Posts Tagged ‘Cinema Inglês’

Fahrenheit 451 – **** de *****

Ontem (sexta feira, 03 de abril de 2009) estive conversando com o Radamés pelo MSN um assunto bem diferente de política, história, cinema, brasileiros versus argentinos (assim como vem ocorrendo no post “Che – O Argentino”), ou qualquer outra coisa que a gente está acostumado a conversar. Realizamos uma breve discussão sobre a objetividade presente nos alunos do Curso de Direito. Existem leis, os acadêmicos simplesmente as estudam sem jamais questiona-las, utilizam a máxima de que: “as leis foram feitas para serem cumpridas, e não discutidas”, e ponto (e ainda me perguntam porque abandonei o curso de Direito). Ironicamente, comprei neste mesmíssimo dia o DVD de “Fahrenheit 451” por míseros R$ 12,99 (que se tornam ainda mais míseros face à grandeza da obra de Truffaut) e decidi assiti-lo. Me surpreendi quando passei a notar que a trama debatia justamente sobre uma sociedade tomada pelo pragmatismo racional e pelas objetividades da vida, o que tinha tudo haver com o assunto em que havia debatido com o Radamés na tarde deste dia.

Ficha Técnica:
Título Original: Fahrenheit 451.
Gênero: Ficção Científica.
Tempo de Duração: 112 minutos.
Ano de Lançamento: 1966.
Nacionalidade: Inglaterra.
Direção: François Truffaut.
Roteiro: Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury.
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Linda / Clarisse), Cyril Cusack (Capitão), Anton Diffring (Fabian), Anna Palk (Jackie), Ann Bell (Doris), Caroline Hunt (Helen), Jeremy Spenser, Bee Duffell, Alex Scott e Michael Balfour.

Sinopse: Em um futuro não muito distante, os “bombeiros” tem uma função bem diferente da de apagar incêndios e resgatar pessoas correndo sérios riscos de vida. Estes profissionais tem apenas a função de localizar e destruir qualquer espécie de obra literária existente, alegando que as mesmas são propagadoras da infelicidade, pois oferecem às pessoas uma vida que estas não podem ter e as tornam insatisfeitas com suas existências convencionais. Um destes bombeiros, Guy Montag (Oskar Werner), passa a questionar tais atos quando é influenciado pelos ideais de Clarisse (Julie Christie) e presencia a morte da tia da moça, que prefere ser incinerada a ver-se afastada de seus livros.

Fahrenheit 451 – Trailer:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=tV_bzEh5bCQ&hl=pt-br&fs=1]

Crítica:

É com esta frase de Albert Einstein que início a crítica de “Fahrenheit 451”:

“Um raciocínio lógico o leva de A a B. A imaginação o leva a qualquer lugar que desejar”

Imagine então um mundo sem livros. Agora me responda, seria possível imortalizarmos pessoas ou acontecimentos históricos sem a existência destes? E se não imortalizássemos estas pessoas e estes acontecimentos históricos, o mundo seria o que ele é hoje?

O que seria de nosso planeta sem a Guerra de Independência estadunidense? O que seria da Guerra de Independência estadunidense sem a Revolução Francesa? O que seria da Revolução Francesa sem os Ideais Iluministas? O que seriam dos Ideais Iluministas sem o Renascimento Cultural? O que seria do Renascimento Cultural sem a Cultura Romana? O que seria da Cultura Romana sem a Cultura Grega? Enfim, se seguirmos esta trilha, perceberemos facilmente que o mundo não seria absolutamente nada.

E qual seria a melhor forma de registrar tais acontecimentos e passa-los às gerações posteriores? Através de livros, não? Afinal de contas, se George Washington não houvesse lido frases do tipo: “Liberté, Egalité, Fraternité”, de Jean-Jacques Rousseau, não teríamos uma Declaração de Independência proferida por ele, teríamos? Se Che Guevara e Fidel Castro não tivessem acesso a nenhum livro sobre Marxismo, não teríamos a Revolução Cubana, teríamos?

Pois é, mas voltemos à questão proposta no início desta análise cinematográfica: imaginemos um mundo sem livros. Ray Bradbury imaginou e escreveu um livro onde as pessoas vivem em um futuro não muito distante, em que o governo é totalitário e, a fim de evitar manifestações populares inspiradas em ideais libertários registrados em livros, decidem queimar todo o tipo de publicação literária existente no mundo. Jean-Louis Richard e François Truffaut, assim como Bradbury, também conseguiram imaginar um mundo assim e adaptaram a obra escrita para o Cinema. O resultado? Um filme muito acima da média, certamente.

A antevisão de Bradbury, Truffaut e Richard ganhou vida nas telonas e nos apresentou a um futuro extremamente plausível. A subordinação popular aqui não é tão visível como era no perfeito “Metropolis”, mas não há como deixar de notá-la. Mulheres são escravas da beleza e de frivolidades impostas pela televisão, bem como telenovelas, e os homens são meros escravos do trabalho. Todos vivem objetivamente, todos realizam apenas o que tem de ser realizado e só. Não há questionamentos acerca de sua existência, não há pessoas sonhadoras, não há nada, apenas racionalidade e objetividade. Se algo é desse modo, é porque ele tem que ser desse modo, e ponto final.

E é neste mundo frio que nos deparamos com uma sociedade ainda mais decadente e execrável da qual, lastimavelmente, fazemos parte atualmente. As pessoas são simplesmente estúpidas e condenam os livros por julgarem que estes as tornam infelizes e as levam a experiências pelas quais jamais irão passar na realidade. Logo, aceitam um estilo de vida insosso, convencional e sem grandes perspectivas. A diversão aqui é propagada por programas televisivos interativos, mas intelectualmente vazios, sem nada a acrescentar à existência de qualquer indivíduo que seja.

Em suma, no ano de 1966 Truffaut levou aos cinemas uma cópia semi-fiel do que o mundo viria a ser em 2009, algo que nem mesmo Fritz Lang, Stanley Kubrick, Michael Radford, Ridley Scott e James Cameron conseguiram fazer com tanta perfeição (o que não quer dizer que o longa de Truffaut seja necessariamente o melhor do gênero, pois está muito longe, mesmo, de merecer tal título).

Quanto aos demais aspectos o filme também se sai muito bem. A fotografia é muitíssimo bem empregada, bem como a direção de arte que cria cenários muito parecidos com as nossas casas atuais (e sejamos francos, quem, em plenos anos 1960, iria julgar plausível a existência de televisões de plasma, iguais às que o protagonista tem em sua sala de estar?), o que dá ao filme um indispensável toque de verossimilhança.

Os atores também saem-se muito bem em seus respectivos papéis. Eles são inexpressivos? Sim, mas convenhamos, podemos esperar que, em uma sociedade onde a razão literalmente impera, os indivíduos que a compõem consigam demonstrar quaisquer expressões que sejam? É claro que não. O destaque no elenco fica por conta de Julie Christie que, como sempre, conta com a sua talentosa inexpressividade. A atriz sente dificuldades ao se expressar (assim como o fizera no excelente “Dr. Jivago”), mas o modo como entona todas as suas frases é o diferencial de sua atuação. Através do tom de voz que emprega, conseguimos perceber o tipo de emoção que ela deseja transmitir (a propósito, a personagem Clarisse é uma das poucas não-racionais em “Fahrenheit 451”, uma vez que ela pode ser taxada de subversiva). A propósito, costumo dizer que Christie é a versão feminina de Peter O’Toole.

Truffaut, como já era de se esperar, faz em “Fahrenheit 451” um trabalho excepcional. Além de recriar magistralmente o futuro pouco inspirador do livro de Bradbury, o diretor realiza um trabalho fascinante por trás das câmeras, conferindo total dinamicidade à obra utilizando “closes ins” a todo instante. Truffaut também mostra total eficiência através dos “travellings” com os quais acompanha os seus personagens, mas o grande destaque de sua direção acaba mesmo ficando com o vazio emocional presente na mesma, algo imprescindível para um filme que visa, dentre muitas outras coisas, criticar o excesso de racionalidade de uma sociedade decadente.

O diretor francês deixa a sua marca registrada em “Fahrenheit 451” pela forma como transportou para a sétima arte a clássica cena em que Doris (Ann Bell) é queimada viva, junto com a sua casa e sua gigantesca coleção de livros.

Mas nem tudo funciona perfeitamente bem no filme em questão. Se Truffaut realiza aqui um dos melhores trabalhos de sua mais do que vitoriosa carreira, ele também comete algumas pequenas falhas, como incluir uma cena em que alguns policiais perseguem o protagonista Montag (Oskar Werner) sobrevoando uma lagoa pendurados por cabos de aço amarrados em helicopteros. A sequencia é bem curta, mas constrangedora o bastante, devido ao modo como a montagem é mal realizada. E não adianta se desculparem alegando que na época não havia condições de produzirem efeitos visuais mais bem feitos, pois “Metropolis” era a prova viva de que a cena poderia ter sido menos tosca e mais realista.

Os erros do filme, infelizmente, não se resumem a uma única cena mal feita. De forma alguma, vão muito além disso. O final de “Fahrenheit 451” se revela bastante deplorável e jamais faz jus ao restante da trama. Se nos dois primeiros atos da obra nos eram apresentadas fortes críticas ao excesso de racionalidade contido em uma determinada sociedade, no terceiro ato o filme cai em sua própria armadilha, quando chegamos à uma colônia onde pessoas subversivas decoram um determinado livro e, logo em seguida, o queima para livrarem-se de provas. Francamente, não sei se um final nestes moldes foi a intenção do roteiro ou não, mas caso tenha sido, o culpado é o próprio filme, e não este que vos escreve que não foi capaz de entendê-lo. Oras, se em uma sociedade moldada nos dois primeiros atos do filme as pessoas nada mais eram do que meros números, o que dizer então da sociedade moldada no terceiro ato? Existe maior racionalidade do que uma pessoa decorar um livro inteiro para depois poder queimá-lo?

Mas é como eu mesmo disse, pode ser que o filme tenha a total intenção de criar um desfecho extremamente racional, para utilizar-se de uma espécie de cinismo a fim de nos fazer crer que, no fim, tudo acabou bem, quando, na verdade, não foi o que aconteceu e as pessoas continuaram na mesmíssima situação, só que em um formato um pouco diferente.

Enfim, caso seja isso, desconsiderem os meus apontamentos e passem a considerar o filme perfeito.

Avaliação Final: 8,7 na escala de 10,0.

Na Mira do Chefe – *** de *****

Certa vez, pouco antes de dar-se início à Copa do Mundo de 2002, comentava com o meu pai que o Brasil, felizmente, não iria levar a taça para casa em virtude de sua péssima campanha nas Eliminatórias anterior (os motivos pelos quais torcia contra a Seleção Brasileira (e ainda torço veementemente contra e, francamente, sempre torci e sempre torcerei contra a mesma) explico em uma ocasião mais apropriada, mas é claro que o leitor, sagaz como é, já deve ter deduzido que tem algo relacionado à alienação em massa proporcionada pela mesma). Ele, por sua vez, disse que as chances do Brasil faturar o troféu eram enormes, pois se a Seleção encontrava-se fraca naquele momento, as outras equipes estavam igualmente medíocres (e desta vez falo no sentido pejorativo da palavra, e não na qualidade de mediano como sempre costumo fazer) e tinham ainda menos chances de vencerem a Copa. O que isto tudo tem a ver com “Na Mira do Chefe”? Bem, com o filme em si, nada, mas com a sua participação no Oscar, tudo. Se “Na Mira do Chefe” está concorrendo ao aclamado Oscar de Melhor Roteiro Original e já arrematou vários outros prêmios importantes para a sétima Arte, é porque 2008 foi um ano vergonhoso para o Cinema e, na falta de coisa melhor, premia-se a primeira obra diferente que se vê pela frente, mesmo esta se revelando uma produção apenas na média e nada mais.

Ficha Técnica:
Título Original: In Bruges
Gênero: Comédia.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.inbruges.co.uk/
Nacionalidade: Inglaterra e Bélgica.
Tempo de Duração: 107 minutos.
Direção: Martin McDonagh.
Roteiro: Martin McDonagh.
Elenco: Colin Farrell (Ray), Brendan Gleeson (Ken), Ralph Fiennes (Harry Waters), Clémense Poésy (Chloë), Jérémie Renier (Eirik), Thekla Reuten (Marie), Jordan Prentice (Jimmy), Elizabeth Berrington (Natalie), Eric Godon (Yuri), Sachi Kimura (Imamoto), Anna Madeley (Denise) e Ciarán Hinds (Padre).
Sinopse: Harry Waters (Ralph Fiennes), chefe de um grupo de matadores de aluguel, envia dois de seus profissionais, Ray (Colin Farrell) e Ken (Brendan Gleeson), a Bruges, uma cidadela medieval localizada na Bélgica. Ken, um intelectual de carteirinha, logo se apaixona pela arquitetura gótico-medieval local e a importância histórica que tem a cidade. Ray, um rapaz estúpido e inculto, não consegue partilhar com o amigo a mesma opinião. Em primeiro lugar, porque ele não se adapta ao local, uma vez que é o típico jovem boêmio e cidades pacatas não lhe agradam nem um pouco, em segundo lugar, porque carrega consigo o trauma de uma missão mal-sucedida, e isto lhe pesa a consciência de um modo que passa a ter sérias dificuldades para se distrair.

In Bruges – Trailer:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=GJa2_ZmsAj8&hl=pt-br&fs=1]

Crítica:

Ao contrário do que muitos podem imaginar, inclusive os(as) senhores(as), a profissão de crítico de Cinema não é das mais fáceis, muito menos, das mais gratificantes. Uma coisa é “brincar” de crítico e poder escolher os filmes os quais serão objetos de crítica, outra coisa é você se ver obrigado a assistir a uma penca de filmes os quais não assistiria em uma ocasião normal. Por este motivo, creio que os críticos da sétima Arte passam tanto tempo assistindo a tanta asneira que o Cinema, mormente Hollywood, nos “empurra” que, ao verem uma produção um pouco diferente das demais, já elevam esta a um patamar muito mais alto do que realmente merece ser elevada. Quando o gênero em pauta então é a comédia, nem se fale. Tendo em vista que a grande maioria dos filmes que passam pelos cinemas, sobretudo os cinemas chinfrins, são as comédias, é mais do que natural que as produções desta espécie sejam as que mais confiram títulos ruins ou péssimos (como é o caso da maioria) ao mercado cinematográfico (tanto que, na grande maioria das vezes, os “vencedores” do Framboesa de Ouro são os filmes de comédia).

Aí surge um “Na Mira do Chefe”. Um filme que, aparentemente, tenta ser diferente, fugir dos clichês habituais do gênero, trazer o novo à pessoas que já estão fartas do “mais do mesmo”. De fato, a produção consegue o fazer com certo êxito, não se tenha nem dúvidas, mas isso não quer dizer necessariamente que seja um filme lá muito bem sucedido. O leitor deve-se lembrar de quando eu mencionei, ao escrever sobre “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que todo o filme que tente inovar, por pior que seja, merece o mínimo de respeito, não se lembra? Pois é, mas por outro lado, ao comentar o fraco “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte” mencionei que, muitas vezes, na tentativa de inovar (no caso desta comédia romântica, ela tenta inovar muito pouco, muito pouco mesmo), o filme acaba se revelando ainda pior do que se revelaria caso seguisse os tradicionalismos de sempre. Ainda assim mantive a minha opinião costumeira e conferi alguns pontos extras ao longa dirigido por Howard Deutch pela tentativa (ainda que falha) deste inovar.

E quanto a “Na Mira do Chefe”? Bem, o mesmo não conseguiu obter o mesmo êxito que “Onde os Fracos Não Têm Vez” obteve, mas ao menos não se revelou tão falho quanto “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte” se revelou. Muito longe disso. Assim como o filme de Martin McDonagh está longe de ser ótimo, excelente ou perfeito, ele também está longe de ser péssimo, ruim, ou apenas razoável. “Na Mira do Chefe” se revela, durante a maior parte de seu tempo, uma produção satisfatória, agradável, mas apenas isso. Aí surge um aglomerado de críticos rasgando seda para o filme, dizendo que o mesmo é uma nova obra-prima da comédia de humor negro. Festivais como o Globo de Ouro e o Bafta atribuem prêmios importantíssimos ao longa e o Oscar ainda o indica na categoria de Melhor Roteiro Original. Oras, sejamos racionais. Será que o Cinema está tão decadente a ponto de um filme merecer tanto crédito por ser, apenas, diferente?

O longa começa muito lento, com muito pouco ritmo. Piadas fracas vão surgindo, como a cena em que o personagem de Colin Farrell zomba de uma família obesa. O roteiro vai, cada vez mais, nos apresentando a situações que não fazem o filme levantar vôo (e já nem me lembro (e nem quero) mais se vai acento circunflexo no primeiro ‘o’ ou não) de maneira alguma. Os atores até que fazem a sua parte, realizam grandes atuações, sobretudo Colin Farrell que trabalha muito bem (muito bem mesmo). O diretor Martin McDonagh também faz um bom trabalho, apesar de realizar algo que particularmente não me atrai nem um pouco: criar uma espécie de cartão-postal da cidade de Bruges ao dar ênfase demais aos pontos turísticos da mesma. Não que a cidade não mereça ser enfocada, muito pelo contrário, Bruges é encantadora. A eficiente fotografia empregada por Eigil Bryld torna a paisagem e a arquitetura locais ainda mais belas de serem admiradas por nós, espectadores (a propósito, quando sai o próximo vôo para a Bélgica? Gostaria de poder apreciar a sua arquitetura de perto.). Entretanto, quando um filme começa a dar muita ênfase ao cenário ou a paisagem do local em que a trama se desenrola, sempre suspeitem de uma coisa: o mesmo está tentando suprir a falta de conteúdo de seu roteiro com a beleza visual de suas locações. E “Na Mira do Chefe”, lamentavelmente, faz isso
com certa frequência.

Passam-se os minutos. Os personagens de Farrell e Gleeson vão se revelando mais cativantes, mas ainda assim não há como não notarmos o modo artificial com que o roteiro desenvolve o protagonista Ray. Após ter sido contratado para eliminar um padre, Ray, involuntariamente, acerta uma pessoa inocente e acaba tirando-lhe a vida (e não vou descrever que espécie de pessoa era essa que o protagonista matou involuntariamente, sob pena de tirar o peso dramático da cena). O fato confere um trauma terrível ao personagem, que sofre fortes ameaças de entrar em profunda depressão e, até mesmo, cometer suicídio. Contudo, se a consciência do protagonista era tão pesada assim, como ele podia se revelar tão radiante e despreocupado no início do filme, quando conheceu Chloë (Clémense Poésy) e passou a paquerá-la? E por mais linda que a moça seja (e ela realmente é), acredito que isso não seria argumento o suficiente para que ele pudesse simplesmente esquecer-se do ocorrido. Logo, o roteiro falha gritantemente (isso para não dizer “berrantemente”) ao abordar esta alteração de humor constante do protagonista do modo mais indelicado o possível.

Felizmente, temos os personagens secundários do filme. Estes sim são construídos de um modo extremamente interessante. Variamos desde o skinhead assaltante até o chefe de quadrilha que conta com um código de ética fortíssimo (o qual jamais quebra) e passamos pelo anão racista, pela narcotraficante internacional e muitos outros personagens completamente curiosos. Aliás, desde que assisti ao ótimo “Snatch – Porcos e Diamantes” não via uma gama tão vasta de personagens bizarros e hilários quanto neste “Na Mira do Chefe”. E o roteiro sabe os utilizar de um modo realmente magistral, inserindo-os em situações tão absurdas quanto eles mesmos o são.

Os diálogos do longa também são fenomenais e a mesmíssima citação que fiz ao comentar o ótimo “Frost/Nixon”, faço ao comentar esta obra de McDonagh: “Gostaria de destacar também os diálogos do filme. Confesso que, durante alguns momentos, as falas de seus personagens me remeteram à deliciosa sensação de estar assistindo a um filme roteirizado por Woody Allen”. Como não se esbaldar em gargalhadas ao ouvir coisas do tipo: “___ Havia uma época em que ser skinhead consistia em matar palestinos de 12 anos, mas hoje em dia parece ser um pré-requisito para ser gay.” e “___ Eu sou americano, mas por favor, não me culpe por isso.”.

Resumidamente, “Na Mira do Chefe” é um filme que não começa nada bem. Temos um protagonista deveras artificial, cujas mudanças de caráter não são estudadas pelo roteiro de um modo verdadeiramente satisfatório. O longa não tem ritmo em seu início, o senso de humor empregado demora bastante para funcionar e a direção de Martin McDonagh, à primo, parece se importar mais em criar uma sequência de cartões-postais da cidade de Bruges do que de conduzir o filme de um modo realmente aceitável. Tais falhas vão sendo corrigidas com o desenrolar da trama. O elenco é extremamente competente (o que já era de se esperar de um elenco encabeçado por profissionais excelentes como Colin Farrell, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes). Farrell realiza uma das melhores atuações de sua carreira e, se o roteiro é extremamente artificial na abordagem de seu personagem, ele nada tem a ver com isso. Sua atuação é cativante e convincente. Ralph Fiennes, então, nem se comenta. A sua presença é devastadora e, quando o mesmo entra em cena, o filme ganha uma força fora do comum. Surgem os personagens secundários, sujeitos dotados de características para lá de bizarras, hilárias, curiosas e interessantes. A trama vai criando situações engraçadas, mas no geral, o longa está há anos luz de merecer o prestígio que vem, exageradamente, recebendo. Um bom filme, apenas isso.
Avaliação Final: 7,0 na escala de 10,0.
Selecione um assunto
Arquivos
Siga-nos pelo Twitter