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Sinédoque, Nova York – **** de *****
Ficha Técnica:
Título Original: Synecdoche, New York.
Gênero: Drama.Tempo de Duração: 124 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: www.sonyclassics.com/synecdocheny
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Charlie Kaufman.
Roteiro: Charlie Kaufman.
Elenco: Philip Seymour Hoffman (Caden Cotard), Catherine Keener (Adele Lack), Sadie Goldstein (Olive – 4 anos), Robin Weigert (Olive – adulta), Tom Noonan (Sammy Barnathan), Josh Pais (Dr. Eisenberg), Daniel London (Tom), Robert Seay (David), Michelle Williams (Claire Keen), Stephen Adly Guirgis (Davis), Samantha Morton (Hazel), Hope Davis (Madeleine Gravis), Frank Girardeau (Plumber), Jennifer Jason Leigh (Maria), Paul Sparks (Derek), Daisy Tahan (Ariel), Timothy Doyle (Michael), Rosemary Murphy (Frances), Emily Watson (Tammy), William Ryall (Jimmy), Dianne Wiest (Ellen Bascomb / Millicent Weems), Joe Lisi (Maurice), Jerry Adler (Pai de Caden), Lynn Cohen (Mãe de Caden), Kat Peters (Ellen – 10 anos), Deirdre O’Connell (Mãe de Ellen) e Peter Friedman (Médico do setor de emergência).
Sinopse: Após ser abandonado pela esposa Adele (Catherine Keener) e pela filha Olive (Sadie Goldstein), o diretor de peças teatrais Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) passa a enfrentar uma série de conflitos existenciais que parecem não ter fim. Eis que o diretor ganha um relevante prêmio em dinheiro e decide criar uma peça teatral embasada totalmente em sua vida. É aí que o mesmo passa a refletir sobre toda a sua existência.
Synedoche, New York – Trailer:
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Crítica:
Não é fácil assistir a “Sinédoque, Nova York”, o mais novo filme do roteirista e, agora diretor, Charlie Kaufman. Contando com uma narrativa extremamente abstrata e que mescla constantemente realidade com fantasia (ou delírio, que seja), o longa revela-se um intrincado quebra-cabeças que exige do espectador um forte esforço intelectual, emocional e lógico (ou seria ilógico?), a começar pelo próprio título da obra.
É comum que algumas pessoas saiam dos cinemas se perguntando: “Mas afinal de contas, por que diabos este filme chama-se “Sinédoque, Nova York”?”. Confesso que eu mesmo já nem me lembrava mais dos mínimos detalhes das aulas ginasiais de
português, inclusive no que se refere à figuras de linguagem. Logo, admito que procurei o significado de tal palavra antes de assistir ao filme. Descobri, ou melhor, redescobri que o termo ‘sinédoque’ trata-se na realidade de uma metonímia que substitui um conjunto de objetos, pessoas, animais e etc… Citemos um exemplo: “Assisti a todos os “Godards” que se possa imaginar.” (MENTIRA!!!). Neste caso, a palavra ‘Godards’ refere-se diretamente a toda a filmografia do cineasta francês. Logo, “Sinédoque, Nova York” trata-se de um magistral título (e confesso que desde “O Escafandro e a Borboleta” não via um título ser tão bem adequado a um filme quanto este o é) que ilustra um pequenino pedaço da cidade de Nova York que possui a função de representar uma cidade inteira, ou, quem sabe, a nação inteira, ou até mesmo o mundo inteiro.
E é nesta sinédoque nova-iorquina que o brilhante roteiro de Kaufman desenvolve o seu protagonista: o diretor de teatro Caden Cotart (encarnado com maestria por Philip Seymour Hoffman, em uma das melhores atuações de sua carreira, comprovando definitivamente que é um dos melhores atores estadunidenses em ação). Assumindo a função artística de alter-ego de Kaufman, Cotart é a personificação do pessimismo. Portador de uma doença que causa envelhecimento de pele precoce, o protagonista passa boa parte da vida esperando o pior, imaginando que a morte baterá em sua porta muito antes do conveniente. O diretor então se torna uma pessoa cada vez mais depressiva e desacreditada. As coisas só vem a piorar quando a esposa do personagem principal utiliza uma exposição (ela é uma artista que pinta micro (isso para não dizer “nano”) quadros) em Berlin como tergiversação para abandona-lo definitivamente, e levar a filha embora consigo.
Cotart se torna um sujeito ainda mais propenso a ataques de melancolia e crises existenciais, mas decide curar as mesmas investindo em dois mal-sucedidos romances com Hazel (a bilheteira de seu teatro) e Claire (uma de suas atrizes prediletas). Nada funciona corretamente na vida de Cotart, e talvez seja aí que resida uma das grandes falhas do filme, nesta artificialidade com a qual o roteiro cria algumas situações exageradas a fim de desenvolver o seu principal personagem. O protagonista, além de ser portador das patologias supracitadas, passa por uma maré de azar que torna-se difícil de crermos e levarmos a sério o seu sofrimento durante alguns poucos segundos. Tudo dá errado na vida do diretor teatral, tudo mesmo, e quando algo parece que vai tomar o rumo, acontece um incidente e o protagonista volta ao zero. Ou seja, Cotart é, na verdade, um Benjamin Button às avessas.
Mas, no geral, o filme conta com metáforas bastante satisfatórias e dá uma guinada incrível quando o protagonista recebe uma considerável quantia em dinheiro para que possa re
alizar uma peça teatral realmente pomposa. O diretor opta então por reproduzir a sua vida passo a passo, detalhe por detalhe, nos palcos de seu teatro. É construída uma magistral réplica de Nova York, vários atores são contratados para encenar os inúmeros incidentes ocorridos na vida de Cotart, e o modo como Kaufman (o diretor) conduz esse entrelaçamento entre realidade e fantasia é não menos do que maravilhoso, tanto que o cineasta consegue perfeitamente o que queria, deixar o espectador confuso.
Confuso, aliás, é uma palavra que descreve perfeitamente o rumo que a trama assume a partir daí. Já não conseguimos mais discernir realidade de fantasia e ficção de delírio. Tudo o que
vemos é uma série de metáforas fantásticas (no sentido ambíguo) que realizam uma conveniente abordagem sobre o sofrimento, sobre o amor, sobre o modo como o tempo avassalador castiga os seus soberanos (nós, pobres mortais) e, mormente, sobre a tênue linha que liga a vida à morte. A odisséia de Cotart revela-se então uma espelhação artística de nossas existências, afinal de contas, o que seria a vida, aos olhos de um pessimista tal como Charlie Kaufman, senão um eterno ensaio que não nos leva a lugar algum, que não seja à morte?
E é claro que quando citei a hipótese supra, descrevi apenas a minha interpretação relacionada ao eterno ensaio de Cotart, sendo que há muitas outras análises cinematográficas redigidas sobre o filme em questão que apontam a peça teatral como sendo uma metáfora à forma que um
projeto artístico consome o seu realizador de modo gradual, a ponto de sugar todas as forças deste.
Existe também a possibilidade de Kaufman ter feito deste “Sinédoque, Nova York” o que Stanley Kubrick fez com “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, transformando-o em uma obra com o intento de formular apenas questões, e não respostas (apesar de eu defender a tese (e é óbvio que apenas a defendo e não a julgo como sendo a tese definitivamente verdadeira) de que a obra-prima de Kubrick (e meu segundo filme predileto) trata-se de uma alegoria espacial sobre a evolução humana do ponto de vista nieztschiano – pois é, eu tinha que citar Nieztsche neste texto, não é mesmo?).
Independentemente da mensagem que Kaufman almejou nos transmitir com “Sinédoque, Nova
York”, o filme em questão trata-se de uma obra imperdível, recheada de características que nos remetem à lembrança de outras obras-primas, tais como “Um Cão Andaluz” (ainda que não seja tão dadaísta quanto o curta-metragem mais revolucionário da história do Cinema) de Luís Buñuel, e “Cidade dos Sonhos” de David Lynch.
Fica a recomendação para que o leitor, quando for assistir ao filme, ao invés de tentar amarrar todas as pontas do longa, apenas embarque na surreal viagem de Charlie Kaufman e lucubre, após o término da sessão, sobre um (ou mais) dos vários questionamentos que a produção em questão nos remete.
Avaliação Final: 8,7 na escala de 10,0.
Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois – ***** de *****

Título Original: Jules et Jim.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 104 minutos.
Ano de Lançamento: 1962.
País de Origem: França.
Direção: François Truffaut.
Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault, baseado em livro de Henri-Pierre Roché.
Elenco: Jeanne Moreau (Catherine), Oskar Werner (Jules), Henri Serre (Jim), Vanna Urbino (Gilberte), Boris Bassiak (Albert), Anny Nelsen (Lucie), Sabine Haudepin(Sabine), Marie Dubois (Therese), Christiane Wagner (Helga) e Michel Subor (Narrador).
Sinopse: Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) são dois jovens boêmios e intelectuais que vivem em Paris durante a Belle Époque. A vida de ambos ganha uma injeção de ânimo ainda maior quando Catherine (Jeanne Moreau), uma jovem libertária, revolucionária, contestadora, inconsequente e impetuosa os conhece. Os três formam um grupo inseparável que passa boa parte do tempo indo ao teatro, realizando passeios ciclísticos e frequentando a praia local. Dá-se início à Primeira Guerra Mundial, Jules se vê obrigado a sair da França e defender a sua terra natal, mas casa-se com Catherine antes. Terminada a guerra, Jim vai visitar os dois amigos e vê que ambos formaram uma família bem sucedida. Mas o tempo passa e o francês se dá conta de que os dois não são tão felizes quanto pensava, uma vez que Catherine é uma jovem feminista ferrenha e acredita que o amor é curto. Logo, a garota passa a trair Jules constantemente, achando que trata-se de uma atitude normal. Jules não se importa com isso, contenta-se apenas com a presença da esposa, sem se preocupar com a fidelidade por parte da mesma. As coisas mudam completamente de figura quando Catherine passa a amar Jim, e o sentimento torna-se recíproco, nascendo aí um triângulo amoroso altamente explosivo.
Jules et Jim – Trailer:
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É interessante que, antes de assistir a este “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois”, o último filme por mim conferido tenha sido “Acossado” de Jean-Luc Godard (e aconselho que o(a) leitor(a) o faça da mesma forma, assista à obra-prima de Godard e, logo me seguida, assista a obra-prima de Truffaut, e quando tiver acabado, entenderá o porquê de meu conselho), pois ambos tem muito em comum.
Além de serem dois dos maiores representantes da Nouvelle Vague, também contam com o “amor” como grande protagonista da trama. Entretanto, ambas as obras abordam tal sentimento de formas extremamente diferentes, sendo que o longa de Godard estabelecia um panorama sobre o amor entre duas pessoas completamente diferentes, ao contrário do longa de Truffaut, que o faz em cima de vários indivíduos com muitas características em comum.
O filme começa com uma citação que o resume muito bem. Catherine, a protagonista, diz: “Você disse: “eu te amo”, eu disse: “espere”, eu disse: “sou sua” e você disse: vá embora”. Neste curto diálogo podemos prever que o longa trata de pessoas que amam, mas não suportam vivenciarem tal amor de forma completa. É como se o mesmo as enjoasse, as entediasse, e perdesse toda a magia e o charme inicial com o decorrer de um curto período de tempo. X ama Y, Y pede a X um tempo para pensar, Y decide então aceitar o amor de X, e quando X passa a se relacionar afetivamente com Y, ele já não sabe mais se ama o parceiro. Complexo? E como.
É nesta amálgama amorosa que o roteiro assinado por François Truffaut e Jean Gruault, baseados no romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché, tece o seu trio de personagens principais. Adotando inicialmente uma narrativa abrupta e efêmera, assim como muitos exemplares da Nouvelle Vague o fizeram, “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois” nos introduz logo de cara, e sem quaisquer delongas, à amizade entre os personagens título. Passamos a saber, logo no início da projeção, que ambos tornaram-se amigos fantasiando-se para um baile, e pronto, isso já basta. Não é necessária uma abordagem mais ampla de como ambos se conheceram, isso seria perda de tempo.
Jules é um austríaco que, ao lado do francês Jim, nutre uma paixão incondicional pela Arte. Ambos passam os seus vinte e poucos anos de idade aproveitando a vida ao máximo, fazendo tudo o que os demais jovens aristocratas poderiam fazer na Paris dos últimos anos da Belle Époque. O desenvolvimento diegético de ambos passa a fazer mais sentido e descobrimos então a verdadeira razão da existência da amizade entre os protagonistas. Os dois estão fortemente ligados aos prazeres da boemia e ao estudo da Arte, e isso já basta para que o apego entre ambos nos cative definitivamente, justificando o início súbito do filme.
A amizade entre eles ganha força máxima com a inclusão de Catherine na trama. Assim como Jules tornou-se amigo de Jim ao acaso, o mesmo ocorre com a personagem magistralmente encarnada pela excelente Jeanne Moreau. A primo, Catherine surge como um amálgama entre os dois amigos. A garota, até então depressiva, completa e, ao mesmo tempo, é completada pela alegria dos personagens-título. Os jovens, que já seguiam um estilo de vida hedonista, e com ligeiras pinceladas epicuristas, ganham características ainda mais joviais quando se encontram ao lado da moça.
Mas tudo o que é belo tem o seu fim. Chega a Pri
meira Grande Guerra e, com ela, surge uma vírgula que interrompe a amizade de ambos. Jules é desterrado da França para lutar pelo seu país. Notamos então que os sentimentos de ambos são realmente verdadeiros, pois um prefere mil vezes a própria morte a ter de aniquilar o outro em campo de
batalha.
A guerra acaba. Jim visita Jules, que encontra-se casado com Catherine e, em uma primeira vista, julga que ambos formaram um casal feliz, construíram uma excelente cabana em uma bela fazenda e tiveram uma filha encantadora. Eles tem tudo para ser uma família afortunada, mas não são. Por quê? Em face do gênio impetuoso e libertário de Catherine.
Jules ama a imagem que criou em cima da moça, mas não nutre por ela um sentimento tão intenso quando esta se encontra a sua frente. Catherine já é uma jovem demasiada feminista e libertária. Ela é a personificação da década de 1.920, uma feminista insanável. É extremamente ‘saidinha’, como diriam os mais velhos. A personagem de Jeanne Moreau é adepta ferrenha do amor livre, do amor anárquico, do amor rotativo. Para ela, o verdadeiro amor existe, de fato, mas tem uma chama muito curta e pode ser facilmente apagado.
Eis que Jim volta à sua vida. O francês passa a amá-la, mas respeita o amigo. Jules, no entanto, desconfia, e pede ao amigo que case-se com a sua esposa, pois apenas desta forma ele poderá vê-la todos os dias, já que o austríaco não consegue disponibilizar a esta todo o amor necessário (se é que realmente existe algum), ele confessa que contenta-se apenas com a presença diária de Catherine. Jules permite então que o amigo francês e a ex-esposa mantenham conjunção carnal em sua própria morada, debaixo de seu próprio nariz.
Seria ele um (com o prévio perdão pela expressão vulgar) “corno manso”? Ou quem sabe um voyeur. Não, nem um, nem outro. Jules, como já fora dito, ama apenas a imagem que criou sobre Catherine, e talvez nem ame a pessoa Catherine, apesar de não conseguir viver afastado da mesma. Para ele não consiste uma traição ver as duas pessoas a que mais ama manterem um
relacionamento afetivo dentro de sua própria casa, e com o seu próprio aval. Mas aos poucos Jim também passa a sentir que já não ama Catherine com a mesma magnitude que amava outrora e tal sentimento é recíproco.
E é aí que o vai-e-vem amoroso começa tudo de novo. Os desconexos sentimentos afetivos tomam conta da película mais uma vez (se é que deixaram de tomar conta da mesma durante algum instante) e nos vemos novamente diante de um relacionamento que mais parece ter ocorrido em meio a uma comunidade hippie. E falando em comunidades hippies, não é de se estranhar a coincidência de “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois” ter sido lançado justamente nos anos 1.960, juntamente com o surgimento destes movimentos da contracultura, já que eles também pregavam a mesma forma alternativa de amor.
É através da utilização de uma direção bastante autoral, repleta de travelings curtos e rápidos, cortes dinâmicos, e de enquadramentos que exploram ao máximo a beleza natural de suas locações, bem como de sua fotografia, que Truffaut filma “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois” realizando um complexo estudo de personagens que amam de forma doentia, e deixam de amar de forma ainda mais doentia.
Não é o melhor exemplar que a Nouvelle Vague pode nos oferecer, pois perde de longe para “Acossado”, mas é uma obra-prima incontestável. Um marco na sétima Arte.
Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.
Acossado – ***** de *****
Havia prometido adotar recentemente uma escrita bem mais resumida, não? Sim, e sejamos francos, estava cumprindo tal promessa, não estava? Mas e quando o objeto da análise tratar-se de um de meus três filmes prediletos? Como continuar cumprindo tal promessa e utilizar um texto curtíssimo para resumir um filme que tem tanta coisa a dizer, como é o caso de “Acossado”? Como resumir em poucas palavras toda a idolatria que nutro pela obra-prima de Jean-Luc Godard? Impossível. Ou melhor, impossível não é, já que resenhei o meu filme predileto em apenas minúsculas 25 linhas de texto, mas confesso que senti-me extremamente mal por resumir toda a obra-prima de Francis Ford Coppola em tão poucas palavras. Não farei o mesmo com “Acossado” e, portanto, preparem-se (caso se interessem pela leitura do artigo infra) para uma redação bem longa, recheada de fanatismo, mas bastante detalhada e feita com muita paixão.

Ficha Técnica:
Título Original: À Bout de Souffle.
Gênero: Romance / Policial.
Tempo de Duração: 87 minutos.
Ano de Lançamento: 1960.
País de Origem: França.
Direção: Jean-Luc Godard.
Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em estória de François Truffaut.
Elenco: Jean-Paul Belmondo, (Michael Poiccard), Jean Seberg (Patricia Franchisi), Daniel Boulanger (Inspetor de polícia), Jean-Pierre Melville (Parvulesco), Henri-Jacques Huet (Antonio Berrutti), Van Doude (Jornalista), Claude Mansard (Claudius Mansard), Jean-Luc Godard (Informante), Richard Balducci (Tolmatchoff) e Roger Hanin (Cal Zombach).
Sinopse: Após furtar um carro e, na fuga, matar um policial, Michel (Jean-Paul Belmondo) parte para Paris a fim de recuperar o dinheiro que um indivíduo está lhe devendo e propor à sua amante Patricia (Jean Seberg), uma jovem estadunidense aspirante a jornalista, que viaje com ele para a Itália. Enquanto tenta persuadir a garota e encontrar o homem que lhe deve o dinheiro, Michel perde o senso da realidade e comete alguns delitos pela cidade, mesmo sendo procurado incansavelmente pela polícia, em razão do assassinato que cometera há pouco.
À Bout de Souffle – Trailer:
Crítica:
Não tem jeito, começarei com o clichê: o Cinema pode (e deve) ser dividido da seguinte forma: antes e depois de “Acossado”. E falo sério mesmo, não estou me fazendo de fã incondicional e/ou irracional do filme, não. Deseja que eu fundamente o meu argumento? Pois bem, então vamos lá.
Antes de “Acossado” o Cinema contava com obras noir como os excelentes: “O Falcão Maltês” (ou “Relíquia Macabra”, caso o leitor prefira), “Pacto de Sangue” (um de meus ‘Wilder’ favoritos) e “O Terceiro Homem” (meu segundo ‘Welles’ predileto, perdendo apenas para “Cidadão Kane”, é claro). Jean-Luc Godard (que até então era apenas um crítico da Sétima Arte que detestava amplamente o jeito de se fazer Cinema adotado por Christian-Jacque, Jean Delannoy e Gilles Grangier) buscou inspiração nos filmes supra e lançou este fabuloso “Acossado” que, dotado de muita filosofia e estética cinematográfica, viria a influenciar visivelmente verdadeiros clássicos do Cinema estadunidense, principalmente produções magistrais realizadas na década de 70, tais como: “Taxi Driver”, “Uma Rajada de Balas” (sim, eu sei, o policial dirigido por Arthur Penn é da década de 60, mas está tão próximo dos anos 70 que achei plausível citá-lo aqui) e “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (não se assustem, mais abaixo explico a citação do mais famoso filme de Woody Allen). Meus argumentos o satisfizeram agora? Não! Pois continuemos a fundamentar então.
A fim de provar definitivamente que “Acossado” é o divisor de águas entre o Cinema Clássico e o Cinema Moderno, direciono as seguintes perguntas ao leitor: o que seria do Cinema atual sem a década de 70? O que seria da década de 70 sem Francis Ford Coppola e Martin Scorsese? O que seria do Cinema da década de 80 sem Brian de Palma? O que seria do Cinema da década de 90 sem Quentin Tarantino? E o que seria da década de 70, de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian de Palma e Quentin Tarantino sem a Nouvelle Vague? Por fim, o que seria da Nouvelle Vague sem Jean-Luc Godard e este seu “Acossado”? Impossível de se imaginar, não? Pois é, e tendo tudo isso em vista, pode-se findar que o Cinema realmente é dividido em: antes e depois de “Acossado”, não? Certamente que sim.
Mas, e individualmente falando? O que podemos esperar de “Acossado” analisando-o como um filme qualquer? É realmente uma obra cinematográfica de qualidade? Ou trata-se apenas de um exercício de estilo vazio que, involuntariamente, acabou inspirando muitas outras obras-primas
e, apenas por este motivo, é elogiado com tanto fervor por críticos de Cinema do mundo inteiro?
Bem, juro que enquanto assistia à obra em questão procurei esquecer-me de toda a badalação que o filme carregava consigo. Esqueci-me de que era a mais famosa obra do mais famoso cineasta francês de todos os tempos; esqueci-me de que era um dos grandes responsáveis pelo surgimento do importantíssimo movimento alcunhado de Nouvelle Vague (o grande responsável foi “Nas Garras do Vício” de Claude Chabrol); esqueci-me de que fora um filme demasiadamente improvisado, feito sem quaisquer planejamentos, onde o diretor e roteirista Jean-Luc Godard escrevia o roteiro (baseado em argumento de François Truffaut que, mais tarde, viria a se tornar seu arqui-rival) durante a manhã e, à tarde, dirigia o filme (ou seja, a produção começou a ser filmada com um roteiro totalmente incompleto). Enfim, fiz um esforço e esqueci-me de tudo isso, optando por avaliar esta produção como uma outra qualquer. Mesmo assim, analisando-a da maneira mais individualista possível, considerei-a fenomenal.
A sensação que tive enquanto assistia a “Acossado” acabou sendo a mesmíssima sensação que tive enquanto assistia a “8 ½” de Federico Fellini: a de estar diante de um dos dez melhores filmes que já havia tido a oportunidade de assistir em toda a minha vida. E, para falar a verdade, “Acossado” é mais do que isso, é um de meus três filmes prediletos, perdendo apenas para “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “O Poderoso Chefão”, que ficam, respectivamente, em segundo e primeiro lugar em minha lista de filmes prediletos.
Mas deixando de lado esse meu fanatismo entranhado e analisando o filme frigidamente, não há como deixarmos de depreender que “Acossado” atinge a perfeição em todos os aspectos possíveis, a começar pela direção de Godard que revela-se, nesta obra, a primeira a utilizar a
técnica que viria a ser alcunhada de handcam, rompendo de vez um paradigma adotado pelo Cinema.
Com a câmera literalmente na mão, o genial cineasta francês confere um realismo fora do comum à trama. E não apenas o doce e suave balanço horizontal de sua máquina nos proporciona tal sensação. O modo como o diretor realiza vários enquadramentos, a forma enérgica que utiliza para movimentar a câmera durante as cenas mais tensas e a sapiência (e olha que este fora o seu primeiro longa metragem) adotada com o intento de criar cenas clássicas (sobretudo durante o desfecho do filme, quando o diretor segue Michel, que corre desesperadamente por uma rua de Paris) também conferem ao filme um toque realista excepcional, além de fazer com que nos cativemos definitivamente com o mesmo.
A edição empregada em “Acossado” também eleva a obra-prima de Godard a um patamar que o Cinema mundial raramente conseguiu alcançar, principalmente pelo modo como a mesma “brinca” a todo o instante com a passagem de tempo no filme. Ora ela dá saltos consideráveis no tempo, ora ela ameaça avançar gradativamente, mas volta ao mesmíssimo lugar em que parou. Tal técnica confere uma dinâmica excepcional à obra, que jamais perde o seu ritmo.
A trilha-sonora, então, é empregada de um modo mais do que conveniente. Além de nos remeter a uma instigante aura de Film Noir, acrescenta à produção os tons de suspense, humor e romance que revelam-se imprescindíveis para o sucesso completo da mesma. Sabe aquela trilha-sonora que você ouve e passa longos dias relembrando-a? Pois é, a trilha de “Acossado” é uma destas, bem como as de “O Poderoso Chefão”, “Dr. Jivago”, “A Primeira Noite de um Homem”, “Três Homens em Conflito”, “Os Sete Samurais”, “Lawrence da Arábia”, “2001 – Uma Odisséia
no Espaço”, “Barry Lyndon”, “Os Bons Companheiros”, “Pulp Fiction – Tempos de Violência”, “Casablanca”, “…E o Vento Levou”, “Ben-Hur”, “Laranja Mecânica”, “Taxi Driver” (a propósito, a trilha do filme em questão é muitíssimo parecida com a deste filme de Scorsese) e de muitos outros filmes inesquecíveis.
Mas o trunfo de “Acossado” reside mesmo em seu roteiro. Godard já acerta logo de cara ao nos introduzir, do modo menos sutil o possível (e isso, acreditem, trata-se de um grande elogio), à conturbada vida do fora-da-lei Michel Poiccard. É como se o diretor nos fizesse um convite com os seguintes dizeres: “Está afim de acompanhar de perto a vida de um perigoso criminoso durante alguns dias?”, e, sem nem ao menos esperar a nossa aquiescência no que se concerne a tal solicitação, Godard simplesmente
segura-nos a mão e nos puxa para dentro da estória e da vida de Michel, sem quaisquer pedidos de licença, sem quaisquer cerimônias e sem quaisquer delongas. Ele simplesmente o faz do modo mais brusco e inesperado o possível, o quê, certamente, é sensacional.
Sabe-se lá como, Godard acaba conseguindo a façanha de fazer com que nos cativemos com o filme logo em seu primeiro segundo. Sentimos como se já conhecêssemos Michel há algum tempo, como se já fossemos íntimos do mesmo, tamanha a familiaridade que o gênio francês nos transmite logo no início da trama, quando a mesma se abre com a seguinte frase: “No fundo, sou burro!”. Exatamente, em menos de dois segundos de projeção, o protagonista nos faz logo de cara uma espécie de confissão. E aí eu pergunto: “Como podemos não nos cativar com um sujeito destes?”.
Tudo em Michel chama a atenção, tudo mesmo. A começar pelo fato deste ser uma releitura de vários personagens encarnados por Humphrey Bogart nos anos 1.940 (reparem na clara homenagem que o filme realiza ao astro de “O Tesouro de Sierra Madre”, quando a imagem de Michel é refletida em um vidro que protege a imagem de Bogard, ou seja, a imagem deste atrás, e a imagem daquele à frente, mostrando que um é o sucessor do outro), passando pelos trejeitos parecidos com os de um bonachão italiano mesclados ao charme de um galanteador francês, o terno que traja durante boa parte da trama, o chapéu que lhe cobre os olhos, o cigarro no canto direito da boca soltando fumaça durante a projeção inteira, a ignorância dele e, é claro, os diálogos completamente desconexos que solta durante o filme todo. Repare, por exemplo, quando ele comenta, olhando diretamente para a câmera, ou seja, para nós, espectadores: “___ Amo a França. Se não gosta do mar, se não gosta da montanha, e se não gosta da cidade…”… enfim, é melhor nem concluir os dizeres do protagonista, sob pena de retirar o timming cômico embutido na cena. Tudo o que posso dizer é que, justamente quando esperávamos que Michel fosse nos dar uma outra alternativa para amarmos a sua terra natal, ele simplesmente conclui o que havia
começado a dizer de uma forma extremamente brutal e desconexa, o que nos faz instantaneamente soltar uma gostosa gargalhada.
Aliás, o filme todo é desconexo (daí o motivo da edição constantemente dar saltos para frente e para o nada) e bem-humorado, sobretudo o par romântico formado por Michel e Patricia. E é justamente no affair de ambos que o filme atinge o seu clímax. A melhor cena de “Acossado” não reside em uma perseguição, nem em um tiroteio, nem em um momento essencialmente dramático, mas sim em uma simples conversa na qual o casal tem em uma simples cama de hotel. Isso mesmo, uma singela conversa na cama, sem nenhuma cena picante ou coisa do tipo.
Muitos poderão achar os diálogos de ambos completamente sem pé, nem cabeça, mas a verdade é que toda a carga dramática do filme está ali. Ambos falam sobre tudo e, ao mesmo tempo, sobre nada, sobre absolutamente nada. Patricia pede ao parceiro que diga algo simpático, este não sabe o que dizer, a garota então contorna a situação embaraçosa comentando o quão bonito é o cinzeiro dele, ele diz que era de um avô seu que morou uns tempos na suíça e, sem mais nem menos, emenda com uma conversa onde relata que este seu mesmo antepassado adquiriu um Rolls-Royce uma vez e o carro suportou quinze anos sem ter uma única falha mecânica.
E é justamente neste romance desconexo e sem razão de ser, que o filme aposta todas as suas fichas. E aposta certo. O caso de amor entre Michel e Patricia nada mais é do que um epítome da grande maioria dos casos amorosos existentes naquela época, e por que não dizer, em nossa época? É por isso que não há como negar que Godard fez uma obra muito a frente de seu tempo, uma obra que relataria o acaso, o preenchimento existencial embasado no sexo e em uma reles aventura, sem qualquer conteúdo. Em um determinado momento Patricia, imatura, sonhadora e infantil comenta que gostaria que eles fossem como Romeu e Julieta, mas como isso seria possível? Há algo que possa unir um casal tão desconexo?
Ele é um inculto, ela, uma aspirante a intelectual; ele é rude, ela, um doce de pessoa; ele é audacioso, ela, excessivamente cautelosa; ele é objetivo, ela, um poço de subjetividade; ele é resoluto, ela, um baú de perplexidade; ele não tem quaisquer perspectivas fora do submundo do crime, ela, uma aspirante a jornalista com uma próspera carreira pela frente. E aí perguntamos: “Por quê?! Por que uma moça destas se interessa por um tipinho destes?!”. Oras, pelos mesmos motivos que as garotas mais perfeitamente lapidadas se interessam pelos tipos mais asquerosos: pelo sexo (está aí o motivo da analogia deste filme com “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” conforme citado no primeiro parágrafo) e pela aventura.
Nossas existências se repetem cada dia mais. Vivemos sempre o mesmo, passamos sempre pelas mesmas situações. Imagine uma garota como Patricia. Ela tem futuro? E como. Tem todas as ferramentas necessárias para prosperar na vida? E como. Mas o que é que ela não tem? Emoção. Fazer sexo com um marginal é algo que, ao mesmo tempo em que a assusta e a carrega de incertezas (uma vez que a garota, aparentemente, nasceu com o rei na barriga e o romance com Michel foge bastante do estilo de vida que preparou-se, durante toda a adolescência, para levar quando adulta), confere uma experiência instigantemente diferente na vida da moça. É como se ela estivesse flertando com o perigo, com uma vida instável, mesmo morrendo de medo de seguir com isso adiante.
E é desta forma ingênua, através de uma estória objetivamente simples (mas muito complexa se prestarmos atenção nas entrelinhas), que Godard realiza o seu amplo panorama artístico sobre nossas existências carregadas do mais insuportável tédio. A fim de fugir das rotinas das grandes cidades, as garotas, cheias de ponto de interrogação em suas mentes, não estão mais interessadas nos rapazes maduros e prontos para o compromisso sério, mas sim nas aventuras, nas possíveis emoções que um affair possa lhes proporcionar. E mesmo que o amor não seja verdadeiro, mesmo que não contenha um pingo de química sequer, isso parece não importar mais, o que importa realmente é a possibilidade de risco, que mesmo não ocorrendo tão frequentemente (como é o caso do filme em questão), já é, no mínimo, uma possibilidade, uma chance de levar uma vida mais, digamos, cool.
A fim de produzir a sua obra-prima definitiva, Jean-Luc Godard utilizou-se de uma simples fórmula: somou tudo o que o Cinema havia produzido de melhor até então, multiplicou a soma por inúmeros elementos peculiares e, como resultado, obteve o dígito mais extenso e incontável que se possa imaginar, o que reflete também no extenso e incontável número de qualidades que esta pintura em forma de película possui. Em suma, e sem cálculos matemáticos, “Acossado” tomou emprestadas características valiosíssimas do Cinema ianque para que as mesmas pudessem ser lapidadas e devolvidas à Terra do Tio Sam com um valor ainda mais alto do que quando cruzaram o Oceano Atlântico no final dos anos 1.950 e início dos anos 1.960. Por fim, encerro esta crítica (enorme, diga-se) da mesma forma que a iniciei: o Cinema, definitivamente, se divide em: antes e depois de “Acossado”.
Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.
Rocco e Seus Irmãos – ***** de *****
Um pequeno texto que havia escrito em maio/2008,quando vi o filme:
Rocco e Seus Irmãos (1960,de Luchino Visconti)
Visconti agora foi elevado ao nível gênio,terceira obra dele que vejo e uma sempre melhor que as outras, esqueça ‘O Leopardo’ a obra-prima dele é esta:
A jornada de uma família que era feliz e não sabia e ficou infeliz sabendo disso.Visconti crítica a hipócrisia em família,que tenta colocar belos porta-retratos paea tamparem as rachaduras de sua parede,e as rachaduras desse filme aparecem de forma claraOs cinco irmãos que vão aos poucos tomando destinos diferentes,mas a ação de cada um ainda influência na reação do outro e é claro da figura materna que eles tentam proteger.Inveja,saudades,amor…todos os sentimentos que os envolve,eles se amam ou tentam se amar,junto a isso,Visconti ainda traça o perfil indivudaul de cada um e coloca caracteristicas bem particulares para eles.As coisas só se agrava quando Rocco se apaixona por Nádia,a ex-ficante de seu irmão mais velho Simone,era o que precisava para a família se abalar de vezCenas marcantes estão presentes nessa obra-prima,alguymas mostrando a verdadeira felicidade escondida por trás de uma fantasia infeliz,que é logo no início na seqüência que neva e eles proucuram emprego,cenas fortes como o estupro de Nádia,a briga de rua entre Rocco e Simone e o assassinato.
Milão é fria,assim como as relções em família pouco-a-pouco se transformam.
Simone entra para a lista dos personagens mais desprezíveis que o cinema já pôde fazer,e fica lá,bem ao lado de figuras como Johnny Friendy,Charle Foster Kane,Fred C. Dobbs,enfermeira Ratched ou Mr. Potter.
Rocco e Seus Irmãos – **** de *****
Título Original: Rocco e i Soui Fratelli.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 177 minutos.
Ano de Lançamento: 1960.
País de Origem: Itália / França.
Direção: Luchino Visconti.
Roteiro: Luchino Visconti, Suso Cecchi d’Amico, Pasquale Festa Campanile e Vasco Pratolini.
Elenco: Alain Delon (Rocco Parondi), Renato Salvatori (Simone Parondi), Annie Giradot (Nadia), Katina Paxinou (Rosaria Parondi), Spiros Focás (Vicenzo Parondi), Roger Hanin (Morini), Max Cartier (Ciro Parondi), Claudia Mori (Funcionária da Lavanderia), Alessandra Panaro (Noiva de Ciro), Corrado Pani (Ivo), Rocco Vidolazzi (Luca Parondi), Paolo Stoppa (Cecchi), Suzy Delair (Luisa), Nino Castelnuovo (Nino Rossi), Enzo Fiermonte (Boxeador), Renato Terra (Alfredo, irmão de Ginetta) e Claudia Cardinalle (Ginetta).
Sinopse: Com o propósito de prosperar na vida, Rosaria Parondi (Katina Paxinou) muda-se da bela Sicília para a fria, mas industrializada, Milão, uma vez que Vicenzo (Spiros Focás), seu filho mais velho, o fez e obteve um êxito considerável. Juntos dela migram também os seus demais filhos: Simone (Renato Salvatori), Rocco (Alain Delon), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi). Simone logo arruma um emprego como boxeador e, após uma série de relevantes vitórias, torna-se a mais nova promessa do boxe milanês. O sucesso de Simone, no entanto, é interrompido quando Nadia (Annie Giradot), uma jovem e problemática prostituta, entra em cena e o rapaz se apaixona por ela. Ambos vivem um caso de amor sem compromissos, até que Nadia conhece o sensível e sonhador Rocco e apaixona-se por ele, colocando os dois irmãos em uma posição extremamente delicada.
Rocco e i Soui Fratelli – Trailer:
Crítica:
Assistir a “Rocco e Seus Irmãos” é uma experiência semelhante a ler uma obra literária assinada por William Sheakspeare, haja visto que, em ambas as situações, você ficará diante de um drama devastador, cujo ingrediente principal vem a ser um caso de amor mal resolvido.
A fim de nos apresentar aos seus personagens principais, Visconti emprega aqui a mesma técnica que Sergio Leone viria a adotar em 1.966, ao dirigir a sua obra-prima: “Três Homens em Conflito”. Trata-se da inserção de legendas no canto inferior central da tela, indicando os nomes (no caso do western: pseudônimos) de cada uma de suas figuras dramáticas sempre que o roteiro pretendesse tecer uma abordagem sobre as mesmas. O curioso, no entanto, é constatarmos que a figura dramática mais inerente à trama (o que não quer dizer que seja necessariamente a mais importante) nem ao menos tem o seu nome mencionado nas tais legendas. Talvez Visconti tenha feito isso propositadamente, uma vez que a personagem trata-se de uma mera coadjuvante no que diz respeito ao destino de todos os irmãos, algo que faz com que ela não assuma a condição de protagonista em nenhuma das sub-tramas, mesmo conferindo vital importância a estas.
Mas afinal de contas, quem é a tal personagem a qual tanto mencionei no parágrafo acima e nem ao menos citei o seu nome? Estou me referindo à ambiciosa e tempestiva Nadia. O estudo que o filme nos permite realizar sobre o modo como a autodestruição da garota está mutuamente ligada à desagregação dos membros da família Parondi é maravilhoso. Nadia é um agente fragmentador de uma família que, antes de conhecê-la, permanecia fortemente unida, mas depois de um reles incidente onde, involuntariamente, manteve contato com a moça pela primeira vez, passou a entrar em profunda perdição e decadência.
Nadia passa a experimentar também o mesmo amargo e indigerível gosto da perdição e decadência sempre que entra em contato com dois membros da família Parondi em especial: Rocco e Simone. O segundo trata-se de um bonachão cobiçoso, alguém que se vê solidamente
amarrado ao amor que Nadia pode lhe oferecer, e para que jamais se distancie de tal ternura, Simone está disposto a tudo.
Rocco, por sua vez, passa a ser a salvação desta, o apoio do qual ela precisa para tor
nar-se uma mulher decente e largar o passado para trás. É no jovem rapaz que Nadia descobre o amor verdadeiro, e há uma forte recíproca em tal sentimento. Mas Rocco ama outra pessoa além de Nadia. Ama o irmão Simone e sacrifica-se em prol deste, por saber de toda a paixão que ele nutre pela garota, uma paixão doentia, uma paixão incontrolável e incurável.
E é neste desestruturado, desequilibrado, irregular, e impetuoso triângulo amoroso que o filme ganha toda a sua força e nos mostra o quão uma paixão doentia de tal natureza pode se mostrar capaz de destruir a vida de uma pessoa e dos indivíduos que com ela convivam adjacentemente. Nos vemos então diante de uma tragédia. Uma tragédia que nos remete demasiadamente às
tragédias gregas, às tragédias sheakspearianas, e até mesmo a muitas tragédias reais que passamos a ter conhecimento diariamente.
Mesmo com um tema tão brilhante a ser abordado pelo roteiro, “Rocco e Seus Irmãos” não teria essa força toda se não fosse pelo talentoso elenco, sobretudo Annie Girardot, Alain Delon e, principalmente, Renato Salvatori, que encarna com uma maestria assombrosa o personagem de maior carga dramática do filme: o impulsivo Simone. A propósito, juro que, enquanto assistia ao filme em questão, não consegui desassociar a atuação de Salvatori à de Marlon Brando no excelente “Uma Rua Chamada Pecado” (e não digo isso me embasando nos personagens encarnados por ambos, mas sim nas atuações em si).
Visconti mostra também que não é apenas um excelente diretor de elenco. Com a sua câmera ele confere à obra toda a sensibilidade da qual a mesma necessita para funcionar corretamente bem, principalmente quando realiza um close nos rostos de seus atores e expressa todos os sentimentos destes. E é incrível notarmos como o mesmo consegue realizar de forma tão natural uma rápida transição emotiva entre os seus personagens, alternando magistralmente entre alegria e tristeza, celebração e tragédia, tudo em uma única cena (refiro-me aqui à sequência em que a família comemora uma importante vitória de Rocco e, poucos minutos depois, tal solenidade se transforma em tragédia, graças à inesperada aparição de Simone).
Mas o Visconti que se revela capaz de retratar naturalmente uma mudança de humor tão radical e rápida em seus personagens, é o mesmo Visconti que se mostra extremamente ineficaz ao não conseguir evitar o excessivo dramalhão que desanda em muitas cenas da obra, inclusive na supracitada sequência da celebração em família. O derramamento de lágrimas que surge próximo ao final desta cena (no início da mesma, quando Simone surge repentinamente, a tristeza estampada nos rostos de seus protagonistas caia como uma “luva” nas “mãos” do roteiro e tudo soava de maneira extremamente natural, mas com o desenrolar da cena Visconti não consegue se conter e cai em um dramalhão imperdoável) é típico de uma novela mexicana, destas produzidas pela Televisa S/A.
E não bastasse a pieguice gradativa inserida em algumas partes do filme, este ainda comete o equivoco de se estender muito além do necessário, proporcionando excessiva importância aos demais irmãos, sendo que apenas dois deles realmente nos interessam: Rocco e Simone. Para que esta produção italiana neo-realista soasse mais dinâmica e conseguisse nos transmitir a sua maravilhosa mensagem de modo mais consistente, era imprescindível que a trama tivesse alguns minutos a menos de projeção e dirigi-se o seu foco de modo ainda mais concreto no triângulo amoroso, que é o que realmente impulsiona a produção. De uma forma ou de outra, estas são apenas pequeninas falhas contidas em uma obra cinematográfica quase perfeita.
Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.
Monstros vs. Alienígenas – *** de *****
Título Original: Monsters Vs. Aliens.
Gênero: Animação.
Tempo de Duração: 94 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://www.monstrosvsalienigenas.com.br/
Nacionalidade: Estados Unidos da América.
Direção: Rob Letterman e Conrad Vernon.
Roteiro: Maya Forbes, Wallace Wolodarsky, Rob Letterman, Jonathan Aibel e Glenn Berger, baseado em estória de Conrad Vernon e Rob Letterman.
Elenco: Reese Whiterspoon (Susan Murphy / Ginórmica), Seth Rogen (B.O.B.), Hugh Laurie (Dr. Barata), Will Arnett (Elo Perdido), Kiefer Sutherland (General W.R. Monger), Rainn Wilson (Gallaxhar), Stephen Colbert (Presidente Hathaway), Paul Rudd (Derek Dietl), Julie White (Wendy Murphy), Jeffrey Tambor (Carl Murphy), Amy Poehler (Computador), Renée Zellweger (Katie), Josh Krasinski (Cuthbert), Sean Bishop (Recruta Bulhorn / Piloto do helicóptero / Conselheiro Ortega), Bo Dietl (Comandante / Conselheiro Smith) e Ed Helms (Repórter da TV).
Sinopse: Susan (Reese Whiterspoon) é atingida por um meteoro no dia de seu casamento e ganha superpoderes. A garota é então capturada e levada a uma área secreta onde monstros bizarros, a maioria vítima de experimentos científicos malsucedidos, vivem em uma espécie de colônia. É quando é anunciada uma invasão alienígena que pretende escravizar o planeta Terra que Susan e seus novos amigos juntam forças para proteger o mundo.
Monsters vs. Aliens – Trailer:
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Eis um filme que me surpreendeu. Fui ao cinema conferir “Monstros vs. Alienígenas” com a impressão de que este seria um típico exemplar “dreamworkiano” (sim, sei muito bem que tal palavra não existe e a escrevi erroneamente de propósito, antes que algum outro infeliz passe por aqui criticando isso, conforme ocorreu na análise de “Um Ato de Liberdade”. A propósito, este texto inteiro irá conter inúmeras palavras inexistentes, sendo que todas elas estarão entre aspas duplas), ou seja, uma animação graficamente perfeita, mas com excesso de gritaria por parte dos personagens, que só conseguem anunciar a sua presença na trama através dos berros proferidos da forma mais alarmante o possível, já que não contam com um pingo de carisma sequer (lembrei-me do superestimado “Kung Fu Panda”). Entretanto, a impressão que tive após a sessão (ou melhor, as sessões, uma vez que assisti ao filme duas vezes, uma na versão original (ou seja, com o som em inglês) e outra na versão dublada, com os recursos 3D ativados) foi a de que havia visto algo bem diferente do que esperava, tanto no que se refere à parte gráfica da obra, quanto no que se refere à trama desta.
Graficamente falando, o filme fica aquém das demais animações da Dreamworks. Se em “Kung Fu Panda” víamos, com uma perfeição incrível diga-se, o reflexo de Po em um pedaço de metal, em “Monstros vs. Alienígenas” as faces de seus personagens humanos parecem um tanto o quanto “emborrachadas”. O piscar de olhos da protagonista Susan (Reese Whiterspoon, emprestando uma voz bem conveniente à sua personagem), por exemplo, soa muito artificial, diferentemente da Penny (Miley Cirus) do ótimo “Bolt – Supercão”, do estúdio concorrente: a Walt Disney Pictures. Mas tal falta de naturalidade só reside mesmo nos rostos de seus personagens humanos, pois, de resto, é tudo muito bem feito. Vide a cena onde a câmera foca a protagonista pintando uma unha de sua mão direita. A impressão que temos é de que a mão é verdadeira, bem como a unha, o esmalte, e tudo mais. Tudo muito realista, de fato.
E a trama? Bastante interessante e divertida, apesar de partir de uma sinopse extremamente absurda e completamente condicionada a uma sequência bem grande de coincidências. Por que o tal meteoro tinha que cair justamente em cima de Susan e bem no dia de seu tão sonhado casamento? Ah sim, devemos levar em conta que tal ocorrido, e em tal ocasião, viria a trazer uma lição bastante proveitosa à vida da personagem. Mas aí eu pergunto, tal lição não poderia ter sido transmitida pelo roteiro de um modo que explorasse menos certas coincidências e desenvolvesse a trama de um modo mais, digamos, natural? Receio que sim.
Contudo, o filme conta com uma qualidade que a grande maioria das animações realizadas pela DreamWorks não contam: personagens simpáticos e verdadeiramente divertidos. Longe de serem iguais aos animais insuportavelmente azucrinantes e irritantes do fraquíssimo “Madagascar” (exceto os pingüins, que eram umas “figuraças”), os personagens de “Monstros vs. Alienígenas” são divertidos na medida certa e sem passar dos limites, sobretudo o hilário, nonsense e simpaticamente imbecil B.O.B. (que ganha ainda mais força graças à cômica voz de Seth Rogen) e o genial e “abilolado” Dr. Barata (e a risada que Hugh Laurie usa para compô-lo é, desde já, clássica). Talvez o vilão Gallaxhar seja a única ressalva que possa ser feita no que se refere às figuras que constituem o hall de personagens da animação, já que ele é caricato demais, mas não há como deixar de reparar que o mesmo é ligeiramente divertido, principalmente pelos seus trejeitos levemente desengonçados.
“Monstros vs. Alienígenas”, enfim, seria uma produção que funcionaria bem melhor caso o seu roteiro fosse dotado de uma ação mais tensa e de uma comédia mais ousada (e nem sempre sátiras de filmes famosos são o suficiente para fazer o espectador rir, “Super-Heróis – A Liga da Injustiça” que o diga), mas a simpatia e a diversão transmitidas através de seus personagens unidas à trama absurda, mas engraçadinha (o que não quer dizer que seja tão cômica o quanto deveria) fazem com que a mais nova produção da DreamWorks Animation mereça que você dê uma “esticada” ao cinema mais próximo de sua residência.
Avaliação Final: 7,0 na escala de 10,0.
Fahrenheit 451 – **** de *****
Gênero: Ficção Científica.
Tempo de Duração: 112 minutos.
Ano de Lançamento: 1966.
Nacionalidade: Inglaterra.
Direção: François Truffaut.
Roteiro: Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury.
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Linda / Clarisse), Cyril Cusack (Capitão), Anton Diffring (Fabian), Anna Palk (Jackie), Ann Bell (Doris), Caroline Hunt (Helen), Jeremy Spenser, Bee Duffell, Alex Scott e Michael Balfour.
Sinopse: Em um futuro não muito distante, os “bombeiros” tem uma função bem diferente da de apagar incêndios e resgatar pessoas correndo sérios riscos de vida. Estes profissionais tem apenas a função de localizar e destruir qualquer espécie de obra literária existente, alegando que as mesmas são propagadoras da infelicidade, pois oferecem às pessoas uma vida que estas não podem ter e as tornam insatisfeitas com suas existências convencionais. Um destes bombeiros, Guy Montag (Oskar Werner), passa a questionar tais atos quando é influenciado pelos ideais de Clarisse (Julie Christie) e presencia a morte da tia da moça, que prefere ser incinerada a ver-se afastada de seus livros.
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É com esta frase de Albert Einstein que início a crítica de “Fahrenheit 451”:
“Um raciocínio lógico o leva de A a B. A imaginação o leva a qualquer lugar que desejar”
Imagine então um mundo sem livros. Agora me responda, seria possível imortalizarmos pessoas ou acontecimentos históricos sem a existência destes? E se não imortalizássemos estas pessoas e estes acontecimentos históricos, o mundo seria o que ele é hoje?
O que seria de nosso planeta sem a Guerra de Independência estadunidense? O que seria da Guerra de Independência estadunidense sem a Revolução Francesa? O que seria da Revolução Francesa sem os Ideais Iluministas? O que seriam dos Ideais Iluministas sem o Renascimento Cultural? O que seria do Renascimento Cultural sem a Cultura Romana? O que seria da Cultura Romana sem a Cultura Grega? Enfim, se seguirmos esta trilha, perceberemos facilmente que o mundo não seria absolutamente nada.
E qual seria a melhor forma de registrar tais acontecimentos e passa-los às gerações posteriores? Através de livros, não? Afinal de contas, se George Washington não houvesse lido frases do tipo: “Liberté, Egalité, Fraternité”, de Jean-Jacques Rousseau, não teríamos uma Declaração de Independência proferida por ele, teríamos? Se Che Guevara e Fidel Castro não tivessem acesso a nenhum livro sobre Marxismo, não teríamos a Revolução Cubana, teríamos?
Pois é, mas voltemos à questão proposta no início desta análise cinematográfica: imaginemos um mundo sem livros. Ray Bradbury imaginou e escreveu um livro onde as pessoas vivem em um futuro não muito distante, em que o governo é totalitário e, a fim de evitar manifestações populares inspiradas em ideais libertários registrados em livros, decidem queimar todo o tipo de publicação literária existente no mundo. Jean-Louis Richard e François Truffaut, assim como Bradbury, também conseguiram imaginar um mundo assim e adaptaram a obra escrita para o Cinema. O resultado? Um filme muito acima da média, certamente.
A antevisão de Bradbury, Truffaut e Richard ganhou vida nas telonas e nos apresentou a um futuro extremamente plausível. A subordinação popular aqui não é tão visível como era no perfeito “Metropolis”, mas não há como deixar de notá-la. Mulheres são escravas da beleza e de frivolidades impostas pela televisão, bem como telenovelas, e os homens são meros escravos do trabalho. Todos vivem objetivamente, todos realizam apenas o que tem de ser realizado e só. Não há questionamentos acerca de sua existência, não há pessoas sonhadoras, não há nada, apenas racionalidade e objetividade. Se algo é desse modo, é porque ele tem que ser desse modo, e ponto final.
Em suma, no ano de 1966 Truffaut levou aos cinemas uma cópia semi-fiel do que o mundo viria a ser em 2009, algo que nem mesmo Fritz Lang, Stanley Kubrick, Michael Radford, Ridley Scott e James Cameron conseguiram fazer com tanta perfeição (o que não quer dizer que o longa de Truffaut seja necessariamente o melhor do gênero, pois está muito longe, mesmo, de merecer tal título).
Quanto aos demais aspectos o filme também se sai muito bem. A fotografia é muitíssimo bem empregada, bem como a direção de arte que cria cenários muito parecidos com as nossas casas atuais (e sejamos francos, quem, em plenos anos 1960, iria julgar plausível a existência de televisões de plasma, iguais às que o protagonista tem em sua sala de estar?), o que dá ao filme um indispensável toque de verossimilhança.
Os atores também saem-se muito bem em seus respectivos papéis. Eles são inexpressivos? Sim, mas convenhamos, podemos esperar que, em uma sociedade onde a razão literalmente impera, os indivíduos que a compõem consigam demonstrar quaisquer expressões que sejam? É claro que não. O destaque no elenco fica por conta de Julie Christie que, como sempre, conta com a sua talentosa inexpressividade. A atriz sente dificuldades ao se expressar (assim como o fizera no excelente “Dr. Jivago”), mas o modo como entona todas as suas frases é o diferencial de sua atuação. Através do tom de voz que emprega, conseguimos perceber o tipo de emoção que ela deseja transmitir (a propósito, a personagem Clarisse é uma das poucas não-racionais em “Fahrenheit 451”, uma vez que ela pode ser taxada de subversiva). A propósito, costumo dizer que Christie é a versão feminina de Peter O’Toole.
Truffaut, como já era de se esperar, faz em “Fahrenheit 451” um trabalho excepcional. Além de recriar magistralmente o futuro pouco inspirador do livro de Bradbury, o diretor realiza um trabalho fascinante por trás das câmeras, conferindo total dinamicidade à obra utilizando “closes ins” a todo instante. Truffaut também mostra total eficiência através dos “travellings” com os
quais acompanha os seus personagens, mas o grande destaque de sua direção acaba mesmo ficando com o vazio emocional presente na mesma, algo imprescindível para um filme que visa, dentre muitas outras coisas, criticar o excesso de racionalidade de uma sociedade decadente.
O diretor francês deixa a sua marca registrada em “Fahrenheit 451” pela forma como transportou para a sétima arte a clássica cena em que Doris (Ann Bell) é queimada viva, junto com a sua casa e sua gigantesca coleção de livros.
Mas nem tudo funciona perfeitamente bem no filme em questão. Se Truffaut realiza aqui um dos melhores trabalhos de sua mais do que vitoriosa carreira, ele também comete algumas pequenas falhas, como incluir uma cena em que alguns policiais perseguem o protagonista Montag (Oskar Werner) sobrevoando uma lagoa pendurados por cabos de aço amarrados em helicopteros. A sequencia é bem curta, mas constrangedora o bastante, devido ao modo como a montagem é mal realizada. E não adianta se desculparem alegando que na época não havia condições de produzirem efeitos visuais mais bem feitos, pois “Metropolis” era a prova viva de que a cena poderia ter sido menos tosca e mais realista.
Os erros do filme, infelizmente, não se resumem a uma única cena mal feita. De forma alguma, vão muito além disso. O final de “Fahrenheit 451” se revela bastante deplorável e jamais faz jus ao restante da trama. Se nos dois primeiros atos da obra nos eram apresentadas fortes críticas ao excesso de racionalidade contido em uma determinada sociedade, no terceiro ato o filme cai em sua própria armadilha, quando chegamos à uma colônia onde pessoas subversivas decoram um determinado livro e, logo em seguida, o queima para livrarem-se de provas. Francamente, não sei se um final nestes moldes foi a intenção do roteiro ou não, mas caso tenha sido, o culpado é o próprio filme, e não este que vos escreve que não foi capaz de entendê-lo. Oras, se em uma sociedade moldada nos dois primeiros atos do filme as pessoas nada mais eram do que meros números, o que dizer então da sociedade moldada no terceiro ato? Existe maior racionalidade do que uma pessoa decorar um livro inteiro para depois poder queimá-lo?
Mas é como eu mesmo disse, pode ser que o filme tenha a total intenção de criar um desfecho extremamente racional, para utilizar-se de uma espécie de cinismo a fim de nos fazer crer que, no fim, tudo acabou bem, quando, na verdade, não foi o que aconteceu e as pessoas continuaram na mesmíssima situação, só que em um formato um pouco diferente.
Enfim, caso seja isso, desconsiderem os meus apontamentos e passem a considerar o filme perfeito.
Avaliação Final: 8,7 na escala de 10,0.
Um Louco Apaixonado – ** de *****
Título Original: How to Lose Friends & Alienate People.
Gênero: Comédia.
Tempo de Duração: 110 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://how2losefriends.com/
Nacionalidade: Inglaterra.
Direção: Robert B. Weide.
Roteiro: Peter Straughan, baseado em livro de Toby Young.
Elenco: Simon Pegg (Sidney Young), Kirsten Dunst (Alison Olsen), Danny Huston (Lawrence Maddox), Megan Fox (Sophie Maes), Jeff Bridges (Clayton Harding), Gillian Anderson (Eleanor Johnson), Max Minghella (Vincent Lepak), Miriam Margolyes (Sra. Kowalski), Diana Kent (Rachel Petkoff), Charlotte Devaney (Bobbie), Margo Stilley (Ingrid), Isabella Callthorpe (Anna), Hannah Waddingham (Elizabeth Maddox), Kelan Pannell (Sidney Young – jovem), Janette Scott (Sra. Young), Miquel Brown (Assistente de Clayton), Thandie Newton (Thandie Newton), Daniel Craig (Daniel Craig) e Kate Winslet (Kate Winslet).
Sinopse: Sidney Young (Simon Pegg) é um jovem editor de uma insignificante revista inglesa chamada Post Modern Reviews. O rapaz vive inconformado com o rumo o qual tem tomado o jornalismo cinematográfico ultimamente. Para ele, a profissão deveria ser mais ousada, mais descarada e, acima de tudo, mais sincera. Clayton Harding (Jeff Bridges), editor chefe da Sharps Magazine, uma das maiores revistas do mundo, se impressiona com o trabalho audacioso e polêmico que Young realizou na pequena empresa em que trabalha e decide o contratar como funcionário. Young se mostra extremamente fora dos padrões estipulados para ser um jornalista de sucesso, mas aos poucos vai conquistando fama e dinheiro. Young conquista também Sophie Maes (Megan Fox), a atriz “do momento”, mas o seu verdadeiro amor é Alison Olsen (Kristen Dunst) e decide investir pesado para conquistá-la.
How to Lose Friends & Alienate People – Trailer:
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Ah, o Cinema! Como o Cinema é fascinante! Uma verdadeira indústria, isso sim! Uma indústria de sonhos, uma indústria de fantasia, enfim, uma indústria “do bem”, não? De fato, é. E não bastasse a magia por trás do Cinema, temos também várias pessoas empregadas graças a esse. Sabe o que é mais curioso ainda? Que o Cinema emprega pessoas direta e indiretamente falando. Além de roteiristas, diretores, atores, editores, diretores de fotografia e muitas outras profissões, o Cinema emprega também profissionais adjacentes a ele. Dentre os “empregados” indiretos da indústria cinematográfica encontramos, é claro, os jornalistas cinematográficos. Nesta área o leque é muito grande e pode variar desde os famosos “paparazzi” (aliás, é curioso que o longa em questão cite tanto “A Doce Vida”, já que o termo “paparazzi” teve origem no filme de Fellini) até os editores de grandes revistas, passando até mesmo pelos críticos de Cinema.
Lendo o parágrafo supra, de cabo a rabo, não há como deixarmos de notar o quanto o Cinema mexe com a vida e, principalmente, com o bolso de muita gente, não é? De fato, mas todos nós sabemos que, onde tem dinheiro tem sujeira, não é mesmo? Pois é, e nos bastidores do Cinema, caros leitores, é assim que a coisa funciona, através de muita hipocrisia. Já vimos isso perfeitamente no perfeito (a redundância, aqui, é proposital) “Crepúsculo dos Deuses” e podemos vê-lo novamente, de modo infinitamente menos eficiente e pretensioso, no recente “Um Louco Apaixonado”. Entretanto, se o filme de Billy Wilder mostrava a banda podre de Hollywood focando-se no modo como a indústria despreza os grandes atores que já não tem mais o grande “brilho” que tiveram outrora, o longa dirigido por Robert B. Weide critica a maneira como os empresários da sétima Arte colocam no topo um desconhecido qualquer e manipula meio mundo para mantê-lo ali, enquanto lhes for conveniente.
“Um Louco Apaixonado” mostra então o modo como a fama é “comprada”. A primo, um empresário seleciona um ator (no caso do filme, uma atriz) de boa aparência física e um diretor tentando ser moderninho (Hum! Lembrei-me de Gus Van Sant agora) e faz de tudo para chamar a atenção da imprensa especializada. Feito isso, “compram” matérias positivando o talento de seus “clientes” e, por fim, “compram” críticas de Cinema que os enalteçam ainda mais, a ponto de serem indicados a um importante prêmio. Por fim, após lucrarem muito com os profissionais, os colocam na geladeira. Estes perdem todo o glamour e a badalação comandada, principalmente, pelos jornalistas, que os deixam de escanteio e correm atrás de novas estrelas.
Uau! Quem poderia imaginar que uma produção com um título nacional tão tosco quanto “Um Louco Apaixonado” teria a capacidade de nos levar a uma reflexão tão profunda, hein? De fato, a produção nos remete a altas reflexões acerca dos imundos bastidores da sétima Arte. Mas esperem aí, antes de qualquer coisa, a obra protagonizada por Simon Pegg é uma comédia, não? Sendo assim, antes de nos fazer refletir sobre o que quer que seja, ela deve nos fazer rir. E será ela consegue realizar tal feito? Aí é que está, não consegue.
O que se vê então é um roteiro, escrito por Peter Straughan, muito falho e que nos chama mais a atenção do que a sirene de uma ambulância. A todo o instante somos apresentados a cenas ridículas e o roteiro praticamente fala: “___ Olha, prestem atenção, essa vai ser uma boa “gag”, preparem-se para rir.”. O problema é que você não ri de forma alguma, pois não acontece nada demais, ou nada que você já não tenha visto em outros inúmeros filmes do gênero. O velho truque de enganar os espectadores inserindo na trama mulheres aparentemente gostosonas que, no final das contas, se revelam travestis extremamente “turbinados” revela-se um dos pontos mais altos da produção (para se ter a idéia da mediocridade da mesma). E sabem o que é pior? Não bastasse o fato da “gag” ser utilizada uma vez, ela se repete minutos mais tarde, o que atesta a total falta de criatividade, inspiração e bom humor de “Um Louco Apaixonado”.
No mais, a comédia tenta nos divertir com cenas fraquíssimas e extremamente artificiais. Tão artificiais quanto os seus personagens que resumem-se ao cara babaca que não faz nada certo mas que, repentinamente, se revela um gênio do jornalismo cinematográfico; à moça que trabalha com ele e, a princípio, o odeia, mas com o passar do tempo passa a amá-lo; ao chefe hipócrita, oportunista e falso; ao patrão carrancudo e mal humorado; ao cineasta “blasé” que é superestimado pela crítica, dentre vários outros personagens que nem vale a pena ficar citando neste texto.
É extremamente estranho, porém, que uma comédia tão visivelmente insossa quanto “Um Louco Apaixonado” conte com uma direção ligeiramente aceitável e atuações competentes. Logo no início do filme Robert B. Weide emprega aspectos técnicos bastante satisfatórios, fazendo o uso de técnicas como “close outs”, “travilings”, “handcam”, ou jsutapondo uma cena sobre a outra verticalmente e horizontalmente (um recurso muito empregado no seriado “Everybody Hates Chris”, ou, como é chamado aqui no Brasil, “Todo Mundo Odeia o Chris”).
Os atores também fazem o que podem com os seus papéis, e não é culpa deles que o roteiro os desenvolva de forma tão burlesca. Veja o personagem de Simon Pegg, por exemplo, não passa do típico fracassado das comédias deste naipe que, próximo ao final do filme, dará uma guinada em seu destino. No entanto, Pegg atua muito bem, sente-se natural com o papel e conta com bastante carisma. O mesmo ocorre com Kristen Dunst. A “Spidergirl” encarna o papel mais simplório e menos criativo que se possa imaginar, mas, como sempre, o faz de um modo natural, conferindo muito charme à sem-graça Alison Olsen (e podem me xingar à vontade, mas gosto muito do trabalho de Dunst, mesmo quando ela assume o caricato papel de Mary Jane Watson). Os demais atores também estão muitíssimo bem (salvo Megan Fox, Gillian Anderson (que já era canastra desde os tempos do superestimado seriado “Arquivo X”) e Max Minghella), em especial Jeff Bridges que, mesmo sendo caricato, esbanja carisma e charme, como de praxe.
É lamentável, no entanto, vermos que uma comédia que conta com uma direção interessante, um elenco ligeiramente afiado e, de quebra, aborda a podridão contida nos bastidores da sétima Arte, escorregue em um roteiro tão imaturo e que se mostra visivelmente falho na tentativa de construir “gags” forçadas e artificiais a todo o instante, transformando “Um Louco Apaixonado” em um filme nada mais do que meramente esquecível.
Avaliação Final: 4,0 na escala de 10,0.
Che – O Argentino – **** de *****
Ficha Técnica:
Título Original: Che: Part One.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 126 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.che-movie.co.uk/
Nacionalidade: EUA / França / Espanha.
Direção: Steven Soderbergh.
Roteiro: Peter Buchman, baseado em livro de memórias de Ernesto “Che” Guevara.
Elenco: Benicio Del Toro (Ernesto “Che” Guevara), Demián Bichir (Fidel Castro), Julia Ormond (Lisa Howard), Rodrigo Santoro (Raul Castro), Maria Isabel Díaz (Maria Antonia), Ramon Fernandez (Hector), Yul Vazquez (Alejandro Ramirez), Jose Caro (Esteban), Pedro Adorno (Epifanio Díaz), Jsu Garcia (Jorge Sotus), Santiago Cabrera (Camilo Cienfuegos), Roberto Santana (Juan Almeida), Vladimir Cruz (Ramiro Valdés Menéndez), Marisé Alvarez (Vilma Espín), Elvira Mínguez (Celia Sánchez), Andres Munar (Joel Iglesias Leyva), Liddy Paioli Lopez (Quike Escalona), Pedro Telémaco (Eligio Mendoza), Eugenio Monclova (Emilio Cabrera), Luis Gonzaga Hernandez (Lalo Sardiñas), Jose A. Nieves (Dr. Julio Martinez Paez), Catalina Sandino Moreno (Aleida March) e Armando Riesco (Benigno Ramirez).
Sinopse: Ernesto Guevara de La Serna, mais conhecido como “Che” (Benício Del Toro), foi um guerrilheiro que, ao lado de Fidel (Demián Bichir) e Raul Castro (Rodrigo Santoro), organizou uma revolução sangrenta em Cuba expulsando da ilha toda a massa burguesa que explorava o proletariado. A partir desta revolução, Guevara e seus companheiros de guerra implantaram, pela primeira vez em um país americano, o sistema econômico conhecido como socialismo. O filme dirigido por Steven Soderbergh a Revolução Cubana e a mais importante fase da vida de “Che”.
Che – Part One – Trailer:
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Já disse que sou fã incondicional de Che Guevara? Ah sim, já disse, escrevi a maior pré-crítica da história do Cine-Phylum apenas para dizer o quanto o revolucionário argentino influenciou o meu intelecto. Pois então torno-me extremamente suspeito para escrever um texto sobre um filme que traga o revolucionário argentino como protagonista, não é mesmo? Sim, é mesmo, mas de qualquer forma, não custa tentar.
Em primeiro lugar, gostaria de iniciar esta análise discordando de muitos colegas que reclamaram do longa alegando que o cineasta Steven Soderbergh (do ótimo “Traffic”) não realizou uma abordagem necessariamente imparcial em cima do líder revolucionário. Sinceramente falando, sou totalmente avesso a essa opinião. Creio que a abordagem feita sobre Che Guevara neste “O Argentino” poderia ter sido realizada de um modo menos frio e mais humano e detalhista, e não da forma semi-documental como o longa fez.
Para se ter uma idéia, quando o filme se inicia somos diretamente introduzidos ao histórico encontro onde “Che” e Fidel Castro se conheceram. Tudo é exibido de um modo muito frio, muito distante, e, francamente, não fosse o carisma que o líder militar possui por si só, aposto que muita gente teria sentido antipatia pelo mesmo. Em momento algum o longa parece se importar em citar, ainda que de soslaio, a juventude de “Che”, os motivos que o levaram a adotar a luta de classes como estilo de vida, a conturbada, embora breve, carreira política pré-guerrilha deste, ou a sua famosíssima passagem pela Guatemala. Por outro lado, devo reconhecer que a abordagem fria que o roteiro confere ao personagem-título é uma característica, de certa forma, inerente a uma obra que adota uma postura semi-documental. Afinal de contas, uma cine biografia, a fim de fugir do piegas e de sentimentalismos fajutos, deve adotar uma posição imparcial, e isso é fato.
Todavia, convenhamos, ser imparcial é uma coisa, ser extremamente frio e desprovido de emoção, é outra. E é justamente aí que reside o (provavelmente) único erro da película. O roteiro, é claro, deveria abordar “Che” de modo frio, mas ainda assim deveria deixar brechas que fizessem com que nos cativássemos com o protagonista mais rapidamente. Quer um exemplo de cine biografia fria e imparcial, embora cativante? O próprio “Diários de Motocicleta”. Você não terminará de assistir ao filme de Walter Salles e sairá pelas ruas berrando: “___ Viva la revolución! Viva Che!”, mas não deixará também de refletir sobre o modo como Guevara debate a miséria na América Latina.
“___ Mas em “Che – O Argentin
o” não refletimos sobre a miséria na América Latina, sobretudo em Cuba?” ___ Pergunta-me o leitor. Refletimos sim, só que não de um modo realmente satisfatório, como o longa protagonizado por Gael Garcia Bernal conseguira fazer. Na produção dirigida por Soderbergh, vemos dois lados de Guevara: o Che Guerrilheiro e o Che Idealista. E isso é ruim? Claro que não, principalmente se levarmos em conta o modo como o roteiro o aborda. E é aí que discordo amplamente de outros críticos de Cinema que alegaram que o “script” joga confetes no líder argentino. Pura balela. Oras, vemos Che esbravejando com seus soldados, vemos Che punindo fria e impiedosamente desertores, vemos Che atirando para matar, vemos Che defendendo que a única e verdadeira revolução que poderia funcionar em Cuba seria a revolução sangrenta e, mesmo com tudo isso, ainda insistem em dizer que Soderbergh não é imparcial e joga confetes no revolucionário? Ora bolas, me poupem!
Por outro lado, não se deixem levar pelo final do parágrafo acima. O filme não faz com Che o que a Revista Veja fez com o mesmo, transformando-o em um monstro assassino. O Guevara que mata pessoas em “Che – O Argentino” é o mesmo Guevara que sofre com as causas trabalhistas. O Guevara que é a favor de uma revolução sangrenta em “Che – O Argentino” é o mesmo Guevara que defende que a principal característica de um revolucionário deve ser o amor (calma, não se assuste, quando assistir ao filme verá que não há nada de piegas nesta declaração). Enfim, conforme podemos notar, a produção ganha muitos pontos por não pender para lado algum, já que ela aponta o seu protagonista como um sujeito de grande caráter, mas com sérios desvirtuamentos morais durante muitos momentos.
A produção ganha pontos também pela atitude que toma a fim de quebrar uma possível narrativa linear e episódica (algo que “Milk – A Voz da Igualdade” raramente faz, e quando o faz, realiza de modo artificial), algo que a tornaria muito mais falha. Trata-se da inteligente idéia do roteiro em narrar, paralelamente à tomada de Cuba, uma entrevista que Guevara cedeu a uma rede de televisão estadunidense e a celebre visita dele à ONU. Aliás, é nesta “subtrama” (se é que posso a chamar assim) que vemos o protagonista soltar uma das frases mais marcantes e impactantes do longa: “É muito fácil dizer que, no capitalismo, o indivíduo tem a opção de satisfazer ou expressar-se através da natureza humana. Um menino tem um brinquedo e quer dois, tem dois e quer quatro, essa é a natureza humana, não é assim? Entretanto, o que acontece quando a sociedade comporta-se da mesma forma, ou quando se converte em um monopólio, oprimindo aos menos afortunados? É essa a natureza humana?”.
E quanto aos demais elementos do filme? Bem, diria que a direção de Steven Soderbergh é contida, mas, ao mesmo tempo, madura. O diretor evita cometer infantilidades, tais como idolatrar Guevara ou transformar esta obra em uma mera película de ação. Também se esforça bastante para distanciar o drama da pieguice e do melodrama barato, criando aqui uma estória bastante satisfatória a ponto de “segurar” as mais de duas horas de projeção.
O elenco então, dispensa comentários. Não restam dúvidas de que o filme é, definitivamente, de Benício Del Toro. Aparentemente, anos de laboratório estudando a vida de Che fizeram bem ao ator, que o encarna com um talento fora do comum. Del Toro está para Che Guevara assim como Tom Hulce está para Wolfgang Amadeus Mozart, ou Val Kilmer está para Jim Morrinson, Renée Maria Falconetti está para Joana d’Arc, Ben Kingsley está para Mohandas Karamchand Gandhi, Liam Neeson está para Oskar Schindler e David Strathairn está para Edward Roscoe Murrow. Demián Bichir também surpreende como Fidel Castro. Além de ter a aparência física semelhante a do ditador cubano antes da revolução, conta com os mesmos trejeitos dele e nos brinda com uma atuação repleta de verborragia. Rodrigo Santoro também se sai bem como Raul Castro e, embora a sua participação no longa seja consideravelmente curta, ele se destaca muito nos poucos minutos em que aparece (lembra-se de Jhonny Depp no excelente “Platoon”? Pois é, trata-se de um trabalho bastante semelhante).
Falhando ligeiramente no pouco carisma com o qual aborda o personagem-título, “Che – O Argentino” prima pela sua imparcialidade e ganha muita força com a atuação magistral do sempre excelente Benício Del Toro.
Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.
Pagando Bem, Que Mal Tem? – * de *****
Estive pensando um pouco e juro que gostei bastante do título nacional conferido a este lixo da comédia estadunidense. O título original, ao pé da letra, é bastante previsível e ridículo (bem como o filme em questão). Oras, “Zack e Miri Fazem um Pornô”? E eu com isso? Por outro lado, “Pagando Bem, Que Mal Tem?”, mesmo sendo oportunista e se aproveitando de um clássico jargão, se mostra extremamente sarcástico. Pena que o filme não está à altura de seu título brasileiro, conforme veremos mais abaixo.
Ficha Técnica:
Título Original: Zack and Miri Make a Porno.
Gênero: Comédia.
Tempo de Duração: 102 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://zackandmiri.com/
Nacionalidade: EUA.
Direção: Kevin Smith.
Roteiro: Kevin Smith.
Elenco: Seth Rogen (Zack Brown), Elizabeth Banks (Miriam “Miri” Linky), Jason Mewes (Lester), Gerry Bednob (Sr. Surya), Jennifer Schwalbach Smith (Betsy), Kenny Hotz (Zack II), Brandon Routh (Bobby Long), Anne Wade (Roxanne), Justin Long (Brandon), Tom Savini (Jenkins), Jeff Anderson (Deacon), Ricky Mabe (Barry), Katie Morgan (Stacey), Craig Robinson (Delaney), Traci Lords (Bubbles) e Edward Janda.
Sinopse: Zack (Seth Rogen) e Miri (Elisabeth Banks) são amigos desde o primário e ambos moram juntos. O casal parece se entender bem ao seu modo, mas as coisas começam a complicar quando ambos se veem endividados. Para saírem desta incômoda situação, eles decidem fazer um filme pornô para arrecadar dinheiro. Há um problema, no entanto, será que depois que ambos tiverem a primeira relação sexual, continuarão mantendo a mesma amizade que veem mantendo há anos?
Zack and Miri Make a Porno – Trailer:
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Crítica:
Um casal de amigos, que se conhecem desde o ginásio, moram juntos há algum tempo e encontram-se endividados até o pescoço. Um deles tem uma solução para quitar as contas: fazer um filme pornô e lucrar com o mesmo. A princípio, a “produção” seria um remake de “Star Wars”, mas com cenas de sexo explícito. Soma-se essa estranha idéia à presença do sempre ótimo Seth Rogen e o que temos? Um filme bizarramente divertido, tal como “Superbad – É Hoje!”, correto? Errado, demasiado errado.
Pois é, a premissa tinha tudo para gerar mais um besteirol estadunidense de qualidade, assim como foi o já citado “Superbad…”, mas o filme erra na mão, e erra feio. Mas onde ele falha? Sinceramente? Em tudo, tudo mesmo, principalmente no humor excessivamente artificial. Logo no início percebemos isso. Bem na cena que abre o filme, vemos um entregador de jornal arremessar um tablóide na casa de um assinante, o garoto, no entanto, perde o equilíbrio, entra na contra mão com a bicicleta e faz com que um carro, que vinha de encontro com ele, se jogue contra um poste para não atropela-lo. Além da cena não ter a mínima graça e soar exageradamente desconexa com o restante do que viria pela frente (já que não é esse tipo de humor o alvo principal da produção), é artificial demais.
Aliás, o filme todo é artificial demais. A todo o momento o roteiro investe em situações absurdas para arrancar risos dos espectadores, mas falha terrivelmente. Vemos então tentativas frustradas de nos divertir com cenas patéticas como a que uma “animadora” de despedidas de solteiro faz uma bolha de sabão flatuleando em um brinquedo infantil (sim, é isso mesmo que você leu), ou uma outra cena onde o cameraman se aproxima demais de um casal fazendo sexo anal e quando, inesperadamente, o rapaz retira o pênis do anus da moça, um jato de fezes o atinge no rosto. Pois é, ambas são cenas desagradáveis não? Mas isso é tudo o que se pode esperar de “Pagando Bem, Que Mal Tem?”. E não bastasse o fato de o filme ser gritantemente artificial, vulgar e asqueroso, ele também é completamente sem graça.
A falta de conexão dramática entre os dois primeiros atos e o desfecho da trama, então, é algo fora do comum. À primo, temos um filme assumidamente prosaico e repugnante, que parece fazer questão absoluta de mandar os bons costumes para o quinto dos infernos. Concluímos que o filme se esforça, mas não consegue ter a mínima graça. Rumamos ao final da trama e, repentinamente, nos vemos diante de uma frustrante tentativa de conferir ao filme um desfecho com uma lição de moral das mais patéticas o possível. Oras, que espécie de comédia seria essa, então? Uma comédia com crise de identidade? Ora ela é exageradamente amoral, ora ela é extremamente conservadora? Estaríamos diante de uma nova versão de “Show de Vizinha”? Não, acredite, esta bomba aqui é bem pior do que o lixo protagonizado pela gostosona da Elisha Cuthbert.
Mesmo com tantas falhas “Pagando Bem, Que Mal Tem?” conta com alguns poucos acertos. Diálogos como: “___ Se fazer filme pornô é tão fácil e dá tanto dinheiro, por que todas as pessoas não passam a fazer isso?”, “___ Ora, porque elas tem dignidade, e nós não.”, ou, “___ As pessoas ganham muito dinheiro com isso, veja a Paris Hilton, está vendendo perfumes para a garotada e ela é uma perfeita imbecil!” tiram um pouco o longa do óbvio status de ridículo e sem graça o qual realmente merece ser rotulado.
Vale citar também o carisma de Seth Rogen. A propósito, Rogen, como sempre, esbanja carisma, talento e, o mais importante de tudo (já que estamos tratando de uma comédia), “timming” cômico. E o restante do elenco? Não. Além de todos os personagens (salvo o protagonista, encarnado por Rogen) serem amplamente sem graça e mal explorados pelo roteiro, são ridicularizados ainda mais pelas fracas atuações daqueles que os compõem, sobretudo Elizabeth Banks que passa o filme todo fazendo a mesma expressão (e note o quão patética e canastra é a expressão dela enquanto discute com Zack no terceiro ato da trama).
Em suma, “Pagando Bem, Que Mal Tem?” pára na ótima atuação de Seth Rogen e na intenção de se fazer um filme de comédia escatologicamente divertido, pois de resto, nos deparamos com uma trama previsível e com um humor repugnante, artificial e, o que é pior, sem a mínima graça.
Avaliação Final: 3,5 na escala de 10,0.

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