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Katyn – ***** de *****

Ficha Técnica:
Título Original: Katyn.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 118 minutos.
Ano de Lançamento: 2007.
Nacionalidade: Polônia / Rússia / Alemanha.
Direção: Andrzej Wajda.
Roteiro: Andrzej Wajda, Wladyslaw Pasikowski e Przemyslaw Nowakowski, baseado em estória de Andrzej Mularczyk.
Elenco: Artur Zmijewski (Andrzej), Maja Ostaszewska (Anna), Andrzej Chyra (Tenente Jerzy), Danuta Stenka (Róza), Jan Englert (General), Magdalena Cielecka (Agnieszka), Agnieszka Glinska (Irena), Pawel Malaszynski (Tenente Piotr), Maja Komorowska (Mãe de Andrzej), Wladyslaw Kowalski (Professor Jan), Oleg Drach (Comisário), Oleg Savkin (Oficial da NKVD), Sergey Garmash (Major Popov), Antoni Pawlicki (Tadeusz), Agnieszka Kawiorska (Ewa) e Joachim Paul Assböck (Obersturmbannführer Brunon Müller).
Sinopse: Polônia, 1940. Um gigantesco grupo de soldados e civis poloneses são massacrados na floresta de Katyn sob ordem dos soviéticos. Milhares de famílias encarnam então a agonia de verem pessoas muito próximas delas serem assassinadas. A nação inteira submerge em uma aura de desesperança e sofrimento, imaginando que jamais conseguirá sair de tal situação.
Katryn – Trailer:
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Crítica:
“Katyn” inicia-se com uma tensa sequência que retrata um grupo de civis poloneses fugindo desesperadamente durante a Segunda Guerra Mundial. Os nazistas haviam invadido a Polônia e, junto deles, os soviéticos, uma vez que Hitler e Stalin juntaram forças para dominar a terra natal de Karol Józef Wojtyła, ponto inicial da campanha de ambos (no que se refere à política externa, é claro). Após a invasão, pessoas corriam para todos os lados, com o único propósito de salvarem a própria vida. E é aqui que evoco aquela frase que havia mencionado em minha crítica sobre “Um Ato de Liberdade”: “o bom filme apenas mostra algo ao espectador, ao passo em que o grande filme transmite a esse o que está sendo mostrado, e de um modo que o faça sentir na pele”. “Katyn” faz justamente isso, não apenas mostra o mais famoso massacre da história da Polônia, como também nos faz sentir o drama pelo qual o país passou durante o ocorrido, como se estivéssemos dentro da estória, presenciando tudo bem de perto. E Quem seria o grande responsável por tal sucesso? O diretor Andrzej Wajda, que também assina o roteiro ao lado de Wladyslaw Pasikowski e Przemyslaw Nowakowski, sendo que a estória é de responsabilidade de Andrzej Mularczyk.
Mas o que é preciso um diretor realizar para conseguir fazer com que compartilhemos plenamente o que está sendo exibido na telona? Impossível dizer objetivamente. Cada cineasta emprega um recurso diferente e, no caso de Wajda, ele opta pela utilização de travelins e, principalmente, closes nos rostos de seus atores, para focar bem as suas expressões carregadas de pouca, ou nenhuma, esperança. Há então um perfeito “casamento” entre direção e atuações, sendo que a primeira se responsabiliza pelo elo mantido em meio à segunda e nós, espectadores. Wajda cobra de seu elenco apatia nos olhares, o diretor capta tal sentimento com a sua câmera, e, finalmente, transmite perfeitamente ao público, que consegue se penetrar completamente na trama. Parte desta “penetração” bem sucedida cabe também à fotografia, que adota tons escuros na medida em que a estória passa a os exigir, conferindo então uma atmosfera estertorante à produção, algo que se revela inerente ao excelente resultado final da mesma.
O roteiro também toma sabias decisões, apesar dos pequenos erros que comete (que serão comentados daqui a pouco) como, por exemplo, a forma a qual opta por retratar a agonia que se instaurou em meio ao povo polonês diante de tal massacre. Quem for aos cinemas com a expectativa de conferir um novo “A Lista de Schindler” saíra consideravelmente decepcionado. Ao contrário do magistral filme dirigido por Steven Spielberg, “Katyn” adota uma prudente decisão e, ao invés de mostrar pessoas morrendo a todo o instante, foca-se na melancolia, na ansiedade, e no desespero dos parentes das vítimas do massacre. Afinal de contas, o que é pior: levar um tiro na cabeça ou saber que terá de enfrentar uma vida inteira pela frente sem um pai, sem um marido ou sem um irmão? Qual é a pior baixa da guerra: os soldados e civis que são mortos, ou as crianças que ficam órfãs, as esposas que ficam viúvas e os pais que perdem os seus filhos? A excelente produção polonesa opta pela segunda alternativa e nos brinda com uma trama simplesmente incomparável.
Mas o mesmo roteiro que transforma “Katyn” em um filme bem acima da média, comete alguns ligeiros equívocos durante a sua execução. Na primeira hora de projeção, por exemplo, o filme foca-se demais em Anna (Maja Ostaszewska) e Andrzej (Artur Zmijewski) e a sensação que temos é a de que a obra irá adotar uma infeliz característica contida na grande maioria dos “disasters movies”: o egoísmo. Muitíssimos filmes à lá “Guerra dos Mundos” e “Fim dos Tempos” narram uma catástrofe capaz de aniquilar a humanidade inteira, no entanto, o alto grau de parcialidade que os mesmos conferem durante a criação de seus protagonistas faz com que esqueçamos completamente do restante da raça humana e passemos a nos preocupar somente com os personagens que estão sendo retratados. O mesmo parece acontecer durante alguns minutos de “Katyn”, quando este dedica-se demasiadamente à família de Andrzej, esquecendo-se das demais famílias que estão passando pela mesmíssima situação. Com o passar de alguns minutos, no entanto, o roteiro segue a sábia e sazonada escolha de retratar outras famílias, colocando assim o “fantasma” do massacre em primeiro plano, revelando-se uma obra cinematográfica indispensavelmente i
mparcial.
Avaliação Final: 8,8 na escala de 10,0.
Che – O Argentino – **** de *****
Ficha Técnica:
Título Original: Che: Part One.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 126 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.che-movie.co.uk/
Nacionalidade: EUA / França / Espanha.
Direção: Steven Soderbergh.
Roteiro: Peter Buchman, baseado em livro de memórias de Ernesto “Che” Guevara.
Elenco: Benicio Del Toro (Ernesto “Che” Guevara), Demián Bichir (Fidel Castro), Julia Ormond (Lisa Howard), Rodrigo Santoro (Raul Castro), Maria Isabel Díaz (Maria Antonia), Ramon Fernandez (Hector), Yul Vazquez (Alejandro Ramirez), Jose Caro (Esteban), Pedro Adorno (Epifanio Díaz), Jsu Garcia (Jorge Sotus), Santiago Cabrera (Camilo Cienfuegos), Roberto Santana (Juan Almeida), Vladimir Cruz (Ramiro Valdés Menéndez), Marisé Alvarez (Vilma Espín), Elvira Mínguez (Celia Sánchez), Andres Munar (Joel Iglesias Leyva), Liddy Paioli Lopez (Quike Escalona), Pedro Telémaco (Eligio Mendoza), Eugenio Monclova (Emilio Cabrera), Luis Gonzaga Hernandez (Lalo Sardiñas), Jose A. Nieves (Dr. Julio Martinez Paez), Catalina Sandino Moreno (Aleida March) e Armando Riesco (Benigno Ramirez).
Sinopse: Ernesto Guevara de La Serna, mais conhecido como “Che” (Benício Del Toro), foi um guerrilheiro que, ao lado de Fidel (Demián Bichir) e Raul Castro (Rodrigo Santoro), organizou uma revolução sangrenta em Cuba expulsando da ilha toda a massa burguesa que explorava o proletariado. A partir desta revolução, Guevara e seus companheiros de guerra implantaram, pela primeira vez em um país americano, o sistema econômico conhecido como socialismo. O filme dirigido por Steven Soderbergh a Revolução Cubana e a mais importante fase da vida de “Che”.
Che – Part One – Trailer:
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Já disse que sou fã incondicional de Che Guevara? Ah sim, já disse, escrevi a maior pré-crítica da história do Cine-Phylum apenas para dizer o quanto o revolucionário argentino influenciou o meu intelecto. Pois então torno-me extremamente suspeito para escrever um texto sobre um filme que traga o revolucionário argentino como protagonista, não é mesmo? Sim, é mesmo, mas de qualquer forma, não custa tentar.
Em primeiro lugar, gostaria de iniciar esta análise discordando de muitos colegas que reclamaram do longa alegando que o cineasta Steven Soderbergh (do ótimo “Traffic”) não realizou uma abordagem necessariamente imparcial em cima do líder revolucionário. Sinceramente falando, sou totalmente avesso a essa opinião. Creio que a abordagem feita sobre Che Guevara neste “O Argentino” poderia ter sido realizada de um modo menos frio e mais humano e detalhista, e não da forma semi-documental como o longa fez.
Para se ter uma idéia, quando o filme se inicia somos diretamente introduzidos ao histórico encontro onde “Che” e Fidel Castro se conheceram. Tudo é exibido de um modo muito frio, muito distante, e, francamente, não fosse o carisma que o líder militar possui por si só, aposto que muita gente teria sentido antipatia pelo mesmo. Em momento algum o longa parece se importar em citar, ainda que de soslaio, a juventude de “Che”, os motivos que o levaram a adotar a luta de classes como estilo de vida, a conturbada, embora breve, carreira política pré-guerrilha deste, ou a sua famosíssima passagem pela Guatemala. Por outro lado, devo reconhecer que a abordagem fria que o roteiro confere ao personagem-título é uma característica, de certa forma, inerente a uma obra que adota uma postura semi-documental. Afinal de contas, uma cine biografia, a fim de fugir do piegas e de sentimentalismos fajutos, deve adotar uma posição imparcial, e isso é fato.
Todavia, convenhamos, ser imparcial é uma coisa, ser extremamente frio e desprovido de emoção, é outra. E é justamente aí que reside o (provavelmente) único erro da película. O roteiro, é claro, deveria abordar “Che” de modo frio, mas ainda assim deveria deixar brechas que fizessem com que nos cativássemos com o protagonista mais rapidamente. Quer um exemplo de cine biografia fria e imparcial, embora cativante? O próprio “Diários de Motocicleta”. Você não terminará de assistir ao filme de Walter Salles e sairá pelas ruas berrando: “___ Viva la revolución! Viva Che!”, mas não deixará também de refletir sobre o modo como Guevara debate a miséria na América Latina.
“___ Mas em “Che – O Argentin
o” não refletimos sobre a miséria na América Latina, sobretudo em Cuba?” ___ Pergunta-me o leitor. Refletimos sim, só que não de um modo realmente satisfatório, como o longa protagonizado por Gael Garcia Bernal conseguira fazer. Na produção dirigida por Soderbergh, vemos dois lados de Guevara: o Che Guerrilheiro e o Che Idealista. E isso é ruim? Claro que não, principalmente se levarmos em conta o modo como o roteiro o aborda. E é aí que discordo amplamente de outros críticos de Cinema que alegaram que o “script” joga confetes no líder argentino. Pura balela. Oras, vemos Che esbravejando com seus soldados, vemos Che punindo fria e impiedosamente desertores, vemos Che atirando para matar, vemos Che defendendo que a única e verdadeira revolução que poderia funcionar em Cuba seria a revolução sangrenta e, mesmo com tudo isso, ainda insistem em dizer que Soderbergh não é imparcial e joga confetes no revolucionário? Ora bolas, me poupem!
Por outro lado, não se deixem levar pelo final do parágrafo acima. O filme não faz com Che o que a Revista Veja fez com o mesmo, transformando-o em um monstro assassino. O Guevara que mata pessoas em “Che – O Argentino” é o mesmo Guevara que sofre com as causas trabalhistas. O Guevara que é a favor de uma revolução sangrenta em “Che – O Argentino” é o mesmo Guevara que defende que a principal característica de um revolucionário deve ser o amor (calma, não se assuste, quando assistir ao filme verá que não há nada de piegas nesta declaração). Enfim, conforme podemos notar, a produção ganha muitos pontos por não pender para lado algum, já que ela aponta o seu protagonista como um sujeito de grande caráter, mas com sérios desvirtuamentos morais durante muitos momentos.
A produção ganha pontos também pela atitude que toma a fim de quebrar uma possível narrativa linear e episódica (algo que “Milk – A Voz da Igualdade” raramente faz, e quando o faz, realiza de modo artificial), algo que a tornaria muito mais falha. Trata-se da inteligente idéia do roteiro em narrar, paralelamente à tomada de Cuba, uma entrevista que Guevara cedeu a uma rede de televisão estadunidense e a celebre visita dele à ONU. Aliás, é nesta “subtrama” (se é que posso a chamar assim) que vemos o protagonista soltar uma das frases mais marcantes e impactantes do longa: “É muito fácil dizer que, no capitalismo, o indivíduo tem a opção de satisfazer ou expressar-se através da natureza humana. Um menino tem um brinquedo e quer dois, tem dois e quer quatro, essa é a natureza humana, não é assim? Entretanto, o que acontece quando a sociedade comporta-se da mesma forma, ou quando se converte em um monopólio, oprimindo aos menos afortunados? É essa a natureza humana?”.
E quanto aos demais elementos do filme? Bem, diria que a direção de Steven Soderbergh é contida, mas, ao mesmo tempo, madura. O diretor evita cometer infantilidades, tais como idolatrar Guevara ou transformar esta obra em uma mera película de ação. Também se esforça bastante para distanciar o drama da pieguice e do melodrama barato, criando aqui uma estória bastante satisfatória a ponto de “segurar” as mais de duas horas de projeção.
O elenco então, dispensa comentários. Não restam dúvidas de que o filme é, definitivamente, de Benício Del Toro. Aparentemente, anos de laboratório estudando a vida de Che fizeram bem ao ator, que o encarna com um talento fora do comum. Del Toro está para Che Guevara assim como Tom Hulce está para Wolfgang Amadeus Mozart, ou Val Kilmer está para Jim Morrinson, Renée Maria Falconetti está para Joana d’Arc, Ben Kingsley está para Mohandas Karamchand Gandhi, Liam Neeson está para Oskar Schindler e David Strathairn está para Edward Roscoe Murrow. Demián Bichir também surpreende como Fidel Castro. Além de ter a aparência física semelhante a do ditador cubano antes da revolução, conta com os mesmos trejeitos dele e nos brinda com uma atuação repleta de verborragia. Rodrigo Santoro também se sai bem como Raul Castro e, embora a sua participação no longa seja consideravelmente curta, ele se destaca muito nos poucos minutos em que aparece (lembra-se de Jhonny Depp no excelente “Platoon”? Pois é, trata-se de um trabalho bastante semelhante).
Falhando ligeiramente no pouco carisma com o qual aborda o personagem-título, “Che – O Argentino” prima pela sua imparcialidade e ganha muita força com a atuação magistral do sempre excelente Benício Del Toro.
Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.
Gran Torino – ** de *****
Título Original: Gran Torino.
Gênero: Drama.Tempo de Duração: 116 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.grantorino.com.br/
Nacionalidade: EUA / Austrália.
Direção: Clint Eastwood.
Roteiro: Nick Schenk, baseado em estória de Dave Johannson e Nick Schenk.
Elenco: Clint Eastwood (Walt Kowalski), Bee Vang (Thao Vang Lor), Ahney Her (Sue Lor), Christopher Carley (Padre Janovich), Brian Haley (Mitch Kowalski), Geraldine Hughes (Karen Kowalski), Dreama Walker (Ashley Kowalski), Brian Howe (Steve Kowalski), William Hill (Tim Kennedy), John Carroll Lynch (Martin), Brooke Chia Thao (Vu), Scott Eastwood (Trey) e Doua Moua (Spider).
Sinopse: Walt Kowalski (Clint Eastwood) é um veterano de guerra que lutou na Coréia e agora se tornou um velho ranzinza e solitário, graças ao seu gênio difícil, sua visão extremamente conservadora e o preconceito que nutre pelos vizinhos, estrangeiros em geral. Tal preconceito aumenta ainda mais quando vê Thao (Bee Vang) tentando furtar o seu carro, um Gran Torino modelo 1972. Com o passar do tempo, no entanto, o velho vai notando o quão agradáveis e gentis os seus vizinhos podem ser e, na tentativa de quitar a desonra que tem para com Walt, Sue (Ahney Her) avisa ao ex-militar que o irmão está disposto a ajudá-lo em seus serviços de reparador. A partir daí o jovem garoto aprende um ofício e passa a ter alguma perspectiva na vida, tomando Walt como modelo. A calmaria acaba quando uma gangue passa a ameaçar a vida dos vizinhos e Walt decide interferir de modo direto na situação.
Gran Torino – Trailer:
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Não há nada mais previsível do que uma releitura cinematográfica (e é importante mencionar, apesar de ser bastante evidente, que releitura não é a mesma coisa que refilmagem, como é o caso de “Conflitos Internos” e “Os Infiltrados” ou “Yojimbo, o Guarda Costas” e “Por um Punhado de Dólares”), sendo que o resultado óbvio é que o filme atual raramente conseguirá alcançar as qualidades de sua fonte de inspiração. Foi assim que aconteceu com “Beleza Americana” e “Foi Apenas um Sonho”, “Rocky – Um Lutador” e “Falcão – O Campeão dos Campeões” (e estabeleço esta relação aqui tendo em vista os protagonistas de ambos os filmes, e não as obras em si), “Os Bons Companheiros” e “Profissão de Risco” (o segundo, na verdade, está mais para um plágio descarado do filme Scorsesiano), e até mesmo “Crimes e Pecados” e “Match Point” (que é um ótimo filme, mas perde bastante força se comparado ao primeiro). Agora Clint Eastwood chega aos cinemas com este “Gran Torino”, que nada mais é do que uma clara releitura do ótimo “Menina de Ouro”. O resultado? Fracasso.
O leitor certamente se lembra do velho fastidioso Frankie Dunn do vencedor do Oscar® de 2005, não? Pois é, ele praticamente está de volta em “Gran Torino”, só que sob o nome de Walt Kowalski e ainda mais caricato do que o treinador de boxe. Além de acordar de mau humor e ir dormir da mesma forma, o personagem de Eastwood é um veterano extremamente conservador que lutou na Guerra da Coréia e, para anunciar a sua “ranhetice”, acredite, chega a rosnar durante boa parte do filme. Mas o estereótipo não pára por aí, não. Kowalski, além de abrir a boca apenas para murmurar, é extremamente preconceituoso, jamais altera a expressão carrancuda e o olhar ameaçador, cospe no chão a todo o instante e cumprimenta os seus amigos íntimos mediante a insultos. Ou seja, ele nada mais é do que uma versão extremamente amadurecida de Dirty Harry, só que muito (e ponha muito nisso) mais caricato.
O filme começa com uma trama que envolve violência e ameaça entre membros de gangue. O drama então se desenvolve e passamos a testemunhar tentativas de furto de carro, preconceitos vindo à tona e, por fim, redenção por parte de todos os personagens. Aqueles que se odiavam agora se amam e tentam viver em harmonia, ajudando uns aos outros, de um modo que você já viu em muitos outros filmes do gênero. E é claro que a falta de originalidade não consistiria necessariamente em uma grave falha caso o longa conseguisse, ao menos, nos envolver com a sua trama, mas a verdade é que esta é muito rasa, bem como a química estabelecida entre os seus protagonistas. Eastwood está novamente no papel de “mestre”, um velho rabugento tentando passar, a uma pessoa bem mais jovem do que ele, tudo o que sabe sobre uma determinada profissão, trazendo assim esperança a quem não a via durante muito tempo. Lembrou-se do filme protagonizado por Hillary Swank? Pois é, é inevitável a alegoria. “Gran Torino”, por sinal, é uma produção que conta com quase tantos clichês quanto “Menina de Ouro”, com a diferença de que este último envolvia e emocionava o espectador, e o segundo não.
Não bastasse tudo isso, a direção de Eastwood é burocrática demais (nunca pensei que diria isso algum dia em toda a minha vida) e confere à trama um ritmo excessivamente lento e cansativo. O roteiro inicia investindo demais em personagens que serão simplesmente abandonados na trama, durante o desenrolar desta (o Padre Janovich é um exemplo disso, já que ele aparece muito no começo do filme, mas simplesmente some durante o segundo ato inteiro, voltando apenas no terceiro ato, e para ser sincero, ele nem diz ao certo a que veio, salvo, é claro, para proferir filosofias baratas e dispensáveis sobre a vida e a morte), e a intenção do longa em apresentar críticas ferrenhas ao preconceito racial é discrepante ao extremo, já que o filme cai na própria armadilha ao sugerir que as gangues estadunidenses são, em sua maioria, compostas por negros e asiáticos (ou teria o leitor notado a presença de algum caucasiano fazendo parte de tais grupos criminosos?).
Ao menos o filme tem um terceiro ato extremamente satisfatório. O anticlímax criado pelo roteiro é mais do que justificado, uma vez que o sacrifício do protagonista e a sua postura passiva são mais do que convenientes, tratam-se de uma atitude deveras arguciosa por parte do roteiro, que foge do convencional e dá um “chega pra lá” nas fitas de ação que mostram o protagonista realizando uma carnificina inteira, sozinho, sem quaisquer tipos
de auxílio (ao menos, é claro, que você acredite que partir pra porrada resolva tudo na vida). Talvez isso justifique alguns dos clichês empregados pelo longa durante os seus dois primeiros atos, mas ainda assim, não é o suficiente para emergir o filme do visível e gigantesco oceano de insignificância no qual ele mergulhou e permanecerá mergulhado pelo resto de sua existência.
Pena, vindo de um cineasta responsável por “Cartas de Iwo Jima”, “A Troca”, “Sobre Meninos e Lobos” e, até mesmo, “Menina de Ouro” (que lhe conferiu um Oscar), era de se esperar algo muito mais profundo do que uma obra da densidade de um pires.
Avaliação Final: 4,0 na escala de 10,0.
Watchmen – O Filme – **** de *****
Título Original: Watchmen.
Gênero: Drama / Ficção Científica.
Tempo de Duração: 163 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://www.watchmenofilme.com.br/
Nacionalidade: EUA / Inglaterra / Canadá.
Direção: Zack Snyder.
Roteiro: Alex Tse e David Hayter, baseado em graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons.
Elenco: Malin Akerman (Laurie Juspeczyk / Espectral), Billy Crudup (Jon Osterman / Dr. Manhattan), Matthew Goode (Adrian Veidt / Ozymandias), Jackie Earle Haley (Walter Kovacs / Rorschach), Jeffrey Dean Morgan (Edward Morgan Blake / Comediante), Patrick Wilson (Dan Dreiberg / Coruja), Carla Gugino (Sally Jupiter / Espectral), Matt Frewer (Edgar Jacobi / Moloch), Stephen McHattie (Hollis Mason / Coruja), Laura Mennell (Janey Slater), Rob LaBelle (Wally Weaver), Gary Houston (John McLaughlin), James M. Connor (Pat Buchanan), Mary Ann Burger (Eleanor Clift), John Saw (Doug Roth), Robert Wisden (Richard Nixon), Jerry Wasserman (Detetive Fine), Don Thompson (Detetive Gallagher), Frank Novak (Henry Kissinger), Ron Fassler (Ted Koppel), Greg Armstrong-Morris (Truman Capote), J.R. Killigrew (David Bowie), John Kobylka (Fidel Castro), Glenn Ennis (Justiceiro Encapuzado), Dan Payne (Dollar Bill), Salli Saffioti (Annie Leibovitz), Darryl Scheelar (Capitão Metrópolis), Brett Stimely (John F. Kennedy), Carrie Genzel (Jackie Kennedy), Chris Gauthier (Seymour), Steven Stojkovic (Mick Jagger), Greg Travis (Andy Warhol), Apollonia Vanova (Silhouette), Chris Weber (Oficial O’Brien), Lori Watt (Mãe de Rorschach), Frank Cassini (Marido de Sally Jupiter), Clint Carleton (Hollis Mason – jovem), Haley Guiel (Laurie Jupiter – 13 anos), Jaryd Heidrick (Jon Osterman – jovem), Mike Carpenter (Moloch – jovem) e Eli Snyder (Rorschach – jovem).
Sinopse: Com a aprovação de uma lei em 1977, que determina que o combate ao crime organizado não poderá mais ser realizado através de pessoas mascaradas nomeadas de “Watchmen”, vários super-heróis perdem o emprego e o prestígio que possuíam há pouco tempo atrás. Alguns deles ficam loucos, outros tornam-se marginais foragidos da justiça, outros passam a trabalhar para o governo e, a maioria, simplesmente se aposenta e passa a levar uma vida normal. A calmaria é quebrada, contudo, quando um destes ex-super-heróis, o Comediante (Jeffrey Dean Morgan), é assassinado. Seu antigo colega, Rorschach (Jackie Earle Haley) entra em cena e passa a investigar o ocorrido. As investigações, a princípio, não são levadas a sério pelos outros ex-membros da equipe: Espectral (Malin Akerman), Coruja (Patrick Wilson), Dr. Manhattan (Billy Crudup) e Ozzymandias (Matthew Goode), mas após uma tentativa de assassinato deste último, todos optam por dar mais atenção a Rorschach. Todos, exceto os próprios Manhattan e Ozzymandias, que encontram-se extremamente ocupados trabalhando para o governo estadunidense na defesa do país contra possíveis ataques nucleares russos.
Watchmen – Trailer:
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Quem for ao cinema esperando de “Watchmen – O Filme” uma adaptação de HQ convencional certamente dará com os burros n’água. O filme, felizmente, vai muito além disso, mas muito além mesmo. Não espere encontrar aqui situações como as que a mocinha indefesa, que passa a metade da projeção berrando “help!”, é salva no final pelo aguerrido herói que utiliza os seus super poderes para tal. Também não espere encontrar por aqui heróis altruístas, de caráter ilibado e moral inquestionável que se unem para salvar o mundo. Ops… esperem um pouco… em “Watchmen” os protagonistas se unem, de uma forma ou de outra, para salvar o mundo, não é mesmo? Bem, em parte sim, em parte não, e é aí que residem as maiores qualidades do filme. Os questionamentos de certos personagens sobre o porquê de salvar uma raça tão execrável e pútrida quanto a raça humana dá um tom extremamente distanciado entre a obra de Zack Snyder e os demais filmes de heróis convencionais.
Abrindo o longa com uma batalha mortal entre o super-herói alcunhado de “O Comediante” e um indivíduo mascarado, logo vemos o primeiro sendo derrotado e, consequentemente, morto pelo segundo. A seguir, o filme parte para os créditos iniciais e acompanhamos a projeção dos mesmos sob o som mais do que conveniente de “The Times They Are A-Changing” de Bob Dylan. Ao fundo, vemos uma sequência de imagens mostrando os tempos gloriosos de uma trupe de super-heróis que passaram por momentos marcantes na história dos EUA, variando desde a Segunda Grande Guerra até o início dos anos 1980, marcado pela mais execrável era da humanidade: a era “yuppie”. E é justamente quando nos lembramos da morte do Comediante (recentemente projetada na telona) que percebemos o quão sincronizada é a sucessão de imagens com a música de Dylan, que anuncia que os tempos estão mudando. E de fato, estão mesmo, afinal de contas, onde está o poder dos super-heróis que, outrora, eram imbatíveis e, agora, passam a ser exterminados um a um?
Este é o primeiro questionamento que “Watchmen” levanta acerca de seus personagens e, já de cara, nos anuncia que não será mais uma, dentre tantas outras, adaptações de HQ. “Watchmen” não é apenas um filme de super-heróis, mas sim um filme de super-heróis que amargam a aposentadoria. E se para muitos (inclusive para este que vos escreve, que não vê a hora de encerrar a sua carreira convencional e dedicar-se apenas à crítica cinematográfica, mas até lá restam mais de quarenta anos) este período da vida se revela o melhor dentre os demais, para outros este período se revela o fim de sua glória profissional. Quantos filmes, principalmente adaptações de HQ, você já assistiu que o levaram a tais questionamentos? Pouquíssimos, não? Pois é. Mas o longa não pára por aí. De forma alguma, ele vai muito além.
Quando os créditos se encerram e o filme toma a sua continuidade a partir da morte do Comediante, passa a entrar em cena então a averiguação do assassinato deste. Surge então um personagem extremamente fascinante e misterioso. Seu nome é Rorschach. Ele tem como uma de suas principais habilidades a capacidade de passar pelas pessoas sem nem ao menos ser notado. Rorschach utiliza estes dons para investigar a morte do ex-colega. Neste momento, o longa adota uma deliciosa estrutura de filme noir, tomando por ba
se a fotografia extremamente escura, a narração “in off” e a falta de perspectiva com a qual o personagem encara a vida. Ele não admite o fato de ter sido simplesmente “desligado”, assim como os outros “Watchmen”, do governo estadunidense. Sua aposentadoria forçada e o seu “exílio” são por ele encaradas como uma ingratidão por parte das pessoas pelas quais se esforçou tanto para auxiliar no passado. Isso pode ser muito bem testemunhado por nós na cena onde narra: “A imundice acumulada de todo o sexo e homicídio subirá até as cinturas, e todas as prostitutas e políticos olharão para cima e gritarão: “salve-nos!”, e eu vou sussurrar: “não!”.”
Aliás, frases de impacto, como a supracitada, é o que não falta no filme. Muito pelo contrário, diria que até sobram. Vide o diálogo entre o próprio Rorschach e o Coruja, por exemplo. O segundo diz: “Você deveria tentar levar uma vida normal.” e o primeiro retruca: “É isso o que você tem agora? Uma vida normal? Quando você anda pelas ruas de uma cidade morrendo de hidrofobia e passa pelas baratas humanas falando de heroína e pornografia infantil, você realmente se sente normal?”, o interlocutor ainda insiste: “Pelo menos eu não estou me escondendo atrás de uma máscara.” e Rorschach encerra: “Não, você está se escondendo abertamente.”. E não pára por aí não. Outro diálogo de forte impacto é um onde o mesmo Coruja protagoniza com o Comediante: “Onde está o sonho americano?”, pergunta o primeiro, e o segundo responde enquanto atira em um grupo de manifestantes desarmados: “Você está olhando para ele!”.
Hum, espere aí! Citei o Comediante novamente, não? Sim, e sabem o que isso prova? Que ele não é apenas um recurso dramático adotado pelo filme a fim de iniciar uma investigação sobre o seu homicídio. Muito pelo contrário, o Comediante é um verdadeiro “Watchmen” e o desenvolvimento dele se revela tão imprescindível à trama como o de seus ex-colegas. Quando vemos o monstro que o alter-ego de Edward Morgan Blake era, logo deixamos de sentir pena pela morte do mesmo. O herói, que está mais para anti-herói, era um sujeito reacionário, cruel, impulsivo, e que via no emprego da violência um preenchimento para a sua vida. Blake estupra colegas de trabalho, se embriaga com frequência e atira em mulheres que carregam consigo um filho dele mesmo. E sabem o que é o melhor disso tudo? Ele o faz sem soar caricato (e muito disso deve-se à fenomenal atuação de Jeffrey Dean Morgan), pois sempre age de modo natural, e não almejando anunciar a sua crueldade através dos atos mais abomináveis o possível. O Comediante nos inspira ódio, nos inspira repulsas. Ele não é um herói, mas sim um inimigo da liberdade, assim como a grande maioria dos policiais e militares também o são, meros “porcos fardados”.
Tendo em vista o parágrafo supra, o que seriam então os Watchmen, haja visto que quase todos eles possuem um caráter quase tão reacionário quanto o de Blake? Os Watchmen não são heróis, mas sim a imagem xerocada do sistema político estadunidense. Representam a hipocrisia que permeia a Terra do Tio Sam, o uso de violência para combater a violência. São conservadores de extrema direita que fingem defender o povo, quando, na verdade, atacam ferozmente o mesmo (a mesmíssima coisa que policiais e militares o fazem). E aí o filme nos levanta outra questão: será que se as pessoas tivessem super poderes elas os utilizariam para o bem, conforme mostram a grande maioria das HQs? Ou se uniriam ao governo e, sem nem ao menos se darem conta, os utilizariam de forma repressora e anti-libertária, assim como policiais e militares o fazem (no caso, os super poderes destas classes escravagistas… digo… trabalhistas, são resumidos à autoridade delas)?
Inclusive um dos personagens mais sensatos da trama revela-se extremamente cruel diante de toda a sua racionalidade. Refiro-me ao mais complexo membro dos Watchmen: o poderoso Dr. Manhattan, cujo excesso de razão o transforma em uma pessoa insensível e sem o menor senso de piedade para com os seres humanos (vide a sequência no Vietnã onde o excelente “Apocalypse Now” é homenageado sob o som de “A Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner (que é tão adorada por mim que a coloco no celular para despertar-me todas as manhãs), por exemplo). E até mesmo com os amigos mais próximos a frieza emocional de Manhattan soa assombrosa, como vemos na cena onde ele não faz nada para impedir que uma garrafa rasgue a face do Comediante (e nesta mesma cena ele se mostra passivamente cruel ao não impedir que o anti-herói atire em seu desafeto) ou quando toma uma terrível atitude contra o amigo Rorschach no final do filme.
E o vilão, faz jus aos demais personagens? Sim, e ratificamos isto em uma frase dita por ele mesmo: “___ Não sou um simples vilão de gibi”. E, de fato, não é mesmo. O seu plano é fascinante, instigante, maravilhoso. Ao mesmo tempo em que se embasa em ideais altruístas, se revela um tanto o quanto desumano. Contudo, o que ele acaba realizando é, na verdade, um mal necessário. A propósito, o final da trama pode ser bastante anticlimático aos espectadores que estão acostumados com um filme mais redondinho (e volto a bater na tecla, se você não gosta de filmes de super-heróis que fogem bastante do convencional, talvez não nutra a mesma paixão que eu nutri por “Watchmen – O Filme”), já que está longe de ser um “happy end” (mas também está longe de ser um “unhappy end”).
Enfim, falei muito bem do filme até o momento (utilizei 1500 palavras para tal!!! Preciso reduzir meus textos.) o que significa que ele é uma produção “nota 10,0” ou um longa “cinco estrelas”, correto? Errado. Como de praxe, deixei as falhas para o final. Dediquei noventa por cento desta crítica para descrever os personagens do filme e o leitor, a essa altura, já sabe que os considero o grande trunfo da obra de Snyder, correto? Sim. Contudo, é extremamente irônico que, se por um lado as maiores qualidades de “Watchmen” residam na grande maioria de seus personagens, por outro lado os maiores defeitos do filme possam ser encontrados na minoria deles. Dois deles, para ser mais exato. Quais são? Coruja e Espectral.
Poderia começar mencionando que o romance entre ambos é exacerbadamente previsível, mas não o farei. Há outras características contidas nos dois que incomodam muito mais do que o singelo relacionamento amoroso deles: a falta de profundidade na caracterização de ambos. Se Comediante, Rorschach e Manhattan são fortes o bastante para “segurarem” o filme tranquilamente, Coruja e Espectral não são. Ambos são rasos demais e não contam com características realmente fortes a ponto de nos cativar, assim como vem a ser o caso dos outros três previamente citados. Quando estão juntos então, a situação piora. E sabe quando as coisas conseguem piorar ainda mais? Quando o roteiro opta por conferir importância demais a ambos. Seja franco, tirando o corpo maravilhoso da heroína (que fica de bunda de fora durante uma cena! Aêêê! Ops, sou assexuado, deixe-me conter.), o belo rosto da mesma, sua bela voz, ou quaisquer outros atributos diretamente ligados à beleza de Espectral, você conseguiu guardar (caso já tenha assistido ao filme, é claro) alguma outra característica da moça ao término da sessão (exceto, é claro, se levarmos em conta a surpreendente ligação dela com o Comediante, que é revelada ao final da trama)? E, sinceramente, acredito que a caracterização da personagem só não consegue ser mais insossa do que a péssima atuação da lindíssima Malin Akerman.
O que dizer do Coruja, então? Tirando os óculos de visão noturna e o resto da aparelhagem (que perde feio para os equipamentos do Batman e, principalmente, dos X-Men) dele, o que sobra (e não entrarei no mérito da beleza do ator pois homens não me atraem nem um pouco, ou seja, mesmo sendo assexuado, ainda tenho uma
Diário de um Pároco de Aldeia – **** de *****

Se você nunca assistiu a “Dogville” e pensa o fazer em algum dia de sua vida, aconselho que antes assista a este ótimo “Diário de um Pároco de Aldeia”. Por que? Porque há muitas semelhanças entre um e outro. Assim como em “Dogville”, no filme de Robert Bresson (um dos cineastas franceses mais influentes de todos os tempos) o protagonista é um recém chegado em um vilarejo que passa a ser maltratado pela população local. Assim como em “Dogville”, o protagonista de “Diário…” é um homem com uma forte ligação divina (vale lembrar que muitos cinéfilos e críticos de Cinema, inclusive este que vos escreve, encaram a protagonista Grace do longa de Lars von Trier uma espécie de reencarnação de Jesus Cristo). Entretanto, há uma diferença muito grande entre “Dogville” e “Diário”: o primeiro critica a crueldade humana, mas em doses milimetricamente medidas, o segundo faz o mesmo apelando a exageros altamente dispensáveis.
No longa em questão, todas as pessoas são inexplicavelmente cruéis e fazem o possível e o impossível para destruir a vida do jovem padre (uma cidade onde padres não são bemvindos? Onde fica?! Onde fica?! Quero me mudar para lá!), transformando-a em um verdadeiro inferno (não almejo fazer trocadilhos aqui). O protagonista, por sua vez, revela-se o cumulo do indivíduo “coitadinho”. O cara que veio ao mundo para sofrer. Parece até que estamos diante de um dramalhão mexicano, onde o caráter estoicista de seu personagem principal chega a nos causar nauseas. Ele sofre de uma terrível doença, seu estomago não suporta refeições mais pesadas do que pão e vinho e, para complicar ainda mais, tem uma fascinação por adorar pessoas que o odeiam e tentar muda-las através da palavra de Deus.
Aí o filme se desenvolve e muda de figura. O pároco, que tanto falava de Deus, passa a questionar a existência Dele. A partir deste momento a obra ganha uma força incrível e deposita nos diálogos o seu principal atrativo. “Diário de um Pároco de Aldeia” passa então a ser mais do que um mero filme, revela-se uma sucessão de diálogos magistrais e filosóficos que tecem personagens altamente complexos com fortíssimas opiniões formuladas sobre a existência de Deus, resignação (o dialogo do protagonista com a Condessa é um dos momentos máximos do Cinema Francês), culpa, morte, felicidade (preste atenção na conversa que o pároco tem com o jovem motoqueiro próximo ao desfecho da trama) e muito (mas muito mesmo) mais. Como se não bastasse, tais diálogos, além de profundos, são proferidos de um modo ríspido, seco e imprevisível.
Robert Bresson também é um dos grandes responsáveis pelo sucesso de “Diário…”. Pode-se dizer que o diretor falha apenas quando emprega várias vezes a trilha-sonora que, individualmente analisada, se mostra belíssima, mas no contexto geral da obra se mostra extremamente maniqueísta. No mais, o mestre francês, auxiliado pela fotografia bela e, ao mesmo tempo, sorumbática quando utilizada em campos abertos, e angustiante quando empregada em lugares fechados, confere um grau de sensibilidade incrível ao filme, como raramente temos a oportunidade de ver nas produções atuais.
A criação de ângulos também conta muitíssimos pontos a favor de Bresson. Vide o modo como ele posiciona a câmera em um campo aberto e, ao mesmo tempo em que capta a beleza natural do local, dá ênfase também ao enorme vazio emocional presente no mesmo, algo que acaba representando o vilarejo de uma forma geral. Os “close ins” que o diretor realiza no rosto do protagonista também aumenta a carga dramática da trama, uma vez que a tristeza e as expressões pesadas e amarguradas do mesmo passam a condizer com o local onde a trama se passa, o que confere um clima mais pesado ao filme.
E falando em expressões, que grande atuação a de Claude Laydu, não? Contudo, não é a expressividade do ator que realmente conta pontos para o seu trabalho, mas sim o olhar do mesmo (que é muito mencionado durante o filme). Lembram de Al Pacino em “O Poderoso Chefão – Parte II”, cujo personagem era extremamente inexpressivo, mas armazenava todas as suas emoções (sobretudo a raiva e a cobiça) em seu olhar? Pois é, aqui Laydu faz a mesma coisa, mas os sentimentos demonstrados através de seus olhos são a ingenuidade e a autopiedade. Os demais atores também se saem muito bem e merecem destaque, bem como a direção de arte que cria os ambientes internos na medida certa, dando um toque a mais ao filme.
Não é necessariamente uma obra-prima, faltou pouco para tal, mas revela-se um filme muito acima da média.
Três Macacos – ***** de *****
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Assistir, comentar, analisar, interpretar ou realizar qualquer outra ação que esteja diretamente ligada a este “Três Macacos” é uma tarefa extremamente complexa. Assim como muitos filmes iranianos, esta obra do Cinema turco é Arte pura (e escrevo Arte com o “A” mais maiúsculo do que nunca). É o “cult” do “cult”, ou seja, Cinema Arte mais “Arte” do que isso, impossível. A estória é simples, simples demais. Os personagens são um pouco estereotipados. Mas mesmo assim, quem não tiver a sensibilidade artística necessária a fim de conseguir captar a essência da trama passará quase duas insuportáveis horas na poltrona do cinema assistindo a um filme desgraçadamente insosso.
“Três Macacos” exige um esforço terrível do espectador. Cobra deste uma postura mais ativa, mais participativa, ou seja, está longe de ser os típicos “blockbusters” estadunidenses onde você fica duas horas com o traseiro na poltrona, comendo pipoca e com o cérebro desligado (e nada contra os filmes comerciais, pois, por mais que Stanley Kubrick, Federico Fellini e Ingmar Bergman sejam os meus cineastas prediletos, comecei, assim como qualquer outro pobre mortal, a “flertar” com o Cinema assistindo a Steven Spielberg, George Lucas e, até mesmo, Michael Bay).
O foco do longa reside em uma família aparentemente simples: pai, mãe e filho. Mas há algo extremamente errado acontecendo com eles. Alguma coisa impede que a família seja verdadeiramente feliz. O que seria essa “coisa”? Um trauma do passado? A falta de afeto por parte dos membros que a compõem? O desvio moral dos protagonistas? Acredito que seja tudo isso somado a um principal aspecto: a falta de comunicação entre os familiares.
O título “Três Macacos” não poderia descrever melhor o que vemos na tela. Lembra-se daquele provérbio japonês em que um macaco era cego, o outro surdo e o terceiro mudo? Pois é, ele pode ser perfeitamente aplicado aqui, uma vez que o pai Eyüp (Yavuz Bingol) se faz de cego e finge não ver os problemas da família, a mãe Hacer (Hatice Aslan) se faz de surda e finge não escutar as reclamações dos demais famíliares e o filho Ismail (Rifat Sungar), por sua vez, se faz de mudo e guarda para si os seus próprios problemas. Uma simples reunião em família, com os três sentados em uma mesa, debatendo as diferenças de um para com o outro poderia mudar a situação em que os três se encontram, não? Sim, poderia, mas assim como muitos de nós, ocidentais, os protagonistas de “Três Macacos” parecem não ver necessidade alguma de se fazer tal coisa, desencadeando uma série de infelicidades presentes no ambiente famíliar que aparenta não mais ter fim.
“Três Macacos” acaba, de uma forma ou de outra, destrinçando o modo como a globalização afeta o cotidiano das pessoas nos locais mais inimagináveis. A frieza contida nas famílias estadunidenses (como podíamos ver em “Beleza Americana”, apenas para citar um exemplo) acaba sendo transportada a todos os lugares do Globo Terrestre, o que resulta em sociedades auto-reprimidas e indivíduos fechados e taciturnos que buscam uma felicidade alternativa através de adultérios, vícios da espécie do alcoolismo, ou o preenchimento existencial voltado à violência. Todos os protagonistas de “Três Macacos” são pessoas extremamente tristes, depressivas, e com um ódio recíproco para com os demais membros da família. É só reparar na música (excessivamente brega, diga-se) que Hacer coloca como toque principal de seu celular. Quando a ouvimos tocar pela primeira vez, ficamos sabendo logo de cara que a mulher nutre um ódio fora do comum pelo marido Eyüp, mesmo sem ele ter entrado em cena antes do ocorrido.
Mas o “plus” do filme reside mesmo na fantástica direção de Nuri Bilge Ceylan (justamente premiada com a Palma de Ouro de Melhor Direção, injustamente esnobada pelo Oscar que optou por concorrentes bem mais fracos). O diretor turco mostra tanto talento por trás das câmeras que, sinceramente, nem sei por onde começar a descrever o seu trabalho. Ou melhor, sei sim, que tal, obviamente, começarmos pelo começo? Uma das cenas que abrem este “Três Macacos” já nos presenteia com uma amostra do trabalho que o diretor viria a fazer mais para frente, durante o desenrolar do longa. Refiro-me à sequência da rodovia que abre o filme e quando Ceylan posiciona e fixa a sua câmera em um determinado ponto. Vemos então um carro emanar um forte lampejo vindo de seus faróis dianteiros e que se destaca da escuridão predominante na cena. Conforme o veículo avança o seu caminho, o brilho vai reduzindo consideravelmente até tornar-se um insignificante ponto de luz extremamente distante e desaparecer por inteiro. Essa sequência, em si, já resume o caminho o qual Ceylan irá adotar durante os minutos remanescentes do filme.
A técnica do “deep focus” é outro grande destaque da direção de “Três Macacos” e é sempre muito bem empregada por Nuri Bilge Ceylan, só que de uma maneira um pouco diferente da que fora utilizada por Orson Welles em “Cidadão Kane”, por Jean Renoir em “A Regra do Jogo”, por William Wyller em “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”, ou, para citar um exemplo bem mais atual, por Tony Gilroy em “Conduta de Risco”. Em “Três Macacos” o foco não é nece
ssariamente um personagem da trama, mas sim o “nada”. Isso mesmo, o “nada”. Aquele vazio supremo que assombra a vida das pessoas no mundo contemporâneo. Ceylan aplica com maestria a centralização de objetos inanimados e deixa os seus personagens em segundo plano, sem nunca os tirar de cena. Uma maneira bastante sutil de nos mostrar o quão vazias e desinteressantes estas pessoas o são, a ponto de nem ao menos merecerem um foco mais digno.
A criação de ambientes claustrofóbicos também é uma outra grande jogada de Ceylan. O novato (fez apenas cinco filmes até então), mas extremamente genial, diretor toma todas as devidas precauções para posicionar a sua câmera de um modo que faça com que nós, espectadores, nos sintamos espremidos e sufocados. O apartamento, que aparenta ser um agente agregador da família, é filmado como se fosse um vilão do filme, alguém que une os protagonistas, contra a vontade destes, e os deprimem com um estarrecedor silêncio que permeia a sofrível convivência entre eles. A moradia dos protagonistas está mais para uma prisão recheada com um ambiente extremamente depressivo do que para um lar em si.
Quando os personagens encontram-se fora do apartamento o filme emana um clima um pouco menos desconfortável, mas ainda assim repulsivo. Há uma sequência em especial que evidencia tudo isso, que é quando vemos Hacer e o político Servet (Ercan Kesal) em uma praia. Primeiramente, não há como não nivelarmos esta cena com algumas sequências de “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam”, de Ingmar Bergman. Principalmente quando víamos, no filme sueco, as duas protagonistas na praia, focalizadas à longa distância. Porém, acredito que as semelhanças residam apenas no contexto visual da cena, e não no metafísico. É muito provável que a intenção de Ceylan seja mostrar o quão insignificantes nós, seres humanos, estamos nos tornando diante do ambiente que nos cerca. Somos espremidos por um ambiente fechado e minimizados por um ambiente aberto. Enfim, não somos nada, ou até menos do que nada, uma vez que o vazio parece ter maior importância do que nossas pessoas e nossos cotidianos insossos.
Realizando um complexo estudo sobre os terríveis problemas que a falta de comunicação pode trazer aos cotidianos familiares, “Três Macacos” peca (se é que posso dizer desta forma) somente na utilização de alguns pequenos estereótipos (pai alcoólatra, mãe infiel, filho “perdido”) e ao conferir melodrama demais a algumas cenas contidas em sua segunda metade (e é uma pena que o protagonista Eyüp rompa o silêncio algumas vezes, sendo que o mesmo revelava-se muito mais perturbador do que as suas discussões, em alto e bom som, com Hacer e o filho Ismail). Nada que faça com que o longa deixe de ser um primor da sétima Arte, principalmente no que diz respeito à direção de Nuri Bilge Ceylan, que confere ao drama a sensibilidade mais do que adequada para que ele funcione corretamente, além de empregar técnicas semelhantes às adotadas por grandes cineastas como Orson Welles, Jean Renoir, Ingmar Bergman e William Wyler a fim de aumentar o impacto visual e metafísico de sua obra. E se a Globalização levou males aos países orientais a ponto de criar famílias neuróticas como as que vemos aqui, ao menos ela teve um ponto positivo no que diz respeito à Arte: permitiu com que cineastas europeus e estadunidenses criassem influências diretas sobre inúmeros profissionais asiáticos, possibilitando com que os mesmos se responsabilizem por grande parte dos melhores filmes cult de Arte lançados contemporaneamente.
Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.
Força Policial – * de *****
Muitas vezes já utilizei este espaço dedicado à pré-crítica para esculhambar os títulos nacionais conferidos às produções estrangeiras, contudo, não me lembro de ter feito o mesmo com o título original de uma determinada obra. Faço-o então agora com este “Pride & Glory” (gargalhadas). Em primeiro lugar, creio que nem preciso comentar a falta de criatividade, não? Em segundo lugar, o que dizer deste ‘titulozinho’ medíocre, ‘marqueteiro’ e megalomaníaco? Sim, pois dá a entender que a produção trata-se de um épico de guerra, não? E o que o orgulho e a glória tem em comum com a corrupção policial? Ah sim, claro, o filme insinua que um oficial da polícia nova-iorquina deveria sentir orgulho e glória de seu serviço. Mas oras, o correto não é que todos nós deveríamos sentir orgulho e glória de nossas profissões? Analisando por este prisma, então todo o filme que aborde uma profissão, seja ela qual for, deveria se chamar “Orgulho & Glória”, não? Mas o título não é ao todo ruim, ao menos ele ilustra bem certas qualidades da obra que nomeia: um filme imaturo e megalomaníaco.

Ficha Técnica:
Título Original: Pride & Glory.
Gênero: Policial.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.prideandglorymovie.com/
Nacionalidade: Estados Unidos / Alemanha.
Tempo de Duração: 130 minutos.
Direção: Gavin O’Connor.
Roteiro: Joe Carnahan e Gavin O’Connor, baseado em estória de Gavin O’Connor, Robert Hopes e Greg O’Connor.
Elenco: Edward Norton (Ray Tierney), Colin Farrell (Jimmy Eagan), Jon Voight (Francis Tearney, Sr.), Noah Emmerich (Francis Tearney, Jr.), Jennifer Ehle (Abby Tierney), John Ortiz (Sandy), Frank Grillo (Eddie Carbone), Shea Whigham (Kenny Dugan), Lake Bell (Megan Egan), Carmen Ejogo (Tasha), Manny Perez (Coco Dominguez), Wayne Duvall (Bill Avery), Ramon Rodriguez (Angel Tezo), Rick Gonzalez (Eladio Casado), Maximiliano Hernández (Carlos Bragon), Leslie Denniston (Maureen Tierney), Hannah Riggins (Caitlin Tierney), Carmen LoPorto (Francis Tierney), Lucy Grace Ellis (Bailey Tierney), Ryan Simpkins (Shannon Egan), Ty Simpkins (Matthew Egan), Flaco Navaja (Tookie Brackett), Raquel Jordan (Lisette Madera), José Ramón Rosario (Prefeito Arthur Caffey), Christopher Michael Holley (Detetive Miller), Jessica Pimentel (Angelique Domenguez).
Sinopse: Após quatro policiais serem assassinados, Francis Tierney (Jon Voight), chefe dos detetives da polícia de Nova York, pede para que o filho Ray (Edward Norton) volte a trabalhar em seu departamento e o ajude com as investigações. O rapaz reluta a princípio, mas aceita o pedido do pai e passa a investigar o caso ao lado do irmão Francis Tearney, Jr. (Noah Emmerich) e do cunhado Jimmy Eagan (Colin Farrell).
Pride & Glory – Trailer:
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Crítica:
“Força Policial” (e, no final das contas, o título nacional do filme se mostra quase tão estúpido quanto o título original) está sendo “vendido” a nós, brasileiros, como o “Tropa de Elite” estadunidense. Falácia! Não acredite em um segundo sequer da campanha publicitária deste lixo imundo! Se “Tropa de Elite” conseguia nos transmitir perfeitamente aquilo que estava sendo exibido nas telas, adotando para tal uma estrutura semi-documental levemente parecida com um filme produzido durante o neo-realismo italiano, “Força Policial” tenta (e esta foi uma das tentativas mais frustrantes da história da sétima Arte, diga-se) o fazer plagiando quase todos os filmes do gênero produzidos recentemente.
E sei que já virou clichê falar de clichês em uma crítica cinematográfica, mas aqui não há como fugirmos disso, uma vez que o filme copia vários elementos de outros filmes policiais. Temos espaço para o policial extremamente competente que trabalha em um departamento cujas atividades encontram-se bem aquém de suas aptidões investigativas. Há também um drama familiar envolvendo este mesmo policial, que viu-se obrigado a se separar da mulher que ama por causa do trabalho (e francamente, ele deveria ser eternamente grato ao trabalho por faze-lo abandonar um “trabuco” da categoria de sua ex-esposa. Bom, ao menos eu, se estivesse no lugar dele, seria. Ou melhor, se realmente estivesse no lugar dele, nem ao menos me envolveria com um “canhão” daqueles), a família inteira que trabalha na polícia (pai, filhos e, acredite, até o genro), o protagonista que mora em um barco ancorado no cais local, o pai que pede ao filho que volte a trabalhar lado a lado com ele, a trama se desenrolando durante o período natalino, os narcotraficantes oriundos de países latino-americanos (e nem preciso comentar o teor preconceituoso disso, não é?), dentre muitos (mas muitos mesmo, vocês irão ficar até atordoados com a enxurrada de clichês contida no roteiro de “Força Policial”) outros chavões.
O modo como o roteiro aborda os seus personagens soa exacerbadamente superficial. O protagonista então dispensa comentários, até mesmo porque eles já foram feitos no parágrafo supra. Mas e quanto aos demais personagens? Um mais fútil que o outro. Temos o pai de família que faz de seu serviço algo glorioso e tenta o passar para os filhos, que decidem seguir a carreira profissional do progenitor, temos também o genro que é chefe de uma família perfeitamente moldada no “american way-of-life” e se envolve com a corrupção a fim de dar uma vida melhor aos filhos e à esposa, o irmão do protagonista que é um homem correto e honesto, mas que não delata os companheiros por uma questão de coleguismo e… podemos parar por aí? Ah não, acredito ser conveniente falarmos também sobre os narcotraficantes latino-americanos. O quê? Já citei-os acima? Sim, mas não me lembro de ter comentado que os mesmos seguem o estereotipo do criminoso cruel que resolve tudo “na bala”. Pior ainda é notarmos que os fora-da-lei são sempre estúpidos, a ponto de deixar uma pista ou uma testemunha a todo o momento em que cometem uma infração.
E falando na idiotice dos bandidos de “Força Policial”, creio que todo o membro da policia adoraria que os criminosos realmente fossem assim, não? Pois é, seria o trabalho mais fácil do mundo, ao menos é o que o filme deixa a entender conforme mostra as investigações sendo executadas. Veja o momento em que o personagem de Edward Norton (e o que ele está fazendo neste filme, uma vez que nunca atuou em uma obra tão exposta ao ridículo como esta?) entrevista um garoto latino-americano (e, sinceramente, não sei qual é a vantagem de seu personagem saber falar espanhol se, após um minuto de interrogação, o protagonista pergunta: “Sabe falar inglês?”, e passa a comunicar-se com os entrevistados apenas no idioma oficialmente falado na Terra do Tio Sam), por exemplo. Ray vai à testemunha certa, na hora certa, e consegue as informações certas. Pois é, falar que o roteiro é extremamente artificial neste ponto torna-se dispensável, não é mesmo? Principalmente se levarmos em conta que o próprio “script” se denuncia quando o protagonista comenta: “___ Foi apenas sorte!”.
Bem, pode até ter sido um golpe de sorte, de fato, e isso não teria problema algum caso o longa tivesse parado por aí mesmo. Mas não é o que acontece, o roteiro insiste em criar mais cenas artificiais como esta, tornando-se muito comum vermos bandidos exageradamente descuidados a ponto de deixarem celulares próximos ao local do crime e testemunhas que veem tudo o que aconteceu e contam para a pol
ícia logo em seguida (a propósito, só em um filme imbecil como este conseguimos ver testemunhas tão fáceis de se interrogar e dispostas a contar tudo o que sabem, mesmo que isto lhes custe a vida). E francamente, juro (e juro mesmo, não estou exagerando) que pensei que em um determinado momento do filme os bandidos fossem cometer um crime e logo em seguida pendurar, em uma parede próxima ao local do incidente, luminosos com os seguintes dizeres: “Me chamo Fulano da Silva, tenho 1,80m de altura, sou negro e matei este homem porque vendi a ele mais de dez mil dólares em cocaína e o desgraçado não me pagou a quantia. Caso queiram me localizar basta procurar-me na Rua dos Pinheiros, número 1234, apartamento 27, ao lado do boteco do Zé do Pires e de frente para a Funerária Lá Vai Mais Um. Estarei com uma camiseta regata vermelha com o emblema do Flamengo e com uma caixa de cereais na mão direita. Com a mão esquerda acenarei para vocês pela janela. Quaisquer dúvidas é só ligar para o telefone número 1234-5678 e darei informações mais minuciosas. P.S.: Não se esqueçam do mandado judicial para poderem arrombar a minha porta e levar-me à delegacia. Atenciosamente, Fulano da Silva.” (sei que fui pouco original na escolha do endereço e número de telefone, mas acabei sendo involuntariamente inspirado pela falta de criatividade do filme que acabei de assistir).
“___ Mas e a trama em si, consegue mostrar o esquema de corrupção dos policiais nova-iorquinos?” ___ Me pergunta o leitor. Mostrar mostra, mas do modo mais convencional o possível. E não apenas de um modo convencional, como também de uma forma nada convincente, principalmente por vermos os policiais corruptos estabelecendo poucos contatos com os bandidos. A propósito, é triste vermos o quão dispensável “Força Policial” é se o compararmos com muitos outros filmes do gênero que desempenharam o mesmo papel que ele pretendia desempenhar, só que de uma maneira bem mais realista, como é o caso de “O Corruptor”, “Os Reis da Rua”, “Dia de Treinamento”, “Cop Land” e, é mais do que óbvio, “Tropa de Elite” (aliás, notem o modo como o mesmo é fortemente plagiado neste “Força Policial”. As cenas do filme gringo em que mostram um policial assaltando o dono de um mercado são descaradamente copiadas da cena em que o capitão Fábio (encarnado com maestria por Milhem Cortaz) assalta uma choperia).
Mas nem tudo pode ser encarado com repulsa nesta porcaria dirigida por Gavin O’Connor. O próprio diretor realiza um trabalho regular atrás das câmeras e o modo como movimenta as mesmas revela-se interessante durante algumas cenas do longa. O elenco também encontra-se bastante afiado e realiza um trabalho bastante competente, sobretudo Noah Emmerich que se mostra bastante seguro como Francis Tearney, Jr. Norton também realiza um trabalho convincente, mas muito aquém do esperado, e o mesmo eu digo de Colin Farrell e Jon Voight.
Bem, poderia execrar o filme ainda mais, poderia comentar os péssimos diálogos embutidos no mesmo, a trilha-sonora visivelmente maniqueísta, o terceiro ato ridículo (que conta com uma briga de bar, no estilo mano-a-mano, entre os dois personagens principais da trama), mas vou parando por aqui. “Força Policial” é um filme que possui um elenco competente e uma direção razoável, e só. No mais, somos quase afogados por uma enxurrada de clichês e cenas extremamente artificiais empregadas pelo roteiro. O maior pecado do longa, entretanto, é o modo gritantemente (isso para não dizer ‘berrantemente’) falho como decide abordar a corrupção policial, algo que o deixa bem aquém de várias outras produções do gênero. Um lixo descartável, apenas isso.
Avaliação Final: 2,0 na escala de 10,0.
Sessão Nostalgia – parte 3: Lawrence da Arábia (1962)
É estranho como certas coisas insistem em pendurar na nossa cabeça por anos e outras desaparecem em apenas dias. Me lembro bem dessa conversa por telefone,dela toda e não só do trecho postado aqui,porém me lembrava pouco da estória (ou história) desse grande clássico. Sabia apenas que ele era um dos meus favoritos,como sabia?Ora,sentindo. Hoje,tendo passado dois anos vejo de novamente com olhar mais atento e afirmo que não acho “Lawrence da Arábia’ uma obra tão genial quanto achava outrora. Acho melhor!
David Lean se ratifica como gênio,anteriormente lançando dois clássicos “Oliver Twist” e “A Ponte do Rio Kwai”,”Lawrence da Arábia” se mostra o melhor filme dele,o filme que arrebatou todos os prêmios que concorreu e hoje a obra-prima do diretor,e não para pouca coisa. Lean constroi um retrato detalhado da vida do enigmático T.E. Lawrence e coloca em uma riqueza incrível como ele uniu tribos arabes afim de combater os turcos,e não esquecendo do cenário político e militar da época. Lean filma como ninguém,explora os recursos visuais que tinha. Lendas dizem que eles acordavam de de madrugada apenas para pegar o nascer do Sol no deserto,ele explora tudo que tem tão a fundo,que encerrados as pouco mais de três horas e meia de filme,o pensamento que temos é único: Nada mais poderia ser encaixado ali dentro
O Sol nascendo e as viagens pelo deserto,assim como as explosões do trem,Lawrence sendo açoitado ou o fabuloso desfecho no carro cria um leque de cenas que marcam o filme por completo,lá não existe A CENA marcante,e sim uma continuidade onde a próxima cena é melhor que a anterior e assim vai,deixando o filme fixado na memório por completo,e então vai naquela: ou você lembra de tudo ou deleta o filme todo da cabeça.Engana-se quem pensa que apenas de cenas é feito “Lawrence da Arábia”,o filme conta com diálogos magnifícos,frases marcantes de um homem culto que constantemente entra em conflitos com pessoas de culturas diferentes, diálogos e respostas que vão além de coisas simples e que não estão ali apenas para dar um que notório ao filme,estão ali pois precisam esta,e elas revelam muito da situação ou do carater de cada personagem,e entre elas a mais magnífica “Um Homem pode ser o que quiser”. Será mesmo?Sim ou não,Lawrence consegue viver assim
Poucos atores são tão injustiçados pelo Oscar quanto Peter O´Toole,ele aplica um tom inglês fantástico em seu personagem,cara séria e sem emoção,frieza ao se expressar,voz nunca sai do tom normal,cria Lawrence como um heróis as avessas (dizem que um dos maiores erros da carreira de Marlon Brando foi ter recusado esse papel) aquele herói de idéias e atitudes,mas que não demonstra heroismo,e se por um lado é herói,pelo outro o protagonista mostra-se arrogante,pretencioso,ora se comparando a personagens biblicos,ora se intulando como milagreiro de um povo,pelo menos em se tratando do protagonista o filme conseguiu equilibrar em uma imparcialidade rara no cinema.Alec Guinness e Anthony Quinn se destacam entre os coadjuvantes
Com uma fotografia absurdamente boa,talvez a melhor que o cinema já viu,acompanhando as viagens pelo deserto com uma das trilhas sonoras mais inesquecíveis, “Lawrence da Arábia” se firma como obra-prima intocada pelo tempo,um filme que mostra o prazer em fazer o impossível virar o possível,um relato histórico em proporções extraordinárias,um conto de um homem que nem Homero escreveria melhor,referência estética e técnica,figurinos nunca vistos antes e especialmente a ousadia de um cineasta que fez de seu filme um dos mais complexos e influentes que o cinema já viu.
Ah,quanto o trabalho do Alvares,apresentamo bons cartazes,eu fiz um resumo detalhado de Noite na Taverna para a turma e a garota fez analises ótimas de A Lira dos Vinte Anos,fechamos o trabalho,porém o vídeo não chegou a serconcluido,na verdade gravamos 10-15 minutos de imagens,foi ótimo.Hoje Alvares de Azevedo é um dos meus poetas favoritos!
Sessão Nostalgia parte 1 – Diários de Motocicleta (2004)
- A Primeira Noite de um Homem
- Diários de Motocicleta
- Lawrence da Arábia
- Janela Indiscreta
Sessão Nostalgia parte 1 – Diários de Motocicleta (2004)
Falar que lá em 2005,Ricardo querendo iniciar uma vida cinéfila,grande admirador de Che Guevara (da pessoa Che Guevara e não do mito ou dos ideais Che Guevara),um filme como esse não seria um grande desafio de assistir.Esperava muito.Ganhei mais,ganhei um dos filmes que mais me marcou como pessoa,e ganhei dois idolos a mais: Walter Salles e Gael Garcia Bernal
O primeiro prova porque é melhor no que faz,faz do filme uma mistura de denúncia com biografia,aventura e comédia,balança a câmera,chama a atenção: PORRA,VOCÊ FAZ PARTE DISSO. Mostra pouco a pouco a viagem de dois amigos rumo ao desconhecido,a imaturidade e como aos poucos vão vendo e sentindo a verdadeira América Latina subdesenvolvida.”… talvez…Mudou em mim”,a evolução dos personagens são claras ao passar do filme,os dólares que os fizeram não comer foram doados a um casal comunista,os agricultores sem terras foram parados e ouvidos,o ápice é na bela cena onde Ernesto Guevara atravessa o rio.Aquilo é fazer cinema
O sengundo mostra porque é o melhor em sua geração,Gael foi um dos poucos que cresceu e se tornou um gigante sem pedir ajuda à Hollywood,em “Diários de Motocicleta” tem atuação bem feita,traços do jovem Ernesto que viria a se tornar um dos maires mitos do século XX estão presente,o jeito de falar “che’,a idealização de apenas uma américa,o desprezo por hierarquias impostas,mas ao mesmo tempo Gael não perde a mão ao mostrar um homem jovem de 23 anos que não deixa de ser um homem jovem de 23 anos
A Parte Física da América Latina é mostrada lindamente,rios,flotestas o nosso continente abençoado pela mãe natureza.Monumentos históricos ganham proporções gigantes…junto dessa beleza natural,mas ao mesmo tempo quase fazendo um paralelo com ela vem a parte humana,os ricos são pobres,os pobres mais pobres ainda e os doentes apenas miseráveis.Nesse quadro deprimente vem algo que nos coloca em xeque: Alguma coisa mudou?Em 2005 minha professore de Geografia insistia em dizer que sim,muita coisa mudou para melhor,porém eu insisto em dizer que os problemas apenas modernizaram e qualquer um que resolvesse fazer a mesma viagem veria o mesmo que os olhos de Ernesto viram.Em meio a tudo surgi um coadjuvante que se destaca em toda a história,e não falo de Granado,amigo de 30 anos e mentalidade de 15 do jovem che,falo de La Poderosa,a motocicleta que da título ao filme e que se destaca,colocando aspecto de aventura em um gigante so século XX
“Diários de Motocicleta’ foi justamente premiado com o Oscar de Canção Original,”El Otro Lado del Rio” encanta de forma pura nosos ouvidos e emociona,como todo o filme emociona.Walter Salles criou uma obra prima,um filme que enche nossos olhos e toca fundo em nosso coração,não se espante se ele também permanecer em sua cabeça por anos e anos.
A Duquesa – ** de *****
Quando comentei sobre “Elizabeth – A Era de Ouro”, por volta de fevereiro do ano passado, deixei bem claro que o filme em questão emergia em um oceano de frivolidades, pois dava muito mais ênfase ao triângulo amoroso abordado do que às questões políticas com as quais a protagonista estava envolvida na época. E tendo em vista que tais questões estavam ligadas ao período mais glorioso da história da Grã-Bretanha, ou seja, a vitória naval sobre a Espanha durante o conturbado período das inquisições ibéricas, tal deslize do roteiro não poderia ser perdoado sob hipótese alguma.
Pouco tempo depois (menos de um ano) de “Elizabeth – A Era de Ouro” sair dos circuitos nacionais, chega este “A Duquesa” com uma proposta não muito diferente: retratar um triângulo amoroso, que mais para frente viria a ser um quadrado amoroso, envolvendo membros importantíssimos da corte britânica e deixar as questões políticas de lado. Contudo, “A Duquesa” tem uma clara vantagem sobre “Elizabeth…”, no filme protagonizado por Keira Knightley, a ocultação dos fatos políticos se revela infinitamente mais conveniente do que no filme protagonizado por Cate Blanchet.
Tomando como pano de fundo a Inglaterra do final da sétima década do século XVIII, o filme nos apresenta à duquesa Georgiana Carvish (Keira Knightley), casada com William Carvish (Ralph Fiennes), Duque de Devonshire (região pantanosa ao sul da Inglaterra, para quem já leu o excepcional “O Cão dos Baskervilles” de Sir Arthur Conan Doyle, é exatamente a região onde se passa a estória mais famosa protagonizada por Sherlock Holmes). O Duque, como era costume na época, desejava um descendente do sexo masculino para deixar de herdeiro. A esposa, no entanto, só conseguia lhe “dar” filhos do sexo feminino, o que causa certo ódio por parte do marido.
Lendo o parágrafo acima, dá-se a entender que o longa irá cair naquela velha estória de sempre, não? É exatamente isso o que acontece. Eles se casam, ela promete um filho, não consegue um garoto, o Duque, que já não demonstrava grande amor pela moça, passa a despreza-la cada vez mais, arruma inúmeras amantes para lhe satisfazer, e ela, pobrezinha, sente-se isolada, sem o amor do marido, no palácio em que mora e passa a se interessar por um amigo de infância.
O roteiro aparenta ser previsível e sem criatividade, não? Pois é, é justamente isso que o é, e mais, não se preocupa nem um pouco em explorar os seus personagens ou, ao menos, criar uma forte carga dramática sobre eles. Por exemplo, Georgiana era viciada em jogos de azar, mas o filme raramente explora o seu problema de um modo aprofundado. Tudo aqui é mostrado superficialmente, através de uma ou outra cena em que a moça aparece jogando cartas. E os sentimentos verdadeiros dela por Charles Gray (Dominic Cooper)? De fato são verdadeiro sim, mas percebemos isso de tanto que ouvimos a moça falar, pois o roteiro não se preocupa nem um pouco em criar situações que nos façam ter certeza disso. O flerte entre Georgiana e Charles é mostrado de um modo sucinto demais no início da projeção. Eles são mostrados apenas como amigos, que trocam um ou outro olhar entre si, e quando o romance de ambos esquenta definitivamente, não convence. A sensação que temos é a de que a Duquesa não ama o rapaz, de fato, apenas o usa para escapar do rude marido, que trai a moça com aquela que já fora sua melhor amiga, Bess Foster.
E falando em Bess Foster, que atuação apagada a de Hayley Atwell, não? Sua expressão é sempre a mesma, ela jamais convence, nem quando fala do marido que a maltratava, nem quando reencontra os filhos que já não via há anos, nem em momento algum. O resto do elenco se mostra satisfatório, mas apenas isso, nada mais. Salvo por Keira Knightley e Ralph Fiennes, cujas discussões de seus respectivos personagens revelam-se o ponto alto do filme, uma vez que passa a exigir de ambos atores atuações firmes e consistentes e ambos correspondem magnificamente bem ao exigido (Knightley, aliás, está perdoada do péssimo trabalho que realizou no bom “Desejo & Reparação”).
Mas ao iniciar este texto, lembro-me de que falava que a ocultação política do filme não era, ao todo, inconveniente, não? Pois é, a Inglaterra passava por uma considerável mudança política, onde o partido de oposição, que era infinitamente mais libertário que o partido de situação, estava para assumir o poder da ilha mais importante do mundo e a Duquesa Georgiana teve a sua participação nisso, e é claro que o roteiro falha em não abordar tal fato com mais precisão, contudo, além do papel de Carvish não ter sido tão diretamente importante para o trunfo dos opositores, este acontecimento histórico não teve, nem em sonhos, o mesmo peso que teve a vitória naval da Inglaterra sobre a Espanha. Logo, o roteiro jamais se mostra totalmente falho quando opta por dar mais ênfase à vida pessoal da Duquesa.
Aliás, a vida pessoal dela, por si só, já se mostra dramaticamente forte o bastante para merecer uma adaptação para as telonas. A questão é: como fazer isso de um modo satisfatório? E aí voltamos a todos os pontos falhos que citei acima, o longa deveria ter desenvolvido melhor os personagens, ter criado uma relação publico/protagonista muito maior a ponto de nos cativarmos com ela, sobretudo com os seus sentimentos por Gray e, principalmente, ter sido menos previsível. Francamente, em menos de vinte minutos de filme sabemos perfeitamente que a Duquesa não conseguirá dar um filho do sexo masculino ao seu marido, o mesmo dará ainda menos amor à esposa, arrumará algumas amantes, passará a flertar com a sua melhor amiga, se tornará amante da mesma, e por aí vai, até “nascer”, de fato, o previsível caso de amor entre Georgiana e Gray.
Ao menos o filme não é previsível em seu final, quando percebemos a tristeza que passa a fazer parte da vida da jovem nobre. Afinal de contas, ela terá toda a riqueza material que desejar, mas jamais encontrará o verdadeiro amor, e o que é pior, ela nada vez de errado para merecer tal “punição”, apenas não se viu capaz de “presentear” o marido com um filho do sexo masculino no momento em que ele deseja isto. O roteiro prima também por não fugir muito da estória real, que lhe serviu de base. Por outro lado, creio que uma ou outra liberdade histórica adotada para dramatizar a trama (que, sejamos francos, não é tão dramatizada quanto deveria) não seria uma má idéia.
Mas o filme não é ruim ao extremo, muito pelo contrário. Além das já citadas ótimas atuações de Fiennes e Knightley, o filme conta com uma beleza visual fantástica, que parece tentar suprir todo o vazio emocional que o longa nos confere. A fotografia realça bem os ambientes externos da produção, a direção de arte, por sua vez, cria ambientes internos suntuosos e dignos de se encher os olhos (ainda assim achei a vitória de “… Benjamin Button” justa nesta categoria) e os figurinos são simplesmente um espetáculo, algo que o filme realmente tem de melhor, e parece saber aproveitar a cada momento que pretende recriar a época que está sendo retratada nas telonas.
“A Duquesa” é, enfim, um longa dotado de uma beleza visual incrível, mas de um vazio dramático indesc
ulpável (exceto pelo triste final do filme).
Avaliação Final: 5,0 na escala de 10,0.

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