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O Guerreiro Genghis Khan – ** de *****
Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 28 de julho de 2.009.

Ficha Técnica:
Título Original: Mongol.
Gênero: Drama / Épico.
Tempo de Duração: 120 minutos.
Ano de Lançamento: 2007.
Países de Origem: Casaquistão, Rússia, Mongólia e Alemanha.
Site: http://www.mongolmovie.com/
Direção: Sergei Bodrov.
Roteiro: Arif Aliyev, Sergei Bodrov.
Elenco: Tadanobu Asano (Temudjin), Honglei Sun (Jamukha), Khulan Chuluun (Börte), Aliya (Oelun – Mãe de Temudjin), Amadu Mamadakov (Targudai), He Qi (Dai-Sechen), Ben Ho Sun (Monge), Ji Ri Mu Tu (Boorchu), Tegen Ao (Charkhu), Ying Bai (Mercador com Anel de Ouro), Bao Di (Todoen), Odnyam Odsuren (Jovem Temudjin), Bayertsetseg Erdenebat (Jovem Börte), Deng Ba Te Er (Daritai), You Er (Sorgan-Shira), Ba Sen (Esugei – Pai de Temudjin), Amarbold Tuvshinbayar (Young Jamukha), Ba Ti (Juchi), Li Jia Qi (Mungun), Bu Ren (Taichar) e outros.
Sinopse: Reconstituição dos primeiros anos de vida de Genghis Khan, escravo que se tornou um dos maiores conquistadores de todos os tempos. Ele chegou a dominar metade do mundo conhecido até então, incluindo a Rússia no ano de 1206.
Fonte Sinopse: Cineclick.
Mongol – Trailer:
Crítica:
Temudjin, vulgo Genghis Khan, foi um dos maiores guerreiros e conquistadores da história da humanidade, figurando facilmente entre celebridades históricas do naipe de Alexandre Magno e Julio Caesar, dentre muitos outros grandes militares que tornaram-se imortais através de inúmeras lendas e estórias que passaram a ser tecidas sobre eles.
É lastimável, no entanto, que uma figura como o mongol mais importante e memorável de todos os tempos tenha sido tão pouco retratada e explorada pelo Cinema (há uma versão lançada em 1.965 sobre Khan, com Omar Scharif no elenco, mas nunca tive a oportunidade de assisti-la, infelizmente) fato que faz com que todo aquele que se diz amante da História e da sétima Arte (que é o meu caso), se arrepie por inteiro só de ouvir falar sobre uma produção que trará tal figura lendária como protagonista.
Se a produção em questão ainda for financiada por países que, salvo em raros casos, sempre primam pela Arte e raramente abaixam a cabeça para certos dogmas hollywoodianos, a experiência que teremos ao assisti-la tem tudo para se tornar muito mais excitante, não? E se a tal produção adotar como padrão um idioma cada vez mais raro de se ouvir e que era proferido por Khan? Aí todo e qualquer cinéfilo tende a ter vários orgasmos múltiplos, não é mesmo? Claro que sim, principalmente em tempos onde é cada vez mais comum irmos ao cinema e ouvirmos um oficial da Gestapo, interpretado por um ator estadunidense, diga-se de passagem, falar inglês com um sotaque alemão mais do que artificial.
Pois é, sei que não devemos nutrir expectativas sobre uma obra cinematográfica antes de conferi-la, afinal de contas, o correto é deixarmos que a mesma conquiste nossa total confiança, que deve sempre começar do zero. Entretanto, a pergunta que fica no ar é: como não se empolgar com um filme com as características supracitadas? Impossível, não? E como.
Eis que “O Guerreiro Genghis Khan” tem o seu tão aguardado (a menos para mim) início. À primeira vista, as expectativas são mais do que superadas. Começamos no Reino Tungus, local onde Temudjin orquestrou o caos durante sua campanha militar. A fotografia é brilhantemente escura (brilhantemente escura?! Sim, da série: antíteses ultra-paradoxais da vida), a direção de arte reflete bem à arquitetura da época e do local e Sergei Vladimirovich Bodrov (sim, outro motivo para nutrir excelentes expectativas acerca do filme: ele é dirigido por um experiente cineasta russo) faz jus ao seu nome e logo de cara efetua closes mais do que dinâmicos, além de realizar um eficiente travelling aéreo que capta toda a beleza do cenário magistralmente montado. O quê? Ah, sim, claro, como não… há várias pessoas falando o respectivo idioma local, o que confere um tom cultural muito maior ao filme.
A edição e o roteiro nos remetem então ao passado do grande guerreiro, mais precisamente quando ele tinha os seus nove anos de idade (e palmas para o letreiro que anuncia ser o ano do rato negro, de acordo com o calendário local, o que acaba conferindo à obra um apego cultural ainda mais forte com a região retratada). Sentimos então que vamos mergulhar profundamente no passado de Temudjin, e é aí que começam os erros crassos cometidos pelo roteiro.
Mas quais seriam esses erros? Bem, qualquer um que apeteça saber algo sobre a estória do grande conquistador mongol deve ter a plena ciência de que o mesmo adotou certas estratégias para derrotar os seus inimigos e que tais táticas de combate só funcionavam perfeitamente bem em virtude do sábio uso de cavaleiros mangudai(s) que o mesmo ministrava e… espere aí, Mangudai(s)?! Isso mesmo, Mangudai(s), uma mescla de arqueiro e cavaleiro, a unidade de ataque principal contida nos exércitos de Khan e que, sabe-se lá o porquê, nem ao menos aparecem ou são comentadas durante o desenrolar do épico.
Aliás, chamar isto daqui de épico é, no mínimo, uma ofensa a este majestoso gênero cinematográfico que, por muitas vezes, elevou o Cinema à condição de espetáculo. Tudo o que “O Guerreiro Genghis Khan” tem a nos oferecer é, no máximo, um draminha clichê nos padrões hollywoodianos, algo bem distante do patamar de um épico.
E falando em Hollywood, sabe aquele filme estrangeiro pertencente a uma terra onde o Cinema raramente segue os dogmas adotados pela maior indústria cinematográfica do mundo? Pois é, ele morre logo nos primeiros minutos de projeção, já que aqui, a sensação que temos é a de que estamos longe de presenciar as típicas produções cazaquistanêsas, mongóis, alemãs ou russas.
O motivo? Simples. Não bastasse a falta de conteúdo histórico do filme, que perde tempo com estorinhas de vingança mais do que batidas e romances mais forçados e artificiais que os de uma novela global, não dando a mínima importância a acontecimentos realmente importantes à vida do grande guerreiro, bem como a invasão que este executou contra a China e o relacionamento dele com o seu conselheiro chinês Yeh-lu Ch’u-ts’-ai (que, no filme em questão, nem ao menos é citado), o mesmo ainda romantiza demasiadamente a figura do militar mongol, retratando-o como um homem bom e justo, mas esquecendo-se de que Temudjin, na verdade, era um conquistador cruel, sádico e sanguináreo, um dos piores que o mundo já conheceu.
O que dizer então do modo como o roteiro desenvolve o protagonista? Se dissesse que o aborda vergonhosamente, estaria fazendo um elogio. A palavra incongruente certamente viria mais a calhar. Francamente, assim como ocorre no também fraco “Alexandre”, aqueles que saírem da sessão sem ter obtido um prévio conhecimento sobre o líder mongol, jamais saberão ao certo como o jovem patético do filme pôde se transformar no grande militar que ele foi.
Se em “Alexandre” víamos Colin Farrel chorando no colo de marmanjos feito uma criança mimada, em “O Guerreiro Genghis Khan” vemos o protagonista fugindo dos inimigos feito uma galinha durante uma hora inteira de projeção e, inexplicavelmente, o mesmo garoto fujão de outrora se transforma, sem mais nem menos e, de uma hora para outra, em um hábil lutador que mais parece um Rambo com espadas. Essa, aliás, revela-se uma das mais artificiais metamorfoses da história do Cinema, afinal de contas, em algum momento o filme explica como o garoto amedrontado de antes conseguiu se transformar em um grande combatente no futuro, sem ter passado por quaisquer formas de treinamento para tal?
Contando com um elenco irregular, cenas absurdas (reparem na estranha facilidade que Hollywood (o quê? O filme não é hollywoodiano? Mas que parece, parece) tem em fazer com que grandes batalhas atraiam gigantescas tempestades que se formam do nada) e informações que pouco acrescentam àqueles que realmente desejam realmente conhecer o homem, o mito e a lenda Genghis Khan, o filme ainda falha terrivelmente ao tratar o mesmo como um verdadeiro covarde durante boa parte da projeção e romantizá-lo ao extremo durante a sua fase adulta, transformando um dos líderes militares mais sádicos de todos os tempos em um homem justo e piedoso.
Salva-se graças à impecável produção, que nos brinda com uma obra inteira pronunciada no idioma mongol, à magistral fotografia e à cuidadosa direção de Sergei Bodrov que, mesmo conduzindo a trama muito mal, cria ângulos excepcionais (vide a batalha onde a câmera assume “os olhos do protagonista” durante o seu desenrolar) e suntuosos planos abertos a fim de retratar toda a beleza natural do local, como na cena onde o personagem, pela primeira vez na vida, enfrenta, sozinho, as congeladas paisagens durante o rígido período hiemal daquela região do globo terrestre (apesar que confesso não saber ao certo se Bodrov imaginava estar dirigindo um épico dramático bem raso ou um documentário produzido pela National Geografic, já que, durante alguns momentos, ele parece se preocupar mais em captar a formosura da natureza local do que o próprio filme em si).
Avaliação Final: 4,0 na escala de 10,0.
Inimigos Públicos – *** de *****
Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 25 de julho de 2.009.

Ficha Técnica:
Título Original: Public Enemies.
Gênero: Drama / Policial.
Tempo de Duração: 140 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Países de Origem: Estados Unidos da América.
Site: http://www.paramountpictures.com.br/inimigospublicos/
Direção: Michael Mann.
Roteiro: Michael Mann, Ann Biderman, Ronan Bennett, baseado no romance de Bryan Burrough.
Elenco: Johnny Depp (John Dillinger), Marion Cotillard (Billie Frechette), Christian Bale (Melvin Purvis), Billy Crudup (J. Edgar Hoover), Stephen Dorff (Homer Van Meter), Stephen Graham (Babe Face Nelson), Jason Clarke (John “Red” Hamilton), Stephen Lang (Charles Winstead), Giovanni Ribisi (Alvin Karpis), Emilie de Ravin (Barbara Patzke), David Wenham (Harry “Pete” Pierpont), Channing Tatum (Pretty Boy Floyd), James Russo (Walter Dietrich), William Nero Jr. (Jovem Fazendeiro) e outros.
Sinopse: Durante a Depressão (período após a quebra da bolsa norte-americana em 1929), o governo americano tenta deter os criminosos John Dillinger (Johnny Depp), Baby Face Nelson (Stephen Graham) e Pretty Boy Floyd (Channing Tatum), transformando o FBI na primeira agência federal de polícia do país.
Fonte Sinopse: Cineclick.
Public Enemies – Trailer:
Crítica:
“___ Por que será que toda a produção cinematográfica protagonizada por Jhonny Depp, cujo tema central seja: “organizações criminosas”, tem que ser tão alicerçada em inúmeros clichês do gênero?” ___ Pensava eu enquanto assistia a “Inimigos Públicos”, sentado na terceira fileira da sala de cinema, recordando-me diretamente do fraco “Profissão de Risco”, que mais parecia um plágio do excelente “Os Bons Companheiros” e que contava com Depp encabeçando o elenco principal.
Coincidência ou não, à primeira vista “Inimigos Públicos” deu a entender que seria mais um filme do gênero gangster com Depp no elenco (ainda não assisti a “Donnie Brasco” para poder concretizar analogias por aqui) e recheado de situações para lá de clichês, bem como o longa “Profissão de Risco”, mencionado há pouco. Explico.
Quando a produção tem o seu início, nos vemos em uma prisão. Em seguida, o protagonista surge em cena e pouco mais para frente profere aquele que eu gostaria de marcar como sendo o grande diálogo do filme: “___ Meus amigos me chamam de Jhon, mas um filho da p*** como você, é melhor me chamar de “Sr. Dillinger”.”. Trata-se de uma frase clichê? Obviamente sim, mas Jhonny Depp consegue a proferir de um modo que não soe arrogante, como certamente soaria na pele de um ator menos talentoso, e isso faz com que o diálogo assuma um ar mais jocoso e não necessariamente ameaçador, o que acabaria nos remetendo à fala típica de um filme qualquer que já tenha sido reprisado uma quinze vezes no “Domingo Maior”.
Todavia, nem mesmo o talento ímpar do eterno Jack Sparrow acaba salvando a primeira hora de filme que, ao invés de explorar os seus protagonistas de maneira decente, se propõe a seguir mais um formato parecido com o supracitado “Os Bons Companheiros”, o ótimo “O Gângster”, o fenomenal “Acossado” e até mesmo o superestimado, embora interessante, “Fogo Contra Fogo”, o que acaba caracterizando um certo auto-plágio, uma vez que a produção enraizada por Al Pacino e Robert DeNiro era comandada pelo mesmo Michael Mann que assina como diretor em “Inimigos Públicos”.
Por que estou afirmando isso? Simples, porque ora o filme aborda a vida boêmia de Dillinger (o que nos remete à lembrança do filme ‘Scorsesiano’), ora aborda o relacionamento amoroso entre ele, um bandido cafajeste e apaixonado, e sua namorada, Billie Frechette, uma moça de certos princípios (o que também nos remete um pouco à lembrança de “Os Bons Companheiros” e, principalmente, “Acossado”) e ora pende para o eterno drama policial “gato-e-rato” (no que nos faz lembrar dos já mencionados “O Gângster” e “Fogo Contra Fogo”). O que há de errado nisso? Nada, ou melhor, não haveria nada de errado caso o roteiro se decidisse definitivamente qual caminho apetece traçar, e não é bem isso o que acaba acontecendo aqui.
Mas o filme se desenvolve e passa a ganhar um ar mais maduro. Adquire uma personalidade própria. Jhonny Depp vai se tornando cada vez mais Jhonny Depp. Michael Mann vai se tornando cada vez mais Michael Mann. O primeiro cria um personagem quase marcante, que só não se torna memorável ao extremo em face do primeiro ato insosso (e isso é culpa integral do roteiro, já que o astro hollywoodiano encarna o seu papel magistralmente bem, até mesmo durante a metade inicial do filme). Mann, por sua vez, vai abandonando aos poucos a direção excessivamente “handcam” à lá Jean-Luc Godard que havia adotado no início da produção e passa a realizar um trabalho com câmeras que tem muito mais a sua cara. Vide a maneira dinâmica e eficiente a qual ele adota para filmar o tenso tiroteio em meio ao bosque, ocorrido entre a metade e o início do terceiro ato, para se ter uma idéia da maestria de seu trabalho.
E embora a supracitada sequência não tenha o mesmo peso que aquela ocorrida em “Fogo Contra Fogo” (sim. Aquela mesma. Aquele tiroteio ininterrupto em meio ao trânsito que tem, em média, os seus dez minutos de extensão), mostra-se tensa o bastante para nos fazer arregalar os olhos durante toda a sua execução.
O filme ganha muito ritmo a partir de então. Incrível notarmos como uma única cena pode injetar um ritmo gradativamente diferente a uma produção cinematográfica. O longa pálido, insosso e sem personalidade de outrora toma vergonha na cara e ganha muito mais força, muito mais vigor, muito mais dinamicidade e muito mais adrenalina.
É aí que Mann passa a se dar conta de que o que tem em mãos é um simples filme gângster exageradamente comercial. Custava ter se dado conta disso desde o início da projeção? Caso Mann o tivesse feito, “Inimigos Públicos” teria nos brindado com uma metade inicial bastante parecida com a sua metade final e, consequentemente, a experiência teria se revelado muito mais satisfatória como um todo.
Destaque para a recriação da época (década de 1.930, no caso), que é feita desde a direção de Arte que espalha cartazes publicitários típicos daquele período por todo o cenário, até mesmo ao simples, mas bem bolado, fato de nos vermos capazes de assistir a alguns segundos de Looney Toones (em preto-e-branco, diga-se) dentro de uma sala de cinema (já que, na ocasião, as pessoas menos favorecidas, financeiramente falando, não tinham acesso à televisão).
Avaliação Final: 7,3 na escala de 10,0.
Easy Rider: Sem Destino – ***** de *****
““Sem Destino”, ícone da contracultura e da liberdade sobre rodas, completa 40 anos”. Tal notícia, publicada no dia 17 de julho de 2009 no site do UOL, chamou a atenção de um amigo meu que, através do Twitter, sugeriu-me uma crítica do filme. “Oras, e por que não?” ___ Pensei eu. Afinal de contas, já havia muito tempo, mesmo, que almejava escrever uma crítica sobre o filme dirigido por Dennis Hopper e achei o presente momento mais do que oportuno. Assisti ao filme pela terceira vez no último domingo (19/07/2009) e dediquei-me, durante estes últimos dois dias, a escrever sobre o mesmo. O resultado podemos conferir logo mais abaixo:

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 22 de julho de 2.009.
Ficha Técnica:
Título Original: Easy Rider.
Gênero: Aventura / Drama.
Tempo de Duração: 95 minutos.
Ano de Lançamento: 1969.
Países de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Dennis Hopper.
Roteiro: Petter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern.
Elenco: Peter Fonda (Wyatt “Capitão América”), Dennis Hopper (Billy), Jack Nicholson (George Hanson), Antonio Mendonza (Jesus), Karen Black (Karen), Phil Spector (“Conexão”), Robert Walker Jr. (Jack), Luana Anders (Lisa), Sabrina Scharf (Sarah), Sandy Brown Wyeth (Joanne) e outros.
Sinopse: Wyatt (Peter Fonda) e Billy são dois jovens motoqueiros traficantes de droga que não se adaptaram à sociedade e seguem um estilo de vida altamente libertário, onde passam a maior parte de seu tempo circulando pelas rodovias estadunidenses sem qualquer destino pré-definido. Quando recebem uma satisfatória quantia em dinheiro para transportar uma considerável carga de cocaína até o outro lado do país, ambos decidem passar antes por Nova Orleans e participarem de um festival que está acontecendo na cidade. No meio do caminho, Wyatt (vulgo “Capitão América”) e Billy se relacionam com dezenas de pessoas bem diferentes das que estamos acostumados a conviver rotineiramente, dentre as quais destaca-se George Hanson (Jack Nicholson), um jovem advogado que dará um novo sentido à liberdade dos motoqueiros.
Easy Rider – Trailer:
Crítica:
Responda rápido: você se recorda de alguma seqüência de créditos, dentre todos os filmes a que já assistiu, mais marcante do que a contida em “Sem Destino”? Certamente não, estou errado? O estranho é que a cena que exibe os créditos do presente longa não é necessariamente original, e ainda assim causa um impacto indescritível às pessoas que a estão assistindo. Talvez seja pelo fato da mais do que clássica e indispensável “Born To Be Wild”, aliada às magníficas paisagens que são retratadas enquanto a mesma é executada, resumir maravilhosamente bem não só o filme que está sendo exibido no presente momento, como também uma geração inteira. E é justamente isso que “Sem Destino” acaba representando: toda uma geração.
Mais do que justamente premiado como “ícone cinematográfico máximo da contracultura”, “Sem Destino” é um filme que marcou a sociedade e a arte até os dias atuais, mesmo após tendo completado quarenta anos nesta última terça-feira, dia 14 de julho de 2009. Mas o que faz dele uma obra imortal? O simples fato de ter tirado o clássico absoluto “Born To Be Wild”, bem como outros grandes hits da época, dos circuitos independentes e ter ascendido-lhe ao mais glorioso sucesso que se possa imaginar? Bem, este foi um dos motivos, de fato, afinal de contas, o que seria do Heavy Metal sem Stepenwolf? O que seria dos motoqueiros de todo o mundo sem o seu hino definitivo (que, por sinal, tornou-se o hino mor dos amantes da liberdade sobre duas rodas pelo óbvio motivo de ter sido a música que acompanha os créditos iniciais deste longa)? E, acima de tudo, o que seria do Heavy Metal, do Stepenwolf e dos motoqueiros sem “Easy Rider: Sem Destino”?
É mais do que evidente, no entanto, que “Born To Be Wild” foi apenas um mero fator que acabou transformando “Sem Destino” em um clássico absoluto da sétima arte. O filme, definitivamente, não concentra os seus atributos única e exclusivamente em uma música, aliás, não só em uma música como também em toda a sua trilha-sonora, que figura facilmente entre as melhores da história do Cinema.
“Sem Destino” é aquilo que toda a obra cinematográfica deveria ser. “Sem Destino” é arte. “Sem Destino” é o ícone máximo de uma geração inteira. “Sem Destino” é a perfeita espelhação de um excêntrico grupo social que serviu de amálgama entre a geração hippie e a geração punk (e por que não citar a geração headbanger?). E é exatamente isso que o transforma em uma obra-prima inquestionável.
Mas a qual excêntrico grupo social estaria eu me referindo, de fato, no parágrafo acima? Um grupo de pessoas fartas de levar um estilo de vida patético e convencional e que decide adotar uma existência “Easy Rider”. Calma, explico. As duas palavras de difícil conexidade que compõem o título original do filme formam, na realidade, uma gíria empregada pelo pessoal da época (fim dos anos 1.960 e início dos anos 1.970) a fim de definir o estilo de vida traçado pelos protagonistas do longa, ou seja, um estilo de vida livre e altamente distante dos ditames sociais. Uma “cavalgada fácil” (traduzindo ao pé da letra), sem ter de suportar o estresse de nossos cotidianos cíclicos, onde desperdiçamos uma existência inteira trabalhando em empregos insuportáveis que não nos leva a lugar algum que não seja a dependência de bens materiais inúteis que visam preencher as nossas mentes insatisfeitas.
A obra-prima de Dennis Hopper (que, pasmem, não só atuou como também dirigiu e roteirizou o filme), no entanto, não só é muito rica no campo sociológico (pois traz à tona um grupo socialmente alternativo) como também no campo filosófico. Particularmente, costumo alcunhar um filme desta espécie, assim como o recente “Na Natureza Selvagem” (que conseguiu a façanha de ser ainda melhor que o drama/aventura em questão), de: “filme filosófico niilista neutro”. Sim, é isso mesmo, filosófico niilista neutro.
Mas o que vem a ser isso? Seria algo que está exatamente em um ponto central de uma tênue linha que separa o niilismo ativo do niilismo passivo. Pegue uma produção niilista ativa (“Clube da Luta”, por exemplo), onde o foco reside no desenvolvimento de personagens que almejam destruir os dogmas da sociedade judaico-cristã-ocidental, e mescle com aspectos de uma produção niilista passiva (“Se7en – Os Sete Crimes Capitais”, curiosamente dirigido por David Fincher, o mesmíssimo diretor do já citado “Clube da Luta”), onde o roteiro foca-se em personagens pessimistas que não creem mais na sociedade e veem no fim da vida, ou na total obliteração social, a solução de seus problemas (ou da maioria deles, o que viria mais a calhar, já que falamos sobre niilismo passivo). O que temos então? Uma produção niilista neutra, ou seja, personagens que não suportam mais o convívio social e, como consequência, decidem se livrar de suas raízes civilizadas, sem que para isso vivam um irrompivelmente cíclico Eterno Retorno do Mesmo, torcendo para que a morte chegue o quanto antes, ou então saia por aí pregando o fim do cristianismo/judaísmo e à volta à natureza.
Aqui estamos diante justamente de dois homens que pouco se importam em desestruturar os padrões rotineiros vivenciados pela nossa sociedade ou acabar com os dogmas judeus e cristãos, assim como Nietzsche pregava. Tampouco estamos diante de pessimistas derrotistas que não veem mais esperança em nada, da mesma forma que Schopenhauer o fazia. Capitão América (Peter Fonda, excelente como o “semi-bicho grilo” cabeça e conciso) e Billy (mais excelente ainda como “semi-bicho grilo” descerebrado) querem apenas se afastar da sociedade, elevando o termo: “sexo, drogas e rock and roll” à máxima potência, mesclando-o ainda a diversos elementos como liberdade, estilo de vida alternativo e, é claro, motocicletas.
A maior ambição de ambos é a liberdade, aliás, não só eles, como todo e qualquer personagem que dá as caras no filme apetece a liberdade de uma forma ou de outra. Há aqueles que desejam a liberdade habitando um sítio e vivendo, praticamente, de agricultura de subsistência com a família (“___ Trabalha no que é seu e quando está deseja trabalhar. Deveria se orgulhar disso!”), os que buscam sociedades alternativas semi-epicuristas (leia-se: hippies) para tal (“___ Sou de uma cidade, uma cidade exatamente igual a qualquer outra cidade. E é justamente por este motivo que desejo estar aqui agora, neste lugar abandonado!”) e, é claro, os nômades contemporâneos, como é o caso dos protagonistas que parecem não se acomodar em nenhum tipo de sociedade.
Liberdade, a propósito, é a palavra que ressoa durante toda a projeção. E quer saber o que é melhor? Aqui, a liberdade não é encarada como um propósito burguês mesclado à glória e honra, algo muito comum nos grandes épicos (não que eu tenha algo contra este conceito “burguês” de liberdade, muito pelo contrário, mas enfim…), mas sim no sentido mais literal o possível desta palavra. É a liberdade de ir e vir, liberdade de viver a vida que escolheu para si próprio, liberdade de poder locomover-se pelo país inteiro, vivenciando novas experiências, conhecendo novos lugares, novos indivíduos.
E novos indivíduos é o que não falta por aqui. “Sem Destino” foca-se, é claro, nos protagonistas, mas os papéis coadjuvantes, por muitas vezes, mostram-se tão fortes quanto, o que faz com que o longa, apesar de contar com uma estória bem simples, jamais perca o seu interessante ritmo.
Como não se familiarizar com os integrantes de uma colônia hippie que, em apenas 15 minutos, é retratada da forma mais completa que já pude conferir no Cinema (e confesso que nem mesmo o interessante “Hair” retratou esta magistral sociedade alternativa de um modo tão amplo quanto o filme de Dennis Hopper, mesmo dedicando a sua projeção inteira para tal)? Como não se familiarizar com o advogado George que, dono de um espírito por vezes mais libertário do que o dos próprios protagonistas, demonstra claramente não suportar a convivência social civilizada que lhe é imposta e, em face disso, opta por seguir viagem junto de Billy e Capitão América?
Espere, citei George, não citei? Pois citar o incomparável personagem que revelou Jack Nicholson para o mundo, transformando-o em um astro, e não se aprofundar sobre o mesmo é como assistir a “Acossado” e não se encantar com a direção de Jean-Luc Godard. Por mais que “Sem Destino” tenha inúmeras qualidades, o filme não seria o mesmo sem a presença de Jack Nicholson que, em apenas vinte minutos em cena, nos brinda com aquela que gosto de alcunhar como: “melhor desempenho de ator coadjuvante da história do Cinema” (bem… da história do Cinema, não digo, mas sim dentre todos os filmes os quais já assisti).
O poder que George Hanson confere ao longa sessentista é algo fenomenal, tanto que, por mais fortes que cenas como a apresentação dos créditos ou o trágico desfecho sejam, elas não conseguem superar três sequências protagonizadas pelo personagem de Nicholson em especial. Refiro-me à passagem por um bar interiorano onde o trio sofre um preconceito terrível e duas conversas que os protagonistas tem sob o calor e a claridade de uma fogueira acesa, sendo que, em uma dessas cenas, os atores encontram-se sob real efeito alucinógeno causado pelo uso recente de maconha e discorrem sob a existência de objetos voadores não-identificados.
O destaque de “Easy Rider”, porém, fica por conta de uma conversa entre Hanson e Billy, onde o primeiro profere aquele que julgo como sendo o melhor discurso sobre liberdade já feito para o Cinema (ao menos, dentre os filmes os quais já assisti): “Eles não temem você. Temem o que você representa e, para eles, você representa a liberdade.”.
Encerrando esse texto… o quê? O final? Ah sim, por mais que insista na conversa entre Billy e George, não há como negar que o final de “Easy Rider” foi eleito pela grande maioria dos cinéfilos como o grande e definitivo momento do filme, bem como um dos grandes e definitivos momentos da sétima Arte. O que representa aquela tragédia, enfim? Que o sonho acabou? É provável, todavia, gosto de destacar também os caipiras preconceituosos que fazem parte da mesma. Seria mera coincidência ou a inserção de sujeitos ruralistas em meio a cena seria um modo sutil, embora extremamente eficiente, de transmitir-nos a mensagem de que, enquanto houver uma maioria de pessoas de mente pequena no mundo (não que todo o caipira tenha mente pequena, não vamos generalizar, mas a verdade é que a maioria deles nutrem preconceitos pelas coisas mais fúteis que se possa imaginar), a plena liberdade jamais será alcançada, por mais que as minorias, caso dos protagonistas, lutem ou se esforcem para tal? Ou talvez não, talvez eu esteja completamente errado.
De uma forma ou de outra, “Easy Rider: Sem Destino” é mais do que um mero grito de liberdade. É mais do que o grande responsável pelo pleno sucesso de “Born To Be Wild”. É mais do que um grande clássico do Cinema. É mais do que uma obra de Arte. “Easy Rider: Sem Destino” é o representante cinematográfico definitivo de toda uma geração. E por mais que o filme seja ligeiramente (bem ligeiramente mesmo) arranhado por uma direção que, apesar de excepcional, é recheada de maneirismos e por uma edição desnecessariamente “moderninha”, o mesmo trata-se de uma obra-prima indispensável para os amantes do Cinema, da liberdade e da contracultura, em si.
Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.
Glória Feita de Sangue – ***** de *****
Já fazia muito tempo, muito tempo mesmo, que eu não escrevia sobre um filme do mestre Stanley Kubrick (o maior ícone da história do Cinema, a meu ver) aqui no Cine-Phylum (a última vez foi quando comentei sobre o excelentíssimo “Barry Lyndon”), logo, decidi que era hora de voltar a faze-lo. Iria optar por escrever sobre “2001 – Uma Odisséia no Espaço” ou “Laranja Mecânica”, mas a verdade é que o meu fanatismo por ambos os filmes é tão gigantesco que conclui ser impossível exprimir a minha opinião em menos de 3.000 palavras de texto. Decidi então que o correto seria escrever sobre uma das poucas obras do diretor a que ainda não havia assistido. Meu dedo apontou para este “Glória Feita de Sangue” que, já de cara, revelou-se o meu terceiro ‘Kubrick’ predileto, conforme poderemos ver na crítica logo mais abaixo.
Ficha Técnica:
Título Original: Paths of Glory.
Gênero: Guerra.
Tempo de Duração: 87 minutos.
Ano de Lançamento: 1957.
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Stanley Kubrick.
Roteiro: Stanley Kubrick, Jim Thompson e Calder Willingham, baseado em livro de Humphrey Cobb.
Elenco: Kirk Douglas (Coronel Dax), Ralph Meeker (Phillip Paris), Adolphe Menjou (General George Broulard), George Macready (General Paul Mireau), Bert Freed (Sargento Boulanger), Kem Dibbs (Recruta Lejeune), Timothy Carey (Recruta Maurice Ferol), Wayne Morris (Tenente Roget), Richard Anderson (Major Saint-Auban), Joe Turkel (Recruta Pierre Arnaud), Peter Capell (Juiz da Corte Marcial) e Emile Meyer (Padre Dupree).
Sinopse:Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, Mireau (George Meeker), um general francês, ordena um ataque suicida e como nem todos os seus soldados puderam se lançar ao ataque ele exige que sua artilharia ataque as próprias trincheiras. Mas não é obedecido neste pedido absurdo, então resolve pedir o julgamento e a execução de todo o regimento por se comportar covardemente no campo de batalha e assim justificar o fracasso de sua estratégia militar. Depois concorda que sejam cem soldados e finalmente é decido que três soldados serão escolhidos para servirem de exemplo, mas o coronel Dax (Kirk Douglas) não concorda e decide interceder de todas as formas para tentar suspender esta insana decisão.
Fonte Sinopse:Adoro Cinema
Paths of Glory – Trailer:
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Crítica:
Qual é o real valor da glória? Pode ser tido como palatável o sacrifício de inúmeros homens em nome da glória de um só? Quantas vidas justificam a aquisição de uma estrela condecorativa? Até onde a vaidade de um único homem pode ir para conseguir marcar o seu nome na história de uma nação? É pertinente que, para tal, o mesmo se veja no direito de incumbir um grupo de militares a realizar uma missão que, na melhor das hipóteses, irá resultar na perda de mais da metade do batalhão?
Indagações como as supracitadas cruzam as nossas mentes a todo o instante enquanto assistimos à primeira parte de “Glória Feita de Sangue”, o sexto filme de Stanley Kubrick e o terceiro de sua carreira a ter o respaldo e o prestígio da crítica internacional. Até onde a ganância de um homem pode ir? Quantos patriarcas devem deixar as suas famílias desamparadas a fim de sustentar a vaidade de uma minoria? Qual é o limite da glória (se é que existe algum limite para a mesma)?
Todavia, o mais curioso desta etapa inicial de “Glória Feita de Sangue” reside na maleabilidade do roteiro em tornar compatível a trama diegética com os nossos respectivos cotidianos. Assim como estamos acostumados a presenciar em nossas vidas profissionais, percebemos que em um batalhão militar há também as costumeiras injustiças cometidas por pessoas que não conseguem distinguir o lado pessoal do lado profissional. Da mesma forma que nos empregos convencionais temos de lidar com bajuladores, colegas falsos e hipócritas, picuinhas, e superiores que prejudicam os seus subordinados pelo simples fato de nutrirem alguma intriga pessoal para com os mesmos, os recrutas de um batalhão parecem enfrentar as mesmíssimas situações, mas com uma grande diferença: aqui, se por algum motivo você não agradar a um superior, a pena máxima não é uma reles demissão, mas sim a morte da maneira mais direta o possível.
E não bastasse o filme abordar tantas questões primordiais, ele ainda consegue a façanha de ir além. Novamente passamos a tecer analogias em cima das experiências vivenciadas por soldados quando nos vemos diante de um tribunal militar. É fato que alguém deve ser julgado e condenado pelo previsível insucesso de uma missão, mas quem? A pessoa que organizou esta missão? Oras, quantas vezes você já viu o seu chefe ser responsabilizado pelo fracasso em uma tarefa? Pois é, a culpa sempre cai sobre o mais fraco e em “Glória Feita de Sangue” a estória não poderia acontecer de outra maneira.
É justamente quando percebemos que três humildes soldados deverão responder pela pena máxima imposta através de corte marcial, que o filme atinge o seu ápice. A obra, que aparentava não conseguir ser melhor do que já estava sendo durante a sua primeira metade, passa a ganhar um tratamento ainda mais primoroso. Não só o Coronel Dax (magistralmente encarnado por um Kirk Douglas frio e desesperançoso) ganha destaque aqui (conforme vinha acontecendo até então), como também os recrutas Lejeune (Kem Dibbs) e Maurice (Timothy Carey, na melhor atuação do filme) e o Sargento Boulanger (Bert Freed).
Acompanhar de perto a angústia dos três condenados é algo ainda mais fascinante do que assistirmos à explosiva batalha travada no início do longa ou testemunharmos às injustiças pelas quais os recrutas passam. À medida que vemos aqueles três pobres homens pagando por um erro que não cometeram, vários sentimentos passam a nos atormentar: bem como a agonia, a injustiça, a compaixão e a pena pelos mesmos, mas ainda assim, nenhum destes sentimentos martela tanto as nossas mentes quanto a indignação que passamos pela hipocrisia e desonestidade que somos obrigados a tomar parte naquela exata ocasião.
Como deixarmos de partilhar também com os sentimentos de Dax, que utiliza-se de todas as atribuições legais o possível para fazer justiça e impedir que os companheiros percam as suas vidas, mas percebe que, quanto mais rápido passa o tempo, menos chances terá de derrotar o sistema interno criado pelo próprio general, que parece ser extremamente desconexo com as regras gerais adotadas no país? A estória avança, Dax entra em profunda angustia ao notar a sua própria incapacidade, os condenados passam a questionar as suas vidas e a existência de Deus, a agonia aumenta cada vez mais e, enquanto o filme não tem o seu definitivo desfecho, nós, espectadores, roemos as unhas de tensão e, após o término da sessão, a perturbação não diminui nem um pouco, muito pelo contrário, só aumenta.
Mas é claro que, por mais angustiante que o roteiro de “Glória Feita de Sangue” seja, o filme não teria obtido o mesmo êxito não fosse o trabalho de Stanley Kubrick. Mais do que meramente empregar várias técnicas de direção a fim de tornar o filme mais rico (e aqui ele adota o uso de travellings, close in, close out e muitos outros elementos que enriquecem ainda mais a experiência cinematográfica), o cineasta (que é tido como um dos maiores da história da sétima Arte e é, disparado, o meu predileto), mesmo fazendo uso de uma direção demasiadamente fria como de praxe, confere à obra toda a sensibilidade necessária para que a mesma funcione corretamente bem.
Repare na maneira como Kubrick opta por filmar o julgamento dos recrutas, por exemplo. O diretor cria um plano de modo com que a sala aparente ser enorme e silenciosa, aumentando ainda mais a amargura que a cena, por si só, já nos transmitiria. O modo como Stanley retrata as possíveis últimas horas de vida dos recrutas também é fenomenal e extremamente introspectiva. Francamente, creio que nem mesmo Kurosawa em “Rashomon”, Lumet em “12 Homens e Uma Sentença” e Bergman em “O Sétimo Selo” e “Gritos & Sussurros” se mostraram capazes de fazer um estudo tão depressivo da angustia pré-morte (ou da concreta possibilidade desta) quanto Kubrick o fez neste filme.
“Glória Feita de Sangue” é, além de um dos melhores dramas de guerra já feitos, uma obra-prima atemporal e introspectiva que certamente figura entre os mais importantes filmes já feitos para o Cinema.
Duas décadas e meia mais tarde, Stanley Kubrick voltaria a flertar com o gênero guerra no clássico “Nascido Para Matar”, mas não restam dúvidas de que o peso dramático inserido naquele filme não chega aos pés desta obra-prima magistral lançada comercialmente em 1.957.
Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.
Amarcord – ***** de *****
Há muito tempo não assistia a Fellini e concluí: devo fazê-lo o quanto antes. Oras, o italiano é, talvez, o meu terceiro cineasta predileto (perdendo apenas para Kubrick, Godard e empatando, talvez, com Bergman), por que então não assisti-lo? Fiquei praticamente um ano e meio sem conferir o trabalho de um dos maiores mestre do Cinema italiano e a situação estava soando insustentável. Não poderia ficar sequer mais um único dia de minha vida tão afastado do lirismo “felliniano”. Não resisti, fui à locadora, encontrei o DVD na prateleira dos filmes de Arte, peguei-o com as duas mãos (mesmo sabendo que ninguém mais iria passar na minha frente para levar o filme para casa, afinal de contas, quem vai a uma locadora com o intento de assistir a Fellini?) e trouxe-o para casa. O resultado desta experiência? Leiam à crítica abaixo e comprovem por si mesmos.

Ficha Técnica:
Título Original: Amarcord.
Gênero: Comédia.
Tempo de Duração: 127 minutos.
Ano de Lançamento (Itália / França): 1973.
Países de Origem: Itália e França.
Direção: Federico Fellini.
Roteiro: Federico Fellini e Tonino Guerra.
Elenco: Armando Brancia (Aurelio Biondi), Pupella Maggio (Miranda Biondi), Bruno Zanin (Titta Biondi), Magali Noël (Gradisca), Ciccio Ingrassia (Teo), Nando Orfei (Pataca), Luigi Rossi (Advogado), Gianfilippo Carcano (Don Baravelli) e Josiane Tanzilli (Volpina).
Sinopse: Através dos olhos de Titta (Bruno Zanin), um garoto impressionável, o diretor dá uma olhada na vida familiar, religião, educação e política dos anos 30, quando o fascismo era a ordem dominante. Entre os personagens estão o pai e a mãe de Titta, que estão constantemente batalhando para viver, além de um padre que escuta confissões só para dar asas à sua imaginação anti-convencional.
Fonte Sinopse: Adoro Cinema
Amarcord – Trailer:
Crítica:
Como fã incondicional de Fellini e Bergman, não consigo me decidir entre um dos dois. Quem é melhor, o italiano ou o sueco? O bem humorado ou o depressivo? Cada qual tem o seu estilo próprio de abordar as questões existenciais vivenciadas por nós, meros mortais, mas quem realiza melhor o seu trabalho? Difícil dizer. Ambos convencem, e muito, em suas respectivas intenções.
Se Bergman nos faz refletir sobre as nossas existências em “Gritos e Sussurros”, Fellini o faz tão magistralmente quanto (ou talvez, de maneira até melhor) em “8 e ½”. Se Bergman critica a hipocrisia social em “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam”, Fellini o faz tão magistralmente quanto (ou talvez, com um pouco menos de intensidade) em “A Doce Vida”.
Mas enfim, por que estou batendo tanto em cima de ambos os diretores? Simples, porque ambos nos remetem aos mesmos questionamentos, só que os dois encontram-se em polaridades estupidamente diferentes.
Se Bergman se mostra em crise existencial constante e nunca/raramente oferece solução/soluções para tal, Fellini já tem um pensamento mais positivo, e boa parte de suas obras são depreendidas com um final feliz (e em momento algum isso pode ser encarado negativamente, já que Fellini sabia, como poucos, criar finais felizes pouco/nada artificiais). Quiçá “Amarcord” seja o filme que melhor diferencie um dos maiores gênios (senão o maior) do Cinema italiano do maior gênio do Cinema sueco, e prove, de fato, que ambos realmente abordam assuntos muito parecidos, mas em polaridades amplamente diferentes.
Revelando-se, talvez, como o trabalho mais positivista dentre os demais exemplares “fellinianos”, ouso mencionar que “Amarcord” muito provavelmente seja uma ode que o cineasta almejou realizar sobre a concreta possibilidade de se encontrar a felicidade plena e absoluta nas coisas mais simples da vida. Não seria inverossímil de minha parte, portanto, mencionar também que, possivelmente, este seja o motivo pelo qual o filme não tenha uma grande trama por trás de si. Afinal de contas, o roteiro trata de pessoas simples, com cotidianos ainda mais simples. Veja o nosso próprio caso. Somos, na grande maioria das vezes, indivíduos que apenas passamos pela vida, sem vivenciar momentos excepcionais e marcantes a ponto de tornaram-se um filme. E isto é necessariamente ruim? Depende, tudo varia de acordo
com a forma com a qual encaramos nossas vidas. Para quem sabe admirar a beleza na simplicidade, o cotidiano de uma reles cidadezinha no litoral da Itália pode ser um paraíso.
Mas “Amarcord” é também uma crítica à completa alienação. Uma condenação à hipocrisia social, tomando como base para tal um grupo de pessoas que viviam em meio a um sistema fascista e totalitarista, e que parecia aceitar o mesmo sem problemas. Ao mesmo tempo em que presenciamos um povo simples, humilde e satisfeito com a própria vida, tomamos ciência também de que estamos diante de um aglomerado de seres humanos alienados, conformistas e (por que não dizer?) ufanistas, que sentem orgulho de fazer parte de um sistema econômico e de um regime militar que os usa como meras ferramentas para o triunfo de uma pequena, mas dominante, minoria.
“Amarcord” nos propõe então o debate acerca de uma polêmica questão: o que é melhor? Viver humildemente e levar uma vida feliz, mesmo sendo gritantemente manipulado por uma minoria, ou abandonar todos os ideais conformistas que podemos ter e corrermos o risco de sermos repreendidos por esta mesma minoria (assim como um personagem que é torturado pelos fascistas logo após ser tachado de comunista)?
A produção, no entanto, não é somente um debate político-social-existencial. Fellini, por mais que negue com veemência, parece ter utilizado a sua câmera aqui com o intuito de realizar uma espécie de autobiografia (assim como o fez, e assumiu que o fez, em “8 e ½” – o meu ‘Fellini’ predileto e um de meus dez filmes preferidos) e o próprio título desta magnífica obra do Cinema italiano revela-se o grande alcaguete do cineasta, uma vez que “Amarcord” trata-se de uma gíria deveras utilizada na região onde Federico nasceu e significa justamente: “Me recordo”.
E é justamente quando emprega em sua narrativa um fantástico clima de recordação que o longa opta, com sapiência, por focar-se em uma cidadezinha no litoral da Itália, onde podemos nos deparar com os personagens mais peculiares e extravagantes o possível. Começamos com uma ninfomaníaca e vamos até uma mulher absurdamente voluptuosa cujo maior sonho é casar-se com um militar fascista, passando por uma enfermeira anã, um ambulante exageradamente excêntrico, um grupo de pessoas que trabalham durante a vida toda simplesmente para tentar sobreviver, e uma pequena confraria de jovens altamente frívolos que não pensam em outra coisa, se não sexo.
Falando nos jovens, talvez seja neles que Fellini tenha depositado a maior parte da carga autobiográfica do filme, espelhando-se em Titta para nos relatar as suas experiências com a família, a religião, a amizade, a política, o regime militar fascista, e, é claro, o sexo, bem como a aflição pela qual passamos antes, durante e depois da realização do mesmo. Afinal de contas, por mais fútil que possa ser, como podemos negar que o sexo marca, de fato, as nossas vidas?
Mas e quanto ao diretor Fellini? O gênio Fellini? Como ele se sai? Por trás das câmeras, o italiano dá o tom minuciosamente correto à obra. Ele a orquestra como se fosse, de fato, um maestro. Sabe-se-lá como o cineasta consegue tornar possivelmente real um filme com um número considerável de figuras excêntricas. Tanto que, mesmo em meio à excessiva carga fantasiosa da trama (afinal de contas, trata-se de um filme de lembranças, e quem não conta com uma carga fortemente fantástica embutida em suas recordações?), nos sentimos inexplicavelmente familiarizados com a mesma, tornando-se impossível não nos identificarmos com a maior parte do filme.
O cineasta destaca-se também no que se refere à concepção de cenas clássicas. E digo clássicas, pois são atemporais, sendo que poderiam adquirir tal rótulo a partir do momento em que foram exibidas nos cinemas do mundo todo. Como não reconhecer de imediato que sequências como a dos jovens se masturbando no carro, a dos adolescentes dançando em meio a uma neblina, a da nevasca cobrindo a cidade no final do filme transformando-a em uma das mais belas paisagens já vistas na história do Cinema, o casamento que conclui a obra e, principalmente, o passeio de barcos tradicional que se encerra com a passagem do Transatlântico Rex, entre muitas outras, irão marcar o Cinema durante muitos e muito anos?
Realizando uma autobiografia não assumida de sua infância, Fellini faz de “Amarcord” um estupendo debate existencial explicitando dois pontos exacerbadamente diferentes: a possibilidade de se encontrar a felicidade nas coisas mais simples da vida e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de se viver tranquilamente perante a um ideal extremamente conformista, que acaba permitindo com que sistemas totalitários, bem como o fascismo, se apoderem de nós, sem nem ao menos nos importarmos com isso. O clima de recordação embutido no roteiro nos soa extremamente familiar e nos cativamos imensamente com os jovens pervertidos sexuais que, deixando a hipocrisia de lado, podem ser espelhados em qualquer um de nós.
O longa talvez falhe apenas no senso de humor excessiva e desnecessariamente pastelão inserido em seu início (e juro que pensei estar assistindo a um “Porky’s” politizado durante alguns momentos), mas nada que comprometa este longa que, assim como “O Poderoso Chefão” (alguma vez já disse que este é meu filme predileto?), revela-se muito mais do que um excelente filme; “Amarcord” mostra-se, na verdade, uma junção de várias cenas clássicas que são projetadas na tela ao longo de, aproximadamente, 120 minutos, e o que é melhor, sob a magistral trilha-sonora composta por Nino Rota (assim como acontecera também em “O Poderoso Chefão”), que parece ter vida própria (e não se surpreenda caso você passe um mês inteiro assoviando-a incansavelmente) e casa-se magistralmente com as maravilhosas imagens que perambulam pela tela.
Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.
Je Vous Salue, Marie – **** de *****
Ficha Técnica:
Título Original: Je Vous Salue, Marie.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 75 minutos.
Ano de Lançamento: 1985.
País de Origem: França / Reino Unido / Suiça.
Direção: Jean-Luc Godard.
Roteiro: Jean-Luc Godard.
Elenco: Myriem Roussel (Maria), Thierry Rode (José), Johan Leysen (Professor de Ciências), Anne Gautier (Eva), Philippe Lacoste (Arcanjo Gabriel), Manon Andersen (A Menina), Malachi Jara Kohan (Jesus Cristo), Juliette Binoche (Juliette), Dick (A Criança) e Rapaz na Sala de Espera (Serge Musy).
Sinopse: Godard realiza aqui uma readaptação da concepção da Virgem Maria (Myriem Roussel) moldada nos dias atuais. Ao contrário da Maria bíblica, a protagonista deste filme é uma jovem comum, que joga basquete e trabalha no auto-posto de seu pai. A garota namora José (Thierry Rode), um taxista que, ao saber que a sua parceira está grávida, a acusa de traição, pois eles jamais mantiveram conjunções carnais entre si. O Anjo Gabriel (Philippe Lacoste), no entanto, se esforça para persuadir José de que Maria não o traiu, e que a mesma continua virgem e carrega consigo o filho de Deus. Paralelamente a esta trama, é narrada a estória de um professor (Johan Leysen) que mantém um caso de amor com a sua aluna Eva (Anne Gautier) e passa a discutir com a mesma a origem da vida na Terra.
Je Vous Salue, Marie – Trailer:
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Crítica:
Por mais que tente, não consigo idolatrar os ‘Godard’ da década de 1.980. Adoro incondicionalmente os seus filmes produzidos durante a década de 1.970 e, principalmente, os abrolhados durante a década de 1.960 (tanto que “Acossado” figura facilmente entre meus três filmes prediletos), mas dentre as produções mais atuais que dirigiu, nenhuma consegue agradar-me por completo, o que inclui até mesmo este “Je Vous Salue, Marie”. A impressão que fica é a de que o cineasta francês, após ter contribuído imensamente para a solidificação da Nouvelle Vague, decidiu inovar cada vez mais, a ponto de se ver obrigado, a cada filme que realiza, estar sempre inventando moda. É como se Godard se visse forçado a se reinventar a cada novo trabalho, adotando então maneirismos deveras desnecessários para tal.
Assim como na grande maioria de seus filmes oitentistas, em “Je Vous Salue, Marie” Godard explicita uma necessidade exacerbada e desnecessária de querer se auto-afirmar como gênio (seria um complexo de inferioridade característico dos artistas?), algo que ele já provou ser através de seus trabalhos sessentistas. Não que a sua direção aqui seja ruim, muito pelo contrário, é fantástica como sempre, mas não resta dúvidas de que a abundância de maneirismos empregados pelo gênio francês atrapalha consideravelmente no resultado final da obra.
Ao mesmo tempo em que posicionar a câmera apropinquada e fixamente à nuca de uma pessoa, enquanto esta assiste a uma aula de ciências, se mostra uma tática um tanto o quanto inteligente de fazer com que o espectador se sinta sentado exatamente atrás da moça, fazer cortes a todo o instante utilizando telas inteiramente negras com os dizeres: “En Ce Temps Lá” (“Naquela época”, em português) revela-se uma tentativa um tanto o quanto desesperada, desnecessária e carregada de alarde de se reinventar.
Mas e quanto a toda polêmica em volta do filme em questão? Mera neurose propagada pela mídia alarmista, pela Igreja conservadora e pela censura néscia daquela época. Não há nada de controverso na obra em si, salvo as excessivas cenas de nudez exibidas durante a sua projeção, mas nada que acabe justificando, de fato, toda a inquietação feita em cima da produção. Em momento algum notamos uma tentativa de ofender as crenças católicas. Também não podemos presenciar a suposta ode que o grande gênio da cinematografia francesa realizou ao cristianismo aqui (conforme muitos críticos alegam) pelo simples fato dele não ter realizado ode alguma (ou será que as pessoas que defendem tal tese (incluindo o Papa João Paulo II, pessoa a qual respeito muito) esqueceram-se de que Godard tem uma leve inclinação ao ateísmo (não tanto o quanto Federico Fellini, Ingmar Bergman, Marlon Brando e Luís Buñuel tinham, mas enfim…)?).
Pois se “Je Vous Salue, Marie” é um filme que nada tem de polêmico e não tece criticas, nem elogios, ao cristianismo, o que faz dele uma obra digna de ser assistida e venerada? Uma única palavra: versatilidade. Godard transfere para as telonas (e graças ao recente lançamento em DVD: para as telinhas também) uma original readequação do magnum opus da história do cristianismo: o nascimento de seu mártir. Como ele seria se fosse readaptado aos dias atuais? Como seria José? Como seria o Anjo Gabriel? Como seriam os três reis magos? E, acima de tudo, como seria Maria? Como seria a Maria moderna, em uma época onde carregar consigo uma missão divina consiste em um desafio ainda maior do que há dois mil anos atrás, uma vez que, atualmente, manter um perfeito equilíbrio entre corpo e alma torna-se cada vez mais difícil?
Mas não apenas o dogma mor do cristianismo é ilustrado aqui, como também o axioma absoluto adotado pela ciência cética, ou seja, o caminho percorrido através de métodos empíricos e/ou filosóficos que levem os pesquisadores a alcançar resultados cada vez mais concretos que se revelam capazes de derrubar definitivamente as teorias criacionistas. Assim como Godard realiza um complexo estudo sobre o nascimento de Cristo adaptado aos dias atuais, ele o faz de forma ainda mais perfeita quando opta por abordar (magistralmente, diga-se) uma subtrama dotada dos mais bem argumentados diálogos filosóficos e que é protagonizada por um professor de ciências (que crê na hipótese de nós, seres humanos, sermos descendentes de alienígenas) e sua aluna (e o fato do nome desta ser Eva, definitivamente, não se trata de mera coincidência), com a qual mantém um caso de amor secreto.
Em suma, ignore toda a polêmica envolvendo “Je Vous Salue, Marie”, pois trata-se de muitos relâmpagos para pouca tempestade. O filme é, na realidade, uma excelente abordagem contemporânea dos dois mais elevados pontos defendidos pela Igreja e pela Ciência: o nascimento de Cristo, por parte da primeira, e os métodos empíricos, adotados pela segunda, a fim de tornar obsoletas as teorias criacionistas. A fita é ótima e, não fosse por alguns maneirismos adotados por Godard a fim de, desnecessariamente, se auto-afirmar como um verdadeiro gênio da história do Cinema, o resultado final teria sido ainda mais completo do que realmente foi.
Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.
Sinédoque, Nova York – **** de *****
Ficha Técnica:
Título Original: Synecdoche, New York.
Gênero: Drama.Tempo de Duração: 124 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: www.sonyclassics.com/synecdocheny
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Charlie Kaufman.
Roteiro: Charlie Kaufman.
Elenco: Philip Seymour Hoffman (Caden Cotard), Catherine Keener (Adele Lack), Sadie Goldstein (Olive – 4 anos), Robin Weigert (Olive – adulta), Tom Noonan (Sammy Barnathan), Josh Pais (Dr. Eisenberg), Daniel London (Tom), Robert Seay (David), Michelle Williams (Claire Keen), Stephen Adly Guirgis (Davis), Samantha Morton (Hazel), Hope Davis (Madeleine Gravis), Frank Girardeau (Plumber), Jennifer Jason Leigh (Maria), Paul Sparks (Derek), Daisy Tahan (Ariel), Timothy Doyle (Michael), Rosemary Murphy (Frances), Emily Watson (Tammy), William Ryall (Jimmy), Dianne Wiest (Ellen Bascomb / Millicent Weems), Joe Lisi (Maurice), Jerry Adler (Pai de Caden), Lynn Cohen (Mãe de Caden), Kat Peters (Ellen – 10 anos), Deirdre O’Connell (Mãe de Ellen) e Peter Friedman (Médico do setor de emergência).
Sinopse: Após ser abandonado pela esposa Adele (Catherine Keener) e pela filha Olive (Sadie Goldstein), o diretor de peças teatrais Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) passa a enfrentar uma série de conflitos existenciais que parecem não ter fim. Eis que o diretor ganha um relevante prêmio em dinheiro e decide criar uma peça teatral embasada totalmente em sua vida. É aí que o mesmo passa a refletir sobre toda a sua existência.
Synedoche, New York – Trailer:
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Crítica:
Não é fácil assistir a “Sinédoque, Nova York”, o mais novo filme do roteirista e, agora diretor, Charlie Kaufman. Contando com uma narrativa extremamente abstrata e que mescla constantemente realidade com fantasia (ou delírio, que seja), o longa revela-se um intrincado quebra-cabeças que exige do espectador um forte esforço intelectual, emocional e lógico (ou seria ilógico?), a começar pelo próprio título da obra.
É comum que algumas pessoas saiam dos cinemas se perguntando: “Mas afinal de contas, por que diabos este filme chama-se “Sinédoque, Nova York”?”. Confesso que eu mesmo já nem me lembrava mais dos mínimos detalhes das aulas ginasiais de
português, inclusive no que se refere à figuras de linguagem. Logo, admito que procurei o significado de tal palavra antes de assistir ao filme. Descobri, ou melhor, redescobri que o termo ‘sinédoque’ trata-se na realidade de uma metonímia que substitui um conjunto de objetos, pessoas, animais e etc… Citemos um exemplo: “Assisti a todos os “Godards” que se possa imaginar.” (MENTIRA!!!). Neste caso, a palavra ‘Godards’ refere-se diretamente a toda a filmografia do cineasta francês. Logo, “Sinédoque, Nova York” trata-se de um magistral título (e confesso que desde “O Escafandro e a Borboleta” não via um título ser tão bem adequado a um filme quanto este o é) que ilustra um pequenino pedaço da cidade de Nova York que possui a função de representar uma cidade inteira, ou, quem sabe, a nação inteira, ou até mesmo o mundo inteiro.
E é nesta sinédoque nova-iorquina que o brilhante roteiro de Kaufman desenvolve o seu protagonista: o diretor de teatro Caden Cotart (encarnado com maestria por Philip Seymour Hoffman, em uma das melhores atuações de sua carreira, comprovando definitivamente que é um dos melhores atores estadunidenses em ação). Assumindo a função artística de alter-ego de Kaufman, Cotart é a personificação do pessimismo. Portador de uma doença que causa envelhecimento de pele precoce, o protagonista passa boa parte da vida esperando o pior, imaginando que a morte baterá em sua porta muito antes do conveniente. O diretor então se torna uma pessoa cada vez mais depressiva e desacreditada. As coisas só vem a piorar quando a esposa do personagem principal utiliza uma exposição (ela é uma artista que pinta micro (isso para não dizer “nano”) quadros) em Berlin como tergiversação para abandona-lo definitivamente, e levar a filha embora consigo.
Cotart se torna um sujeito ainda mais propenso a ataques de melancolia e crises existenciais, mas decide curar as mesmas investindo em dois mal-sucedidos romances com Hazel (a bilheteira de seu teatro) e Claire (uma de suas atrizes prediletas). Nada funciona corretamente na vida de Cotart, e talvez seja aí que resida uma das grandes falhas do filme, nesta artificialidade com a qual o roteiro cria algumas situações exageradas a fim de desenvolver o seu principal personagem. O protagonista, além de ser portador das patologias supracitadas, passa por uma maré de azar que torna-se difícil de crermos e levarmos a sério o seu sofrimento durante alguns poucos segundos. Tudo dá errado na vida do diretor teatral, tudo mesmo, e quando algo parece que vai tomar o rumo, acontece um incidente e o protagonista volta ao zero. Ou seja, Cotart é, na verdade, um Benjamin Button às avessas.
Mas, no geral, o filme conta com metáforas bastante satisfatórias e dá uma guinada incrível quando o protagonista recebe uma considerável quantia em dinheiro para que possa re
alizar uma peça teatral realmente pomposa. O diretor opta então por reproduzir a sua vida passo a passo, detalhe por detalhe, nos palcos de seu teatro. É construída uma magistral réplica de Nova York, vários atores são contratados para encenar os inúmeros incidentes ocorridos na vida de Cotart, e o modo como Kaufman (o diretor) conduz esse entrelaçamento entre realidade e fantasia é não menos do que maravilhoso, tanto que o cineasta consegue perfeitamente o que queria, deixar o espectador confuso.
Confuso, aliás, é uma palavra que descreve perfeitamente o rumo que a trama assume a partir daí. Já não conseguimos mais discernir realidade de fantasia e ficção de delírio. Tudo o que
vemos é uma série de metáforas fantásticas (no sentido ambíguo) que realizam uma conveniente abordagem sobre o sofrimento, sobre o amor, sobre o modo como o tempo avassalador castiga os seus soberanos (nós, pobres mortais) e, mormente, sobre a tênue linha que liga a vida à morte. A odisséia de Cotart revela-se então uma espelhação artística de nossas existências, afinal de contas, o que seria a vida, aos olhos de um pessimista tal como Charlie Kaufman, senão um eterno ensaio que não nos leva a lugar algum, que não seja à morte?
E é claro que quando citei a hipótese supra, descrevi apenas a minha interpretação relacionada ao eterno ensaio de Cotart, sendo que há muitas outras análises cinematográficas redigidas sobre o filme em questão que apontam a peça teatral como sendo uma metáfora à forma que um
projeto artístico consome o seu realizador de modo gradual, a ponto de sugar todas as forças deste.
Existe também a possibilidade de Kaufman ter feito deste “Sinédoque, Nova York” o que Stanley Kubrick fez com “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, transformando-o em uma obra com o intento de formular apenas questões, e não respostas (apesar de eu defender a tese (e é óbvio que apenas a defendo e não a julgo como sendo a tese definitivamente verdadeira) de que a obra-prima de Kubrick (e meu segundo filme predileto) trata-se de uma alegoria espacial sobre a evolução humana do ponto de vista nieztschiano – pois é, eu tinha que citar Nieztsche neste texto, não é mesmo?).
Independentemente da mensagem que Kaufman almejou nos transmitir com “Sinédoque, Nova
York”, o filme em questão trata-se de uma obra imperdível, recheada de características que nos remetem à lembrança de outras obras-primas, tais como “Um Cão Andaluz” (ainda que não seja tão dadaísta quanto o curta-metragem mais revolucionário da história do Cinema) de Luís Buñuel, e “Cidade dos Sonhos” de David Lynch.
Fica a recomendação para que o leitor, quando for assistir ao filme, ao invés de tentar amarrar todas as pontas do longa, apenas embarque na surreal viagem de Charlie Kaufman e lucubre, após o término da sessão, sobre um (ou mais) dos vários questionamentos que a produção em questão nos remete.
Avaliação Final: 8,7 na escala de 10,0.
Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois – ***** de *****

Título Original: Jules et Jim.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 104 minutos.
Ano de Lançamento: 1962.
País de Origem: França.
Direção: François Truffaut.
Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault, baseado em livro de Henri-Pierre Roché.
Elenco: Jeanne Moreau (Catherine), Oskar Werner (Jules), Henri Serre (Jim), Vanna Urbino (Gilberte), Boris Bassiak (Albert), Anny Nelsen (Lucie), Sabine Haudepin(Sabine), Marie Dubois (Therese), Christiane Wagner (Helga) e Michel Subor (Narrador).
Sinopse: Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) são dois jovens boêmios e intelectuais que vivem em Paris durante a Belle Époque. A vida de ambos ganha uma injeção de ânimo ainda maior quando Catherine (Jeanne Moreau), uma jovem libertária, revolucionária, contestadora, inconsequente e impetuosa os conhece. Os três formam um grupo inseparável que passa boa parte do tempo indo ao teatro, realizando passeios ciclísticos e frequentando a praia local. Dá-se início à Primeira Guerra Mundial, Jules se vê obrigado a sair da França e defender a sua terra natal, mas casa-se com Catherine antes. Terminada a guerra, Jim vai visitar os dois amigos e vê que ambos formaram uma família bem sucedida. Mas o tempo passa e o francês se dá conta de que os dois não são tão felizes quanto pensava, uma vez que Catherine é uma jovem feminista ferrenha e acredita que o amor é curto. Logo, a garota passa a trair Jules constantemente, achando que trata-se de uma atitude normal. Jules não se importa com isso, contenta-se apenas com a presença da esposa, sem se preocupar com a fidelidade por parte da mesma. As coisas mudam completamente de figura quando Catherine passa a amar Jim, e o sentimento torna-se recíproco, nascendo aí um triângulo amoroso altamente explosivo.
Jules et Jim – Trailer:
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É interessante que, antes de assistir a este “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois”, o último filme por mim conferido tenha sido “Acossado” de Jean-Luc Godard (e aconselho que o(a) leitor(a) o faça da mesma forma, assista à obra-prima de Godard e, logo me seguida, assista a obra-prima de Truffaut, e quando tiver acabado, entenderá o porquê de meu conselho), pois ambos tem muito em comum.
Além de serem dois dos maiores representantes da Nouvelle Vague, também contam com o “amor” como grande protagonista da trama. Entretanto, ambas as obras abordam tal sentimento de formas extremamente diferentes, sendo que o longa de Godard estabelecia um panorama sobre o amor entre duas pessoas completamente diferentes, ao contrário do longa de Truffaut, que o faz em cima de vários indivíduos com muitas características em comum.
O filme começa com uma citação que o resume muito bem. Catherine, a protagonista, diz: “Você disse: “eu te amo”, eu disse: “espere”, eu disse: “sou sua” e você disse: vá embora”. Neste curto diálogo podemos prever que o longa trata de pessoas que amam, mas não suportam vivenciarem tal amor de forma completa. É como se o mesmo as enjoasse, as entediasse, e perdesse toda a magia e o charme inicial com o decorrer de um curto período de tempo. X ama Y, Y pede a X um tempo para pensar, Y decide então aceitar o amor de X, e quando X passa a se relacionar afetivamente com Y, ele já não sabe mais se ama o parceiro. Complexo? E como.
É nesta amálgama amorosa que o roteiro assinado por François Truffaut e Jean Gruault, baseados no romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché, tece o seu trio de personagens principais. Adotando inicialmente uma narrativa abrupta e efêmera, assim como muitos exemplares da Nouvelle Vague o fizeram, “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois” nos introduz logo de cara, e sem quaisquer delongas, à amizade entre os personagens título. Passamos a saber, logo no início da projeção, que ambos tornaram-se amigos fantasiando-se para um baile, e pronto, isso já basta. Não é necessária uma abordagem mais ampla de como ambos se conheceram, isso seria perda de tempo.
Jules é um austríaco que, ao lado do francês Jim, nutre uma paixão incondicional pela Arte. Ambos passam os seus vinte e poucos anos de idade aproveitando a vida ao máximo, fazendo tudo o que os demais jovens aristocratas poderiam fazer na Paris dos últimos anos da Belle Époque. O desenvolvimento diegético de ambos passa a fazer mais sentido e descobrimos então a verdadeira razão da existência da amizade entre os protagonistas. Os dois estão fortemente ligados aos prazeres da boemia e ao estudo da Arte, e isso já basta para que o apego entre ambos nos cative definitivamente, justificando o início súbito do filme.
A amizade entre eles ganha força máxima com a inclusão de Catherine na trama. Assim como Jules tornou-se amigo de Jim ao acaso, o mesmo ocorre com a personagem magistralmente encarnada pela excelente Jeanne Moreau. A primo, Catherine surge como um amálgama entre os dois amigos. A garota, até então depressiva, completa e, ao mesmo tempo, é completada pela alegria dos personagens-título. Os jovens, que já seguiam um estilo de vida hedonista, e com ligeiras pinceladas epicuristas, ganham características ainda mais joviais quando se encontram ao lado da moça.
Mas tudo o que é belo tem o seu fim. Chega a Pri
meira Grande Guerra e, com ela, surge uma vírgula que interrompe a amizade de ambos. Jules é desterrado da França para lutar pelo seu país. Notamos então que os sentimentos de ambos são realmente verdadeiros, pois um prefere mil vezes a própria morte a ter de aniquilar o outro em campo de
batalha.
A guerra acaba. Jim visita Jules, que encontra-se casado com Catherine e, em uma primeira vista, julga que ambos formaram um casal feliz, construíram uma excelente cabana em uma bela fazenda e tiveram uma filha encantadora. Eles tem tudo para ser uma família afortunada, mas não são. Por quê? Em face do gênio impetuoso e libertário de Catherine.
Jules ama a imagem que criou em cima da moça, mas não nutre por ela um sentimento tão intenso quando esta se encontra a sua frente. Catherine já é uma jovem demasiada feminista e libertária. Ela é a personificação da década de 1.920, uma feminista insanável. É extremamente ‘saidinha’, como diriam os mais velhos. A personagem de Jeanne Moreau é adepta ferrenha do amor livre, do amor anárquico, do amor rotativo. Para ela, o verdadeiro amor existe, de fato, mas tem uma chama muito curta e pode ser facilmente apagado.
Eis que Jim volta à sua vida. O francês passa a amá-la, mas respeita o amigo. Jules, no entanto, desconfia, e pede ao amigo que case-se com a sua esposa, pois apenas desta forma ele poderá vê-la todos os dias, já que o austríaco não consegue disponibilizar a esta todo o amor necessário (se é que realmente existe algum), ele confessa que contenta-se apenas com a presença diária de Catherine. Jules permite então que o amigo francês e a ex-esposa mantenham conjunção carnal em sua própria morada, debaixo de seu próprio nariz.
Seria ele um (com o prévio perdão pela expressão vulgar) “corno manso”? Ou quem sabe um voyeur. Não, nem um, nem outro. Jules, como já fora dito, ama apenas a imagem que criou sobre Catherine, e talvez nem ame a pessoa Catherine, apesar de não conseguir viver afastado da mesma. Para ele não consiste uma traição ver as duas pessoas a que mais ama manterem um
relacionamento afetivo dentro de sua própria casa, e com o seu próprio aval. Mas aos poucos Jim também passa a sentir que já não ama Catherine com a mesma magnitude que amava outrora e tal sentimento é recíproco.
E é aí que o vai-e-vem amoroso começa tudo de novo. Os desconexos sentimentos afetivos tomam conta da película mais uma vez (se é que deixaram de tomar conta da mesma durante algum instante) e nos vemos novamente diante de um relacionamento que mais parece ter ocorrido em meio a uma comunidade hippie. E falando em comunidades hippies, não é de se estranhar a coincidência de “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois” ter sido lançado justamente nos anos 1.960, juntamente com o surgimento destes movimentos da contracultura, já que eles também pregavam a mesma forma alternativa de amor.
É através da utilização de uma direção bastante autoral, repleta de travelings curtos e rápidos, cortes dinâmicos, e de enquadramentos que exploram ao máximo a beleza natural de suas locações, bem como de sua fotografia, que Truffaut filma “Jules & Jim – Uma Mulher Para Dois” realizando um complexo estudo de personagens que amam de forma doentia, e deixam de amar de forma ainda mais doentia.
Não é o melhor exemplar que a Nouvelle Vague pode nos oferecer, pois perde de longe para “Acossado”, mas é uma obra-prima incontestável. Um marco na sétima Arte.
Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.
Rocco e Seus Irmãos – ***** de *****
Um pequeno texto que havia escrito em maio/2008,quando vi o filme:
Rocco e Seus Irmãos (1960,de Luchino Visconti)
Visconti agora foi elevado ao nível gênio,terceira obra dele que vejo e uma sempre melhor que as outras, esqueça ‘O Leopardo’ a obra-prima dele é esta:
A jornada de uma família que era feliz e não sabia e ficou infeliz sabendo disso.Visconti crítica a hipócrisia em família,que tenta colocar belos porta-retratos paea tamparem as rachaduras de sua parede,e as rachaduras desse filme aparecem de forma claraOs cinco irmãos que vão aos poucos tomando destinos diferentes,mas a ação de cada um ainda influência na reação do outro e é claro da figura materna que eles tentam proteger.Inveja,saudades,amor…todos os sentimentos que os envolve,eles se amam ou tentam se amar,junto a isso,Visconti ainda traça o perfil indivudaul de cada um e coloca caracteristicas bem particulares para eles.As coisas só se agrava quando Rocco se apaixona por Nádia,a ex-ficante de seu irmão mais velho Simone,era o que precisava para a família se abalar de vezCenas marcantes estão presentes nessa obra-prima,alguymas mostrando a verdadeira felicidade escondida por trás de uma fantasia infeliz,que é logo no início na seqüência que neva e eles proucuram emprego,cenas fortes como o estupro de Nádia,a briga de rua entre Rocco e Simone e o assassinato.
Milão é fria,assim como as relções em família pouco-a-pouco se transformam.
Simone entra para a lista dos personagens mais desprezíveis que o cinema já pôde fazer,e fica lá,bem ao lado de figuras como Johnny Friendy,Charle Foster Kane,Fred C. Dobbs,enfermeira Ratched ou Mr. Potter.
Rocco e Seus Irmãos – **** de *****
Título Original: Rocco e i Soui Fratelli.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 177 minutos.
Ano de Lançamento: 1960.
País de Origem: Itália / França.
Direção: Luchino Visconti.
Roteiro: Luchino Visconti, Suso Cecchi d’Amico, Pasquale Festa Campanile e Vasco Pratolini.
Elenco: Alain Delon (Rocco Parondi), Renato Salvatori (Simone Parondi), Annie Giradot (Nadia), Katina Paxinou (Rosaria Parondi), Spiros Focás (Vicenzo Parondi), Roger Hanin (Morini), Max Cartier (Ciro Parondi), Claudia Mori (Funcionária da Lavanderia), Alessandra Panaro (Noiva de Ciro), Corrado Pani (Ivo), Rocco Vidolazzi (Luca Parondi), Paolo Stoppa (Cecchi), Suzy Delair (Luisa), Nino Castelnuovo (Nino Rossi), Enzo Fiermonte (Boxeador), Renato Terra (Alfredo, irmão de Ginetta) e Claudia Cardinalle (Ginetta).
Sinopse: Com o propósito de prosperar na vida, Rosaria Parondi (Katina Paxinou) muda-se da bela Sicília para a fria, mas industrializada, Milão, uma vez que Vicenzo (Spiros Focás), seu filho mais velho, o fez e obteve um êxito considerável. Juntos dela migram também os seus demais filhos: Simone (Renato Salvatori), Rocco (Alain Delon), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi). Simone logo arruma um emprego como boxeador e, após uma série de relevantes vitórias, torna-se a mais nova promessa do boxe milanês. O sucesso de Simone, no entanto, é interrompido quando Nadia (Annie Giradot), uma jovem e problemática prostituta, entra em cena e o rapaz se apaixona por ela. Ambos vivem um caso de amor sem compromissos, até que Nadia conhece o sensível e sonhador Rocco e apaixona-se por ele, colocando os dois irmãos em uma posição extremamente delicada.
Rocco e i Soui Fratelli – Trailer:
Crítica:
Assistir a “Rocco e Seus Irmãos” é uma experiência semelhante a ler uma obra literária assinada por William Sheakspeare, haja visto que, em ambas as situações, você ficará diante de um drama devastador, cujo ingrediente principal vem a ser um caso de amor mal resolvido.
A fim de nos apresentar aos seus personagens principais, Visconti emprega aqui a mesma técnica que Sergio Leone viria a adotar em 1.966, ao dirigir a sua obra-prima: “Três Homens em Conflito”. Trata-se da inserção de legendas no canto inferior central da tela, indicando os nomes (no caso do western: pseudônimos) de cada uma de suas figuras dramáticas sempre que o roteiro pretendesse tecer uma abordagem sobre as mesmas. O curioso, no entanto, é constatarmos que a figura dramática mais inerente à trama (o que não quer dizer que seja necessariamente a mais importante) nem ao menos tem o seu nome mencionado nas tais legendas. Talvez Visconti tenha feito isso propositadamente, uma vez que a personagem trata-se de uma mera coadjuvante no que diz respeito ao destino de todos os irmãos, algo que faz com que ela não assuma a condição de protagonista em nenhuma das sub-tramas, mesmo conferindo vital importância a estas.
Mas afinal de contas, quem é a tal personagem a qual tanto mencionei no parágrafo acima e nem ao menos citei o seu nome? Estou me referindo à ambiciosa e tempestiva Nadia. O estudo que o filme nos permite realizar sobre o modo como a autodestruição da garota está mutuamente ligada à desagregação dos membros da família Parondi é maravilhoso. Nadia é um agente fragmentador de uma família que, antes de conhecê-la, permanecia fortemente unida, mas depois de um reles incidente onde, involuntariamente, manteve contato com a moça pela primeira vez, passou a entrar em profunda perdição e decadência.
Nadia passa a experimentar também o mesmo amargo e indigerível gosto da perdição e decadência sempre que entra em contato com dois membros da família Parondi em especial: Rocco e Simone. O segundo trata-se de um bonachão cobiçoso, alguém que se vê solidamente
amarrado ao amor que Nadia pode lhe oferecer, e para que jamais se distancie de tal ternura, Simone está disposto a tudo.
Rocco, por sua vez, passa a ser a salvação desta, o apoio do qual ela precisa para tor
nar-se uma mulher decente e largar o passado para trás. É no jovem rapaz que Nadia descobre o amor verdadeiro, e há uma forte recíproca em tal sentimento. Mas Rocco ama outra pessoa além de Nadia. Ama o irmão Simone e sacrifica-se em prol deste, por saber de toda a paixão que ele nutre pela garota, uma paixão doentia, uma paixão incontrolável e incurável.
E é neste desestruturado, desequilibrado, irregular, e impetuoso triângulo amoroso que o filme ganha toda a sua força e nos mostra o quão uma paixão doentia de tal natureza pode se mostrar capaz de destruir a vida de uma pessoa e dos indivíduos que com ela convivam adjacentemente. Nos vemos então diante de uma tragédia. Uma tragédia que nos remete demasiadamente às
tragédias gregas, às tragédias sheakspearianas, e até mesmo a muitas tragédias reais que passamos a ter conhecimento diariamente.
Mesmo com um tema tão brilhante a ser abordado pelo roteiro, “Rocco e Seus Irmãos” não teria essa força toda se não fosse pelo talentoso elenco, sobretudo Annie Girardot, Alain Delon e, principalmente, Renato Salvatori, que encarna com uma maestria assombrosa o personagem de maior carga dramática do filme: o impulsivo Simone. A propósito, juro que, enquanto assistia ao filme em questão, não consegui desassociar a atuação de Salvatori à de Marlon Brando no excelente “Uma Rua Chamada Pecado” (e não digo isso me embasando nos personagens encarnados por ambos, mas sim nas atuações em si).
Visconti mostra também que não é apenas um excelente diretor de elenco. Com a sua câmera ele confere à obra toda a sensibilidade da qual a mesma necessita para funcionar corretamente bem, principalmente quando realiza um close nos rostos de seus atores e expressa todos os sentimentos destes. E é incrível notarmos como o mesmo consegue realizar de forma tão natural uma rápida transição emotiva entre os seus personagens, alternando magistralmente entre alegria e tristeza, celebração e tragédia, tudo em uma única cena (refiro-me aqui à sequência em que a família comemora uma importante vitória de Rocco e, poucos minutos depois, tal solenidade se transforma em tragédia, graças à inesperada aparição de Simone).
Mas o Visconti que se revela capaz de retratar naturalmente uma mudança de humor tão radical e rápida em seus personagens, é o mesmo Visconti que se mostra extremamente ineficaz ao não conseguir evitar o excessivo dramalhão que desanda em muitas cenas da obra, inclusive na supracitada sequência da celebração em família. O derramamento de lágrimas que surge próximo ao final desta cena (no início da mesma, quando Simone surge repentinamente, a tristeza estampada nos rostos de seus protagonistas caia como uma “luva” nas “mãos” do roteiro e tudo soava de maneira extremamente natural, mas com o desenrolar da cena Visconti não consegue se conter e cai em um dramalhão imperdoável) é típico de uma novela mexicana, destas produzidas pela Televisa S/A.
E não bastasse a pieguice gradativa inserida em algumas partes do filme, este ainda comete o equivoco de se estender muito além do necessário, proporcionando excessiva importância aos demais irmãos, sendo que apenas dois deles realmente nos interessam: Rocco e Simone. Para que esta produção italiana neo-realista soasse mais dinâmica e conseguisse nos transmitir a sua maravilhosa mensagem de modo mais consistente, era imprescindível que a trama tivesse alguns minutos a menos de projeção e dirigi-se o seu foco de modo ainda mais concreto no triângulo amoroso, que é o que realmente impulsiona a produção. De uma forma ou de outra, estas são apenas pequeninas falhas contidas em uma obra cinematográfica quase perfeita.
Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.


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