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O Visitante – **** de *****

Juro que procurei o título nacional deste filme, na esperança de que houvessem lançado o mesmo, mas não o encontrei de forma alguma. Acredito que “O Visitante” mesmo seria mais do que apropriado. Ou melhor, quem sabe “Os Visitantes” seria um título ainda mais apropriado, tendo em vista que, tanto Walter (Richard Jenkins), quanto Tarek (Haaz Sleiman), eram visitantes um do outro. Só espero que, quando for lançado aqui no Brasil, o filme não ganhe nenhum título bizarro como: “O Tocador de Tambor”, ou coisa do tipo.

Crítica:

“The Visitor”, infelizmente, cometeu o mesmo erro que muitos filmes atuais vem cometendo: conta com aquela promoção: “pague por 1 muito bem feito e assista a 2 não tão bem feitos”. Este é o caso do fraco “Austrália”, só para citar um exemplo. Mas se tem uma coisa que “The Visitor” não é: é ser um filme fraco. Muito longe disso, mas muito longe mesmo. O filme de Thomas McCarthy é uma obra acima da média e merece todo o respeito o possível. O roteiro, por exemplo, merecia estar concorrendo a “Melhor Roteiro Original”, mas acabou cedendo lugar a muitos outros filmes indignos do mesmo.

Começamos com Walter, um professor universitário extremamente frio e solitário. Sua esposa faleceu há algum tempo e isso evidentemente deixou “buracos” em sua vida. Ele passa a ter dificuldades gigantescas em se relacionar com os seus semelhantes, o que o torna uma pessoa bastante insensível, como podemos reparar na cena em que ele dispensa a professora de piano do modo mais frígido o possível.

O professor vai a serviço a Nova York e passa por um incidente: o apartamento que está em seu nome encontra-se locado, sem ele ter ciência disso, a um casal de imigrantes ilegais, Tarek e Zainab. Após uma breve confusão, a situação se esclarece e os “visitantes” de Walter decidem ir embora. É aí que passamos a notar um resquício de humanismo no velho catedrático, quando este propõe ao casal que passe um tempo hospedado em seu apartamento.

Durante esta convivência fria, em virtude do caráter de Walter, o professor se surpreende ao descobrir em Tarek um dom que lhe atrai muito: tocar tambor perfeitamente bem. Ao notar o interesse do dono do apartamento pelos seus dons, o jovem imigrante passa a ensinar ao velho tudo o que sabe. O professor universitário descobre na música a razão de existir. O filme ganha um ritmo fabuloso, uma sensibilidade incomparável, torna-se um objeto de Arte dos mais fantásticos de se apreciar. A relação entre Tarek e Walter se torna excepcional e é incrível podermos reparar o modo como a música os une e torna a vida de ambos mais preenchida.

Aí, quando passamos a adorar o filme (e confesso que estava pensando em dar uma nota 10,0 ao mesmo enquanto o assistia até então), surge uma estória completamente diferente. Um incidente nada bom ocorre com Tarek e ele passa a precisar da ajuda de Walter. A partir daí, o professor passa a ser o visitante, aquele que vai ver o amigo estrangeiro com uma certa frequência no lugar desagradável onde este encontra-se. A magia que o filme nos passava em seu início cai bastante, mas não há como não continuarmos dando crédito ao longa, ainda que não seja tanto o quanto era dado antes, em razão de sua interessante abordagem: o xenofobismo (ainda que não em sua forma mais crua e cruel) que o governo estadunidense se vê obrigado a adotar.

Com o 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos da América tiveram que adotar uma política xenofóbica, principalmente contra os estrangeiros oriundos de países mulçumanos, e isso fez com que muitas pessoas que tinham o sonho de crescer na terra das oportunidades, fossem deportadas para casa. E por mais cruel que seja a atitude do governo estadunidense, não há como não entendermos o lado deles, afinal de contas, qual nação no mundo não agiria da mesma forma (e por aí vocês podem notar que nem sempre sou o pseudo-intelectual com mania de perseguição aos Estados Unidos da América, as vezes dou parecer favorável a certas atitudes adotadas pela maior potência econômica mundial (por pouco tempo, mas ainda é a maior potência econômica), e esta é uma delas)?

“The Visitor” se revela então uma obra cinematográfica mais do que interessante no que diz respeito à abordagem da imigração ilegal, mas, francamente, o roteiro de Thomas McCarthy (e mais uma vez eu digo, deveria estar concorrendo ao Oscar), inteligente como demonstra ser, não deveria ter encerrado uma trama e iniciado outra de modo tão abrupto. McCarthy deveria ter nos dado, ao menos, uma pequena pista de que, mais cedo ou mais tarde, a trama envolvendo o encontro de Walter com a música iria se encerrar e passar a dar ênfase ao preconceito com que os imigrantes são tratados. Ou então deveria simplesmente ter desenvolvido um pouco mais a trama inicial.

De uma forma ou de outra, seja contando um drama existêncial (Walter e a música), seja contando um drama político-social (os imigrantes ilegais), o roteiro de Thomas McCarthy se mostra fenomenal. E McCarthy não merece crédito apenas pelo roteiro, como também por sua direção que, apesar de não criar ângulos magistrais, confere à trama toda a sensibilidade necessária. O elenco se mostra bastante satisfatório, sobretudo Richard Jenkins que encarna muito bem um homem triste e racional ao extremo que passa a ver na música e em Tarek, Zainab e em uma outra mulher que não irei descrever, sob pena de tirar a carga dramática do filme, o propósito para a sua vida vazia. Contudo, não creio que o trabalho de Jenkins seja digno de uma indicação ao Oscar, mas enfim, se essa é a única maneira que a Academia encontrou para reconhecer o brilhantismo do filme em questão, tudo bem. É claro que uma indicação a “Melhor Roteiro Original” viria mais a calhar, mas quem sou eu para dizer isso?

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

Rio Congelado – **** de *****

Vamos voltar aos primórdios do Cine-Phylum? Calma, não é nada demais, não. Apenas irei voltar a realizar críticas no antigo formato do blog. Mas será por um curto período de tempo, até o Oscar apenas. O Motivo? Simples, a cerimônia está próxima e eu ainda tenho oito filmes para serem assistidos em apenas três dias. De tal forma, é mais do que óbvio que não terei tempo de destrinchar todos os filmes através dos costumeiros textos que sempre publico por aqui. Logo, as críticas de “Rio Congelado”, “Simplesmente Feliz”, “Trovão Tropical”, “Bolt – O Supercão”, “A Duquesa”, “Um Ato de Liberdade”, “Valsa Com Bashir” e “The Vistor” (acreditam que ainda não sei qual é o título brasileiro deste último?), terão entre 400 e 800 palavras, no máximo.

Crítica:

O mais interessante em “Rio Congelado” é o local em que o filme se passa. Seja sincero, quantos filmes você já assistiu que se passam no norte estadunidense, na fronteira com o Canadá? Seja mais sincero ainda, quantos filmes você já assistiu que retrate a miséria de uma família estadunidense? Pois é, para quem reclama que o cinema estadunidense retrata apenas o lado glorioso do país, aconselho que assista a “Rio Congelado”.

O filme é surpreendente. Chegou de mansinho, como quem não quer nada, e acabou sendo exageradamente indicado ao Oscar de “Melhor Atriz” e, merecidamente indicado ao prêmio de “Melhor Roteiro Original”. E o roteiro é tudo isso que estão falando? Sim, de fato, é. Certamente não acharia justo indicar o mesmo em um ano comum, mas como em 2008 o Cinema se revelou um verdadeiro desastre, a indicação de “Rio Congelado” na categoria de roteiro é mais do que justa (é claro que preferia ver “Vicky Cristina Barcelona” no lugar, mas as coisas infelizmente não são como a gente quer quer seja).

A trama é interessantíssima e, de certa forma, surpreendente. Começamos com uma mulher chamada Ray Eddie (Melissa Leo) se vendo na obrigação de sustentar a família, uma vez que o marido, um viciado em jogos, a abandonou recentemente. Depois, Ray decide procurar o marido pelas terras da região e pegar o dinheiro que este levou embora consigo, afinal de contas, ela precisa dos dólares para pagar uma prestação da casa e não “perder” a mesma. Nessa busca pelo cônjuge, Ray descobre que o veículo deste encontrava-se na posse de Lila Littlewolf (Misty Upham), uma indígena Mohawk que havia furtado o carro. A protagonista a segue, força Lila a devolver-lhe o automóvel, e quando menos esperamos, vemos Ray se envolvendo com a travessia de imigrantes ilegais, trazendo-os do Canadá para os EUA passando por um grande rio congelado.

A propósito, palmas para o título original da obra que, sem dúvida alguma, se mostra excelente. O rio congelado tem um contexto metafórico na trama. É, aparentemente, algo sólido, algo que proporciona uma passagem para uma vida melhor (afinal de contas, é com o contrabando de imigrantes que Ray imagina ter chances de ganhar dinheiro o suficiente para quitar a sua casa), no entanto, o gelo pode se quebrar a qualquer instante, e a passagem sólida pode se mostrar um tanto o quanto instável. É o caso de Lila e Ray, as aventuras em que ambas se envolvem na travessia de imigrantes ilegais é algo que traz uma oportunidade financeira sólida a duas mulheres que passam por fortes dificuldades financeiras, mas e se a polícia as pega no ato? Metaforicamente falando: e se o gelo do rio parte enquanto elas o atravessam?

Entretanto, não tão imprevisível quanto a aventura de ambas é o roteiro. À primo, ele nos apresenta a uma estória extremamente interessante e com muitas reviravoltas, mas depois torna-se óbvio que ambas, mais cedo ou mais tarde, serão apanhadas no ato (e juro que não estou entregando nenhuma parte do filme dizendo isso, pois torna-se óbvio que tal fato realmente irá ocorrer). Outra grave falha do roteiro é a falta de sutileza com que o mesmo desenvolve os seus personagens. Parece que a abordagem que este realiza sobre todos eles é tão gélida quanto as locações utilizadas para rodar o filme. Parece que uma barreira é criada entre nós e os personagens a ponto de dificultar com que nos cativemos com os mesmos. Oras, este é um tipo de filme que jamais deveria fazer isso, afinal de contas, como o mesmo pretende que nos identifiquemos com a luta de Ray se ela é explorada de um modo demasiadamente frio e distante.

Mas no geral é um ótimo filme, a direção de Hunt é excelente, o elenco se sai muito bem, mas está longe de merecer indicações ao Oscar (inclusive Melissa Leo. Confesso que preferiria ver Scarlett Johansson em seu lugar). A fotografia é fantástica, e confere tons magistrais ao gélido local retratado. Um ótimo filme, nada mais. A prova de que para se fazer filmes acima da média não é necessário torrar rios de dinheiro, uma vez que o longa em questão custou apenas um milhão de dólares, uma pechincha para o Cinema contemporâneo.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

O Casamento de Rachel – **** de *****

Vou fazer algo diferente nesta pré-crítica de “O Casamento de Rachel”. Ao invés de comentar algo que esteja diretamente ligado ao o filme em si, ou à sua participação no Oscar, ou o que me fez assisti-lo neste exato momento ou qualquer coisa desta natureza, farei uma observação interessante sobre o preconceito social, não contra os viciados em drogas (tema principal a ser abordado no filme), mas sim contra os negros (e em momento algum o filme aborda este tema, mas é algo que eu gostaria de debater aqui). Quando “Adivinhe Quem Vem Para Jantar?”, um clássico da década de 1960, foi lançado nos cinemas, o filme conquistou a crítica por abordar um tema extremamente restrito na época: o preconceito racial. A reação da família ao ver a filha levar para jantar o, até então desconhecido, namorado negro, retrata bem, apesar de o fazer de forma bastante humorada, o preconceito típico da época (e olhe que o personagem de Sidney Poitier era bem sucedido e tinha um futuro promissor pela frente). Em “O Casamento de Rachel”, no entanto, podemos ver uma jovem branca contraindo casamento com um jovem negro sob total aprovação por parte dos pais. Aliás, vou além disso. Diria que, no mais recente filme de Jonathan Demme, podemos notar que os pais, de ambos os noivos, estão radiantes com a união deles. Pois é, e ainda dizem que o Cinema é mera diversão e não serve para, dentre muitas outras coisas, retratar os costumes sociais de uma época e os avanços morais desta, bem como a diminuição do preconceito racial, exibida, ainda que não intencionalmente (ou teria sido intencionalmente?), no filme em questão.

Ficha Técnica:
Título Original: Rachel Getting Married.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: www.sonyclassics.com/rachelgettingmarried
Nacionalidade: Estados Unidos.
Tempo de Duração: 114 minutos.
Direção: Jonathan Demme
Roteiro: Jenny Lumet
Elenco: Anne Hathaway (Kym), Rosemarie DeWitt (Rachel), Mather Zickel (Kieran), Bill Irwin (Paul), Anna Deavere Smith (Carol), Anisa George (Emma), Tunde Adebimpe (Sidney), Debra Winger (Abby), Jerome Le Page (Andrew), Beau Sia (Norman Sklear) e Dorian Missick (Dorian Lovejoy).

Sinopse: Kym (Anne Hathaway) é uma ex-drogada que recupera-se de sua antiga dependência em uma clínica para viciados em narcóticos. A jovem é liberada por um fim de semana para visitar a família durante o casamento de sua irmã Rachel (Rosemarie DeWitt) e quando chega em casa um ‘fantasma’ do passado, diretamente ligado ao vício da jovem, passa a atormentar toda a família, principalmente a própria Kym.

Rachel Getting Married – Trailer:

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Crítica:

Quando adolescente, lembro-me de que adorava ir ao casamento de parentes. Não pela festa em si, muito menos pela alegria ao ver duas pessoas que se amam contraindo casamento, até mesmo porque, se atualmente sou uma pessoa bastante fria no que diz respeito ao amor, antigamente eu era ainda mais frio e invulnerável em relação a este sentimento hipócrita. Logo, quando vejo duas pessoas contraindo casamento (e gosto sempre de anteceder a palavra ‘casamento’ por ‘contrair’, pois para mim é como se tal união realmente fosse uma doença, uma doença hipócrita de uma sociedade hipócrita) sinto pena de ambas, do mesmo modo que sinto pena de um nascituro que aguarda, durante um longo período de melancolia (nove meses, para ser mais exato), o nascimento para uma existência ainda mais melancólica (por um acaso, o leitor já reparou que faço uso destas críticas cinematográficas para divagar sobre filosofia niilista passiva?). Enfim, o motivo pelo qual gostava de tais cerimônias era poder embriagar-me gratuitamente, é claro. Agora, imagine você, caro leitor, ter de assistir a um casamento de pessoas desconhecidas e não poder embriagar-se para passar o tempo. Pois é, essa é a sensação que temos durante alguns momentos de “O Casamento de Rachel”, o mais novo filme de Jonathan Demme.

Quando o filme começa, Paul (Bill Irwin) vai buscar a filha Kym (Anne Hathaway) em uma clínica para tratamento de dependentes químicos. A garota, logo no início do longa, revela que conseguiu abandonar o vício e está “limpa” há, pelo menos, nove meses. Quando a jovem chega em casa, todos a recebem muito bem, sobretudo a irmã Rachel (Rosemarie DeWitt), e tal recepção é recíproca. Infelizmente, o filme então descamba para uma sucessão de cenas completamente dispensáveis que só se revelam capazes de nos aborrecer, nada além disso. Começamos com o ensaio do casamento de Rachel que, apesar de mostrar uma vasta criatividade durante a sua composição (afinal de contas, é um casamento bem moderno e que foge das tradições de um matrimônio convencional), se revela longo e desnecessário demais. Digo isso também do jantar que ocorre no mesmo dia, onde conhecemos um pouco dos personagens Sidney e Rachel através de depoimentos feitos pelos amigos do casal. O problema é que o foco do filme, em si, deveria residir na conturbada volta de Kym ao lar, conforme a sinopse nos indica, e não no casamento de sua irmã que, apesar de ser um acontecimento que intitula a obra, nada mais deveria representar do que uma ferramenta utilizada de pano de fundo para explorar a “nova” Kym em seu antigo ambiente (notaram a antítese? Ah, por favor, digam que sim!).

Outra gravíssima falha cometida logo no início da trama, reside na fraca direção de Jonathan Demme (e apesar de não ser um grande fã de seus filmes (nem mesmo de “O Silêncio dos Inocentes”), confesso que nunca imaginei ter de dizer algum dia que a direção do mesmo consistia em um dos maiores defeitos de um determinado filme, pois sempre reconheci a competência de Demme). Além de o diretor demonstrar uma falta de sutileza terrível ao homenagear a si mesmo (algo que a Rede Globo de Televisão sempre realiza da forma mais arrogante e artificial o possível), fazendo a protagonista Kym citar Hannibal Lecter (o mais famoso personagem de seu mais famoso filme “O Silêncio dos Inocentes”) logo nos primeiros momentos de projeção, o cineasta ainda adota o tipo de direção que está na moda da maneira mais falha que se pode imaginar. Qual é o tipo de direção a qual estou me referindo? A mesma utilizada por Darren Aronofsky em “O Lutador” e, parcialmente, adotada por Gus Van Sant em “Milk – A Voz da Igualdade”, ou seja, a direção com a câmera, literalmente, na mão. Trata-se da câmera balançada que nos dá a impressão de assumirmos a função de observador direto da trama. O problema é que Jonathan Demme emprega tal recurso de um modo muito confuso, e logo nos primeiros momentos do filme, o modo desajeitado como ele balança a sua câmera nos deixa atordoado. Mas Demme, felizmente, limita-se com o passar dos minutos e volta a ser aquele competente diretor de “O Silêncio dos Inocentes”. O mesmo parece amadurecer-se com o desenrolar do filme e a direção desajeitada, exibida durante o primeiro ato do longa, vai ganhando forma e sendo empregada de maneira correta.

Mas não apenas a direção de Demme melhora com o desenrolar da trama. Outro ponto que se fortalece conforme a mesma avança é o seu roteiro. Após os primeiros quarenta minutos, o longa passa a focar-se totalmente no problema de Kym e na maneira como um ‘fantasma’ do passado ainda atormenta a sua família (e lamento não poder citar aqui qual ‘fantasma’ viria a ser este, sob pena d
e estragar a sensação que o leitor terá ao assistir ao filme e ouvir a própria Kym narrar o sucedido).

O mais interessante é que o roteiro não narra o rombo que a dependência de Kym causou em sua família do modo convencional e piegas como os demais filmes do gênero o fazem. Em “O Casamento de Rachel” tudo é realizado na medida certa. Primeiramente, Kym não é mais viciada em drogas e o roteiro de Jenny Lumet acerta muito em optar por retratar uma jovem que conseguiu se recuperar de tal dependência. Evitando todos os clichês possíveis, Lumet cria uma personagem arrependida, mas que não consegue reparar os graves danos que causou à própria família em virtude de seus problemas com os entorpecentes. Logo, a sua volta ao lar é como se fosse a volta de seus antigos problemas. Não apenas isso, como também a volta de certas lembranças das quais os membros de sua família gostariam de esquecer definitivamente.

O drama do retorno de Kym passa então a contrastar com a alegria proporcionada pelo futuro casamento de sua irmã Rachel, e Demme, como já era de se esperar, sabe lidar magistralmente bem com ambos os lados da moeda. A visível falta de sutileza demonstrada no início do filme, conforme citei mais acima, é deixada de lado. No lugar, entra uma direção ponderada e contida, fazendo com que a trama consiga explorar o máximo de sua protagonista.

E, sejamos francos, explorar uma personagem complexa como Kym não é tarefa das mais fáceis. A garota é bipolar ao extremo, insegura, complexada e dificílima de lidar. Ora ela aparenta ser uma pessoa tranquila, ora ela aparenta ser uma pessoa emocionalmente desequilibrada. A cena em que ela discute com a sua verdadeira mãe ilustra bem isso. Kym conversa com a mãe normalmente, logo em seguida ela pensa no passado e começa a discutir fortemente com a mesma, resultando na cena mais forte do filme. A propósito, a decisão de conferir um papel complexo destes à competente atriz Debra Winger revela-se uma escolha tremendamente inteligente de Jonathan Demme e é surpreendente notarmos que, em tão pouco tempo em cena, a atriz confira tanta força à trama, da mesma forma que Viola Davis fez no ótimo “Dúvida”.

E falando em atuações, o que dizer então do trabalho de Anne Hathaway? Aliás, não há nem o que falar. A atriz realmente dá um show, e já digo logo de cara, se fosse eu quem atribuísse o prêmio aos concorrentes ao Oscar de todas as categorias, Hathaway certamente venceria melhor atriz. O trabalho da garota é simplesmente incrível, tanto pela expressividade da mesma, como pela maneira convincente com que altera o seu tom de voz e, principalmente, pela naturalidade (salvo quando o roteiro a força agir artificialmente, conforme já fora citado) com a qual encarna a complexa Kym. Um trabalho fabuloso, sem dúvida alguma. O melhor de toda a carreira da jovem atriz.

“O Casamento de Rachel”, infelizmente, volta a cometer o mesmo erro que havia cometido em seu início, conforme vai se aproximando de seu desfecho. O casamento anunciado no título finalmente chega, e quando chega, nos remete novamente a mesmíssima sensação do primeiro ato do longa: a de estarmos assistindo a uma longa cerimônia de casamento e não podermos encher a cara para nos divertimos um pouco e deixar de lado a insuportável chatice contida nessas cenas. E por mais que a cerimônia seja, no mínimo, curiosa, com direito a música do Neil Young, bandas de rock e, pasmem, um micro desfile de escola de samba parecido com os do Rio de Janeiro (e se eu já odeio assistir a um casamento sem poder me embriagar enquanto o faço, imagine então assistir a um casamento sem poder me embriagar e, de quebra, ter que assistir a algo que me lembre o Carnaval, festa que, caso um dia eu me torne ditador e assuma o poder no governo do Brasil, será completamente abolida).

Em suma, o mais recente filme dirigido por Jonathan Demme sofre durante o seu primeiro ato inteiro e parte dessa culpa é oriunda do próprio Jonathan Demme. O diretor, na tentativa de entrar na moda das direções com câmeras na mão, filma o longa de um modo cansativamente confuso. O roteiro peca gravemente por dar ênfase demais aos preparativos do casamento anunciado no título e deixa de lado a estória mais interessante: o retorno da ex-viciada Kym e o modo como os antigos problemas da família voltam a assombrar a mesma alguns anos mais tarde. Destarte, tanto o roteiro, como a direção, tomam o rumo certo e o filme ganha muita força, criando uma protagonista de peso, cujo drama contrasta fortemente com a felicidade conferida pelo casamento de Rachel. O elenco todo (todo mesmo, sem exceções) rende atuações magistrais e Anne Hathaway faz uma atuação digna do Oscar que não irá receber. Nada contra Kate Winslet, até mesmo porque ela fez um ótimo trabalho, mas o grande trunfo de “O Leitor” reside no roteiro do filme, e não em sua atuação, diferentemente de Anne Hathaway, cujo trabalho desempenhado em “O Casamento de Rachel” consiste na maior qualidade deste.

Avaliação Final: 7,5 na escala de 10,0.

Frost/Nixon – **** de *****

Ao menos aqui no Brasil (já que a reputação internacional deste filme é muito boa), “Frost/Nixon” vem sendo considerado o mais supervalorizado dentre todos os filmes que estão concorrendo ao Oscar de Melhor Filme. Levando isso em conta, o simples fato de falar bem do filme parece ser um pedido para ser “apedrejado”. Contudo, me mostrei mais uma vez “do contra” e, ao assistir ao longa em questão, não pude deixar de me envolver com o mesmo. E mais uma vez vou de encontro ao gosto da grande maioria dos cinéfilos e ovaciono uma obra que não vinha sendo muito bem quista entre os fãs da sétima Arte. Contudo, sinceridade é o meu lema e, por mais que as chances de receber críticas ao falar bem deste longa sejam imensas, certamente manterei a minha postura honesta de sempre e falarei bem do mesmo. Vamos ao texto?

Ficha Técnica:
Título Original: Frost/Nixon.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Tempo de Duração: 122 minutos.
Site Oficial: http://www.frostnixon.net/
Ano de Lançamento: Estados Unidos da América, Inglaterra e França.
Direção: Ron Howard.
Roteiro: Peter Morgan, baseado em peça teatral de Peter Morgan.
Elenco: Frank Langella (Richard Nixon), Michael Sheen (David Frost), Sam Rockwell (James Reston Jr.), Kevin Bacon (Jack Brennan), Matthew Macfadyen (John Birt), Oliver Platt (Bob Zelnick), Rebecca Hall (Caroline Cushing), Toby Jones (Swifty Lazar), Andy Milder (Frank Gannon), Kate Jennings Grant (Diane Sawyer), Gabriel Jarret (Ken Khachigian), Jim Meskimen (Ray Price), Patty McCormack (Pat Nixon), Clint Howard (Lloyd Davis), Rance Howard (Ollie), Eloy Casados (Manolo Sanchez), Jay White (Neil Diamond), Wil Albert (Sammy Cahn), Keith MacKechnie (Marv Minoff), Jenn Gotzon (Tricia Nixon) e Mark Simich (Hugh Hefner).

Sinopse: O filme trás até nós a real entrevista que o presidente Richard Nixon (Frank Langella), primeiro e único chefe de estado a renunciar o mandato na história dos Estados Unidos da América, realizou com o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen), jovem inexperiente e de pouco respeito entre os profissionais do meio, no ano de 1977. O assunto em pauta foi o esclarecimento de alguns pontos que haviam ficado obscuros durante o mandato de Nixon. Considerado incomunicável pelos profissionais do ramo, o ex-presidente estadunidense só aceitou realizar a entrevista com o jornalista por causa da alta quantia em dinheiro envolvida e por imaginar que, devido à inexperiência de Frost, seria fácil enganar o mesmo e não entregar os detalhes mais sigilosos de sua polêmica passagem pela Casa Branca. Ledo engano. Durante o primeiro dia de entrevista, Frost parecia inseguro e fácil de se ludibriar, mas a partir do segundo dia o jovem começa a ganhar segurança e, já no terceiro, passa a travar uma tensa “batalha verbal” com o político, resultando em um programa com uma extraordinária audiência.

Frost/Nixon – Trailer:

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Crítica:

Richard Milhous Nixon foi uma das figuras mais polêmicas (senão ‘a’ mais polêmica) a assumir a chefia absoluta do poder executivo dos Estados Unidos da América. Ao mesmo tempo em que o ex-presidente ficou positivamente marcado por dar início às comercializações com a China, manter relações amigáveis com a União Soviética e negociar o cessar fogo com o Vietnã, o californiano também foi o responsável pela morte de inúmeras pessoas após realizar atentados contra os vietcongues (os mesmos com os quais viria a negociar a paz posteriormente) e, é claro, teve uma participação ativa no escândalo de Watergate (que tratava-se de uma operação contra o Partido Democrata onde cinco pessoas foram presas após invadir o Complexo Watergate, onde fica a sede do Comitê Nacional Democrata, fotografar documentos e instalar câmeras de escuta no escritório do partido opositor), embora negue veementemente isso.

Destarte, era de se esperar que uma figura dessas ganhasse vários filmes abordando a sua conturbada passagem pela Casa Branca, principalmente relatando o seu envolvimento com o Caso Watergate. Dentre tais obras cinematográficas, destaca-se o clássico “Todos os Homens do Presidente” e também “Nixon” de Oliver Stone, “Todas as Garotas do Presidente” e, recentemente, este “Frost/Nixon” (sem contar a citação que é feita no filme “Forrest Gump – O Contador de Histórias”, onde o personagem de Tom Hanks afirma, em um momento jocoso empregado pelo roteiro, que fora ele quem descobrira toda a verdade sobre o Escândalo Watergate) que difere das demais obras citadas por abordar o mais polêmico caso de corrupção da história dos Estados Unidos da América três anos após a renúncia de Nixon, quando o caso já havia perdido um pouco da projeção que tivera na época em que ‘estourou’, mas se tornara ainda mais polêmico em virtude a uns pontos que ainda não haviam sido esclarecidos totalmente.

O filme utiliza então, como base para a estória, a entrevista realizada entre o apresentador inglês David Frost e o ex-presidente estadunidense Richard Nixon. Ambos, indivíduos interessantíssimos e magistralmente abordados pelo roteiro. Frost é um jovem apresentador inexperiente, sua fama é grande em virtude à baixa qualidade de seus programas, e não graças as suas qualidades profissionais, e a sua credibilidade entre os profissionais da área é muito baixa. Entretanto, o rapaz conta com uma característica que se revela mais importante a todo o jornalista do que as citadas acima: ele é extremamente audacioso. Audacioso o bastante para investir uma larga quantia em dinheiro, seiscentos mil dólares para ser mais exato, em uma entrevista cujas chances de fracasso revelam-se enormes. Mas Frost é persistente e a sua coragem nos cativa.

E Nixon? Nixon já é uma “raposa velha”. Inteligente, vivido, esperto, experiente, ardiloso, e tão audacioso quanto Frost. Com a experiência de vida que possui, o ex-presidente recusa-se a dar entrevista a quaisquer mídias que seja, por mais convidativa que a oferta lhe aparente. Nixon não quer entregar pontos confidenciais de sua campanha política. Para isso, o mesmo se torna praticamente incomunicável. Contudo, o político é mais astuto do que se podia imaginar. Ele aceita uma proposta para fazer uma entrevista com o jornalista Frost. Desta forma, pode-se matar dois coelhos com uma cajadada só: o velho consegue uma considerável quantia em dinheiro oferecida pela entrevista e, de quebra, ludibria Frost valendo-se da inexperiência do mesmo tentando responder as perguntas deste passando-se por um cidadão bom, injustiçado e de caráter ilibado.

E se os dois protagonistas deste filme, sozinhos, já se revelam fascinantes, imagine então o que acontece quando ambos dividem a cena. É óbvio que o grande trunfo do longa reside nas “batalhas verbais” travadas entre ambas durante a tão conturbada entrevista. Durante o último dia em que eles se encontram, o filme pega fogo. O duelo de atuações travado entre Michael Sheen e Frank Langella é digno de se cair o queixo. Ambos se revelam expressivos na medida certa, alternam o tom de voz conforme o necessário, conferem uma efusividade fora do comum à cena em questão e, ouso dizer, não imagino outros dois atores para comporem os papéis de um modo tão magistral. O duelo entre ambos se revela uma das químicas entre atores mais sensacionais do Cinema deste início de século. É óbvio que jamais os compararia com F. Mu
rray Abraham e Tom Hulce em “Amadeus”, seria um grande exagero de minha parte, mas não há como negar que a dupla é fantástica e atribui ao longa a tensão requisitada para tal.

Individualmente, ambos os atores também se saem muito bem. Sheen adota o seu charme habitual para compor o personagem e, embora se revele um pouco caricato algumas vezes (note o modo como o mesmo tende a sorrir artificialmente durante alguns momentos do filme), o ator mostra total liberdade quando assume a responsabilidade do longa para si, construindo um David Frost sob medida, semi-perfeito. É Langella, no entanto, quem rouba a cena encarnando com magnificência um Richard Milhous Nixon praticamente irretocável. Não só o excelente trabalho de maquiagem, que confere ao ator uma incrível aparência física com o 37º presidente estadunidense, como também a composição de Langella “ressuscitam” o político e o transferem para o Cinema. Dono de um talento ímpar, o ator faz um trabalho invejavelmente competente e digno de ser aplaudido de pé. A expressividade de Langella é fantástica, mas ainda assim é um pequeno detalhe diante de seu carisma e do preciso tom de voz empregado para encarnar o ex-político.

E a direção de Ron Howard? Bem, não sou um dos grandes fãs de Howard, mas confesso que vez ou outra ele faz um trabalho extremamente interessante, assim como ocorreu em “Uma Mente Brilhante” que, apesar de supervalorizado, é um ótimo filme. Em “Frost/Nixon”, o cineasta adota, já de cara, uma direção ágil e dinâmica que, associada à montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill, confere um ritmo impressionante ao longa. Howard trabalha, a princípio, com vários e incansáveis ‘closes’ e faz de seu filme um exercício de direção bastante chamativo. Infelizmente, o diretor vai perdendo o ritmo durante o desenrolar da trama, mas não se pode dizer jamais que o seu trabalho aqui é menos do que ótimo.

Gostaria de destacar também os diálogos do filme. Confesso que, durante alguns momentos, as falas de seus personagens me remeteram à deliciosa sensação de estar assistindo a um filme roteirizado por Woody Allen. Como não comparar coisas do tipo: “___ Você adoraria Viena. É como se fosse Paris, mas sem a França.” e “___ Na minha opinião, você deveria se casar com este garota. ___ Sim, ela é adorável, não é?___ Mais importante do que isso. Ela é de Monaco, e eles não pagam impostos lá.”, com a maestria empregada por Allen a fim de criar os seus diálogos?

Ah mas “Frost/Nixon” não é só qualidades. Não, não, muito pelo contrário, o mesmo apresenta muito defeitos e boa parte deles são imperdoáveis e, até mesmo, infantis. Comecemos pela personagem de Rebecca Hall. Hall é uma atriz carismática, talentosa, bonitona e possui um corpo incrivelmente suculento (e olha que sou assexuado). Entretanto, estes não são atributos o bastante para colocá-la no filme. Não se o roteiro não criar uma personagem suficientemente interessante para a trama. E o bem da verdade é que Caroline Cushing não tem propósito nenhum no filme, nem mesmo para aumentar a carga dramática do mesmo. Em outras palavras, Rebecca Hall é totalmente dispensável à trama (ah, que pena! Ela tem um corpo tão delicioso! Mas fazer o quê?).

Caroline Cushing, todavia, é o menor dos defeitos de “Frost/Nixon” (e eu já disse que a atriz tem um corpo digno de se desejar pular na tela da sala de cinema?). A jovem aparece apenas com o intento do roteiro formar um dispensável par romântico com David Frost e, apesar disso ser uma falha tola, não podemos considerar um pecado capital. Não, de modo algum, pecado capital é você dizer que vai realizar um filme que conta com uma entrevista para lá de reveladora de um dos presidentes mais odiados da história dos Estados Unidos da América (senão, “o” mais odiado) e, ao invés de focar-se apenas na entrevista, optar por dar muita importância aos bastidores da mesma.

Sim, é claro que vermos os preparos para o programa liderado por David Frost confere uma interessante carga dramática ao filme, mas em alguns momentos este pré-entrevista se torna um tanto o quanto fútil e adiciona ao longa cenas extremamente desnecessárias para o seu resultado final, como é o caso da longa sequência que ilustra o encontro entre o apresentador e Nixon (esta cena não é necessariamente desnecessária, mas deveria ser bem menor do que realmente é), a festa de aniversário de Frost e muitas outras que nada acrescentam à trama. A propósito, só para o leitor ter uma idéia de como o filme demora para chegar em seu ponto principal, a entrevista só tem início depois dos primeiros cinquenta e quatro minutos de projeção.

Infelizmente, os defeitos não param por aí. Não, muito pelo contrário, deixei o pior para o final. É claro que, assim como qualquer outro político (e qualquer outra pessoa, diga-se), Richard Nixon tinha as suas qualidades. Contudo, é lamentável vermos o filme, que se propunha a mostrar o programa que trouxe à tona muitos dos mistérios que envolviam o Caso Watergate, tentar passar a imagem de que Nixon era um bom sujeito e só fez o que fez pois julgou ser o mais correto durante a ocasião, ou seja, não teve malícia alguma em suas atitudes.

Oras, sabemos muito bem que Nixon agiu erroneamente, independentemente da filosofia que adotava na época ou não, então por quê o filme faz tanta questão de humanizar o presidente? Por que o filme faz tanta questão de o tratar como um pobre ser amargurado e arrependido? Enfim, o Nixon do final do filme, é um Nixon artificial. E mesmo que o presidente tenha adotado uma forte postura de arrependimento e vergonha na vida real, o filme deveria manter-se imparcial quanto a isso, seguindo o exemplo do excelente “Boa Noite, e Boa Sorte”. O que dizer então da artificialidade da cena em que Nixon, consideravelmente embriagado, liga para Frost, minutos antes da parte final do programa, e realiza um discurso incentivando este a dar o melhor de si na entrevista final? Lamentável, algo totalmente dispensável para um filme que, até então, havia cometido apenas erros simples, que pareciam ser incapazes de tirar-lhe o status de um filme cinco estrelas.

“Frost/Nixon”, enfim, revelou-se uma agradável surpresa, uma vez que as suas indicações ao Oscar vinham sendo muito questionadas. O longa se propõe a fazer uma analise extraordinária de um momento crucial para a história estadunidense: quando um dos personagens mais polêmicos daquela nação revelou, diante das câmeras, detalhes importantíssimos e, até então, sigilosos sobre o Caso Watergate. Os personagens são suficientemente interessantes para prender o espectador, a direção e a montagem são ótimas e o duelo de atuações entre Langella e Sheen é fenomenal, bem como o tenso “combate” travado entre Frost e Nixon, algo que faz jus ao excelente título conferido a esta película, que por si só, já dá uma inegável sensação de confronto direto entre duas pessoa. Contudo, ao contrário de filmes como “Boa Noite, e Boa Sorte”, o jornalismo político aqui é abordado de um modo que mostra a indispensabilidade deste para o desenvolvimento de uma nação, mas diferentemente do filme de George Clooney, a estória aqui, infelizmente, não se mostra totalmente imparcial. As tentativas de humanizar Nixon são todas repugnantes. O longa ainda confere importância demais aos bastidores da entrevista, inserindo no filme cenas totalmente dispensáveis e que ficariam bem melhor caso a montagem (que repito, apesar de tudo, é ótima) as tivesse excluído. No geral, é um ótimo filme, e um dos poucos que realmente mereceram a indicação ao Oscar deste ano.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

O Lutador – **** de *****

Disse várias vezes e torno a dizer: detesto comparar um filme com um outro qualquer. Mas no caso de “O Lutador” é praticamente impossível não fazer algumas ligações entre ele e “Rocky, um Lutador” e, principalmente, “Touro Indomável”. O motivo de tais analogias? Bem, creio ser mais conveniente citá-lo mais abaixo, durante o desenrolar de minha crítica. Por ora, gostaria de mencionar outro erro cometido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. É evidente que a entidade comete um ou outro erro em toda a edição que decide realizar, e convenhamos, se você fosse realizar algo parecido com o Oscar, não iria cometer alguns erros? Claro que sim, todo ser humano que se preze cometeria algumas injustiças, isso é normal e, até mesmo, dependendo do caso é claro, passável. Contudo, uma coisa é cometer um erro ou outro, outra coisa é errar em largas proporções. E, sejamos francos, a Academia errou com uma incompetência fora do comum este ano, não? Onde já se viu colocar engodos como “Quem Quer Ser um Milionário?”, “O Curioso Caso de Benjamin Button” e, principalmente, “Milk – A Voz da Igualdade” para concorrer o prêmio principal da noite e se esquecer de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, “Wall-E”, “A Troca”, “Vicky Christina Barcelona” e este ótimo “O Lutador”? Pois é, está cada vez mais difícil aceitar os erros do, injustamente considerado, mais importante prêmio do Cinema.

Ficha Técnica:
Título Original: The Wrestler.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: www.foxsearchlight.com/thewrestler
Nacionalidade: Estados Unidos da América.
Tempo de Duração: 115 minutos.
Direção: Darren Aronofsky.
Roteiro: Robert D. Siegel.
Elenco: Mickey Rourke (Randy “Ram” Robinson), Marisa Tomei (Cassidy), Evan Rachel Wood (Stephanie Robinson), Mark Margolis (Lenny), Todd Barry (Wayne), Wass Stevens (Nick Volpe), Judah Friedlander (Scott Brumberg), Ernest Miller (Aiatolá), Tommy Farra (Tommy Rotten), Mike Miller (Lex Lethal), John D’Leo (Adam), Ron Killings (Ron Killings) e Dylan Keith Summers.

Sinopse: Randy “Ram” Robinson (Mickey Rourke) é um famosíssimo lutador de luta livre que, com o passar dos anos, torna-se velho demais para continuar com o esporte. Sua saúde está debilitada e “Ram” se vê obrigado a abandonar a sua principal fonte de renda. No entanto, a sua vida fora dos ringues é extremamente patética e o mesmo passa a ter constantes crises existenciais a partir do momento em que abandona a profissão.

The Wrestler – Trailer:

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Crítica:
Toda criança ou adolescente que sonha em ser um esportista ou seguir uma profissão que exija muito mais de seu físico do que de sua mente deveria assistir a este “O Lutador”. Ah, sim, o filme não poderia ser permitido para menores de 18 anos levando-se em conta a violência e as cenas de nudez inseridas no mesmo, não é? Pois então acredito que todos os pais das crianças e adolescentes que citei acima deveriam assistir a “O Lutador” e depois contarem a experiência aos seus filhos, para que os mesmos fossem alertados antes que seja tarde demais. Por que estou mencionando isso? Simples, porque o mais recente filme de Darren Aronofsky revela-se um eficiente retrato da ingratidão do esporte para com os seus ídolos logo após estes atingirem uma idade mais avançada. Aliás, “O Lutador” não é apenas isso, é também um filme que aborda várias questões importantíssimas conforme poderemos conferir mais abaixo.

O longa começa do modo mais empolgante o possível. Temos uma abertura eficiente com uma série de capas de revistas narrando a gloriosa carreira de Randy “Ram” Robinson, um verdadeiro ícone da luta livre estadunidense. A música “Bang Your Head”, do excelente grupo de Hard Rock (na verdade o grupo surgiu durante a época (anos 1980 para ser mais preciso) em que o Hard Rock estava se juntando a um estilo de música mais rápido e pesado, formando o Heavy Metal, que eu tanto admirava durante a minha adolescência e admiro até hoje, aos 25 anos de idade) Quiot Riot, tocada ao fundo, nos introduz já de cara à trama e nos cativamos com o filme logo em seu primeiro “sinal de vida”. Contudo, acaba-se a abertura do longa e a cena que vemos a seguir ilustra o mesmo “Ram” vitorioso de outrora, sentado em uma cadeira no fundo de uma sala. Nessa cena, Aronofsky já nos dá uma amostra de sua genialidade, pois ao vermos o protagonista sentado, isolado e cabisbaixo, em uma cadeira no canto de uma sala vazia, conseguimos, em uma única tomada, perceber o estilo de vida triste e isolado que o mesmo leva. É nos ringues que “Ram” tenta suprir o seu vazio de existir.

Nos bastidores dos combates, no entanto, podemos notar a farsa que reside por trás daquelas lutas sangrentas. Carregados de artimanhas a fim de aumentar o grau de dramaticidade dos confrontos (tais como: vidros de mentira, lâminas que os lutadores escondem entre as luvas e utilizam para fazer pequenos cortes na própria testa durante os combates, sem que os espectadores notem o truque, entre outros codilhos), podemos notar então que os protagonistas de tais lutas são, na verdade, mais atores do que lutadores propriamente dito. O grau de frivolidade presente nas mesmas é algo que vai além do que se pode imaginar. Incrível vermos que mais de mil e quinhentos anos se passaram desde as gladiaturas e o povo ainda faz uso de confrontos sanguinolentos a fim de preencher o vazio de suas vidas. Mais incrível ainda é vermos o quão uma pessoa, no caso, o lutador, pode manipular o seu publico e, ao mesmo tempo, ser manipulado pelo mesmo. Robinson é a prova disto.

Quando o brutamontes sobe nos ringues, sua vida se transforma. Ele se torna um herói, alguém de respeito, alguém que muitas pessoas admiram e adorariam estar no lugar. Quando o mesmo não está na lona, porém, ele se torna um fracassado, alguém que mal possui dinheiro para pagar o aluguel do trailer ordinário que habita. “Ram” vê então a necessidade de fazer “bicos” em um mercado local, algo que o faz sentir inferior. E não é a toa que o lutador detesta ser chamado de qualquer outra coisa que não seja o seu nome de guerra: “Ram”. Afinal de contas, como alguém que é, ninguém mais, ninguém menos, do que “Ram”, um ícone nacional, pode conformar-se em ser apenas Randy Robinson, um indivíduo fracassado aos olhos do “American Way of Life”, cujo preenchimento emocional consiste em abrir-se com uma stripper que o trata apenas como um mero cliente?

É evidente então que a vida de “Ram” resuma-se aos ringues, pois é somente lá que ele se torna um vencedor, mesmo que a sua vitória seja previamente combinada. Mesmo a luta sendo parcialmente “arranjada”, o protagonista, é claro, precisa ter um físico digno de um campeão. Digno de alguém que possa escancarar um veículo qualquer em questão de minutos, com apenas socos e pontapés. “Ram” faz então o uso pesadíssimo de drogas para tal, como anabolisantes e afins. Esta é outra questão que o filme aborda muito bem também. Com o uso de tantos suplementos alimentares, o protagonista ganha um físico extremamente forte, mas a sua saúde fica completamente debilitada. O seu coração, sobretudo, fica deveras vulnerável e as chances de um enfarto passam a ser gigantescas. O médico aconselha “aposentar” “Ram”.
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E o que será da vida do mesmo, agora que ele abandonou a única coisa na vida que lhe dava um pouco de ânimo para seguir com a mesma adiante? O personagem passa então a tentar se reerguer. Nisso vemos um novo Rocky Balboa surgir. Entretanto, antes deste Rocky Balboa aparecer em cena, tínhamos um Jack La Motta. Afinal de contas, Randy também era um “Touro Indomável” nos ringues, mas a sua vida fora dos mesmos era ridícula, sem propósito, sem razão de ser. O mesmo era odiado pela família (na verdade, uma única filha que possuía, como será comentado mais adiante) e dependia veementemente de sua fama para poder se destacar na sociedade. Randy era a típica pessoa que era a sua profissão, e nada além disso.

O que acontece então quando ele se aposenta e se torna um indivíduo que precisa trabalhar para garantir a subsistência, sendo que não sabe trabalhar em absolutamente nada? Randy passa então a ser um Rocky Balboa (protagonizando precisamente o ótimo segundo episódio da saga de Sylvester Stallone) mesclado com um Travis Brickle (em virtude de suas constantes crises de solidão). E, francamente, essa salada de personagens com crises existenciais funciona bem, mas não há como negar que, ao “arranhar” a personalidade de La Motta, Balboa e Brickle, o filme assume a pretensão de construir um protagonista quase tão complexo quanto estes outros três. É aí que a trama tropeça, pois o Cinema já nos apresentou vários personagens (inclusive os outros três citados) idênticos a “Ram”, só que, na maioria das vezes, tais personagens se mostraram mais interessantes que Randy.

É claro que o personagem de Mickey Rourke tem as suas peculiaridades, afinal de contas, diferentemente de Rocky Balboa, apenas para citar um exemplo, ele consegue se sair razoavelmente bem em uma outra profissão, bem como a de balconista em um supermercado local, mas não restam dúvidas de que o drama do personagem de Stallone conseguia nos cativar bem mais e era abordado de uma forma muito mais interessante. O mesmo acontece com os personagens Jack La Motta e Travis Brickle. E antes que o leitor diga, digo eu. Sei muito bem que detesto criticar um filme comparando-o com outro, mas no caso de “O Lutador”, não há como fugir de tal artifício, pois as semelhanças com os demais filmes do gênero é evidente.

Outras falhas que o longa possui são os pequenos clichês embutidos em seu roteiro (e lá vem esse cara falar de clichê de novo, mas fazer o quê, que culpa tenho eu se o Cinema não tem inovado muito recentemente?). Temos o protagonista que sofre com problemas de saúde e resolve repensar a sua vida a partir daí, um drama familiar envolvendo o pai que abandonou a filha e o interesse deste pela única pessoa com quem consegue manter um contato, digamos, ligeiramente aceitável, uma vez que Randy é o típico pessoa que consegue a façanha de comunicar-se verbalmente com menos frequência do que este que vos escreve. Todavia, assim como parafraseei Alfred Hitchcock em meu texto sobre o excelente “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” faço-o novamente aqui: “melhor começar no clichê do que terminar no mesmo.”. E “O Lutador” realmente faz isso, pois o final bonitinho e redondinho que o longa prometia apresentar-nos, felizmente, é deixado para trás devido à filosofia de vida autodestrutiva de seu protagonista, que aparenta ser muito mais forte do que a vontade do mesmo em reparar os seus erros do passado.

Uma vez abordado o que o filme tem de melhor e, ironicamente, de pior também (é claro que refiro-me à construção de seu protagonista), vamos encerrar esta crítica utilizando outros dois aspectos de suma importância? Primeiramente, devo mencionar a direção de Aronofsky. Além de criar planos-sequências fabulosos (como a cena em que o diretor simboliza o caminho que o protagonista percorria até chegar a um ringue, com a diferença de que agora ele está adentrando um balcão de um supermercado), o diretor ainda prima por adotar um estilo de direção que nos faz sentir dentro da trama. O trabalho de Darren faz nos ter a sensação de que fora adotado o sistema de filmagem típico do movimento Dogma 95, onde filma-se apenas com uma câmera em um dos ombros. O resultado? Temos uma filmagem propositadamente balançada e que nos faz ter a impressão de estarmos acompanhando a ação como se fossemos um narrador-observador da trama. Fascinante.

Encerrarei com as atuações agora, que tal? Afinal de contas, são as atuações que acabaram chamando mais a atenção de “O Lutador”, pois tanto Mickey Rourke quanto Marisa Tomei entraram na disputa do Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente, sendo que o primeiro tem chances fortíssimas de faturar o prêmio. Rourke sempre foi tido como um ator canastrão, e não é para menos. Contudo, o mesmo deu uma guinada em sua carreira desde que atuou no superestimado “Sin City – A Cidade do Pecado”, chegando a render uma excelente atuação até mesmo no fraquíssimo “Domino – A Caçadora de Recompensas”. O seu trabalho em “O Lutador” parece ter fechado com chave de ouro essa maravilhosa fase de sua carreira e nada mais justo do que o ator ser premiado com um Oscar. Rourke faz aqui um trabalho maravilhoso, ele resmunga na medida em que deve resmungar, ri na medida em que deve rir, chora na medida em que deve chorar, gagueja na medida em que tem que gaguejar, se revolta na medida em que deve se revoltar, enfim, Rourke capta toda a essência de seu personagem e a sua atuação é digna de ser aplaudida de pé. O mesmo pode-se dizer do trabalho de Marisa Tomei. Encarnando uma complexa personagem que aparenta ser o alter ego feminino de “Ram” (afinal de contas, ambos precisam trabalhar com o físico e à medida em que suas idades avançam, eles vão começando a se preocupar com a hipótese de abandonarem a única coisa que sabem fazer na vida), Marisa também realiza uma atuação sob medida e serve de total apoio para Rourke realizar uma de suas melhores cenas no filme (a sequência em que ambos conversam em um bar).

“O Lutador” revela-se, no final das contas, um drama existencial um pouco aquém dos demais já lançados no mercado. O drama de seu protagonista pode ser facilmente comparado com protagonistas de outros filmes do mesmo gênero, com a diferença de que aqui ele é abordado de maneira menos convincente que nos grandes clássicos do gênero. O longa se apóia em alguns clichês durante alguns momentos, mas os abandona durante o desenrolar da trama. O protagonista, por sua vez, pode não ser tão bem desenvolvido quanto os protagonistas de outros filmes desta natureza, mas não há como negar que o mesmo, ainda assim, é extraordinariamente fascinante e conta com as suas peculiaridades. O drama do mesmo não deixa de ser realmente cativante. A direção de Aronofsky é extraordinária e, além de criar planos fantásticos, utiliza um sistema de filmagem inteligente que nos introduz definitivamente na trama. Mickey Rourke encarna o seu personagem na medida certa, realizando aqui uma atuação digna do Oscar que vai, e merece, vencer e Marisa Tomei desempenha otimamente uma importante função no filme. Vale destacar a irretocável e empolgante trilha-sonora que, sabe-se lá porquê, ficou de fora do Oscar deste ano.

Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.

Milk – A Voz da Igualdade – ** de *****

Certa vez, o crítico de Cinema do jornal “O Estado de São Paulo”, Luiz Carlos Merten, comentou em seu blog que este “Milk – A Voz da Igualdade” seria “…o filme do qual não gostar poderá ser considerado politicamente incorreto…”. Ele tinha razão. Particularmente, nada tenho contra os homossexuais, até mesmo porque sei que boa parte dos leitores do Cine-Phylum adotam o homossexualismo como orientação sexual. No entanto, também não tenho nada lá muito a favor dos homossexuais. Considero o sexo, ou um simples beijo que seja, ações nojentas. Existe um modo mais repugnante de se transmitir bactérias do que um beijo? E quanto ao sexo então? O que pode ser mais asqueroso que isso? Logo, sou extremamente conservador no que diz respeito a sexo e penso que o mesmo não deve ser praticado nem mesmo como fins reprodutivos (afinal de contas, existe algo mais desumano que colocar um ser humano em um mundo tão repugnante quanto este, sendo que o pobre indivíduo nem ao menos pediu para nascer?). E se o sexo entre heterossexuais, que é tido como o método mais tradicional de se reproduzir, já me causa repulsas, o que dizer então do sexo entre homossexuais, onde órgãos que não foram criados para a cópula carnal são utilizados para tais finalidades? Mas o que isso tudo tem a ver com a crítica de “Milk – A Voz da Igualdade”? Não tem nada a ver, vamos ao texto então.

Ficha Técnica:
Título Original: Milk.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.milkthemovie.com/
Nacionalidade: Estados Unidos.
Tempo de Duração: 128 minutos.
Direção: Gus Van Sant.
Roteiro: Dustin Lance Black.
Elenco: Sean Penn (Harvey Milk), Emile Hirsch (Cleve Jones), Josh Brolin (Dan White), Diego Luna (Jack Lira), James Franco (Scott Smith), Alison Pill (Anne Kronenberg), Victor Garber (Prefeito George Moscone), Dennis O’Hare (Senador John Briggs), Joseph Cross (Dick Pabish), Stephen Spinella (Rick Stokes), Lucas Grabeel (Danny Nicoletta), Brandon Boyce (Jim Rivaldo), Howard Rosenman (David Goodstein), Kelvin Yu (Michael Wong), Jeff Koons (Art Agnos) e Cleve Jones (Don Amador).

Sinopse: O filme trata da história real do ativista Harvey Milk (Sean Pean), o primeiro político assumidamente gay a se eleger nos Estados Unidos. Contando com uma plataforma e uma equipe bem diferente das convencionais, Milk irá utilizar o seu poder de oratória para lutar pelos direitos dos homossexuais. Para isso, ele terá que lutar fortemente contra o preconceito e o conservadorismo dos demais políticos.

Milk – Trailer:

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Crítica:

Gus Van Sant é um diretor que não me atrai muito. O cineasta é, geralmente, o típico artista que adota a filosofia “mamãe quero ser moderninho.”. A partir daí vemos então diversos filmes que se dizem fugir dos conceitos hollywoodianos mais básicos e que tem (caiu o circunflexo nestes casos, não?) a tola pretensão de se denominar revolucionários. Pois, sinceramente, não considero Van Sant tão revolucionário quanto ele mesmo se julga e muitos de seus maneirismos são empregados apenas para lançar ‘modinha’ e nada mais. Caso o leitor deseje realmente conferir obras recentes revolucionárias, aconselho deixar o superestimado cineasta estadunidense de lado e optar pelo dinamarquês Lars Von Trier (que assinou a direção de “Dogville”, “Manderlay”, “Dançando no Escuro” e muitos outros), Thomas Vinterberg e os demais cineastas pertencentes ao movimento Dogma 95 (pesquise algo a respeito, pode ser no Wikipedia mesmo, vale muito a pena).

Em “Milk – A Voz da Igualdade”, Van Sant felizmente deixa alguns maneirismos de lado e realiza uma direção mais sutil e interessante. Aliás, logo de cara percebemos que o seu trabalho é uma das maiores qualidades do filme. O diretor realiza vários movimentos excelentes, adotando ‘travelings’ e ‘closes’ de um modo bastante conveniente. Mas a grande “sacada” de sua direção está em mesclar constantemente dois tipos de câmeras: uma que parece gravar normalmente, como estamos acostumados a ver no Cinema, e outra que aparenta estar gravando em tempo real. O seu trabalho é bastante eficaz e sua indicação a Melhor Diretor é justa, mas a vitória deve ser de Danny Boyle, se é que há justiça neste mundo.

Outra indicação bastante justa foi a de Sean Penn como Melhor Ator. Longe de adotar o estereotipo do homossexual à lá “Zorra Total”, ou seja, a bicha louca que veste rosa e dá gritinhos histéricos a todo o instante, Penn encarna o seu personagem apenas como um homem afeminado que gosta de outros homens, nada além disso. As caras e bocas utilizadas pelo ator que venceu o Oscar por “Sobre Meninos e Lobos” são muito bem empregadas e transformam o seu personagem em um sujeito muito mais verossímil. A propósito, o roteiro está de parabéns no que diz respeito à abordagem de seu protagonista.

Entretanto, o mesmo roteiro que acerta em cheio na composição de Harvey Milk comete erros gritantes ao “desenhar” os demais personagens. Quando estes não são retratados na base do estereotipo, como é o caso de Cleve Jones (que é muito bem interpretado por Emile Hirsh, mas o jovem ator se vê obrigado a adotar uma atuação extremamente caricata para compô-lo), são pouco desenvolvidos pelo roteiro, como é o caso de Dan White, um indivíduo extremamente interessante, sobretudo pelos seus conflitos com Milk, mas que acaba sendo abordado de modo pouco convincente. Falando nisso, que ótima atuação a de Josh Brolin, não? A segurança que o ator adota em seu trabalho faz de White um grande destaque no filme, e, certamente, a sua indicação a Melhor Ator Coadjuvante foi mais do que merecida (mas é óbvio que ele não merece derrotar o Coringa de Ledger, pois não chega nem aos pés daquele).

O romance entre Harvey Milk e Scott Smith se revela outro ponto fraquíssimo do longa e adivinhem só de quem é a culpa? Novamente do roteiro que explora o relacionamento de ambos de uma maneira nada satisfatória. Ambos se conhecem do nada e quando percebemos já estão na cama trocando beijos e se lambendo o rosto (eca!). Aliás, tirando o fato de ambos serem homossexuais, desejarem ter uma lojinha em São Francisco e gostarem de transar um com o outro, nada mais tem em comum. Logo, o romance entre Milk e Smith surge como algo tão artificial quanto o relacionamento do casal de protagonistas em uma novela das oito (ou será novela das nove? Enfim, é tudo o mesmo lixo).

O que dizer então da falta de sutileza do longa? Durante muitos momentos, juro que me esqueci de que estava diante de um filme que aborda o preconceito contra os homossexuais e passara a testemunhar um filme que realiza uma ode ao homossexualismo. Sim, pois durante vários momentos reparei que o filme se preocupava muito mais em mostrar casais gays se beijando ou se amando completamente nus (com direito a tapinha na bunda e tudo o mais) do que mostrar a luta destes por direitos iguais. Felizmente, isso ocorre apenas durante cerca de 20% da duração da película (o que já
é bastante, sejamos francos), pois no mais, o que vemos é uma minoria lutando pelos seus direitos.

O maior defeito do longa reside, no entanto, em sua estrutura narrativa. Nada original, cativante e exacerbadamente episódica e linear, o longa dá nos entender que é apenas um filme sobre o preconceito e nada mais. Vejam só, Milk conhece um grande amor, o mesmo o incentiva a seguir os seus sonhos, ambos passam a ser descriminados, Milk entra na política para conquistar leis e direitos para ele e os demais homossexuais, Milk sofre a sua primeira derrota, tira dela algumas lições, parte para uma próxima tentativa de se eleger, briga com o seu namorado que diz receber pouco afeto dele (que coisa mais “Sessão da Tarde”, não?) e… bom, deixa para lá, não vou ficar mencionando os demais “episódios” do filme sob pena de revelar a trama inteira.

Resumidamente, “Milk – A Voz da Igualdade” é um filme que conta com uma das melhores direções que o superestimado Gus Van Sant realizou durante toda a sua superestimada carreira. O diretor mostra muita competência neste seu mais novo trabalho e nos brinda com muitos ‘travellings’ e ‘closes’. Sean Penn realiza uma excelente atuação como protagonista da trama e Josh Brolin se mostra extremamente “firme” no papel que lhe foi atribuído. Os demais atores também se saem muito bem, mas é uma pena que seus personagens sejam pouco, ou mal, explorados pelo roteiro. Roteiro este que investe em um romance pouco convincente e apela para uma estrutura narrativa muito convencional e episódica a fim de narrar a vida de seu personagem principal. Não fosse o tema do homossexualismo, o longa certamente seria exibido na “Sessão da Tarde” daqui uns quatro anos. Uma pena, pois a batalha de Milk pela igualdade até que foi interessante, mas merecia ter sido retratada de um modo muito mais artístico do que fora retratada aqui.

Obs.: Há muito tempo não via um candidato tão fraco disputando o Oscar de Melhor Filme. Caso vença, o que eu acho pouco provável, “Milk – A Voz da Igualdade” será, automaticamente, uma das obras cinematográficas mais superestimadas de todos os tempos.
Avaliação Final: 5,0 na escala de 10,0.

Dúvida – **** de *****

É complicado comentar sobre “Dúvida”, pois, primeiramente, o mesmo envolve discussões polêmicas dentre as quais prima-se a religião. Em segundo lugar, é um filme extremamente subjetivo e o final é muito aberto (o que não quer dizer que seja necessariamente ruim, muito pelo contrário), fato que o torna muito introspectivo. Em terceiro e último lugar, o mesmo conta com um roteiro muito bem escrito, mas falha como Cinema. O fato de o filme ter sido adaptado de uma peça teatral escrita por John Patrick Shanley, que assina como diretor e roteirista do longa, também parece prejudicar muito nessa sua transição para as telonas. Afinal de contas, não é todo o cineasta que consegue realizar o feito de adaptar uma peça criada por ele mesmo para a sétima Arte de um modo realmente satisfatório, como Ingmar Bergman fez em 1956 com o excelente “O Sétimo Selo”. Faltou a Shanley a experiência, a sagacidade e a genialidade de Bergman. Uma pena, pois o longa em questão conta com aspectos dramáticos realmente fortes e, nas mãos de um cineasta mais experiente, teria se revelado uma obra cinematográfica muito mais pretensiosa e, consequentemente, muito mais poderosa (ou não).

Ficha Técnica:
Título Original: Doubt.

Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 104 minutos.
Ano de Lançamento: 2008.
Nacionalidade: Estados Unidos da América.
Direção: John Patrick Shanley.
Roteiro: John Patrick Shanley, baseado em peça teatral dele mesmo.
Elenco: Meryl Streep (Irmã Aloysius Beauvier), Philip Seymour Hoffman (Padre Brendan Flynn), Amy Adams (Irmã James), Viola Davis (Sra. Miller), Alice Drummond (Irmã Veronica), Audrie J. Neenan (Irmã Raymond), Susan Blommaert (Sra. Carson), Carrie Preston (Christine Hurley), John Costelloe (Warren Hurley), Lloyd Clay Brown (Jimmy Hurley), Joseph Foster (Donald Miller), Bridget Megan Clark (Noreen Horan), Mike Roukis (William London), Frank Shanley (Kevin), Frank Dolce (Ralph), Paulie Litt (Tommy Conroy) e Matthew Marvin (Raymond).

Sinopse: Em 1964, a diretora da escola St. Nicholas, a reacionária Irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), entra em total conflito com o liberal Padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman), após ouvir uma estória contada pela inocente e ingênua Irmã James (Amy Adams), que desconfia que o pároco abusa sexualmente de Donald Miller (Joseph Foster), o primeiro aluno negro a ser aceito na instituição conservadora. A partir daí Beauvier assume uma investigação informal para tentar comprovar a veracidade do boato.

Doubt – Trailer:

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Crítica:

Por um acaso o leitor já assistiu ao clássico de Akira Kurosawa, “Rashomon”? Se a resposta for “não”, pule esta e as próximas três linhas. Se a resposta for “sim”, por obséquio, leia a pergunta que se segue. O leitor gostou do final de “Rashomon”? Se a resposta for “não”, há uma grande chance de não gostar do final deste “Dúvida”, mas caso a resposta seja “sim”, você provavelmente irá se sentir atraído pelo final de “Dúvida”. Digo isto pois o filme de Shanley tem algumas semelhanças (não muitas, confesso, e lamento dizer que esta analogia cinematográfica não foi das melhores) com a obra de Kurosawa, sobretudo no que diz respeito ao seu encerramento. Uma pessoa (um padre) é acusada de ter cometido um determinado crime (no caso, pedofilia). Passa-se um longo tempo tentando provar algo contra, ou até mesmo a favor do suspeito e, quando chegamos ao final da trama, não temos certeza absoluta se o indivíduo cometeu, ou não, o delito do qual fora acusado (a propósito, gostaria de informar que não estou “estragando” o filme de ninguém ao revelar que o mesmo não tem uma resolução). Como podem notar, o final fica em aberto, assim como ocorre com “Rashomon”. Mas da mesma forma que o filme japonês, o desfecho irregular (se é que posso tachá-lo assim) de “Dúvida” só tem a contribuir para o ótimo resultado final do mesmo, pois somente desta forma podemos levantar questionamentos imparciais acerca da filosofia de vida adotada por cada personagem. Isto sem contar, é claro, que o desfecho obscuro só vem a frisar ainda mais a palavra que dá título ao filme.

A propósito, do início ao fim da trama, a ‘dúvida’ parece estar presente durante todo o instante. Desde o sermão feito pelo Padre Flynn, logo na abertura do filme, passando pelos questionamentos levantados pela Irmã Beauvier e encerrando-se com a incógnita que toma conta da finalização do longa. A ‘dúvida’, ironicamente, parece ser a grande vilã do filme. A impressão que fica é que ela assume, simultaneamente, a função de antagonista e protagonista da obra que leva o seu nome. A ‘dúvida’ parece ser personificada durante o desenrolar da trama, tanto que diálogos como “O que vocês fazem quando não têm certeza?” e “A dúvida pode ser um elo tão encorajador e certeiro quanto a certeza.” marcam presença direta por aqui.

E afinal de contas, o que pode ser mais perturbador do que uma ‘dúvida’? Assim como tal sentimento pode ser instigante (segundo Albert Einstein: “O misterioso (que, neste caso, pode ser substituído pela dúvida de alguma coisa) é a coisa mais bela que pode existir, pois ele é a razão de toda a Ciência a de toda a Arte”), ele também pode ser a causa de muitas injustiças e muitas acusações levantadas por mero senso comum, como é o caso das indagações de Irmã Aloysius sobre o Padre Brendan. Enfim, se você almeja ir ao cinema e deparar-se com uma obra que lhe bombardeie a mente com vários pensamentos, talvez este “Dúvida” seja um dos mais indicados, dentre os demais que estão em cartaz no presente momento, para tal.

Mas o forte do filme não está nas reflexões que ele nos remete. Não, de forma alguma. O roteiro até que se mostra sagaz quando o assunto em pauta é a abordagem das mesmas, mas a direção de John Patrick Shanley é fraca demais para captar toda a sutileza embutida em seu script. Planos-sequências como a cena do vento, onde várias penas voam livremente pelo ar, são difíceis de serem encontradas por aqui, e um filme que nos levanta tantas indagações não pode se dar ao luxo de contar com tão poucas metáforas como “Dúvida” conta. Não bastasse isso, o diretor ainda apela a recursos muito artificiais na tentativa de aumentar a carga dramática de determinadas cenas, como as lâmpadas que queimam a todo o instante ou as sequências em que a governanta aparece do nada com um gato nas mãos. A movimentação com as câmeras também não é das melhores. Raramente vemos Shanley criar um ângulo realmente convincente com a sua câmera e o uso de recursos como travelings, closes ou deep focus é praticamente nulo. “___ E no que diz respeito à condução de elenco? Como se sai Shanley?”. O elenco se sai magistralmente bem, todos os atores estão excelentes, todos os atores são dignos de todas as indicações ao Oscar que receberam (embora nenhuma das atuações seja digna de se faturar o prêmio), mas convenhamos, uma equipe composta por Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams não precisa de um grande cineasta para render atuações incríveis, não é mesmo? Logo, nem mesmo as fantásticas atuações podem contar pontos positivos para o diretor.

Continuemos. Antes de acoimar a direç
ão de “Dúvida” lembro-me de que iria citar o ponto forte da obra, não? Pois então vamos lá. Conforme já dei a dica no parágrafo acima, o ápice do longa reside nas atuações do mesmo, bem como na construção de seus respectivos protagonistas. Começando pela Sra. Miller, o pouco tempo em que ela aparece em cena já se revela o suficiente para explora-la. Não, não é uma personagem simples, muito pelo contrário. Acontece que o roteiro troca o quantitativo pelo qualitativo e faz com que os menos de dez minutos em que a mesma aparece em cena sejam o suficiente para transforma-la em uma mulher que parece ter sofrido a vida inteira nas mãos do marido. O modo estóico como encara certos problemas (se é que posso chamar assim) do filho também é algo que chama muita atenção em sua composição. A atuação de Viola Davis acrescenta muito à sua personagem e é incrível notarmos a capacidade da atriz que, com pouquíssimo tempo em cena, desbanca atores do naipe de Streep e Hoffman que tem o filme inteiro pelo frente (e olha que ambos atuaram muito bem em seus respectivos papéis).

Amy Adams também convence na pele de Irmã James. Aparentemente, a personagem não passa de uma freira bondosa e sonsa, mas conforme a trama vai se desenrolando passamos a nos dar conta de que a mesma é fundamental para a trama, e isso não se deve apenas ao fato de ser ela quem começa a levantar os boatos a cerca do comportamento do Padre Flynn. Dentre todos os personagens, James parece ser a que mais conta com o sentimento que dá título ao filme. Ora a jovem é meiga, delicada e, assim como Flynn, crê na bondade e na tolerância como métodos educativos. Ora ela é rígida, enérgica e rude, assim como Irmã Aloysius Beauvier. Talvez tenha sido o modo natural como a atriz alterna entre estas duas personalidades, em frações de minutos, que tenha chamado tanto a atenção da Academia, a ponto de faze-la receber uma indicação ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante. A propósito, é ótimo vermos uma atriz tão jovem e bela se destacando tão bem no Cinema. Pena Keira Knightley não ter seguido o mesmo caminho.

Brendan Flynn, por sua vez, é, de longe, o personagem mais instigante da trama. Apesar de levar o seu trabalho extremamente a sério, o pároco se revela bastante liberal e provavelmente esta seja a maior causa das suspeitas que as freiras passam a ter dele. Ao mesmo tempo em que o vigário trata os seus jovens pupilos com toda a sutileza e afetividade possíveis, o mesmo passa as horas de folga bebendo cerveja, comendo carne vermelha em grandes quantidades, fumando, e contando aos seus amigos, muitos deles também pessoas de certo renome dentro da Igreja Católica, sobre experiências sexuais que já vivenciou. Hoffman, além de contar com todos os pré-requisitos (é com hífen? Até hoje confundo) físicos para compor Flynn, possui o carisma necessário para construir o seu personagem e, sempre que entra em cena, a qualidade do filme é elevada. É ainda mais elevada quando temos um fantástico duelo de atuações entre ele e a personagem de Meryl Streep.

E falando em Streep, a sua personagem é, sem sombra de dúvidas, a mais difícil de se analisar. Assim como a sua Miranda Priestly do fraco “O Diabo Veste Prada”, Irmã Aloysius Beauvier se revela uma personagem amplamente caricata. Sempre séria e rígida, a diretora da escola St. Nicholas é o estereótipo da megera que raramente sorri, exceto quando solta aqueles sorrisos sem dentes e de canto de boca que indicam desgosto com determinada coisa. Deve-se comentar também o fato da mesma anunciar sua presença através de seu olhar ditador e da secura de sua voz. Contudo, essa “maldade” toda parece ser apenas uma fachada para enganar as demais pessoas que convivem com ela e fazer com que as mesmas aceitem, a todo o custo, a sua filosofia de vida e de ensino. Note, por exemplo, que por mais reacionária que a mesma aparente ser, ela conta com alguns desvios de caráter, como comprova a cena em que oculta os problemas visuais que uma professora possui, a fim de assegurar o emprego da mesma. Ou seja, deixa de cumprir friamente com o seu dever, assim como está acostumada a fazer, e coloca a bondade em primeiro plano. O quê? A atuação de Streep? É difícil de se analisar. A atriz, como de costume, esbanja profissionalismo, expressividade e, acreditem, até mesmo carisma (e olha que conferir carisma a uma personagem tão insuportável quanto Beauvier é algo louvável). Sem contar que ela não tem culpa de seu papel ser bastante caricato. Logo, mantenho a opinião que expus em meu texto sobre “O Leitor”: a atuação dela neste filme supera a de Winslet no longa roteirizado por David Hare.

“Dúvida” se revela, no final das contas, um interessantíssimo estudo de personagens, bem como o modo com que o sentimento que intitulou o filme pode influenciar o cotidiano destes e, muitas vezes, mudar a vida de várias pessoas para melhor, ou para pior. O longa também nos leva a muitos questionamentos, dentre os quais pode-se destacar o rumo que a Igreja deveria adotar: a incerteza dos pensadores liberais, ou a frieza e o preconceito empregados pelos pensadores conservadores (apesar de que, francamente, acredito que a Igreja deveria simplesmente deixar de existir, mas isso não vem ao caso agora)? O elenco se destaca muito bem e o duelo de atuações entre Streep e Hoffman consegue corresponder às expectativas previamente formuladas pelos cinéfilos (exceto por este que vos escreve, pois como sempre digo, em raros os casos formo expectativas antes mesmo de assistir a um determinado filme). Infelizmente, um filme que tinha várias chances de se tornar um marco na história do Cinema, acabou se rendendo ao trabalho pouco pretensioso, técnica e artisticamente falando, de John Patrick Shanley (neste caso, refiro-me a ele como diretor de “Dúvida”, e não como roteirista do mesmo) e à exagerada caracterização de sua protagonista. Um ótimo filme, mesmo assim.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

O Leitor – **** de *****

É, no mínimo, curioso o caso deste “O Leitor”. Em um ano bizarro onde o melhor filme acabou sendo, curiosamente, o filme de maior bilheteria (refiro-me a “Batman – O Cavaleiro das Trevas”), a obra de Nolan fora esnobada pela Academia por mero preconceito. No lugar, vários filmes superestimados acabaram sendo selecionados para a disputa do prêmio principal do Cinema, incluindo “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “Quem Quer Ser um Milionário?”, que detém total favoritismo na conquista do prêmio que será atribuído no dia 22 de fevereiro deste ano de 2009. No entanto, uma grande surpresa surgiu dentre os principais candidatos. Refiro-me a este “O Leitor” que, até então, apareceu como a grande zebra do Oscar. Um filme em que ninguém apostava uma única ficha surge, inexplicavelmente, entre os principais indicados e, pasmem, dentre os quais eu já assisti, a obra dirigida por Stephen Daldry revelou-se a melhor de todas.

Ficha Técnica:
Título Original: The Reader.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.thereader-movie.com/
Nacionalidade: Estados Unidos da América / Alemanha.
Tempo de Duração: 124 minutos.
Diretor: Stephen Daldry.
Roteirista: David Hare, baseado em livro de Bernhard Schlink.
Elenco: David Kross (Michael Berg – jovem), Kate Winslet (Hanna Schmitz), Ralph Fiennes (Michael Berg – adulto), Jeanette Hain (Brigitte), Susanne Lothar (Carla Berg), Alissa Wilms (Emily Berg), Florian Bartholomäi (Thomas Berg), Friederike Becht (Angela Berg), Matthias Habich (Peter Berg), Bruno Ganz (Prof. Rohl), Max Mauff (Rudolf), Karoline Herfurth (Marthe), Lena Olin (Rose Mather / Ilana Mather), Alexandra Maria Lara (Ilana Mather – jovem) e Frieder Venus (Médico).

Sinopse: Michael Berg (David Kross) é um jovem que perambulava pelas ruas de Berlin sem imaginar que era portador de uma doença contagiosa. Quando o mesmo começa a passar mal nas ruas, recebe a ajuda de Hanna Schmitz (Kate Winslet), uma mulher rude e bem mais velha que ele. Com o passar do tempo, o jovem vai se interessando pela moça e ela por ele, até viverem um caso amoroso que irá mudar as suas vidas para sempre.

The Reader – Trailer:

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Crítica:

Hollywood parece ter caído em uma moda que confesso não ser lá muito fã: a inclusão de mais de um filme em uma única fita. Quê?! Pergunta o leitor assustado. Sim, eu sei que parece confuso, mas no fim das contas não é. Citarei alguns exemplos. Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” temos, a princípio, um drama policial à lá “Fogo Contra Fogo” que, ao chegar em sua segunda metade, se converte em um drama existencial onde o protagonista começa a questionar se a sua presença contribui ou atrapalha no combate ao crime organizado de Gotham City. Em “Quem Quer Ser um Milionário?” (depois do Bafta será que alguém ainda duvida que ele “leva” o Oscar de Melhor Filme esse ano?), a metade inicial que abordava a sofrida infância do protagonista teve o seu brilho ofuscado por uma estória de amor típica de um ‘filmeco’ de “Sessão da Tarde” que foge completamente do que o roteiro aparentava querer retratar em seu início. Em “Austrália” então nem se comente a fragilidade e a artificialidade com que tal recurso é empregado. O início do longa, que descaradamente pajeia clássicos como “…E o Vento Levou”, “O Mágico de Oz” e, principalmente, “Lawrence da Arábia”, se revela divertidinho, mas descamba para o piegas e o excessivamente melodramático em sua metade final, quando sentimos que a sinopse inicial do filme é abandonada sem quaisquer resquícios de sutileza e o roteiro parte para algo completamente diferente do que havíamos visto até então.

Entretanto, não é porque um filme adota este recurso “dois em um” que ele pode ser automaticamente tachado de ruim, artificial, ou seja lá o que for. Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, por exemplo, o roteiro e a edição do filme se revelam sagazes o bastante para encerrar uma estória e dar início a outra de um modo que nos cative cada vez mais com a obra. A mesma coisa não ocorre com “Quem Quer Ser um Milionário?”, uma vez que a previsibilidade de sua segunda estória anula muitas expectativas que havíamos criado em cima da primeira metade do filme. Em “Austrália” o emprego de tal recurso revela-se sofrível, algo que faz com que o filme se torne inteiramente ruim. Mas e em “O Leitor”? No filme dirigido por Stephen Daldry o uso deste recurso (se é que pode ser alcunhado desta forma) é adotado a fim de mesclar três filmes em um só, fazendo com que, ao mesmo tempo em que este soe um tanto o quanto desconexo em alguns de seus momentos, revele-se intrigante durante a maior parte de sua projeção.

A princípio, o longa lembra um pouco “Um Tango em Paris”. Michael é um garoto de apenas 15 anos que vive na Berlin pós-guerra, quando o povo alemão estava com a moral baixa pela derrota sofrida durante a Segunda Guerra Mundial e pela vergonha do holocausto. Naquela época, a taciturnidade imperava entre os alemães e, seguindo o exemplo destes, o adolescente era demasiadamente calado, não possuía amigos e a sua existência resumia-se a nada. Em um dia gélido e chuvoso o jovem começa a passar mal e a vomitar pelas ruas. É aí que ele conhece Hanna, uma mulher carrancuda, mal-humorada, rude e que aparenta desconhecer todas as regras básicas de etiqueta (só para se ter uma idéia, ela testa a temperatura do ferro de passar cuspindo na superfície deste), mas que mostra o mínimo de atenção para com o jovem e leva-o até a sua casa. Michael começa a nutrir um forte e estranho interesse pela moça, passando a visitá-la com freqüência e envolvendo-se em um bizarro relacionamento onde ambos passam a fazer sexo sem nem ao menos saberem os nomes um do outro.

Durante esta parte podemos notar que o filme utiliza o caso amoroso dos dois como uma forma de retratar a estranha situação em que a Alemanha encontrava-se naquele período. Conforme já fora dito, o país encontrava-se inerte em uma profunda vergonha graças ao holocausto. As pessoas aparentavam ser frias e rudes devido aos seus comportamentos, mas na verdade eram carentes e necessitavam de ajuda. Logo, o relacionamento entre Michael e Hanna funcionava como uma forma de ambos exprimirem os seus sentimentos, em uma nação onde isso era praticamente impossível. O romance entre eles não é belo, mas sim triste, na medida em que os mantém sob uma farsa. Eles mal se conhecem, como podem se amar? E nisso, o filme peca terrivelmente ao tentar ‘glamourizar’ além da conta as seqüências envolvendo cópula carnal, uma vez que as mesmas não visam transmitir alegria, mas sim o sofrimento individual de ambos, que torna-se mútuo quando eles estão juntos.

Entretanto, o romance entre Michael e Hanna vai sendo desenvolvido de modo cada vez mais magistral pelo roteiro. Para que o garoto obtenha o direito de fazer sexo com ela, a moça passa a exigir que este a leia um livro diariamente. Logo, percebemos que um supre as necessidades de outro. Hanna é analfabeta, como conseqüência disso precisa que alguém leia uma ficção para ela, não apenas para que possa se distrair com uma estória qualquer, mas também para poder preencher as lacunas vazias de sua vida. Michael é um garoto muito solitário, a família não lhe confere atenção. Ele busca em Hanna algo muito além de experiência sexual. É nela que ele se reconforta. É nela que ele encontra um propósito para a sua vida. O casa
l se completa, pois um se apóia no outro e ambos ganham muito mais energia quando estão juntos. Energia o bastante para encararem a vida de frente.

Até este momento pensamos que o filme irá tratar somente do romance entre ambos e que iremos testemunhar o apogeu e/ou a queda de tal relacionamento. Ledo engano. O filme de romance encerra-se repentinamente e Hanna sai de cena sem mais nem menos. Oito anos mais tarde, porém, Michael torna-se acadêmico de Direito e, coincidentemente, participa de um júri onde vê a sua ex-amante (é com hífen ou não?) sendo acusada de exterminar um grande grupo de judeus em um campo de concentração (repare que “O Leitor”, a partir deste momento, assume uma postura parecida com a do excelente “O Julgamento de Nuremberg”). Hanna, de fato, tem a sua parcela de culpa, mas acaba sendo punida de um modo muito mais rígido do que realmente merecia pelo simples fato de ocultar o seu analfabetismo. Bastava dizer que não sabia escrever e pronto, sua pena cairia de um modo extremamente considerável. Mas por que Hanna não assumiu a verdade? Por vergonha. Vergonha de si mesmo, este era o sentimento pelo qual o povo alemão passava naquela época, desde o término da guerra.

O que nós, espectadores, passamos a sentir a partir de então é confusão. O filme se mostra ligeiramente desconexo entre uma estória e outra, apesar de ser bem surpreendente (quem iria esperar que uma estória de amor fosse tomar tais proporções?). Durante uma parte considerável entre o primeira e o segunda ato de “O Leitor”, sentimos que um é extremamente independente do outro e, assim, funcionariam melhor separadamente. O terceiro ato do filme, no entanto, vem para eliminar esta desconfortável sensação parcialmente (e eu disse apenas parcialmente). Passamos a ver mais relação entre o primeiro e o segundo ato, embora os dois, mesmo com o término do filme, continuem não possuindo um elo verdadeiramente completo.

Outra falha de “O Leitor” consiste em sua estrutura não-linear (hífen?). Se tal recurso funcionava magistralmente bem em filmes como “Pulp Fiction – Tempo de Violência”, “Cidadão Kane”, “Rashomon” e até mesmo no recente “Missão Impossível 3”, no longa dirigido por Stephen Daldry o mesmo estraga a surpreendente reviravolta incluída em seu roteiro. Sim, pois quando percebemos que o Michael adulto, muito bem interpretado por Ralph Fiennes, irá narrar um antigo caso de amor, logo concluímos que este não fora bem sucedido por algum motivo, e quando o rapaz passa a se relacionar com Hanna, não nos cativamos tanto o quanto deveríamos nos cativar com o relacionamento de ambos, pois sabemos de antemão que os dois irão romper mais cedo ou mais tarde.

Mas no final das contas o saldo de “O Leitor” é extremamente positivo. Se o roteiro se revela desconexo em algumas partes e a narrativa não-linear estraga uma interessante surpresa que teríamos na metade do filme, a obra ao menos realiza um amplo estudo sobre a vergonha e a frieza em que a Alemanha pós-guerra encontrava-se inerte na época retratada tomando como pano de fundo o bizarro romance entre duas pessoas completamente frígidas. E por mais que o relacionamento entre ambos seja previsível, graças a estrutura não-linear empregada pelo filme, é praticamente impossível não se cativar, de uma forma ou de outra, com o mesmo. Os responsáveis por isso, além do roteiro que os explora muito bem, são os atores que rendem atuações fantásticas, sobretudo Kate Winslet que encarna Hanna perfeitamente bem (e por mais que a atuação de Meryl Streep como a Irmã Aloysius Beauvier em “Dúvida” seja superior a de Winslet, creio que o Oscar de Melhor Atriz deverá ficar com o par de Leonardo DiCaprio em “Foi Apenas um Sonho”, como uma forma de compensá-la pelos seus trabalhos em outros filmes menos recentes) e os demais aspectos técnicos e artísticos que compõem o longa.

Obs.: Queria ter feito este comentário ao longo da crítica, mas achei que tiraria um pouco o foco da mesma, uma vez que centrei-me em seus personagens e não nos aspectos técnicos da produção. A mixagem de som de “O Leitor” conseguiu conquistar-me de modo fascinante. É incrível notarmos o profissionalismo com que os microfones foram instalados no cenário, sendo que, principalmente durante a seqüência inicial do filme, podemos ouvir com perfeição certos ruídos que só têm a acrescentar à trama, tais como: talheres tinindo, o café sendo depositado em uma xícara, uma colher se chocando contra um ovo com a intenção de quebra-lo, dentre muitas outras coisas. É uma lástima, aliás, que a Academia não tenha indicado o filme neste categoria. Vergonhoso também é não indicá-lo a Melhor Maquiagem, uma vez que o trabalho que “envelhece” Kate Winslet é praticamente perfeito.

Obs. 2: Um grande amigo meu atentou-me para um detalhe com relação a este texto. Trata-se de um erro crasso de minha parte durante a seguinte frase: “Hanna, de fato, tem a sua parcela de culpa, mas acaba sendo punida de um modo muito mais brando do que realmente merecia pelo simples fato de ocultar o seu analfabetismo.“. Ok, na verdade, eu iria colocar rígido, mas sabe-se lá o porquê escolhi brando no lugar. Enfim, um erro imbecil de minha parte, mas que já fora corrigido. Agradeço ao meu amigo Thiago Rozante.

Avaliação Final: 8,2 na escala de 10,0.

Foi Apenas um Sonho – ** de *****

Sempre digo que raramente guardo expectativas positivas ou negativas acerca de um filme antes de assisti-lo, logo, fui ao Cinema de Campinas (passei três dias hospedado nesta cidade a serviço da Prefeitura Municipal de minha cidade e aproveitei uma hora de folga para ir ao cinema conferir o novo filme de Sam Mendes) assistir a este “Foi Apenas um Sonho” sem esperar muita coisa do mesmo. A princípio, o casal DiCaprio e Winslet não me atrai nem um pouco, pois encontro-me anosluz (é sem hífen?) de estar entre os fãs de “Titanic”, um dos filmes mais superestimados de todos os tempos. Sendo assim, os únicos fatores que poderiam vir a contribuir (mas não contribuíram) para o aumento de minha expectativa seriam: 1º) o longa ter sido dirigido por Sam Mendes, que assinou “Beleza Americana”, um de meus cem filmes prediletos; 2º) o roteiro ter sido inspirado no ótimo livro de Richard Yates e 3º) a curiosa e inesperada esnobação da Academia perante o mesmo, uma vez que a obra em questão recebeu muitas indicações em outras premiações, dentre as quais o aclamado Globo de Ouro. E falando na esnobada que a Academia deu em “Foi Apenas um Sonho”, acredito que tenha a resposta para tal, conforme o leitor poderá encontrar na crítica infra exibida.

Ficha Técnica:
Título Original: Revolutionary Road.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.revolutionaryroadmovie.com/
Nacionalidade: Estados Unidos da América / Reino Unido.
Tempo de Duração: 119 minutos.
Diretor: Sam Mendes.
Roteirista: Justin Haythe, baseado em livro de Richard Yates.
Elenco: Leonardo DiCaprio (Frank Wheeler), Kate Winslet (April Wheeler), Michael Shannon (John Givings), Ryan Simpkins (Jennifer Wheeler), Ty Simpkins (Michael Wheeler), Kathy Bates (Helen Givings), Richard Easton (Howard Givings), Kathryn Hahn (Milly Campbell), Zoe Kazan (Maureen Grube), Dylan Baker (Jack Ordway), Keith Reddin (Ted Bandy), Max Casella (Ed Small), Max Baker (Vince Lathrop), Jay O. Sanders (Bart Pollack), Duffy Jackson (Steve Kovac), John Behlmann (Sr. Brace) e Kristen Connolly (Sra. Brace).

Sinopse: Frank (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winslet) formam um casal aparentemente feliz, mas que na realidade está insatisfeito com o vazio existencial que tanto atormenta os seus cotidianos. Frank é funcionário de uma empresa na qual o seu pai trabalhou durante vinte longos anos e nunca fora reconhecido. Perturbado pelo medo de tornar-se a imagem de seu progenitor, o rapaz vive em constantes crises com a sua esposa April. Esta, por sua vez, também encontra-se insatisfeita com o seu “status quo” e propõe ao marido uma solução extremamente radical: abdicarem da vida confortável que possuem em sua casa, alcunhada de Revolutionary Road, e mudaram-se a Paris.

Revolutionary Road – Trailer:

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Crítica:

Por que será que todo filme protagonizado pelo casal Leonardo DiCaprio e Kate Winslet tem que ser apenas morno e nada mais? Quando ambos assumem individualmente o papel principal de um determinado filme, o mesmo se revela bem acima da média (como foi o caso de “Os Infiltrados”, por parte de DiCaprio, e “Pecados Íntimos”, por parte de Winslet), mas quando ambos atuam juntos surgem “negócios” superestimados do naipe de “Titanic”. A mesmíssima coisa ocorreu com este “Foi Apenas um Sonho”, mas com uma diferença: ambos os atores estão bem mais amadurecidos agora e se vem (o circunflexo caiu neste caso, não caiu?) capazes de apresentar atuações bem mais convincentes que o casal clichê Jack/Rose.

E são justamente as atuações de DiCaprio e Winslet, somadas à química exalada pelas mesmas, que constituem uma das maiores qualidades desta produção roteirizada por Justin Haythe. Ambos os atores contam com papéis difíceis de serem interpretados e, ainda assim, o fazem com maestria. E se o desenvolvimento dos protagonistas deste longa se revela falho, isso não se deve ao trabalho dos mesmos, mas sim à falta de capacidade do roteiro em criar situações que nos faça sentir na pele o real drama de seus protagonistas.

Pode-se dizer a mesma coisa do personagem John Givings, muito bem encarnado por Michael Shannon. É de Givings que provém os diálogos que definem perfeitamente bem a fragilidade do casal moldado nos dogmas do american way of life, entretanto, o mesmo sofre por ser muito mal explorado pelo roteiro. Além de aparecer muito pouco em cena, o personagem de Shannon é bastante prejudicado pelo modo maniqueísta como o roteiro o introduz na trama. Francamente, é coincidência demais o fato de uma amiga de um casal de jovens com constantes crises existenciais pedir para que os mesmos interajam com o seu filho que, em uma ironia do destino, se revela uma pessoa louca e que critica todos os ditames de relacionamentos amorosos do tipo os de Frank (DiCaprio) e April (Winslet).

Mas voltando às qualidades do longa, digo que estas não se resumem apenas às atuações por parte de todo o seu elenco. Não, vão muito além disso. A recriação dos anos 50, por exemplo, é simplesmente fantástica, a começar pela ótima trilha-sonora, que nos remete diretamente à época, passando pela fantástica seleção dos figurinos. A direção de arte também contribui muito para o resultado final da película, pois se responsabiliza pela criação de ambientes bem interessantes, como é o caso do clube onde Frank e April se conhecem logo no início da película. A fotografia? Sim, é ótima e confere a ênfase necessária para retratar o sentimento de tristeza em que vive o casal, alternando entre tons alegres durante os bons momentos do casamento entre ambos e tons lúgubres durante os vários períodos soturnos de tal matrimônio.

E se a fotografia da obra colabora, e muito, para a sensibilidade desta, a direção de Mendes, por mais incrível que possa parecer, atrapalha. Ao contrário do que havia feito em “Beleza Americana”, o marido (na vida real) de Kate Winslet realiza aqui uma direção fraca e pouco criativa, onde a criação de planos e ângulos se mostra quase nula. A competência que Mendes tem ao conduzir o seu brilhante elenco não tem nos demais aspectos referentes à direção do filme, sobretudo no que diz respeito à proporção de uma sensibilidade que venha a ligar o espectador à trama de um modo mais consistente, sejam pelas críticas sociais tecidas pela mesma, sejam pelos problemas pelos quais passa o casal.

A verdade, no entanto, é que a falta de sensibilidade contida na obra não é culpa exclusiva da direção desta. Nesse quesito, o roteiro é o maior vilão. Utilizando o enfadonho e, ao mesmo tempo, conturbado casamento dos Wheeler como pano de fundo para uma crítica à sociedade estadunidense dos anos 1950, perdida nas entrelinhas do american way of life, o filme nada mais consegue do que ser sério, e só. “Foi Apenas um Sonho” revela-se então um sub-“Beleza Americana”, mas com a terrível e inadmissível agravante de apresentar críticas bem menos consistentes e veementes do que a obra de 1999. Pior ainda é constatar que o humor cínico da obra estrelada por Kevin Spacey é substituído aqui por um drama que utiliza recursos deveras artificiais para tentar decolar.

Quais recursos seriam estes? Vários. A começar pelo drama de April. A moça era uma aspirante à atriz, correto? Sim, até aí tudo bem. Mas então porque cargas d’água ela manifesta a vontade de abandonar tudo
, mudar-se para Paris e exercer uma profissão completamente diferente da de atriz? E qual seria o propósito das traições de Frank? Fazer com que o mesmo perceba o quão infeliz ele é em sua união conjugal? Criar sentimentos de culpa ao mesmo? Fazer com que April demonstre certo desdém ao descobrir a verdade? Enfim, temo que, caso a hipótese real seja alguma dentre estas três, Justin Haythe tenha falhado terrivelmente em todas as alternativas.

Resumidamente, a, aparentemente, estranha esnobada que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deu em “Foi Apenas um Sonho” justifica-se a partir do momento em que terminamos de assistir ao mesmo. Almejando estabelecer criticas ao american way of life, o filme nada mais faz do que chover no molhado e causar inúmeras decepções em seu público alvo, principalmente aos espectadores que vão ao cinema esperando ver um roteiro bem alicerçado, contando com inúmeras situações que exponham as falhas gritantemente visíveis na sociedade estadunidense (e não só na sociedade estadunidense como em qualquer outra sociedade que adote o capitalismo como sistema econômico). Não bastasse isso, Sam Mendes ainda realiza uma direção fraca, nada imaginativa e pouco sensível, ficando bem aquém de seu trabalho em “Beleza Americana”, filme exacerbadamente parecido com este em questão (onde está aquele Mendes excepcional que nos emocionava com um simples saco plástico flutuando pelo cenário?) e os personagens jamais chegam a ser explorados de um modo verdadeiramente satisfatório. “Foi Apenas um Sonho”, no entanto, conta com um pouco mais de qualidades do que de defeitos. O elenco está bem afiado e todos os atores rendem ótimas atuações (apesar de que nenhum deles mereciam, sequer, ser indicados ao Oscar) e a reconstrução dos anos 1950 (realizada através da perfeita união entre trilha-sonora, direção de arte e figurinos) é formidável, sem contar, é claro, na fotografia que acaba conferindo à trama a sensibilidade que a direção e o roteiro não conseguiram conferir.

Que sirva de lição para que o próximo cineasta que se propor a criticar o sistema, a sociedade, ou qualquer outra coisa que seja, que o faça com consistência, com embasamentos, com argumentos e, principalmente, com amor ao que está fazendo, não aos lucros que poderá obter fazendo o mesmo.

Avaliação Final: 5,3 na escala de 10,0.

Austrália – ** de *****

Francamente, estou farto de escrever críticas de Cinema apontando os clichês e/ou estereótipos de um determinado filme que está sendo analisado. Acredito que falar mal de clichês, por si só, já consiste em um terrível clichê. Juro que preferia infinitamente ter de apontar falhas como furos de roteiro, falta de criatividade na direção, personagens mal explorados, trama fraca, atuações pavorosas, montagem confusa, estória má conduzida, entre outras coisas, a ficar listando os chavões e personagens caricatos que compõem uma determinada obra. Visto isso, pergunto ao leitor: “que culpa tenho eu se a leva de filmes lançados atualmente não faz outra coisa senão apelar a clichês e/ou estereótipos que “segurem” a trama?”. As recentes produções cinematográficas parecem ter carência inventiva até mesmo ao “criar” os seus próprios defeitos e sabem o que é pior nisso tudo? É o fato de a Crítica Cinematográfica ter de adotar sempre a mesma postura, tendo de escrever textos cujo alvo principal é, obrigatoriamente, a condenação destes incômodos clichês. Felizmente (ou seria infelizmente?), “Austrália” é um longa que conta com muitos defeitos, o que possibilita que este texto não se dedique unicamente a criticar os diversos clichês inseridos em seu fraco roteiro.

Ficha Técnica:
Título Original: Australia.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.australiafilme.com.br/
Nacionalidade: Estados Unidos.
Tempo de Duração: 165 minutos.
Direção: Baz Lurhmann.
Roteiro: Stuart Beattie, Baz Luhrmann, Ronald Harwood e Richard Flanagan, baseado em estória de Baz Luhrmann.
Elenco: Nicole Kidman (Sarah Ashley), Hugh Jackman (Drover), Brandon Walters (Nullah), David Wenham (Neil Fletcher), Ray Barrett (Bull), Bryan Brown (Rei Carney), Tony Barry (Sargento Callahan), Essie Davis (Cath Carney), Arthur Dignam (Padre Benedict), Sandy Gore (Gloria Carney), David Gulpilil (Rei George), Jamie Gulpilil (Porter), Jacek Koman (Ivan), Ben Mendelsohn (Capitão Dutton), David Ngoombujarra (Magarri), Angus Pilakui (Goolaj), Bruce Spence (Dr. Barker) e Kerry Walker (Myrtle Allsop).
Sinopse: Sarah Ashley (Nicole Kidman) é uma aristocrata inglesa que viaja a Austrália com o propósito de salvar uma propriedade rural que pertencia ao seu marido, recentemente assassinado no local. Lá ela conhece Nullah (Brandon Walters), um garoto aborígine com quem passa a ter uma relação quase que materna, e Drover (Hugh Jackman), um vaqueiro que é contratado pela dama para conduzir o seu rebanho de gado até os portos de Darwin, onde será exportado e vendido a um bom preço, salvando a fazenda de Ashley da falência.

Australia – Trailer:

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Crítica:

“Austrália” é mais um destes filmes imaturos e previsíveis que logo em seus dez primeiros minutos revela todos os defeitos que possui e virá a possuir durante o desenrolar de sua trama. Começamos com um garoto mestiço extremamente irritante, cujo nome é Nullah (e confesso que desde que assisti a “Star Wars – Episódio I – A Ameaça Fantasma” pela primeira vez, no ano de 1999, não via um personagem que conseguia ser tão irritante quanto Jar Jar Binks. Nullah conseguiu romper tal tabu) e assume a função de narrador da obra cinematográfica em questão. O problema é que além da narração ser gritantemente dispensável, o tom de voz empregado pelo ator mirim é simplesmente insuportável. Isso sem contar, é claro, a péssima escolha das palavras utilizadas pelo roteiro a fim de construir a narrativa, que se torna altamente previsível.

O longa se desenvolve um pouco mais e os erros vão aparecendo. O recurso gráfico utilizado para indicar a localização de um personagem no globo terrestre é tolo, desnecessário e imaturo. Aliás, imaturo é tudo o que o longa consegue ser durante o seu primeiro ato inteiro e isso não consistiria necessariamente em uma falha caso “Austrália” assumisse, definitivamente, ser uma obra infantil. O problema é que a produção não se assume como tal e o filme vai se revelando bobo demais para os adolescentes e adultos e longo e cansativo demais para as crianças. Ou seja, não agrada a gregos, nem a troianos.

Mas se Nullah (Brandon Walters) revela-se um elemento irritante e, aparentemente, dispensável à trama (aliás, é uma pena que o roteiro crie tantas situações de perigo ao garoto e nunca decida o “matar” de uma vez por todas, poupando-nos do fraco terceiro ato que nos aguarda), o casal de protagonistas, Sarah (Nicole Kidman que, depois de implantar litros de botox na cara não consegue mais se expressar satisfatoriamente) e Drove (Hugh Jackman, fazendo uma atuação correta em um papel fortemente clichê), se revela o mais caricato o possível (sim, outra crítica de minha autoria que se propõe a falar mal dos estereótipos contidos em um determinado filme, mas fazer o quê se os filmes atuais não colaboram comigo?). Sarah é a típica aristocrata inglesa bravinha e mimada que põe uma coisa na cabeça e faz birra até conseguir obter êxito em seu objetivo (nisso ela lembra muito a personagem Scarlett O’ Hara, interpretada por Vivien Leigh, em “… E o Vento Levou”, com a diferença de que o desenvolvimento de Scarlett é fenomenal, ao ponto que o desenvolvimento da personagem de Nicole Kidman é catastrófico). Logo no início da trama a moça é construída pelo maior número de clichês possíveis, que variam desde o modo rápido, engraçado e imponente como a mesma anda, até a maneira doce (leia-se aqui, irritante) como fala (Kidman fazendo sotaque inglês é risível), passando pelos inúmeros gritinhos que solta sempre que se espanta (aliás, não somente quando esta se espanta, mas em quaisquer outras ocasiões que sejam) e as expressões faciais adotadas pela mesma (qualquer incidente a deixa boquiaberta e a faz arregalar os olhos e torcer o nariz da maneira mais artificial e caricata o possível).

E quanto ao personagem de Drove? Apesar de ser bem menos irritante que Sarah, este é ainda mais caricato que a moça. Seguindo o estereótipo do cavaleiro solitário (que nos anos 1960 não era necessariamente um estereótipo) incorporado por Clint Eastwood na trilogia dos dólares de Sergio Leone, o personagem de Hugh Jackman é destes indivíduos que passam o tempo livre em um bar embriagando-se e arrumando encrenca. Logo no início do filme, o protagonista de “Austrália” nos é apresentado durante uma discussão em um boteco (com direito a uma batida frase proferida por Drove: “___ Eu não posso deixar este desaforo passar em branco.”), em seguida ele solta um olhar ameaçador, que é focado pela câmera em um close que já fora utilizado pelas obras de western ao menos umas três dúzias de vezes (o leitor reconhecerá a cena a qual me refiro) e, por fim, inicia-se uma rixa ridícula cujas lutas parecem ter sido extraídas de algum episódio do seriado “Os Trapalhões” (com a diferença de que tais cenas funcionavam muito bem no programa da trupe de comediantes brasileiros, ao passo que em “Austrália”…).

O que esperar então do romance entre Drove e Sarah? Imaginem o resultado que pode-se obter se juntarmos uma mulher extremamente irritante (uma cópia loira de Scarlett O’ Hara) com um homem que segue o estereótipo do indivíduo bronco (a versão morena do Cavaleiro-Sem-Nome criado por Sergio
Leone). Coisa boa não poderia sair, não é mesmo? Pois é, o romance entre eles revela-se um dos maiores clichês já vistos até então. Ambos formam o casal que se odeia, mas que, aos poucos, passa a se amar, Algo parecido com o romance entre Lizzie Bennet e Mr. Darcy em “Orgulho & Preconceito”, com a diferença de que, no filme dirigido por Joe Wright, o casal era abordado com muito charme, coisa que não acontece neste “Austrália”. Aliás, charme é o que falta ao romance dos dois, uma vez que tudo é “jogado” ao espectador sem o menor resquício de sutileza (só para se ter uma idéia, a rica moça passa a se interessar pelo rude rapaz a partir de uma cena onde este se banha e, praticamente, faz pose para a câmera exibindo os seus músculos, algo que parece ter sido extraído de um comercial de suplementos alimentares para frequentadores de academias de musculação).

A trama vai tentando tomar uma forma (apenas tentando). Tomamos ciência de que, a fim de quebrar o monopólio de um barão local, Sarah deverá embarcar milhares de cabeças de gado destinados à exportação e, com isso, arrecadar uma boa e justa quantia em dinheiro. O problema é que o caminho que terá de percorrer até o porto de Darwin (cidade australiana) é gigantesco e perigoso. Para obter êxito na missão a jovem contrata Drove para um novo trabalho. A partir daí o filme assume-se como plágio descarado de “Lawrence da Arábia”. Sim, a indigesta salada feita a partir de “Por uns Dólares a Mais” (ou “Três Homens em Conflito” ou, ainda, “Era Uma Vez no Oeste”, caso o leitor prefira) com “…E o Vento Levou”, temperada com um pouco de “O Mágico de Oz”, é completamente abandonada e tem-se início uma cópia fiel da obra-prima de David Lean. Alguns detalhes mudaram ligeiramente (apenas ligeiramente, o que não descaracteriza plágio). Por exemplo, ao invés de cruzarem um deserto com um grupo gigantesco de pessoas, os ‘heróis’ realizam a sua travessia conduzindo uma manada de gados (ou seja, a dramaticidade cai consideravelmente, uma vez que as emoções humanas são substituídas aqui pela frieza bovina). A chegada destes ao porto de Darwin então é algo que dispensa comentários. Não há como não notarmos a descarada imitação da cena em que Lawrence e o seu bando chega a Acqaba, com a única diferença de que aqui não ocorre um combate grandioso, mas sim uma invasão enorme de bovinos que param a cidade inteira.

Até aí o filme, aparentemente, só apresentou falhas, não é mesmo? Sim, mas mesmo com tantos defeitos não há como não vislumbrarmos a maravilhosa fotografia que engrandece ainda mais as fantásticas paisagens australianas magistralmente filmadas (ao menos no início do longa) por Baz Luhrmann. É impossível também deixarmos de notar que, de uma forma ou de outra, o longa consegue nos divertir, ainda que seja só um pouco. A seqüência do “estouro” da boiada à beira de um precipício confere uma forte tensão ao espectador e, por mais que os efeitos em CGI sejam muito mal empregados, a cena é muito bem dirigida e proporciona ao espectador um clima forte o bastante para nos fazer roer as unhas de apreensão (apesar de ser lamentável o irritante Nullah ter sobrevivido à mesma). Não fosse o fato de um determinado personagem fazer gracinhas na hora errada (onde já se viu fazer palhaçadas em uma situação desesperadora como aquela?), a seqüência teria se saído maravilhosamente bem.

Mas os ‘heróis’ conseguem cumprir com o seu objetivo, embarcam o gado, derrotam o inescrupuloso barão da indústria de carnes da Austrália e aí temos um final feliz, de acordo? Não, lamentavelmente não. Se o filme de Luhrmann parasse por aí, o mesmo teria, ao menos, se revelado uma interessante diversão, apesar de deveras infantil e nada original. Entretanto, Luhrmann é megalomaníaco e queria mais, queria fazer de “Austrália” o mais novo épico da indústria cinematográfica. A partir deste instante então somos arremessados, sem a menor sutileza, a um novo filme, totalmente diferente daquele outro apresentado até então, mas com os mesmos personagens. A premissa inicial é completamente abandonada e a mania de grandeza do filme decide, do modo mais indelicado o possível, cruzar a ridícula trama que envolve o destino do garoto Nullah com o ataque aéreo que os japoneses realizaram àquela região do globo terrestre durante a Segunda Guerra Mundial.

O que se vê então é uma tentativa muito supérflua de abordar o preconceito que os aborígines e, principalmente, os mestiços sofriam naquela região. Pior ainda é testemunharmos a volta do rancor estadunidense perante os japoneses sendo exibida pela sétima Arte. Sinceramente, imaginei que os moradores da Terra do Tio Sam haviam parado, desde o lançamento do fraco “Pearl Harbor”, de utilizar o Cinema para culpar injustamente os japoneses pelos conflitos ocorridos entre eles durante a Segunda Grande Guerra, mas vi que estava redondamente enganado. “Austrália”, além de acusar os filhos da Terra do Sol Nascente de terem iniciado os confrontos, ainda os estereotipa retratando o modo como os mesmos realizavam ataques aéreos e matavam, sem quaisquer resquícios de clemência, pessoas indefesas (como se os estadunidenses também não o fizessem).

Não bastasse tudo isso, este terceiro ato do filme, além de ser desconexo com relação ao primeiro e, até mesmo, ao segundo, se revela fortemente piegas e previsível. Se por um lado o mesmo abandona toda a infantilidade presente outrora em seu roteiro (e eu, particularmente, senti-me incomodado com a mudança de caráter extremamente forçada pela qual alguns personagens passam), por outro lado as tentativas de fazer o público se emocionar com o drama são bastante artificiais. Porém, artificiais ou não, não há como negar que o longa, em alguns raros casos, consegue, de fato, nos emocionar, o que já é um grande feito.

Este é “Austrália”, um fraquíssimo candidato a épico que, na dificuldade que encontra ao tentar firmar-se como dois filmes em um só, acaba aborrecendo o espectador causando fortes dúvidas neste que não sabe ao certo se está assistindo a uma aventura pelos desertos australianos ou a um drama sobre a Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, o longa falha tanto em uma tentativa, quanto em outra, tornando-se visivelmente imaturo e caricato em sua primeira metade e excessivamente piegas em sua segunda metade. De qualquer forma, não há como negarmos que o mesmo, apesar de irritar muitas vezes, revela-se divertido em alguns momentos e comovente em outros, além de nos brindar com uma fotografia primorosa e direção de arte e figurinos excepcionais.
Avaliação Final: 4,0 na escala de 10,0.
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