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Boa Noite, e Boa Sorte – ***** de *****

Assisti a este filme, junto de um amigo meu, durante este último mês de julho enquanto encontrava-me de férias universitárias. Segundo este meu amigo, o filme era obrigatório a todas as pessoas que se dizem apaixonadas por Direito Processual Civil (o que não é o meu caso, já que faço curso de Direito, mas confesso não nutrir a menor paixão pelo mesmo, diferentemente dele que cursa e ama incondicionalmente a matéria) e por Jornalismo (este sim um curso que me atrai muito mais e passará a ser prioridade minha assim que encerrar a faculdade de Direito). Enfim, locamos o filme e durante uma noite de terça assistimos ao mesmo. Confirmei que o longa era realmente quase tão sensacional quanto ele afirmara, com a diferença de que não achei-o perfeito, conforme o leitor poderá conferir no texto a seguir.

Ficha Técnica:
Título Original: Good Night, and Good Luck.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 93 minutos.
Ano de Lançamento (EUA): 2005.
Estúdio: Warner Independent Pictures / 2929 Productions / Redbus Pictures / Section Eight Ltd. / Metropolitan / Participant Productions / Davis-Films / Tohokashinsha Film Company Ltd.
Distribuição: Warner Bros.
Direção: George Clooney.
Roteiro: George Clooney, baseado em roteiro de Grant Heslov.
Produção: Grant Heslov.
Fotografia: Robert Elswit.
Desenho de Produção: James D. Bissell.
Direção de Arte: Christa Munro.
Figurino: Louise Frogley.
Edição: Stephen Mirrione.
Elenco: David Strathairn (Edward R. Murrow), Robert Downey Jr. (Joe Wershba), Patricia Clarkson (Shirley Wershba), Ray Wise (Don Hollenbeck), Frank Langella (William Paley), Jeff Daniels (Sig Mickelson), George Clooney (Fred Friendly), Tate Donovan (Jesse Zousmer), Thomas McCarthy (Palmer Williams), Matt Ross (Eddie Scott), Reed Diamond (John Aaron), Robert John Burke (Charlie Mack), Grant Heslov (Don Hewitt), Alex Borstein (Natalie) e Rosie Abdoo (Millie Lerner).
Sinopse: Edward R. Morrow (David Strathairn) é um âncora de TV que, em plena era do macarthismo, luta para mostrar em seu jornal os dois lados da questão. Para tanto ele revela as táticas e mentiras usadas pelo senador Joseph McCarthy em sua caça aos supostos comunistas. O senador, por sua vez, prefere intimidar Morrow ao invés de usar o direito de resposta por ele oferecido em seu jornal, iniciando um grande confronto público que trará consequências à recém-implantada TV nos Estados Unidos.
Good Night and Good Luck – Trailer:

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Crítica:
Filmes do tipo “Boa Noite e Boa Sorte” representam o estilo de filme que eu mais detesto criticar. Assim como “Forrest Gump – O Contador de Estórias”, “Chinatown” e “Nascido Para Matar”, este longa bem dirigido por George Clooney não possui um defeito propriamente dito, mas ainda assim não pode ser rotulado como “perfeita obra-prima” (apesar de eu reconhecer que ele possa ser rotulado como uma “pequena obra-prima”, mas nada além disso). Sei que está soando exacerbadamente paradoxal de minha parte afirmar que um filme, apesar de não possuir defeitos, não poder ser considerado perfeito, mas foi a estranha sensação que tive ao assistir a este “Boa Noite e Boa Sorte” e, sinceramente, não há sensação que me cause mais incômodo na condição de crítico de Cinema do que esta.
“Boa Noite e Boa Sorte” é um filme dificílimo de ser analisado, principalmente na pele de um brasileiro que não está completamente a par dos acontecimentos que se sucederam na época (e mesmo pesquisando bastante a respeito do protagonista do longa (encontrei, inclusive, no site Wikipédia, um texto em inglês e de seis páginas de Word (ou Open Office, caso o usuário utilize o Linux como Sistema Operacional) sobre a vida deste), não obtive tanta informação quanto gostaria de ter obtido a fim de me possibilitar um prévio conhecimento de causa antes de analisar o filme em si (algo que sempre faço antes de assistir a um filme histórico, ou uma biografia, como é o caso desta obra). E falando nisso, talvez seja este o maior, ou provavelmente o único, problema com o filme: o fato de seu foco estar voltado mais aos seus contemporâneos do que ao restante da população mundial.
Sim, da mesma forma como “Forrest Gump – O Contador de Estórias” (que em uma grande ironia citei no intróito deste texto) se mostra um filme voltado mais à população estadunidense (já que o restante da população mundial não conhece, necessariamente, a estória daquele país asqueroso nos mínimos detalhes), “Boa Noite e Boa Sorte” conta com a mesma falha: se revela um filme feito de estadunidenses para estadunidenses. “___ Mas qual o problema nisso?” ___ Me pergunta o leitor. O problema é que o longa não conseguiu definir o seu público alvo. “Boa Noite e Boa Sorte” foi um filme vendido para o mundo todo, só que o roteiro esqueceu-se de que pouquíssimas pessoas têm um prévio conhecimento da estória que irá abordar, sendo assim, o filme simplesmente arremessa o espectador na trama e proporciona duas opções a este: ou ele se familiariza com a mesma (que no meu caso, acabou dando certo, pois adoro jornalismo político (conforme citei na pré-crítica) e já havia tido um prévio, embora não suficiente, estudo sobre o protagonista) ou simplesmente desiste de tentar compreender o que está assistindo, o que é uma pena, tendo em vista que o filme é extraordinário.
Explicando o meu raciocínio de maneira exemplificada, diria que o longa não faz como “Tróia” (e confesso ser uma heresia comparar uma porcaria épica destas com o sensacional longa de George Clooney, mas a analogia torna-se necessária aqui), por exemplo, onde temos uma prévia explicação antes do intróito do filme sobre o que se passava naquela época e os motivos pelos quais os personagens do filme encontravam-se naquela situação. Talvez o roteiro deste “Boa Noite e Boa Sorte”, apesar de ser voltado a um público mais intelectual ao de “Tróia”, devesse ter realizado algumas explanações sobre o período em que os Estados Unidos da América se encontrara naquela época: a caça às bruxas organizada pelo repugnante senador do estado do Wisconsin: Joseph McCarthy e à maneira como Edward R (‘R’ de Roscoe) Murrow conduziu uma série de reportagens e comentários que conduziram à cassação do mandato do mesmo.
Traçando um perfeito paralelo à situação em que os Estados Unidos se encontravam na época de seu lançamento (refiro-me à impossibilidade de um estadunidense ir de encontro aos ideais de um dos piores presidentes da história dos Estados Unidos da América, o incompetente George W. Bush, e ser alcunhado de simpatizante do terrorismo), o longa merece ser aplaudido de pé por trazer à tona a polêmica discussão entre o senador e o jornalista supracitados. E por mais fria que seja
a postura adotada pelo longa a fim de retratar tal disputa (afinal de contas, a obra não poderia, sob hipótese alguma, deixar de ser parcial), não há como não se empolgar com o mesmo, principalmente quando este se volta às críticas que Murrow realiza contra McCarthy em seu programa See It Now e o roteiro magnificamente bem escrito por George Clooney, baseado em um outro roteiro composto por Grant Heslov, se mostra imprescindível para a elaboração de tal teor político da trama, já que os diálogos por ele apresentados são secos, ríspidos, ácidos e altamente aprofundados, além de realçarem bastante a tensa discussão política sugerida.
Mas as qualidades do roteiro não se resumem apenas aos diálogos entre os personagens do longa, ou aos monólogos proferidos por Murrow, ou ainda ao forte clima de tensão política abordada aqui. O trabalho de Clooney como roteirista também prima por explorar o seu protagonista da maneira mais eficaz o possível, abordando Murrow da maneira como ele realmente era: um sujeito extremamente sério, comprometido com o serviço, intrépido e um apaixonado pela defesa dos direitos cívicos.
A atuação de David Strathairn como Edward R. Murrow também não poderia ser mais concisa e real. Adotando aqui uma composição que muito me remeteu à frieza de Al Pacino como Michael Corleone em “O Poderoso Chefão – Parte II” e à facilidade de disparar diálogos ásperos de Humphrey Bogard em “Casablanca”, encarnando o papel de Richard Blane, o californiano Strathairn realiza uma atuação mágica, fazendo jus à indicação ao Oscar® de Melhor Ator em 2005. As demais atuações também são soberbas, em especial o ótimo Robert Downey Jr. como Joe Wershba.
George Clooney, como diretor, também se mostra eficiente e, apesar de não criar nenhum ângulo fantástico com as câmeras ou de não realizar nenhuma movimentação realmente satisfatória com as mesmas, o astro do Kentucky realiza um trabalho firme e consistente, seguindo bem de perto o roteiro que fôra concebido por ele mesmo. Conseguindo nos remeter todo o clima de angústia presente na época (entre outubro de 1953 e maio de 1954), causado, sobretudo, por dois fatores: a opressão que o projeto “Caça às Bruxas”, liderado por Joseph McCarthy, impusera às pessoas que iam de encontro aos ideais do senador e à falta de liberdade de expressão que a imprensa tinha na época, Clooney utiliza diversos artifícios extremamente eficazes a fim de mergulhar o espectador dentro do filme, dentre os quais destaco a angustiante fotografia preto e branco (algo que eu detesto quando é utilizada em filmes contemporâneos, mas neste caso caiu muitíssimo bem de acordo com a proposta do longa).
O grande destaque da produção, contudo, fica por conta da maneira como o mesmo opta por abordar à importância que um jornalismo realmente competente possui para a política do país e o modo como a ausência deste colabora negativamente com o progresso de uma nação. Através de uma direção detalhista e de um roteiro bem explorado, “Boa Noite e Boa Sorte” apresenta fortes críticas às frivolidades jornalísticas que são apresentadas com o intento de alienar o público (não sei porque, mas lembrei-me do programa “Fantástico” agora. Por que será?) e à dificuldade que um profissional disposto à apresentar um jornal de credibilidade sofre diante de uma sociedade fútil e consumista (repare nas cenas em que o longa nos apresenta a Murrow tendo de comandar um programa extremamente leviano, à lá “TV Fama”, a fim de obter recursos financeiros com este e poder produzir o politizado “See It Now”. Fazendo uma analogia mais palpável de ser absorvida em nossos cotidianos, Murrow fazia a mesma coisa que o excelente Paulo Henrique Amorim realiza atualmente como profissional: apresenta um programa fútil na Record (com um carisma peculiar, diga-se) a fim de poder financiar o jornalismo inteligente abordado em seu excelente site: o “Conversa Afiada”).
Em suma, “Boa Noite e Boa Sorte” é um filme independente de curtíssimo orçamento (US$ 7,5 milhões) e que em um curtíssimo prazo de duração (93 minutos) conseguiu a façanha de se mostrar eficaz e detalhista o bastante a fim de retratar todo um embate político ocorrido entre um gigante das comunicações e um outro gigante da política, resultando, inclusive, na cassação do mandato deste como senador. George Clooney realiza uma direção discreta, embora eficiente, o roteiro do longa aborda toda a crise vivenciada durante a época, incluindo a total falta de liberdade de expressão, sobretudo de imprensa e David Strathairn encarna Edward Roscoe Murrow de um modo magistral, merecendo, e muito, a indicação ao Oscar de Melhor Ator que obteve em 2005. Infelizmente o longa conta com um defeito (e sinceramente, não sei se posso chamá-lo de defeito): a dificuldade que o mesmo tem em familiarizar o público com a estória, já que torna-se altamente recomendável que o mesmo tenha um razoável conhecimento sobre os personagens que compõe a trama. No mais, temos aqui um excelente filme e uma aula de jornalismo verdadeiro e lição cívica.
Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

O Escafandro e a Borboleta – ***** de *****

Há alguns filmes que mexem conosco de uma forma, digamos, pessoal. Este “O Escafandro e a Borboleta”, por exemplo, me remeteu a uma lembrança bem parecida com a experiência passada pelo protagonista: as reflexões deste durante o seu período de internação hospitalar. Não, o meu caso nem passou perto dos problemas que Jean-Dominique Bauby teve de enfrentar, mas a semana em que fiquei internado no hospital serviu, ao menos, para que eu pudesse repensar a minha vida e dar mais valor a mesma, assim como o personagem de Mathieu Amalric o faz neste longa. Tendo em vista isso, foi impossível eu não criar uma relação pessoal com a obra magistralmente dirigida por Julian Schnabel.

Ficha Técnica:
Título Original: Le Scaphandre et le Papillon
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento (França / EUA): 2007
Site Oficial: http://www.lescaphandre-lefilm.com/
Estúdio: Pathé Renn Productions / France 3 Cinéma / Canal+ / Région Nord-Pas-de-Calais / The Kennedy/Marshall Company / C.R.R.A.V. Nord Pas de Calais / Ciné Cinémas / Banque Populaire Images 7
Distribuição: Miramax Films / Europa Filmes
Direção: Julian Schnabel
Roteiro: Ronald Harwood, baseado em livro de Jean-Dominique Bauby
Produção: Kathleen Kennedy e Jon Kilik
Música: Paul Cantelon
Fotografia: Janusz Kaminski
Desenho de Produção: Michel Eric e Laurent Ott
Figurino: Olivier Bériot
Edição: Juliette Welfling
Elenco: Mathieu Amalric (Jean-Dominique Bauby), Emmanuelle Seigner (Céline Desmoulins), Marie-Josée Croze (Henriette Durand), Anne Consigny (Claude), Patrick Chesnais (Dr. Lepage), Niels Arestrup (Roussin), Olatz Lopez Garmendia (Marie Lopez), Jean-Pierre Cassel (Lucien / Vendeur Lourdes), Marina Hands (Joséphine), Max von Sydow (Papinou), Isaach De Bankolé (Laurent), Emma de Caunes (Imperatriz Eugénie), Jean-Philippe Écoffrey (Dr. Mercier), Nicolas Le Riche (Nijinski), Lenny Kravitz (Lenny Kravitz) e Michael Wincott (Michael Wincott).

Sinopse: Baseado em fatos reais, “O Escafandro e a Borboleta” narra a vida de Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), editor da revista francesa Elle, após este sofrer um derrame cerebral e, conseqüentemente, ter todos os músculos de seu corpo paralisados, salvo os músculos que movimentam o olho esquerdo. Jean-Do (como é chamado intimamente) aproveita o tempo em que se encontra internado no hospital para refletir sobre a sua vida e logo que aprende a se comunicar “piscando letras do alfabeto” decide escrever um livro, com a ajuda de uma enfermeira, narrando esta terrível passagem de sua vida.
Le Scaphandre et le Papillon – Trailer:

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Crítica:

Desde que dei início à redação de críticas de Cinema (no intróito de 2.006), sempre mantive o conveniente costume de avaliar um filme (seja ele qual for) do ponto de vista artístico. Por este motivo, talvez, tenham me perguntado em um determinado dia qual seria a minha definição sobre Arte. Confesso ter ficado sem resposta exata a tal pergunta, mas subjetivamente respondi que Arte era a ferramenta com a qual um artista poderia demonstrar um sentimento seu tomando por base o mundo em que vive.

E é justamente isso o que Julian Schnabel realiza neste “O Escafandro e a Borboleta”, uma obra-prima deveras sensorial, capaz de captar com maestria os sentimentos de solidão, angústia, vazio, depressão e medo de um homem que, após sofrer um fortíssimo derrame cerebral, se depara com os movimentos do corpo todos paralisados, salvo os movimentos de seu olho esquerdo, que possibilitam com que este possa se comunicar com as demais pessoas apenas “piscando letras do alfabeto”. Em outras palavras, Schnabel cria aqui uma verdadeira obra-de-arte.

Realizando um casamento perfeito entre direção e fotografia, Julian Schnabel e Janusz Kaminski (respectivamente: diretor e diretor de fotografia do filme) criam um dos primeiros atos mais inesquecíveis da história do Cinema. Infelizmente, o roteirista Ronald Harwood não colabora muito quando decide prolongar demais (e desnecessariamente, diga-se) a primeira parte do filme. Mas antes de citar os defeitos do longa, peço permissão ao caro leitor para mencionar as qualidades deste que, certamente, encontram-se em maior número.

Conforme havia informado acima, o casamento entre direção e fotografia de “O Escafandro e a Borboleta” funciona da maneira mais perfeita o possível durante o primeiro ato da obra. A fim de conferir o máximo de naturalidade possível à mesma, Schnabel adota a câmera em primeira pessoa (a mesma utilizada por Alfred Hitchcock no sensacional “Janela Indiscreta”), assumindo assim os “olhos” do protagonista, fazendo com que tudo seja exibido ao espectador da maneira mais verossímil o possível.

Kaminski, por sua vez, proporciona a nós, sortudos espectadores, uma fotografia que extrapola os limites da perfeição, alternando entre vários tons de cor, conforme o estado psíquico e/ou físico em que o protagonista se encontra. Só para mencionar alguns exemplos, após acordar do derrame cerebral pela primeira vez, a fotografia toma os devidos cuidados para que o espectador tenha a impressão de que Jean-Dominique Bauby (protagonista do filme) está com a visão inteiramente embaçada. Por outro lado, a fim de demonstrar ao espectador que o protagonista não se mostra capaz de permanecer com o olho aberto por muito tempo, Kaminski vai proporcionando tons cada vez mais escuros à fotografia conforme Jean-Do “luta” a fim de evitar com que o seu olho se cerre, demonstrando o quão exaustivo é tal esforço, caso o mesmo se prolongue por mais do que alguns míseros segundos.

Juliette Welfling, responsável pela (soberba) edição do longa, também merece ser aplaudida de pé. Assim como a direção e a fotografia colaboram muito para que o filme seja altamente impactante, não apenas mantendo a naturalidade da obra, como também encarnando no espectador todo o sentimento do protagonista, a edição possui praticamente as mesmas funções e só para que o leitor possa ter uma idéia do que estou afirmando, durante os minutos iniciais do longa, nas cenas em que Jean-Do encontra-se com a memória quase que totalmente baqueada, Welfling emprega cortes rápidos, a fim de retratar os lapsos memoriais do protagonista.

Infelizmente o roteiro não se mostra tão eficiente quanto a fotografia, a edição e a direção do longa se mostram. Não, em momento algum afirmei que o mesmo deixa de ser excelente, o trabalho de Ronald Harwood apenas não se mostra tão perfeito quanto o trabalho dos demais artistas envolvidos com a obra. Durante o primeiro ato (sempre o primeiro ato, mas fazer o quê? Ele é o grande diferencial da obra), por exemplo, o roteiro parece fazer questão de retratar em demasia o processo de tratamento de Jean-Do, algo que acaba não contribuindo tanto para a conclusão da obra. Se Harwood tivesse sido mais objetivo no
início do filme e aproveitado para se aprofundar mais durante o final do mesmo, certamente a experiência teria sido ainda melhor do que ela já foi.

Para finalizar, aproveito o gancho do primeiro parágrafo, acerca da pergunta sobre o que vem a ser Arte, e informo que, da próxima vez que me fizerem tal questionamento, respondê-lo-ei da seguinte maneira: “___ Assista a “O Escafandro e a Borboleta” e terá a concepção exata do que vem a ser Arte”.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito – ** de *****

Apesar de detestar veementemente o demagogo Partido da Social Democracia Brasileira, vulgo PSDB, reconheço que a Secretaria Estadual da Cultura do Estado de São Paulo tomou uma atitude que teve total aprovação de minha parte: a distribuição de ingressos gratuitos para que o povo tenha livre acesso às salas de cinema que estiverem exibindo filmes nacionais. Ganhei um destes e optei por assistir a este “Bezerra de Menezes”. Os motivos? Simples, o filme narra a estória de um homem que, apesar de ser cristão fervoroso (todos aqueles que me conhecem pessoalmente, ao menos um pouco, sabem do total repudio e escárnio que nutro pela hipocrisia contida na moral cristã) lutou, sempre que possível, em prol dos mais necessitados. Outro motivo que justifique a minha escolha pelo longa? Carlos Vereza é, para mim, o melhor ator brasileiro de todos os tempos. Isso mesmo, considero-o o Marlon Brando tupiniquim, não só pelos maneirismos adotados em suas atuações como também pela qualidade das mesmas. Algo simplesmente fenomenal. Visto isso, como eu poderia deixar de assistir a um filme que traz até nós um personagem extremamente complexo e idealista, interpretado pelo meu ator brasileiro favorito? Pois é, uma pena, no entanto, que o filme esteja muito (mas muito mesmo) aquém das qualidades de ambos.


Ficha Técnica:
Título Original: Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.bezerrademenezesofilme.com.br/
Nacionalidade: Brasil.
Tempo de Duração: 88 minutos.
Diretor: Glauber Filho e Joe Pimentel.
Roteiristas: Andréa Bardawill e Luciano Klein.
Elenco: Carlos Vereza (Bezerra de Menezes), Magno Carvalho (Bezerra de Menezes Jovem), Lucas Ribeiro (Bezerra de Menezes Criança), Cláudio Raposo (Antonio Adolfo Bezerra de Menezes), Juliana Carvalho (Dona Fabiana), Mirelle Freitas (Maria Cândida), Alexandra Marinho (Cândida Augusta), Ana Rosa (Irmã de Bezerra de Menezes), Everaldo Pontes (Soares), Larissa Vereza (Cunhada de Bezerra de Menezes), Lúcio Mauro (Líder do centro espírita), Pedro Domingues (Senhor Materialista), B. de Paiva (Doutor Leopoldino), Taís Dahas (Hermínia), Fernando Piancó (Pai de Hermínia), Ana Cristina Viana (Mãe de Hermínia), Cristiane de Lavôr (Maria do Carmo), Rodger Rogério (Padre exorcista), Renato Prieto (Pedinte), WJ Solha (Freire Alemão), Robério Diógenes (Altino), Romário Fernandes (Estudante), Andrea Piol (Mãe aflita), Fernando Teixeira (Deputado Gaspar Drumond), Rutílio Oliveira (Deputado Andrade Figueira), Tarcísio Pereira (Médium João Gonçalves do Nascimento), João Dantas (Médico Mário Lacerda), Nanda Costa (Senhora), Fernando Catoni (Farmacêutico), Caio Blat (Militar) e Paulo Goulart Filho (Militar).

Sinopse: Bezerra de Menezes é proveniente de uma família rica e tradicional do sertão do Ceará e mesmo possuindo mais luxos e maior poder aquisitivo que os seus demais contemporâneos, sempre se mostrou uma pessoa humilde e disposta a lutar pela causa dos mais necessitados. Era o melhor aluno de sua classe e aos 8 anos já lecionava para os demais colegas. Mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade onde cursou faculdade de Medicina e tornou-se um profissional bastante influente e respeitado na área, desenvolvendo, inclusive, teses sobre o câncer. Sua influência proporcionou-lhe uma carreira política bastante marcante e conturbada, onde viu-se possibilitado a lutar a favor da total abolição dos escravos no Brasil. Mas o seu maior trunfo foi como doutrinador religioso, onde o mesmo conseguiu divulgar a muito custo uma religião que era alvo de muitos preconceitos na época: o espiritismo. Chegou a receber a alcunha de: “Allan Kardec brasileiro”.
Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito – Trailer:

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Crítica:

Ao redigir a minha última crítica, antes desta que inicia-se agora, lembro-me de ter mencionado que “Era Uma Vez na América” tratava-se de uma obra onde Sergio Leone, assim como na grande maioria de seus filmes, optava por substituir uma gama de diálogos gigantescos por silêncios semi-completos cujas imagens significavam muito mais do que mil palavras proferidas de maneira ininterrupta. Neste “Bezerra de Menezes…” acontece justamente o contrário e nós, espectadores, acabamos nos vendo diante de uma obra do cinema nacional que conta com muito diálogo para pouca imagem.
Durante os apenas 88 minutos de projeção testemunhamos um filme que não se preocupa, salvo em raros casos, em exibir fatos da vida do personagem-título que poderiam dramatizar mais a vida deste, colaborando assim para uma relação público-protagonista muito mais concreta. Ao invés disso, a interessante, embora cansativa e não muito pormenorizada, narrativa in off feita por Carlos Vereza comete o equívoco de imaginar ser capaz de cativar o espectador substituindo cenas que poderiam realçar mais a formação ideológica do Dr. Bezerra de Menezes por breves comentários sobre os fatos marcantes na vida do mesmo. Desta forma, não fica bem esclarecido os motivos que o levaram a ser militante político, ou a ser médico, ou até mesmo a adotar o espiritismo como religião, uma vez que é obviamente necessário que o roteiro faça uso de recursos muito mais consistentes na abordagem do personagem.
A curta duração da obra dirigida por Glauber Filho e Joe Pimentel também se mostra um forte empecilho na realização de um trabalho mais minucioso. Como realizar uma ampla abordagem sobre um personagem que teve uma infância em um lugar tão pouco produtivo e ainda assim conseguiu se destacar nas mais diversas áreas (e temos que concordar que, mesmo provindo de uma família rica, é extremamente difícil alguém prosperar tanto na vida sendo natural de um lugar tão miserável quanto o que Bezerra de Menezes nasceu) em apenas 88 minutos? Como narrar ao público a importância que o considerado Allan Kardec brasileiro teve para a propagação da doutrina espírita no país em tão pouco tempo de filme? Simplesmente impossível, um esforço narrativo amplamente vazio.
O tom propagandístico adotado pela obra também se revela um grave defeito da mesma. Além de se mostrar altamente parcial e tendencioso, procurando fazer o possível e o impossível a fim de provar que o espiritismo é, definitivamente, a religião mais correta a ser seguida, o filme se mostra exacerbadamente preconceituoso com relação ao ateísmo. Logo no início do longa-metragem somos obrigados a ouvir diálogos que dão a entender que os céticos são pessoas infelizes e que jamais terão salvação. Não bastasse isso, o roteiro, em momento algum, se propõe a realizar debates religiosos de maneira fortemente fundamentada, vide a discussão entre o protagonista do filme e um ateu que lhe questiona, só para se ter uma idéia da fragilidade da obra. A defesa que Bezerra de Menezes exerce é absurdamente risível e os fundamentos utilizados por este durante tal cena poderiam ser facilmente rebatidos por qualquer criança de sete anos de idade (contanto que a mesma fosse atéia, o que seria improvável vindo de uma pessoa com tão pouca experiência de vida), bastaria esta dizer: “___ Se o materialismo nunca salvou pessoa alguma, o que representam os medicamentos, os materiais de enfermagem e as vacinas? São ferramentas do espírito no combate contra enfer
midades? Foi Deus quem proporcionou diretamente ao Homem tais avanços medicinais?”.
Mas os problemas não param por aí. A pieguice do longa também é algo extremamente incomodante, como podemos testemunhar na exagerada cena onde o protagonista entrega o seu anel de formatura a uma paciente visando cobrir os gastos que esta viria a ter com medicamentos para curar uma enfermidade de seu filho. Falando nisso, chega a dar nos nervos ver o modo como o roteiro desenvolveu o seu protagonista. Bezerra de Menezes certamente era uma pessoa de índole ilibada, mas provavelmente, assim como toda e qualquer pessoa, contava com um ou outro desvio de caráter, ou vocês, caros leitores, realmente acreditam que o cearense era esse “robô” destinado a fazer exclusivamente o bem, conforme mostra o filme?
Não bastasse toda a pieguice mostrada em cena, tanto pelas circunstâncias criadas pelo roteiro quanto pela caracterização do personagem-título, a trilha-sonora colabora ainda mais para tal demonstração negativamente efusiva de melancolia. Adotando o barato truque de comover o espectador produzindo acordes tristes, o trabalho de Ítalo Maia se revela um tanto o quanto pífio e piegas (ao invés de atribuir uma carga dramática mais conveniente à trama), algo que se mostra gritantemente prejudicial à avaliação final da obra.
A essa altura o leitor já deve estar imaginando que o filme é um desastre total, não? De fato o mesmo conta com inúmeros e imperdoáveis defeitos, mas não há como negar os acertos deste. A direção de arte, por exemplo, é extremamente simples, mas acerta em cheio ao reproduzir o período histórico almejado (no caso, final do século XIX e início do século XX), principalmente pela utilização de móveis e imóveis carregados de detalhes típicos da época. O figurino também conta com os mesmas características da direção de arte e ajuda a engrandecer muito a obra.
A narrativa in off apresenta graves falhas conforme já fora dito anteriormente, contudo, não há como deixarmos de notar a formalidade oratória com que a mesma fora construída. Palavras do nível de “clarividência” são freqüentemente utilizadas aqui, conferindo à narração um tom fortemente poético (e quem lê os meus textos há algum tempo já sabe o quanto eu valorizo termos gritantemente rebuscados), mas o que mais engrandece a mesma é, incontestavelmente, o tom de voz que Carlos Vereza adotou a fim de construí-la.
Falando no ator, é de sua atuação que vem a maior qualidade e o maior diferencial do filme. Apesar de não estar tão carismático e expressivo quanto esteve em outras obras que contavam com a sua participação (incluindo filmes, peças teatrais e telenovelas), “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito” se privilegiou com a experiência deste que considero o melhor ator brasileiro de todos os tempos, o que acabou contribuindo bastante para a construção de um personagem tão importante quanto este, fato que o roteiro demonstrou total incompetência ao tentar fazê-lo.
É lamentável, no entanto, notarmos que o roteiro, a direção, e vários outros aspectos técnicos e artísticos de “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito” estão visivelmente aquém do brio de seu ator principal e de sua principal fonte de inspiração: o Allan Kardec brasileiro. Uma lástima, dois grandes gênios da história de nossa nação, sendo um da teledramaturgia e outro da medicina e da religião, mereciam um filme bem mais condizente com o talento de ambos.
Avaliação Final: 4,0 na escala de 10,0.
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