alphaville” ainda funciona como um excepcional exercício de edição e direção (destaque para a tomada aérea que Godard realiza a fim de filmar uma perseguição automobilística), mas não restam dúvidas de que o forte desta obra-prima da ficção-científica reside mesmo em seu magistral roteiro que tece as mais ferrenhas críticas que se possa imaginar a um mundo onde o excesso de razão acaba criando uma sociedade sem propósito, sem sentido, sem conteúdo e fortemente enraizada nos conceitos tayloristas e fayolistas de administração, ou seja, um mundo não muito diferente do que vivemos hoje em dia, onde as máquinas, que são as nossas crias, parecem ter nos escravizado definitiva e indiretamente. Se em 1.959 Jean-Luc Godard fez de seu “Acossado” um divisor de águas para o cinema, em 1.965 ele fez a mesma coisa com “Alphaville”, sendo que, neste último, o genial cineasta acabou sendo mais específico já que, voluntária ou involuntariamente, transformou a sua obra em um divisor de águas do gênero ficção-científica, fazendo com que o mesmo concretiza-se visivelmente a função de “ponte” para obras inesquecíveis do gênero, bem como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Blade Runner – O Caçador de Andróides”. Peca apenas em seu “happy end”, com direito a “___ Je vous aime!” e outros aspectos hollywoodianos a mais. Não que o desfecho seja fraco ou desconexo, longe disso, mas um “sad end” certamente frisaria muito mais a mensagem que a obra nos apetece passar e fazer-nos refletir.

Obs.: O nome do conjunto habitacional composto por cerca de cinqüenta mil habitantes, situado na cidade de Barueri, estado de São Paulo, e destinado a pessoas com um nível social mais… digamos… confortável (entre eles muitos artistas (artistas?!) famosos, nacionalmente falando), trata-se de uma clara referência à obra cinematográfica analisada há pouco.

Obs. 2: Anna Karina, que faz par com o ator estadunidense Eddie Constantine, era a esposa do cineasta francês Jean-Luc Godard durante a época em que o filme foi lançado.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

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