Posts Tagged ‘Ficção Científica’
Alphaville – ***** de *****

Crítica:
Certa vez afirmei (e o fiz há muito tempo atrás, antes mesmo de criar o “Cine-Phylum”, para que vocês possam ter uma noção) que, se algum dia o extraordinário “Admirável Mundo Novo”, obra-prima literária de 1932 do escritor inglês Leonard Aldous Huxley, fosse fidedignamente adaptado às telonas, teríamos então a maior obra cinematográfica da história da sétima Arte. Ao afirmar isso, contudo, não sabia da existência deste “Alphaville”, que sim, em muito me lembrou o livro de Huxley. Mas antes de realizar quaisquer analogias que seja, vamos falar da obra em questão e da pessoa responsável por ela: o genial Jean-Luc Godard.
Uma palavra resume bem este mestre do cinema: inovação. Seja como crítico de cinema, seja como cineasta, Godard sempre fez questão absoluta de inovar, seja para o bem, seja para o mal (e mesmo que adore “Je Vous Salue, Marie”, admito que a direção de Godard, por mais inovadora que tenha sido naquele filme, acabou se revelando exagerada e desnecessariamente estilizada). Em “Alphaville”, o mais importante diretor francês de todos os tempos, fez uso de vários aspectos do cinema de ficção científica e do cinema noir para que assim pudesse obter um resultado bastante completo. Reavivando o clássico detetive à lá Dick Trace e inserindo-o em um contexto futurista pouco e, ao mesmo tempo, muito convencional, Godard aposta alto em uma mistura que assustaria a qualquer espectador que se possa imaginar. Afinal de contas, um personagem como Lemmy Caution está para um filme de ficção científica assim como o Dr. Von Braun está para um filme gângster saído diretamente dos anos 1.930.
E essa salada de gêneros e gerações com aspecto visual pouco convidativo (e é claro que não me refiro ao aspecto visual diegético da obra, mas sim à estranha aparência que esta salada cinematográfica abstrata entre ficção científica / filme policial noir possui), mas palatavelmente digerível, reflete praticamente toda a carreira de Godard: um gênio ousado, inovador, intrépido, impertinente e que sempre une aspectos do passado com o presente, visionando assim um futuro mais do que aceitável na grande maioria de seus filmes. “Acossado” é a maior prova disso. Em sua obra-prima máxima, Jean-Luc pega características de um Humphrey Bogart oriundo de “O Falcão Maltês”, soma com aspectos sui generes, insere-o em um drama romântico existencialista protagonizado por um casal bastante desconexo, mas muito comum para a época e, com isso, estuda os típicos relacionamentos amorosos desestruturados que viria tomar conta de nosso mundo atual.
Em “Alphaville” a estória é praticamente a mesma. Godard extrai a premissa Homem versus máquina pertencente à obra-prima máxima de Fritz Lang, “Metrópolis” (muitos acreditam que “M – O Vampiro de Düsseldorf” seja mais digno deste título, mas continuo preferindo a ficção científica de 1.926 ao pai dos policiais noir de 1.931), soma esta com o seu toque especial de sempre, mescla o fruto de tudo isso com o cinema noir e diversos aspectos criados com o surgimento da nouvelle vague e, como resultado final, temos uma obra-prima excepcional que já nasce bem a frente de seu tempo.
Quanto mais os anos se desenrolam, mais “Alphaville” se torna moderno, verossímil, plausível de ser absorvido dentro de nosso contexto real. Quanto mais as décadas se desenvolvem, mais percebemos que as máquinas estão se tornando o lobo do Homem. Mais intensamente podemos notar o quão o criador passou a depender de sua cria. Nesta magistral ficção-científica, Godard deixa tudo isso extremamente claro, nos apresentando a uma cidade futurista, mas com um visual extremamente parecido com a Paris dos anos 1.960 (o que resulta em um grande acerto do filme, afinal de contas, é muito mais pertinente, aqui nesta trama, a criação de um futuro cujas evoluções tecnológicas não trazem benefício algum à humanidade), onde o cérebro do governo é representado pelo supercomputador Alpha 60, o irmão mais velho ou, de repente, o pai de Hal 9000 de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, que controla a “galáxia” (assim como é chamada no filme) inteira.
Não basta-se o fato de a sociedade toda ser controlada por este supercomputador, os habitantes da cidade de Alphaville ainda são proibidos de sentir quaisquer tipo de emoção que seja. Todas as pessoas aqui são obrigadas a unicamente trabalhar e nada mais. Não há questionamentos (jamais diga “por que”, diga apenas “porque”), não há liberdade de expressão, não há sentimentos (“Por que o mataram?” ___ Pergunta uma pessoa. A outra responde: “___Porque ele chorou a morte da esposa.”), não há nem mesmo a Arte. Não há absolutamente nada que fuja, ainda que de soslaio, da razão, da mais pura ciência e do enfadonho e cíclico cotidiano, que em hipótese alguma pode ser questionado.
Alphaville é o lar dos alienados, das pessoas que não possuem alma, que não possuem emoções, que não possuem vida e nem sentido. Uma cidade aterrorizantemente dominada pela falta de propósito individual, onde cada cidadão constitui apenas um número, um mero parafuso que permite com que a máquina do Estado continue funcionando corretamente. O Sistema controla a tudo e a todos, e as pessoas são apenas meros órgãos vitais, mas que podem ser substituídos a qualquer instante e que colaboram para com a sobrevivência do mesmo, sem obter quaisquer gratificações por isso.
Assim como em “Admirável Mundo Novo”, “Alphaville” também é tomado por pessoas que nada mais são do que meras ferramentas aprisionadas em um sistema político-econômico exacerbadamente totalitário, onde todas as regras da fria Teoria Clássica da Administração, idealizadas por Henry Fayol, são adotadas ao extremo, transformando operários em indivíduos literalmente descartáveis.
E já que mencionei a obra literária encantadoramente redigida por Huxley no parágrafo acima, como não comparar a conversação ocorrida entre Caution e o computador Alpha 60 (um dos melhores e mais instigantes diálogos da história do cinema, diga-se), ocorrido durante o segundo ato da projeção, com a confabulação entre o Selvagem e o Diretor do Centro de Incubação, descrito pouco antes do término da leitura de “Admirável Mundo Novo”? O formato do colóquio é diferente, mas o conteúdo é praticamente o mesmo. Se no livro o Selvagem defende William Shakespeare, nas telas o personagem Lemmy Caution defende a poesia em si (“___ O que transforma as trevas em luz?” ___ Pergunta a máquina. O homem responde: “___ A poesia.”), no que nos soa como uma clara referência de Godard à inerência de um mundo recheado com a sua maior paixão: a Arte.
Fortemente enriquecido por uma direção de arte fantástica, que, mesmo embasada na Paris dos anos 1.960, consegue nos remeter à idéia de um futuro não tão distante, “Alphaville” ainda funciona como um excepcional exercício de edição e direção (destaque para a tomada aérea que Godard realiza a fim de filmar uma perseguição automobilística), mas não restam dúvidas de que o forte desta obra-prima da ficção-científica reside mesmo em seu magistral roteiro que tece as mais ferrenhas críticas que se possa imaginar a um mundo onde o excesso de razão acaba criando uma sociedade sem propósito, sem sentido, sem conteúdo e fortemente enraizada nos conceitos tayloristas e fayolistas de administração, ou seja, um mundo não muito diferente do que vivemos hoje em dia, onde as máquinas, que são as nossas crias, parecem ter nos escravizado definitiva e indiretamente. Se em 1.959 Jean-Luc Godard fez de seu “Acossado” um divisor de águas para o cinema, em 1.965 ele fez a mesma coisa com “Alphaville”, sendo que, neste último, o genial cineasta acabou sendo mais específico já que, voluntária ou involuntariamente, transformou a sua obra em um divisor de águas do gênero ficção-científica, fazendo com que o mesmo concretiza-se visivelmente a função de “ponte” para obras inesquecíveis do gênero, bem como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Blade Runner – O Caçador de Andróides”. Peca apenas em seu “happy end”, com direito a “___ Je vous aime!” e outros aspectos hollywoodianos a mais. Não que o desfecho seja fraco ou desconexo, longe disso, mas um “sad end” certamente frisaria muito mais a mensagem que a obra nos apetece passar e fazer-nos refletir.
Obs.: O nome do conjunto habitacional composto por cerca de cinqüenta mil habitantes, situado na cidade de Barueri, estado de São Paulo, e destinado a pessoas com um nível social mais… digamos… confortável (entre eles muitos artistas (artistas?!) famosos, nacionalmente falando), trata-se de uma clara referência à obra cinematográfica analisada há pouco.
Obs. 2: Anna Karina, que faz par com o ator estadunidense Eddie Constantine, era a esposa do cineasta francês Jean-Luc Godard durante a época em que o filme foi lançado.
Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.
Star Trek – **** de *****
Ficha Técnica:Título Original: Star Trek
Gênero: Ficção Científica
Tempo de Duração: 126 minutos
Ano de Lançamento: 2009
Site Oficial: www.startrekmovie.com
Países de Origem: Estados Unidos da América e Alemanha
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Alex Kurtzman e Roberto Orci, baseado em série de TV criada por Gene Roddenberry
Elenco: Chris Pine (James Tiberious Kirk), Zachary Quinto (Spock), Leonard Nimoy (Spock Prime), Eric Bana (Nero), Bruce Greenwood (Capitão Christopher Pike), Karl Urban (Dr. Leonard “Bones” McCoy), Zoe Saldana (Nyota Uhura), Simon Pegg (Scotty), John Cho (Hikaru Sulu), Anton Yelchin (Pavel Chekov), Ben Cross (Sarek), Winona Ryder (Amanda Grayson), Chris Hernsworth (George Kirk), Jennifer Morrison (Winona Kirk), Rachel Nichols (Gaila), Faran Tahir (Capitão Robau), Clifton Collins Jr. (Ayel), Antonio Elias (Oficial Pitts), Freda Foh Shen (Kelvin Helmsman), Jimmy Bennet (James T. Kirk – jovem), Jacob Kogan (Spock – jovem), Tyler Perry (Almirante Richard Barnett), Ben Biswagner (Almirante James Komack) e Akiva Goldsman (Integrante do Conselho Vulcano).
Sinopse: James Tiberious Kirk (Chris Pine) é um jovem rebelde inconformado com a morte de seu pai. Certo dia, recebe convite para fazer parte da formação de novos cadetes para a Frota Estelar. Uma vez lá conhece Spock (Zachary Quinto), um vulcano que optou por deixar seu planeta porque é metade humano e discordava do preconceito. Durante o treinamento, e também na primeira missão, os dois vivenciam novas experiências provocadas por seus estilos diametralmente opostos. Assim, Spock, o cerebral, e Kirk, o passional, viverão uma grande aventura ao lado de outros tradicionais integrantes da tripulação da U.S.S. Enterprise, a mais avançada nave espacial da época. (Roberto Cunha).
Fonte Sinopse: Adoro Cinema
Star Trek – Trailer:
Crítica:
Há muito tempo (muito tempo mesmo) citei que J. J. Abrams era uma das poucas falhas contidas no ótimo “Missão: Impossível 3”. Ao contrário de boa parte da crítica especializada, a “handcam” empregada pelo diretor não me agradara nem um pouco, haja visto o ritmo atordoantemente frenético que a mesma havia conferido ao filme que, sob mãos mais seguras e menos histéricas, nos seria capaz de proporcionar sequências de ação mais aproveitavelmente divertidas.
Em “Star Trek” digo justamente o contrário. O mérito da produção em questão é, acima de tudo, de J. J. Abrams. Desta vez o cineasta (que é também o responsável pela série televisava “Lost”, que eu nunca assisti e, sabe-se lá o porquê, nem pretendo faze-lo) adota uma direção mais segura e se mostra responsável por um trabalho de câmeras muito mais consistente do que o que havia realizado no longa estrelado pelo superestimado Tom Cruise.
E não apenas o modo como filma as cenas de ação ou as técnicas que adota para movimentar a sua câmera fazem deste seu mais novo trabalho algo digno dos mais sinceros elogios. Abrams destaca-se também ao utilizar algumas perspicácias que conferem à sua direção a aparência de ter sido realizada por um cineasta bem mais experiente. É o caso de uma cena onde um personagem menciona: “___ Aprendi isso com um amigo meu” e, logo em seguida, o diretor retira a câmera do foco que havia feito em cima do interlocutor e realiza um curto e rápido, embora suave, “travelling” no personagem o qual ele se referia. Sem necessitar dizer uma única palavra, já percebemos que o tal personagem era a pessoa a qual o interlocutor se referia. É como sempre dizem: uma imagem vale mais do que mil palavras e, no caso do Cinema, uma imagem competentemente filmada passa a valer muito mais.
Todavia, devo ressaltar que a grande maioria do público que vai aos cinemas contemplar “Star Trek” está, na verdade, ansiando buscar uma sessão nostalgia ao lado de personagens marcantes como o Capitão Kirk, o Sr. Sulu, o Dr. McCoy e, é claro, o Sr. Spok, e não testemunhar o trabalho de Abrams como diretor. A pergunta que fica no ar então é a seguinte: “o filme faz jus à clássica saga cinematográfica iniciada em 1.979 e, principalmente, à ainda mais clássica série televisiva que levava os seus respectivos apreciadores à loucura durante os anos 1.960?”. A resposta para esta questão é, como não poderia deixar de ser: depende.
Quando o filme em questão se inicia, logo sentimos falta da marcante música-tema que, ao contrário dos episódios anteriores, não abre este longa, o que nos resulta em uma certa frustração. Tentamos esquecer esta pequena grande falha e, conforme a projeção avança, percebemos que estamos diante de uma trama bastante complexa e intrincada, mas não há como deixarmos de reparar em dois pontos em especial. O primeiro é que “Star Trek” conta com cenas de ação em excesso e muitas vezes se esquece de parar para explorar os seus personagens ou a sua própria estória. O segundo apontamento é que a trama, apesar de abstrusa, não atinge o mesmo grau de complexidade que muitos episódios da série televisava, ou até mesmo da série cinematográfica (como “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan” (só uma curiosidade: é estranho notar que “Jornada nas Estrelas” é uma das poucas franquias cinematográficas onde o episódio original não apenas não é o melhor, como também é um dos piores), apenas para citar um exemplo) conseguiam atingir.
Mas em momento algum, no entanto, temos a sensação de que estamos assistindo a um filme “hollywoodiano” qualquer. Tampouco posso afirmar que “Star Trek” não resgata a magia do seriado que lhe deu origem. A música-tema original faz falta? E como. O excesso de cenas de ação soa estranho para um filme que carrega consigo a “marca” “Jornada nas Estrelas”? Certamente soa. A trama conta com mais ação do que ficção científica propriamente dita? Não resta uma dúvida sequer quanto a isso. Mas ainda assim o filme encontra-se em um patamar muito superior a das produções atualmente padronizadas por Hollywood.
Se a indústria cinematográfica vem, cada vez mais, insultando a nossa inteligência com baboseiras do naipe de “Velozes & Furiosos 4”, “Star Trek” aparece como um colírio para os nossos olhos e, ao invés de zombar do atilamento de seu público
alvo, realiza uma trama que, apesar de não ser tão complexa quanto o esperado, é muitíssimo bem vinculada, muitíssimo bem arquitetada e aborda de forma satisfatória questões físicas, astrofísicas e científicas.
“Star Trek” provavelmente não é a obra-prima que os fãs tanto esperavam, mas ainda assim revela-se uma agradabilíssima sessão nostálgica e faz jus aos mais clássicos momentos de toda a saga televisiva e cinematográfica que marcou uma geração inteira de adolescentes (que agora são nossos pais). A trama é suficientemente interessante, apesar de não ser tão complexa quanto o esperado; o elenco cumpre muito bem as suas funções; as cenas de ação, apesar de excessivas, são eletrizantes e extremamente bem dirigidas por J. J. Abrams, que realiza aqui o seu melhor trabalho direcionado à sétima Arte.
E se encerro no clichê, é porque não vejo outro modo de fazê-lo, mas enfim: “vida longa e próspera à nova investida cinematográfica da franquia “Star Trek”.”.
Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.
Fahrenheit 451 – **** de *****
Gênero: Ficção Científica.
Tempo de Duração: 112 minutos.
Ano de Lançamento: 1966.
Nacionalidade: Inglaterra.
Direção: François Truffaut.
Roteiro: Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury.
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Linda / Clarisse), Cyril Cusack (Capitão), Anton Diffring (Fabian), Anna Palk (Jackie), Ann Bell (Doris), Caroline Hunt (Helen), Jeremy Spenser, Bee Duffell, Alex Scott e Michael Balfour.
Sinopse: Em um futuro não muito distante, os “bombeiros” tem uma função bem diferente da de apagar incêndios e resgatar pessoas correndo sérios riscos de vida. Estes profissionais tem apenas a função de localizar e destruir qualquer espécie de obra literária existente, alegando que as mesmas são propagadoras da infelicidade, pois oferecem às pessoas uma vida que estas não podem ter e as tornam insatisfeitas com suas existências convencionais. Um destes bombeiros, Guy Montag (Oskar Werner), passa a questionar tais atos quando é influenciado pelos ideais de Clarisse (Julie Christie) e presencia a morte da tia da moça, que prefere ser incinerada a ver-se afastada de seus livros.
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É com esta frase de Albert Einstein que início a crítica de “Fahrenheit 451”:
“Um raciocínio lógico o leva de A a B. A imaginação o leva a qualquer lugar que desejar”
Imagine então um mundo sem livros. Agora me responda, seria possível imortalizarmos pessoas ou acontecimentos históricos sem a existência destes? E se não imortalizássemos estas pessoas e estes acontecimentos históricos, o mundo seria o que ele é hoje?
O que seria de nosso planeta sem a Guerra de Independência estadunidense? O que seria da Guerra de Independência estadunidense sem a Revolução Francesa? O que seria da Revolução Francesa sem os Ideais Iluministas? O que seriam dos Ideais Iluministas sem o Renascimento Cultural? O que seria do Renascimento Cultural sem a Cultura Romana? O que seria da Cultura Romana sem a Cultura Grega? Enfim, se seguirmos esta trilha, perceberemos facilmente que o mundo não seria absolutamente nada.
E qual seria a melhor forma de registrar tais acontecimentos e passa-los às gerações posteriores? Através de livros, não? Afinal de contas, se George Washington não houvesse lido frases do tipo: “Liberté, Egalité, Fraternité”, de Jean-Jacques Rousseau, não teríamos uma Declaração de Independência proferida por ele, teríamos? Se Che Guevara e Fidel Castro não tivessem acesso a nenhum livro sobre Marxismo, não teríamos a Revolução Cubana, teríamos?
Pois é, mas voltemos à questão proposta no início desta análise cinematográfica: imaginemos um mundo sem livros. Ray Bradbury imaginou e escreveu um livro onde as pessoas vivem em um futuro não muito distante, em que o governo é totalitário e, a fim de evitar manifestações populares inspiradas em ideais libertários registrados em livros, decidem queimar todo o tipo de publicação literária existente no mundo. Jean-Louis Richard e François Truffaut, assim como Bradbury, também conseguiram imaginar um mundo assim e adaptaram a obra escrita para o Cinema. O resultado? Um filme muito acima da média, certamente.
A antevisão de Bradbury, Truffaut e Richard ganhou vida nas telonas e nos apresentou a um futuro extremamente plausível. A subordinação popular aqui não é tão visível como era no perfeito “Metropolis”, mas não há como deixar de notá-la. Mulheres são escravas da beleza e de frivolidades impostas pela televisão, bem como telenovelas, e os homens são meros escravos do trabalho. Todos vivem objetivamente, todos realizam apenas o que tem de ser realizado e só. Não há questionamentos acerca de sua existência, não há pessoas sonhadoras, não há nada, apenas racionalidade e objetividade. Se algo é desse modo, é porque ele tem que ser desse modo, e ponto final.
Em suma, no ano de 1966 Truffaut levou aos cinemas uma cópia semi-fiel do que o mundo viria a ser em 2009, algo que nem mesmo Fritz Lang, Stanley Kubrick, Michael Radford, Ridley Scott e James Cameron conseguiram fazer com tanta perfeição (o que não quer dizer que o longa de Truffaut seja necessariamente o melhor do gênero, pois está muito longe, mesmo, de merecer tal título).
Quanto aos demais aspectos o filme também se sai muito bem. A fotografia é muitíssimo bem empregada, bem como a direção de arte que cria cenários muito parecidos com as nossas casas atuais (e sejamos francos, quem, em plenos anos 1960, iria julgar plausível a existência de televisões de plasma, iguais às que o protagonista tem em sua sala de estar?), o que dá ao filme um indispensável toque de verossimilhança.
Os atores também saem-se muito bem em seus respectivos papéis. Eles são inexpressivos? Sim, mas convenhamos, podemos esperar que, em uma sociedade onde a razão literalmente impera, os indivíduos que a compõem consigam demonstrar quaisquer expressões que sejam? É claro que não. O destaque no elenco fica por conta de Julie Christie que, como sempre, conta com a sua talentosa inexpressividade. A atriz sente dificuldades ao se expressar (assim como o fizera no excelente “Dr. Jivago”), mas o modo como entona todas as suas frases é o diferencial de sua atuação. Através do tom de voz que emprega, conseguimos perceber o tipo de emoção que ela deseja transmitir (a propósito, a personagem Clarisse é uma das poucas não-racionais em “Fahrenheit 451”, uma vez que ela pode ser taxada de subversiva). A propósito, costumo dizer que Christie é a versão feminina de Peter O’Toole.
Truffaut, como já era de se esperar, faz em “Fahrenheit 451” um trabalho excepcional. Além de recriar magistralmente o futuro pouco inspirador do livro de Bradbury, o diretor realiza um trabalho fascinante por trás das câmeras, conferindo total dinamicidade à obra utilizando “closes ins” a todo instante. Truffaut também mostra total eficiência através dos “travellings” com os
quais acompanha os seus personagens, mas o grande destaque de sua direção acaba mesmo ficando com o vazio emocional presente na mesma, algo imprescindível para um filme que visa, dentre muitas outras coisas, criticar o excesso de racionalidade de uma sociedade decadente.
O diretor francês deixa a sua marca registrada em “Fahrenheit 451” pela forma como transportou para a sétima arte a clássica cena em que Doris (Ann Bell) é queimada viva, junto com a sua casa e sua gigantesca coleção de livros.
Mas nem tudo funciona perfeitamente bem no filme em questão. Se Truffaut realiza aqui um dos melhores trabalhos de sua mais do que vitoriosa carreira, ele também comete algumas pequenas falhas, como incluir uma cena em que alguns policiais perseguem o protagonista Montag (Oskar Werner) sobrevoando uma lagoa pendurados por cabos de aço amarrados em helicopteros. A sequencia é bem curta, mas constrangedora o bastante, devido ao modo como a montagem é mal realizada. E não adianta se desculparem alegando que na época não havia condições de produzirem efeitos visuais mais bem feitos, pois “Metropolis” era a prova viva de que a cena poderia ter sido menos tosca e mais realista.
Os erros do filme, infelizmente, não se resumem a uma única cena mal feita. De forma alguma, vão muito além disso. O final de “Fahrenheit 451” se revela bastante deplorável e jamais faz jus ao restante da trama. Se nos dois primeiros atos da obra nos eram apresentadas fortes críticas ao excesso de racionalidade contido em uma determinada sociedade, no terceiro ato o filme cai em sua própria armadilha, quando chegamos à uma colônia onde pessoas subversivas decoram um determinado livro e, logo em seguida, o queima para livrarem-se de provas. Francamente, não sei se um final nestes moldes foi a intenção do roteiro ou não, mas caso tenha sido, o culpado é o próprio filme, e não este que vos escreve que não foi capaz de entendê-lo. Oras, se em uma sociedade moldada nos dois primeiros atos do filme as pessoas nada mais eram do que meros números, o que dizer então da sociedade moldada no terceiro ato? Existe maior racionalidade do que uma pessoa decorar um livro inteiro para depois poder queimá-lo?
Mas é como eu mesmo disse, pode ser que o filme tenha a total intenção de criar um desfecho extremamente racional, para utilizar-se de uma espécie de cinismo a fim de nos fazer crer que, no fim, tudo acabou bem, quando, na verdade, não foi o que aconteceu e as pessoas continuaram na mesmíssima situação, só que em um formato um pouco diferente.
Enfim, caso seja isso, desconsiderem os meus apontamentos e passem a considerar o filme perfeito.
Avaliação Final: 8,7 na escala de 10,0.
O Dia em que a Terra Parou (2008) – ° de *****

Título Original: The Day the Earth Stood Still.
Gênero: Ficção Científica.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.odiaemqueaterraparou.com.br/
Nacionalidade: Estados Unidos.
Tempo de Duração: 103 minutos.
Diretor: Scott Derrickson.
Roteirista: David Scarpa, baseado em roteiro de Harry Bates e Edmund H. North.
Elenco: Keanu Reeves (Klaatu), Jennifer Connelly (Helen Benson), Kathy Bates (Regina Jackson), Jaden Smith (Jacob Benson), John Cleese (Prof. Barnhardt), Jon Hamm (Michael Granier), Kyle Chandler (John Driscoll), Robert Knepper (Coronel), James Hong (Sr. Wu), John Rothman (Dr. Myron), Sunita Prasad (Rouhani), Juan Riedinger (William Kwan), Sam Gilroy (Tom), Tanya Champoux (Isabel), Mousa Kraish (Yusef), J.C. MacKenzie (Grossman), Daniel Bacon (Winslow) e Hiro Kanagawa (Dr. Ikegawa).
Sinopse: Refilmagem da clássica e consagrada ficção-científica produzida originalmente em 1951. O filme conta a estória de Klaatu (Keanu Reeves), um alienígena que vem ao planeta Terra com a intenção de se reunir com membros de outros planetas que optam por iniciar um processo de obliteração da raça humana, que vem, cada vez mais, destruindo o Planeta Azul. A cientista Helen Benson (Jennifer Connelly), a fim de preservar a espécie, se encontra com Klaatu e tenta convencer este de que o ser humano ainda pode ter salvação.
The Day the Earth Stood Still – Trailer:
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Em 1951, Harry Bates e Edmund H. North roteirizaram um filme que fora dirigido por Robert Wise e utilizava uma inesperada invasão alienígena como pano de fundo para debater questões bélicas, pacifístas e ambientais. Em 2008, David Scarpa roteirizou um filme que fora dirigido por Scott Derrickson (que se atreve a dizer que é fã da clássica obra mesmo após cometer um terrível atentado contra esta) e utilizava a mesma inesperada invasão alienígena como pano de fundo para debater… ops, esqueça a palavra “debater” e voltemos à metade da frase… utilizava a mesma inesperada invasão alienígena como pano de fundo para criar um ou outro efeito visual que realmente conseguisse chamar a atenção do público.
Pois é, conforme havia mencionado em meu texto sobre o clássico e original (e excelente, diga-se) “O Dia em que a Terra Parou”, imaginava que os efeitos visuais desta mais nova versão para o Cinema fossem infinitamente mais bem feitos do que os da versão anterior (aliás, é mais do que óbvio que estes seriam melhores, não?), mas não mais revolucionários (afinal de contas, os mesmos foram um marco na década de 1950). Logo, não há como não nos impressionarmos com efeitos em CGI como o gigantesco robô Gort (que, desta vez, não apresenta as mesmas falhas toscas que na versão anterior onde, ao mover os braços e as pernas, podíamos ver claramente que tratava-se de uma pessoa qualquer trajando uma fantasia, pois na medida em que suas articulações dobravam, a roupa também dobrava) e a nuvem de insetos extraterrestres que devasta boa parte de Manhattam.
Fora os efeitos visuais e alguns outros elementos técnicos (som e edição de som), o filme não se salva em mais nenhum outro aspecto, exceto, é claro, no que diz respeito à interessante, embora extremamente irregular, atuação de Jennifer Connelly e à pequena ponta que John Cleese realiza no final do segundo ato da trama (a propósito, o quê o meu ‘Python’ predileto estaria fazendo neste lixo da sétima Arte? A única justificativa realmente aceitável é que este tenha recebido um cachê muito alto para aparecer pouco, assim como aconteceu com o meu ator predileto, Marlon Brando, no interessante “Superman”).
E falando em atuações, o que dizer da pavorosa aparição (e confesso que “pavorosa aparição” se revela um termo bastante eufemista diante da intragável presença do ator durante o filme todo) do péssimo Keanu Reeves? Mais inexpressivo do que nunca (acredite, é verdade!), Reeves confere a seu personagem uma frieza forte o bastante para que não nos cativemos com ele, ou até mesmo com os seus propósitos no filme, durante um único nano segundo de projeção sequer. É óbvio que, vindo de um extraterrestre tão frio e racional quanto Klaatu, tal inexpressividade se revela, de uma certa forma, inerente à caracterização do personagem, mas sejamos francos, até mesmo o primeiro oficial da nave espacial USS Enterprise, o saudoso Sr. Spock, interpretado por Leonard Nimoy, conseguia expressar, quando necessário, um ou outro sentimento em seu semblante sisudo e inalterável. Tome como exemplo também o mesmo Klaatu da primeira versão de “O Dia em que a Terra Parou”. O personagem de Michael Rennie era tão racional quanto o protagonista desta refilmagem, no entanto, não só os objetivos daquele, como também a composição do ator que o encarnava, tornavam o inesquecível alienígena um personagem muito mais interessante do que o de Reeves. E o que dizer então do monólogo realizado por aquele? Mesmo contando com raras alterações de expressão, Rennie se mostrava capaz de nos envolver profundamente com tal cena, diferentemente de Reeves que, em momento algum, consegue nos chamar a atenção.
Não bastasse a falta de talento de quase todo o elenco, “O Dia em que a Terra Parou” ainda falha gravemente na maneira como o roteiro compõe os seus personagens. A própria personagem de Connelly é simplesmente patética. Executando a frustrada tentativa de desenvolvê-la através de uma crise familiar com o seu afiliado (Helen ama o garoto, mas não vê recíproca), o roteiro cai no mesmíssimo grave clichê que “Guerra dos Mundos” caiu há quase cinco anos atrás, com a diferença de que os personagens envolvidos naquela trama, apesar de extremamente falhos, se revelavam ligeiramente mais interessantes que os inseridos neste longa. O Professor Barnhardt, por sua vez, nem ao menos diz a que veio. Diferentemente do personagem da versão clássica, este aqui aparece em cena apenas para que os fãs do filme de 1951 possam se identificar com o mesmo (se identificar? Tentar estabelecer coligações entre a obra-prima de Wise e este lixo cinematográfico da pior espécie se revela um desperdí
cio de tempo total) e, francamente, o diálogo que o mesmo estabelece com Klaatu (“___ É quando estamos à beira do precipício que evoluímos!”. Simplesmente ridículo), em momento algum, se revela forte o bastante a ponto de fazer com que o protagonista mude de opinião em relação à raça humana. Aliás, o que dizer da artificial mudança de caráter de Klaatu? Sem dúvida alguma a mudança de caráter mais artificial já vista nos cinemas neste início de século (a não ser, é claro, que você pense que um sujeito que pretende destruir a raça humana mude veementemente de opinião apenas por ouvir um: “___ É quando estamos à beira do precipício que evoluímos!” e por presenciar duas pessoas se abraçando). Por fim, o que dizer da Secretária de Defesa Regina Jackson (desastrosamente encarnada por Kathy Bates)? Diferentemente do Secretário do filme original que debate humildemente com Klaatu sobre a imbecilidade e a imaturidade presente nos conflitos entre os membros de nossa raça, Regina nada mais é que uma personagem estereotipada, arrogante, aborrecedora e extremamente desnecessária à trama.
A química estabelecida entre os personagens é praticamente nula. Se um dos pontos mais fortes do filme roteirizado por Bates e North residia na cativante e agradabilíssima relação entre Klaatu e o garoto Bobby, neste atentado à sétima Arte produzido no ano de 2008 não temos uma única dinâmica que chegue aos pés daquela. Na versão original, a química estabelecida entre Klaatu e Bobby conseguia conferir à trama, além do típico charme presente nos filmes da década de 1950, uma série de discussões e ensinamentos sobre o modo correto de se evoluir uma espécie. Aqui, a relação entre o alienígena e o garoto Jacob (e os demais personagens, diga-se) é estabelecida na base da frieza e em momento algum nos cativa. Muitíssimo pelo contrário, a única coisa que ambos os personagens conseguem é nos irritar profundamente criando diálogos chatos e aborrecedores. Entretanto, o longa também erra quando tenta estabelecer uma química entre personagens de maneira menos fria, fazendo com que o roteiro descambe para o ridículo, para o piegas, para o lugar-comum.
Lamentável, afinal de contas, a única coisa que esta readaptação consegue é deixar no ar a seguinte indagação: “Se Scott Derrickson é tão fã da versão original de “O Dia em que a Terra Parou” quanto ele mesmo diz que é, por quê cargas d’água o fracassado… ops, digo… o cineasta (gargalhadas) pegou o filme de 1951, despejou um caminhão de esterco sobre o mesmo, bateu no liquidificador por 103 minutos e criou este grande pedaço de (e, adiantadamente, peço mil desculpas pela palavra de baixo calão que irei utilizar agora, mas diante de um erro cinematográfico tão grande quanto este, não me vejo possibilitado de agir de outra maneira) merda que, a partir do momento em que chegou nos cinemas do mundo todo, passou a boiar perdidamente no oceano mainstream hollywoodiano?”. Encerro esta crítica afirmando que, ao contrário da versão original (mais uma vez o comparei com o filme de 1951, não é? Mas fazer o quê, não há como escapar disso) que primava por abordar a relação terráqueo/extraterrestre de um modo não ofensivo, este remake é apenas mais um filme, dentre outros milhões do gênero, que se propõe a abordar uma possível relação interplanetária da forma mais imbecil e agressiva o possível. E, francamente, filme de merda (já pensou se a moda pega e eu começo a proferir um palavrão toda vez que estiver de extremo mau-humor após ter conferido uma obra tão ridícula quanto esta em questão?) imbecil e agressivo por filme de merda imbecil e agressivo, eu fico com “Independence Day” que, apesar de contar com uma trama ainda mais idiota, é bem mais divertido que esta refilmagem ridícula (ah sim, e apesar de todas as falhas, o longa ainda se dá ao luxo de ser enfadonho e contar com poucas sequências de ação). Uma pena que tenhamos começado o ano de 2009 com um filme que, certamente, figurará na lista de “Piores do Ano” da grande maioria dos críticos de Cinema do mundo todo.
Avaliação Final: 1,7 na escala de 10,0.
O Dia em que a Terra Parou – ***** de *****
Já disse isso várias vezes e torno a repeti-lo neste artigo: “gosto de analisar um filme embasado no período em que este foi lançado e não no período em que o assisti”. Por quê? Simples. Por uma questão de justiça e ética. Veja os efeitos visuais da clássica versão de “O Dia em que a Terra Parou”, por exemplo. São todos obsoletos, desde a criação do OVNI sobrevoando os céus de Washington no início do filme, aos raios lasers disparados pelo robô gigante Gort que desintegram as armas dos militares. Não restam dúvidas de que os efeitos visuais do remake que teve a sua estréia nos cinemas mundiais no dia de ontém são bem mais convincentes (apesar de que a probabilidade de serem tão revolucionários quanto é bem pequena), mas deve-se levar em conta a tecnologia adotada para fazer os filmes na época, e a tecnologia utilizada atualmente.
Contudo, se por um lado os efeitos visuais de “O Dia em que a Terra Parou” podem ser tidos como toscos nos dias de hoje, não há como negar a inventividade contida em seu roteiro. Apesar de contar com um clichê aqui e outro acolá, o longa dirigido por Robert Wise se revela a primeira ficção-científica sobre relações interplanetárias não ofensivas na história do Cinema (e se eu estiver errado, peço, por favor, que me corrijam). Fugindo de baboseiras do naipe de guerras interplanetárias, ou alienígenas que vêm até aqui com o único intento de destruir o planeta (e sejamos francos, por que um grupo de extraterrestres faria uma viagem longa e cansativa com o único propósito de nos destruir, sem mais nem menos? Pessoas como Dean Devlin e Roland Emmerich deveriam pensar nisso antes de criarem asneiras como “Independency Day”) os roteiristas Harry Bates e Edmund H. North nos oferece aqui um protagonista extremamente interessante: o alienígena Klaatu, que vem à Terra em missão de paz, pedir apenas para que suspendamos o uso de armas nucleares, evitando assim uma destruição do planeta e, consequentemente, do sistema solar.
O filme indaga, a todo tempo, a imbecilidade de nossas guerras e coloca a nossa raça em um patamar imaturo. Apesar de simples, o filme sempre nos remete à reflexões extremamente inteligentes sobre o dúbio rumo que nossos líderes políticos tomam a fim de evoluírem suas respectivas nações. E falando em nações, é incrível vermos a coragem do roteiro que, em plena década de 50 (quando Hollywood vivia a sua Era de Ouro), apresenta críticas severas à política de governo bélica estadunidense.
“O Dia em que a Terra Parou” peca, no entanto, ao criar um desfecho ligeiramente previsível para o seu protagonista. Há uma cena inserida em seu terceiro ato (que é claro, não revelarei qual é, muito menos o que acontece) que nos faz pensar em um final mais dramático, mais imprevisível, mais fora do comum, entretanto, na hora H, Bates e North pulam para trás e conferem a Klaatu um final mais, digamos, corretinho. O que eu tenho contra finais bonitinhos? Nada. Só sei que um desfecho mais trágico faria com que a obra tornasse ainda mais forte a mensagem que almeja passar.
Metropolis – ***** de *****
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Tecnicamente falando, o longa é esplendoroso. Além de conter uma direção de arte que vai além da perfeição (assim como eu dissera no parágrafo anterior) e que nos apresenta a uma cidade futurista onde toda a sua melancolia e claustrofobia nos é demonstrada através de arranha-céus magníficos e, ao mesmo tempo, sombrios e assustadores, helicópteros voando ao redor da cidade, auto-estradas congestionadas, poluição em demasia e muito mais, “Metropolis” conta também com efeitos visuais tão fulgentes que até mesmo nos dias atuais, onde filmes como “O Senhor dos Anéis” se revelam irretocáveis neste quesito, consegue se destacar com maestria, a ponto de se revelar revolucionário mesmo após ter passado quase um século desde a sua criação.
Star Wars – Episódio VI – O Retorno do Jedi – **** de *****

Ficha Técnica:
Gênero: Aventura/Ficção Científica.
Tempo de Duração: 131 minutos.
Ano de Lançamento (EUA): 1983.
Site Oficial: www.starwars.com/episode-vi
Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation.
Direção: Richard Marquand.
Roteiro: George Lucas e Lawrence Kasdan, baseado em estória de George Lucas.
Produção: Howard G. Kazanjian.
Música: John Williams.
Direção de Fotografia: Alan Hume.
Desenho de Produção: Norman Reynolds.
Direção de Arte: Fred Hole e James L. Schoppe.
Figurino: Aggie Guerard Rodgers e Nilo Rodis-Jamero.
Edição: Sean Barton, Duwayne Dunham e Marcia Lucas.
Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic.
Elenco: Mark Hamill (Luke Skywalker), Harrison Ford (Han Solo), Carrie Fisher (Princesa Leia Organa), Billy Dee Williams (Lando Calrissian), David Prowse (Darth Vader), James Earl Jones (Darth Vader – Voz), Ian McDiarmid (Imperador Cos Palpatine), Alec Guinness (Obi-Wan Kenobi), Anthony Daniels (C3PO), Kenny Baker (R2D2/Paploo), Peter Mayhew (Chewbacca), Sebastian Shaw (Anakin Skywalker), Frank Oz (Yoda) e Michael Pennington (Moff Jerjerrod).
Sinopse: Após ter sido raptado pelo caçador de recompensas Borba Fett, Han Solo (Harrison Ford) é levado como refém até o gangster Jabba, o Hutt. Luke Skywalker (Mark Hamill) e seus amigos partem em uma missão com o objetivo de resgatar o importante general. Enquanto isso, o Imperador Cos Palpatine (Ian McDiarmid) e Lorde Darth Vader (atuação: David Prowse, voz: James Earl Jones) lideram o projeto de construção de uma nova “Estrela da Morte” (estação espacial super poderosa que havia sido destruída pelos soldados da Aliança Rebelde em “Uma Nova Esperança”) ainda mais poderosa que a anterior. Em uma desesperada e arriscada tentativa de defesa, os líderes da Aliança Rebelde nomeiam Lando Calrissian (Billy Dee Williams) para comandar um ataque à nova estação espacial imperial e Luke Skywalker se prepara para o grande desafio de sua vida: enfrentar e derrotar Darth Vader e Cos Palpatine, tornar-se um verdadeiro cavaleiro Jedi e encerrar com esta guerra de uma vez por todas, trazendo paz e liberdade ao universo.
Return of the Jedi – Trailer:
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Crítica:
“O Retorno de Jedi” se inicia com a tentativa frustrada, organizada por Luke, Leia, Lando, Chewbaca, R2-D2 e C3PO, de salvar Han Solo das garras de Jabba, o Hutt. Durante este resgate mal-sucedido, o filme brinda o espectador com figurinos, maquiagem e efeitos visuais simplesmente vislumbrantes. Nunca, em toda a trilogia, os realizadores se mostraram capazes de aproveitar todas as qualidades técnicas da obra a fim de criar uma diversificação tão ampla de criaturas quanto às que nos são apresentadas no início deste último episódio, no reduto de Jabba e os responsáveis pelos efeitos visuais e pela maquiagem se revelam extremamente competentes ao darem um ar ainda mais realista às bizarras criaturas.
Outro ponto forte inserido em tal seqüência inicial reside na criatividade que o roteiro e a direção tiveram ao construí-la. Preste atenção, por exemplo, na riqueza de detalhes utilizada para compor as coreografias e os números de dança realizados na residência de Jabba. Observe também os acordes musicais tocados, remetendo-nos à lembrança de um gênero no melhor estilo free jazz. Tudo aparenta ter sido minuciosamente bem pensado, escrito e executado. O resultado não poderia ter sido melhor.
A entrada de Luke Skywalker em cena também colabora muito para que esta ganhe muito ritmo, uma vez que os poderes de Jedi do jovem protagonista ampliaram-se consideravelmente e a evolução técnica da obra, principalmente no que diz respeito aos efeitos visuais desta, faz com que as seqüências de luta com sabre de luz se tornem muito mais reais e empolgantes e contem com movimentos muito mais ousados que os dos episódios anteriores.
Mas se por um lado tal seqüência revela-se extremamente interessante, analisando-a apenas como entretenimento, por outro lado a mesma revela-se fraca e parcialmente desnecessária do ponto de vista narrativo. Justifico tal afirmativa tomando por base que, apesar de nos mostrar o resgate do general Han Solo (que primeiramente se revela frustrado, mas com a entrada de Luke em cena toma um outro rumo), os minutos iniciais do filme fogem completamente da proposta principal da trilogia que é narrar a guerra estelar entre o Império Intergaláctico e a Aliança Rebelde.
Evidentemente, é uma excelente pedida presenciarmos em um blockbuster (ainda mais um com as proporções de um “Star Wars”) cenas de ação fantásticas regadas com impecáveis efeitos visuais, além, é claro, de contar com uma atriz formosíssima (bem, ao menos, na época, ela era muito formosa, gostosérrima (me desculpem pela vulgaridade, garotas, mas estou sendo sincero), para falar a verdade), do naipe de uma Carrie Fisher, trajando vestimentas apertadíssimas e minúsculas, mas sejamos francos, para que uma seqüência destas dure longos vinte minutos, é necessário, ao menos, que esta tenha um propósito muito maior dentro da trama do que simplesmente mostrar o resgate de um dos protagonistas da mesma, algo que poderia ter sido realizado em cerca de cinco minutos.
Outro defeito presente em tal seqüência é o modo desonroso como Bobba Fett, que havia se revelado um importante e interessante personagem até então, sai de cena: o mesmo é derrotado por Han Solo através de um golpe de sorte e o que já era ridículo consegue piorar ainda mais devido ao fato de o longa utilizar tal cena como alívio cômico. Aliás, a maneira como este “O Retorno de Jedi” se “desfaz” de muitos de seus personagens é um dos maiores defeitos do mesmo. Note, por exemplo, a seqüência que ilustra a morte de um certo personagem, cuja identidade manterei em segredo, que havia cativado imensamente o público. Ele simplesmente diz: “___ Estou velho, preciso descansar.”, e pronto, sai de cena, sem mais nem menos, da maneira menos sutil o possível.
O roteiro, escrito por George Lucas e Lawrence Kasdan, optou, desta vez, por explorar menos os seus protagonistas, inclusive o próprio Darth Vader, e devo reconhecer
que esta fora uma sábia decisão, uma vez que o desenvolvimento dos personagens principais já havia sido realizado com maestria nos longas anteriores. Sendo assim, não há nada mais conveniente então, do que o roteiro tomar a inteligente decisão de focar-se, principalmente, em amarrar as pontas deixadas em aberto pelos dois episódios anteriores, deixando os seus protagonistas em segundo plano (salvo o Imperador Cos Palpatine que, pela primeira vez na trilogia, é abordado de uma maneira demasiadamente ampla e torna-se um dos personagens principais deste episódio final), e é justamente isto o que ocorre aqui.
Mas o roteiro conta com diversas falhas e estas, infelizmente, não se resumem aos minutos iniciais do longa, conforme já consta citado neste texto. A artificial revelação sobre o grau de parentesco entre Luke e Leia é o exemplo mais claro disso. Francamente, poucas revelações soaram tão artificiais, desnecessárias e formulaicas na história do Cinema quanto à cena em que Luke revela a Leia que possui um forte grau de parentesco com esta.
A direção de Richard Marquand, que em sua totalidade se revela muito boa, também comete alguns deslizes imperdoáveis e torna os defeitos que já vinham do roteiro ainda mais alarmantes. Vide os alívios cômicos. Em sua grande maioria, são todos infantis, desnecessários, tolos. Ao menos desta vez o casal Leia e Han se mostra mais maduro e Marquand dirige o romance entre ambos de maneira convincente e nada irritante. Sem dúvida alguma foi a melhor química entre ambos durante toda a saga.
As seqüências de aventura foram extremamente bem distribuídas pelo roteiro e estas colaboram, e muito, para que o filme jamais se torne cansativo e/ou visivelmente longo (salvo a seqüência inicial, conforme já fora comentado). Contudo, o roteiro se esquece de algo importantíssimo ao criar tais cenas: deve-se sempre dar prioridade ao qualitativo e relegar o quantitativo ao segundo plano. “O Retorno de Jedi” é o episódio da saga que conta com mais cenas de ação, contudo, nenhuma destas chega aos pés da perseguição espacial entre Han Solo e as naves imperiais dentro de uma tempestade de asteróides no episódio anterior, ou, principalmente, do ataque que a Aliança Rebelde realiza à estação espacial “Estrela da Morte” no episódio original. Parte desse defeito deve-se ao diretor Richard Marquand que, apesar de criar ângulos satisfatórios enquanto dirige tais cenas, não se mostra capaz de dar a estas a mesma sensação de urgência e perigo imediato que os diretores George Lucas e Irvin Kershner conseguiram fazer com maestria nos, respectivamente, quarto e quinto episódios.
Mesmo com todos os defeitos já relatados neste texto, não há como negar que “O Retorno de Jedi” é um ótimo filme e conta com muito mais qualidades do que defeitos. A maior qualidade do longa, muito provavelmente, fica por conta da maneira como este consegue amarrar algumas pontas deixadas pelos episódios anteriores de maneira natural. Certamente, a morte de muitos personagens (dois em especial) aqui soa extremamente artificial e parece ser mais uma jogada do roteiro, como se este tivesse a obrigação de dar fim a tais personagens e, seja pela falta de tempo, criatividade, ou até mesmo, força de vontade, o faz de modo nada convincente. Ainda assim, os roteiristas Lucas e Kasdan se preocupam em criar um desfecho extremamente interessante à trama e aos seus respectivos protagonistas.
A dinâmica desenvolvida entre Luke Skywalker e Darth Vader também é outro ponto extremamente forte e relevante deste episódio final, principalmente depois da revelação ocorrida em “O Império Contra-Ataca”. E se no longa anterior a luta entre ambos já se mostrava extremamente tensa e dramática, imagine só neste “O Retorno do Rei” o impacto emocional que a mesma causa, principalmente quando sabemos que ali, um dos dois irá encontrar o seu trágico fim, além, é claro, desta vez estarmos cientes do grau de parentesco entre ambos, uma vez que no longa anterior Vader faz a revelação a Luke somente após a luta ter se encerrado.
E a carga dramática entre Vader e Skywalker certamente não reside apenas no dramático combate final entre ambos (que se revela a melhor luta de sabres de luz de toda a trilogia, apesar de não chegar aos pés da maioria das seqüências de ação dos dois episódios anteriores), muito pelo contrário. O âmago de tal química encontra-se nos diálogos entre o mocinho e o vilão da estória. O primeiro, tenta convencer o outro de que ainda há bondade nele e há a possibilidade deste voltar a atuar pelo lado iluminado da Força, ao passo que o segundo, tenta desesperadamente compenetrar o jovem Jedi a seguir o lado escuro da Força e derrotar o Imperador de uma vez por todas, assumindo o controle total do império ao seu lado.
Falando no imperador Cos Palpatine, a aparição deste também aumenta, e muito, o peso dramático do filme. Nos longas anteriores víamos Palpatine apenas através de hologramas, neste episódio de encerramento, presenciamos o mesmo em carne e osso, durante muitas cenas do filme e pode apostar, apesar deste não possuir traços tão marcantes quanto os de Vader, ele se revela tão assustador quanto o seu subordinado. Outra característica marcante de Palpatine reside na oratória deste. Sempre disposto a persuadir às pessoas a seguirem os seus ideais ao invés de simplesmente descarregar seus poderes nestas, o imperador apela a Luke para que este se junte a ele utilizando sempre diálogos extremamente convincente, como por exemplo a cena em que mostra ao rapaz as terríveis baixas que a Aliança Rebelde está sofrendo no confronto direto com o Império e que a única possibilidade de salvá-los é justamente unindo-se ao lado escuro da Força. O imperador também desempenha um papel muito importante para o destino final de Vader e Skywalker e colabora para que o combate entre ambos tenha um resultado final tão dramático quanto teve no longa anterior.
Apesar de ficar bem aquém aos outros dois episódios da saga, “O Retorno de Jedi” conta com um roteiro que se preocupa em amarrar, de maneira fascinante (salvo em um outro caso onde se mostra extremamente artificial ao fazê-lo), as pontas que os seus antecessores deixaram em aberto e desenvolve a química entre Luke Skywalker e Darth Vader de um modo épico. O imperador Cos Palpatine, que antes só nos era apresentado via hologramas, aparece em carne e osso neste episódio final e ganha uma abordagem digna de líder de Darth Vader. Os aspectos técnicos do filme são fantásticos, a direção de arte cria cenários inesquecíveis e os efeitos visuais são os melhores de toda a trilogia, além, é claro, de possibilitarem com que as lutas de sabre de luz sejam mais realistas e empolgantes que as dos filmes anteriores. O longa, no entanto, se revela falho em muitos de seus aspectos, sobretudo pelo início desnecessariamente longo, pelos alívios cômicos pífios e, principalmente, por não contar com seqüências de aventura realmente marcantes, como os episódios anteriores conseguiram fazer. Um ótimo filme, mas não há como negar que a saga “Star Wars” merecia um desfecho bem mais digno.
Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.
Star Wars – Episódio V – O Império Contra – Ataca – ***** de *****
Título Original: The Empire Strikes Back.
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ca Imperial March, brilhantemente orquestrada pelo mestre John Williams, é ressoada de maneira que cause um impacto direto no espectador e, finalmente, vemos Lorde Darth Vader sentado em sua majestosa poltrona. Uma cena arrepiante, marcante, magistralmente bem realizada por Kershner, que confere uma união perfeita entre vários aspectos do longa (direção, direção de arte, trilha-sonora, fotografia, figurino e, é claro, roteiro) e que, por si só, já faz com que o espectador necessite dar uma conferida na obra, mesmo que este não se interesse pela trilogia.
Star Wars – Episódio IV – Uma Nova Esperança – ***** de *****
Título Original: Star Wars.
Elenco: Mark Hamill (Luke Skywalker), Harrison Ford (Han Solo), Carrie Fisher (Princesa Leia Organa), Peter Cushing (Grand Moff Wilhuff Tarkin), Alec Guinness (Obi-Wan Kenobi), Anthony Daniels (C3PO), Kenny Baker (R2D2), Peter Mayhew (Chewbacca), David Prowse (Darth Vader), Phil Brown (Tio Owen Lars), Shelagh Fraser (Tia Beru Lars), Alex McCrindle (General Jan Dodonna), Eddie Byrne (Comandante Vanden Willard) e James Earl Jones (Darth Vader – Voz).
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itudes nem um pouco altruístas o tornam um personagem interessantíssimo, principalmente se levarmos em conta que ele é um dos heróis da estória. Todas estas características o colocam em uma posição bem distante do estereotipo do herói altruísta e estóico que estamos acostumados a ver repetidamente nos filmes do gênero. Contudo, há uma passagem ocorrida no final do filme onde Solo toma uma atitude tão discrepante com relação aos seus princípios morais que põe em jogo todo esta concepção de “mercenário que só se preocupa com dinheiro” que havíamos absorvido do mesmo durante a projeção inteira. A justificativa utilizada por este (“___ Não deixaria você (Luke) ficar com a glória toda só para si”) torna a sua atitude um pouco menos artificial, mas ainda assim a mesma não deixa de ser discrepante.
Star Wars – Episódio III – A Vingança dos Sith – **** de *****

Ficha Técnica:
Sinopse: Após salvar o Senador Palpatine, que fora seqüestrado pelos exércitos rebeldes, Anakin Skywalker se torna ainda mais íntimo deste. Entretanto, o jovem aprendiz de Obi-Wan Kenobi não sabe que o Senador almeja tomar o poder absoluto e utilizá-lo como principal ferramenta para tal.
Star Wars: Episode 3 – Revenge of the Sith – Trailer:
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A sensação que este “A Vingança dos Sith” deixou nos fãs da saga “Star Wars” durante o seu lançamento nos cinemas foi provavelmente a mesma sensação de angústia que “O Retorno do Rei” deixou nos fãs da saga “O Senhor dos Anéis” ou “A Última Cruzada” deixou nos fãs da trilogia “Indiana Jones” (que recentemente fora estendida com um interessante quarto episódio). Afinal de contas, os milhões de fãs que a mesma possui já não poderiam mais lotar as salas de cinema do mundo todo a fim de se reencontrar com o mundo mágico criado por George Lucas em uma aventura inédita. Mas ao menos serve de consolo o fato destes fãs saberem que a saga, a partir do momento que este terceiro episódio estreasse nos cinemas do mundo todo, estaria completa e que, agora, todas as pontas existentes entre a antiga e a atual trilogia encontravam-se, finalmente, completamente amarradas.
É uma tarefa muito árdua, no entanto, amarrar todas as pontas de ambas as trilogias de um modo realmente convincente e satisfatório. Pode-se confirmar isto neste “A Vingança dos Sith” onde, ironicamente, as maiores falhas e os maiores acertos do mesmo residem, justamente, na tentativa do roteiro criar elos entre uma trilogia e outra. Vide o maior erro do roteiro, por exemplo, que consiste em mostrar o principal motivo que teria levado Anakin Skywalker a abraçar o lado escuro da Força. Após ter uma visão, durante um sonho seu, onde sua esposa Padmé Amidala (que agora encontra-se grávida) perde a vida após dar a luz a um filho seu, o jovem Padawan passa a buscar medidas desesperadas a fim de evitar que tal fato seja concretizado. Ao saber da situação em que o jovem se encontra, o Senador Palpatine, Chanceler Supremo da Federação e Mestre dos Lords Sith (uma espécie de Jedi que utiliza a Força apenas para benefício próprio), propõe a Skywalker que este se una a ele no combate contra os Jedi e em troca, o político ensinará ao jovem os poderes do lado escuro da Força que poderão salvar a vida de Padmé. Francamente, uma lastimável e artificial solução que o roteiro encontrou para fazer com que o jovem muda-se completamente de posição ideológica.
Por outro lado, o mesmo roteiro que apresenta uma solução tão simplória e artificial para a mudança de caráter repentina de Skywalker, se revela extremamente satisfatório ao trabalhar os demais pontos que fizeram com que o aprendiz de Obi-Wan Kenobi sofresse tal mutação ideológica. Uma vez que o episódio anterior já cumprira a excelente tarefa de desenvolver Anakin de maneira bastante convincente, este terceiro episódio opta inteligentemente por não tentar desenvolver o personagem ainda mais. Ao invés disso, o roteiro toma a brilhante decisão de desenvolver o Senador Palpatine e o jogo psicológico que este realiza em Anakin, fazendo-o mudar completamente de lado (e sinceramente, se o roteiro não tivesse tomado tal atitude, a mudança de lado do protagonista soaria extremamente artificial e o filme se revelaria extremamente falho).
Conforme pudemos testemunhar em “Ataque dos Clones”, Anakin Skywalker era um jovem talentoso, mas extremamente arrogante e precipitado. Neste “A Vingança dos Sith” a sua impaciência aumenta cada vez mais levando em conta a insistência do Conselho Jedi em não conferir a ele o título de Cavaleiro Jedi (os membros do Conselho têm dúvidas quanto a Anakin em virtude à arrogância do rapaz e aos fortes laços que este tem com o Chanceler Palpatine, algo que, indiretamente, quebra a independência dos Jedi para com os políticos) e designar-lhe missões que realmente ponham em teste as suas inúmeras habilidades. Aproveitando-se da impaciência do aprendiz de Obi-Wan Kenobi e do gênio vaidoso deste, Palpatine trabalha, através de argumentos convincentes, a mente do jovem rapaz e o incentiva a auxiliá-lo a tomar o poder absoluto. A maneira como o roteiro desenvolve Palpatine, suas táticas de persuasão (salvo as que envolvem Padmé que, conforme fora citado, soam artifi
ciais) e seus diálogos é, não menos, do que excelente. Tudo foi cuidadosamente arquitetado pelo roteiro, para que a maior parte das alterações de caráter de Anakin não soassem artificiais.
O grande trunfo do roteiro, no entanto, consiste na virada espetacular que este dá na estória, a partir do início de seu segundo ato. A sensação que temos quando Palpatine põe em prática a sua “Ordem 66” (cuja descrição não irei fazer a fim de não estragar algumas surpresas) é a de que Lucas utilizou magistralmente os dois episódios anteriores (e, francamente, as pessoas que afirmam que este terceiro episódio tornou os outros dois desnecessários, simplesmente não sabem o que estão falando) a fim de mover estrategicamente todas as suas peças pelo tabuleiro e, quando chegasse o momento oportuno, utilizaria este terceiro episódio para dar o xeque-mate. E é justamente isto o que ocorre, cada peça movida nos longas anteriores teve importância vital para a conclusão desta trama, para o clássico desfecho da mesma. Simplesmente fascinante. Tão fascinante quanto à tristeza que nos assola ao ver a Ordem Jedi sendo completamente destruída.
As seqüências de aventura também são outra característica do filme que alternam entre altos e baixos. Logo no início somos apresentados à dupla de Jedis de “Ataque dos Clones”, Anakin e Obi-Wan, em uma missão de extrema importância: libertar o Senador Palpatine, que fora raptado pelo temível Conde Dookan. É exatamente nesta cena que podemos, pela primeira vez em toda a trilogia, notar a habilidade de Lucas na movimentação de câmeras. Pela primeira vez nesta trilogia vemos o “padrinho de todos os nerds” (como é conhecido o diretor) acompanhando as seqüências de ação de uma maneira realmente incrível. Note o modo como Lucas acompanha as naves espaciais durante a batalha, a movimentação com a câmera é perfeita e dá muita credibilidade à cena em si. Outro aspecto que conta muitos pontos a favor desta cena é a direção de arte que constrói, de maneira estupenda, uma nave espacial gigantesca fantástica. Tal seqüência parece ter sido sublimemente montada por Lucas a fim de homenagear as antigas batalhas intergalácticas contra um dos símbolos máximos da série, a Estrela-da-Morte, ocorridas na trilogia anterior.
Contudo, nem todas as cenas envolvendo aventura são tão magistrais quanto a seqüência acima citada (milagre eu não ter escrito “supracitada”, não?). Vide o duelo de sabres de luz travado entre Anakin Skywalker e Conde Dookan, apenas para citar um exemplo. Em virtude do que vimos no filme anterior, esperava-se uma luta bem mais consistente, empolgante, e isso acaba não ocorrendo. Temos aqui uma luta interessante, bem coreografada, mas que deveria ter sido mais bem trabalhada, principalmente do ponto de vista emocional, do que acabou sendo. Outra luta decepcionante é a ocorrida entre Obi-Wan Kenobi e o General Grievous, principalmente se levarmos em conta o interesse que a mesma nos desperta ao ficarmos sabendo que o segundo combatente, por possuir quatro braços, irá utilizar quatro sabres de luz simultaneamente, tornando a tarefa de derrotá-lo praticamente impossível ao destemido Jedi. No entanto, Kenobi derrota-o muito facilmente, o que torna a seqüência pouco emocionante. Por outro lado, as demais seqüências de ação envolvendo sabres de luz são fantásticas, em especial a mirabolante e empolgante luta entre Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker, agora Lord Darth Vader. Simplesmente um dos mais empolgantes duelos já proporcionados pelo Cinema e que, infelizmente, devido à baixa tecnologia da época e orçamento nem tão estrondoso quanto o utilizado nos filmes atuais, viria a se repetir de um modo bem menos interessante durante o quarto episódio da saga. Devo destacar também a luta entre Mace Windu e Lord Darth Sidious cujos cuidados com o resultado final foram tantos que acabaram envolvendo 102 movimentos e três grandes salas para ser filmada.
A direção de arte, como já era de se esperar (uma vez que esta se revela o ponto alto de toda a trilogia), é, não menos, do que estupenda, e mais: é empregada aqui de maneira ainda mais eficiente do que havia sido empregada nos filmes anteriores. Repare na beleza plástica que é Coruscant à noite, ou no salão de ópera onde Anakin tem uma das conversas mais importantes do filme com o Senador Palpatine, ou no verde natural estonteante do Planeta Utapau e ainda na beleza vulcânica do Planeta Mustafar (a propósito, a direção de arte majestosa do cenário aqui engrandece ainda mais a magnífica e dramática luta de sabres entre Obi-Wan Kenobi e Darth Vader).
Os demais aspectos técnicos do longa também não decepcionam. A fotografia, como sempre, é belíssima e dá ainda mais realce aos fabulosos cenários criados pela estupenda direção de arte, a trilha-sonora engrandece ainda mais as seqüências de aventura, suspense e drama do filme e o figurino também é sensacional, bastante diversificado e riquíssimo em detalhes, algo que fertiliza ainda mais a magia por trás do longa.
As atuações, no entanto, decepcionam e, se comparadas a “O Ataque dos Clones”, empalidecem consideravelmente. Se por um lado Ian McDiarmid realiza um trabalho supremo ao assumir a pele do Senador Palpatine e do Lord Darth Sidious (sinceramente, não vejo melhor ator para cumprir tal função), por outro lado o excelente Christopher Lee aparece muito pouco e os demais atores, nem de longe, conseguem criar uma atuação tão marcante quanto a que ele realizou no longa anterior. Ewan McGregor, se revela um bom ator neste longa, mas falha em algumas cenas onde precisaria fazer uma entonação de voz mais dramática. Natalie Portman só atua de maneira definitivamente convincente ao final do filme, que é justamente quando o roteiro confere uma carga dramática muito mais forte a sua personagem. Nas demais cenas, a atriz jerusalense não adota uma carga dramática forte o bastante para fazer com que a sua personagem se aproxime do público.
E quanto à atuação de Hayden Christensen? Bem, digamos que esta merece um parágrafo único para ser comentada de forma mais aprofundada. Christensen realiza uma atuação bastante irregular no longa e, assim como as cenas de aventura e as artimanhas utilizadas pelo roteiro a fim de amarrar a trama, seu trabalho aqui alterna constantemente entra altos e baixos (só que, neste caso ao menos, devo dar mais ênfase à palavra “baixos” que à palavra “altos”). Note, por exemplo, a maneira artificial como ele emprega um tom de voz ridiculamente grave e sombrio quando diz: “___ Eu lhe ofereço o meu empenho em troca de vossos ensinamentos!”. Por outro lado, o ator canadense emprega, durante muitas cenas, a expressão de uma pessoa realmente frustrada, cujas esperanças naquilo que julgava ser o certo a se fazer se revelam cada vez mais nulas, escassas e minguantes. Contudo, faltou a Christensen mais talento, mais expressividade, mais dramatização em sua composição, faltou algo que realmente convencesse o público de que ele é Darth Vader, ele é a alma de toda a trilogia.
Preparando a finalização deste texto, comentarei sobre outro ponto que também alterna entre altos e baixos (sim, mais um, este filme definitivamente se revelou uma montanha russa artística): os diálogos. Ao mesmo tempo em que temos diálogos extremamente inteligentes do tipo “O Bem é apenas um ponto de vista” (algo que Lucas, voluntaria ou involuntariamente, extraiu de filosofia nieztschiana) e “Era para você trazer equilíbrio à Força, não jogá-la na escuridão”, Lucas quase joga seu roteiro no lixo com absurdos do tipo: “Não, você vai tentar me matar!” (resposta de Skywalker a Kenobi quando o segundo diz que irá matá-lo). Para piorar a situação, o tom de voz empregado por Christensen a fim de declamar tal oração é tão artificial que torna a cena ainda mais ridícula do que ela já seria por si só. Ah, e é claro que não poderíamos ficar sem o clássico
e clichê “Nããããããããããão!” proferido da maneira mais piegas o possível pelo protagonista.
Resumindo, “A Vingança dos Sith” é um filme que alterna entre altos e baixos, mas o saldo final acaba sendo incontestavelmente positivo. Utilizando algumas táticas incríveis a fim de preencher as lacunas deixadas em aberto na unificação da trilogia antiga com esta nova, Lucas se revela um roteirista de mão cheia, mas que erra gravemente algumas vezes, quando tenta, por exemplo, criar um motivo para que Anakin Skywalker opta-se por pender ao lado escuro da Força envolvendo a sua amada esposa. As seqüências de aventura são, em sua maioria, muito boas, mas decepcionam completamente o público em alguns casos. As atuações em sua maioria são boas (e nada além de boas), salvo Hayden Christensen que se mostra completamente irregular durante o filme inteiro. A parte técnica deste terceiro episódio é irretocável e o longa encerra a saga com maestria, servindo como uma perfeita ponte que dá liga as duas trilogias.
Ah, e como não poderia deixar de ser, encerrarei definitivamente este texto realizando um rápido comentário sobre a trilogia inteira. Diria, antes de tudo, que nenhum dos três episódios se revela dispensável, desnecessário ou fraco (conforme muitas pessoas dizem), muito pelo contrário, cada um possui a sua função. O primeiro trata de oferecer ligeiras explicações sobre vários pontos que viriam a ser abordados futuramente, tais como: o que vem a ser a Força, como fora a infância de Anakin Skywalker, como Obi-Wan Kenobi passou a treiná-lo e muitas outras coisas que ficariam completamente vagas sem este primeiro episódio. “Ataque dos Clones”, por sua vez, encarregou-se de explorar os personagens principais da trilogia, amarrar algumas pontas deixadas, propositadamente, em aberto pelo primeiro filme, iniciar (ainda que de maneira artificial) o importante romance entre Anakin e Padmé, e, acima de tudo, dar início à demonstração das falhas de caráter apresentadas pelo aprendiz de Obi-Wan Kenobi, fato que o levaria ao destino que teria de traçar em um futuro não muito distante. O terceiro episódio, finalmente, se revela o ponto alto da trama e preenche todas as lacunas deixadas em aberto pelos dois longas anteriores. A trilogia nova realmente não faz jus à antiga, mas ainda assim se mostra altamente importante para uma melhor compreensão daquela, além, é claro, de se revelar uma ótima experiência cinematográfica se fizermos um balanço geral da mesma.
Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.
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