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Inimigos Públicos – *** de *****

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 25 de julho de 2.009.

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Ficha Técnica:
Título Original: Public Enemies.
Gênero: Drama / Policial.
Tempo de Duração: 140 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Países de Origem: Estados Unidos da América.
Site: http://www.paramountpictures.com.br/inimigospublicos/
Direção: Michael Mann.
Roteiro: Michael Mann, Ann Biderman, Ronan Bennett, baseado no romance de Bryan Burrough.
Elenco: Johnny Depp (John Dillinger), Marion Cotillard (Billie Frechette), Christian Bale (Melvin Purvis), Billy Crudup (J. Edgar Hoover), Stephen Dorff (Homer Van Meter), Stephen Graham (Babe Face Nelson), Jason Clarke (John “Red” Hamilton), Stephen Lang (Charles Winstead), Giovanni Ribisi (Alvin Karpis), Emilie de Ravin (Barbara Patzke), David Wenham (Harry “Pete” Pierpont), Channing Tatum (Pretty Boy Floyd), James Russo (Walter Dietrich), William Nero Jr. (Jovem Fazendeiro) e outros.

Sinopse: Durante a Depressão (período após a quebra da bolsa norte-americana em 1929), o governo americano tenta deter os criminosos John Dillinger (Johnny Depp), Baby Face Nelson (Stephen Graham) e Pretty Boy Floyd (Channing Tatum), transformando o FBI na primeira agência federal de polícia do país.

Fonte Sinopse: Cineclick.

Public Enemies – Trailer:

Crítica:

___ Por que será que toda a produção cinematográfica protagonizada por Jhonny Depp, cujo tema central seja: “organizações criminosas”, tem que ser tão alicerçada em inúmeros clichês do gênero?” ___ Pensava eu enquanto assistia a “Inimigos Públicos”, sentado na terceira fileira da sala de cinema, recordando-me diretamente do fraco “Profissão de Risco”, que mais parecia um plágio do excelente “Os Bons Companheiros” e que contava com Depp encabeçando o elenco principal.

Coincidência ou não, à primeira vista “Inimigos Públicos” deu a entender que seria mais um filme do gênero gangster com Depp no elenco (ainda não assisti a “Donnie Brasco” para poder concretizar analogias por aqui) e recheado de situações para lá de clichês, bem como o longa “Profissão de Risco”, mencionado há pouco. Explico.

Quando a produção tem o seu início, nos vemos em uma prisão. Em seguida, o protagonista surge em cena e pouco mais para frente profere aquele que eu gostaria de marcar como sendo o grande diálogo do filme: “___ Meus amigos me chamam de Jhon, mas um filho da p*** como você, é melhor me chamar de “Sr. Dillinger”.”. Trata-se de uma frase clichê? Obviamente sim, mas Jhonny Depp consegue a proferir de um modo que não soe arrogante, como certamente soaria na pele de um ator menos talentoso, e isso faz com que o diálogo assuma um ar mais jocoso e não necessariamente ameaçador, o que acabaria nos remetendo à fala típica de um filme qualquer que já tenha sido reprisado uma quinze vezes no “Domingo Maior”.

Todavia, nem mesmo o talento ímpar do eterno Jack Sparrow acaba salvando a primeira hora de filme que, ao invés de explorar os seus protagonistas de maneira decente, se propõe a seguir mais um formato parecido com o supracitado “Os Bons Companheiros”, o ótimo “O Gângster”, o fenomenal “Acossado” e até mesmo o superestimado, embora interessante, “Fogo Contra Fogo”, o que acaba caracterizando um certo auto-plágio, uma vez que a produção enraizada por Al Pacino e Robert DeNiro era comandada pelo mesmo Michael Mann que assina como diretor em “Inimigos Públicos”.

Por que estou afirmando isso? Simples, porque ora o filme aborda a vida boêmia de Dillinger (o que nos remete à lembrança do filme ‘Scorsesiano’), ora aborda o relacionamento amoroso entre ele, um bandido cafajeste e apaixonado, e sua namorada, Billie Frechette, uma moça de certos princípios (o que também nos remete um pouco à lembrança de “Os Bons Companheiros” e, principalmente, “Acossado”) e ora pende para o eterno drama policial “gato-e-rato” (no que nos faz lembrar dos já mencionados “O Gângster” e “Fogo Contra Fogo”). O que há de errado nisso? Nada, ou melhor, não haveria nada de errado caso o roteiro se decidisse definitivamente qual caminho apetece traçar, e não é bem isso o que acaba acontecendo aqui.

Mas o filme se desenvolve e passa a ganhar um ar mais maduro. Adquire uma personalidade própria. Jhonny Depp vai se tornando cada vez mais Jhonny Depp. Michael Mann vai se tornando cada vez mais Michael Mann. O primeiro cria um personagem quase marcante, que só não se torna memorável ao extremo em face do primeiro ato insosso (e isso é culpa integral do roteiro, já que o astro hollywoodiano encarna o seu papel magistralmente bem, até mesmo durante a metade inicial do filme). Mann, por sua vez, vai abandonando aos poucos a direção excessivamente “handcam” à lá Jean-Luc Godard que havia adotado no início da produção e passa a realizar um trabalho com câmeras que tem muito mais a sua cara. Vide a maneira dinâmica e eficiente a qual ele adota para filmar o tenso tiroteio em meio ao bosque, ocorrido entre a metade e o início do terceiro ato, para se ter uma idéia da maestria de seu trabalho.

E embora a supracitada sequência não tenha o mesmo peso que aquela ocorrida em “Fogo Contra Fogo” (sim. Aquela mesma. Aquele tiroteio ininterrupto em meio ao trânsito que tem, em média, os seus dez minutos de extensão), mostra-se tensa o bastante para nos fazer arregalar os olhos durante toda a sua execução.

O filme ganha muito ritmo a partir de então. Incrível notarmos como uma única cena pode injetar um ritmo gradativamente diferente a uma produção cinematográfica. O longa pálido, insosso e sem personalidade de outrora toma vergonha na cara e ganha muito mais força, muito mais vigor, muito mais dinamicidade e muito mais adrenalina.

É aí que Mann passa a se dar conta de que o que tem em mãos é um simples filme gângster exageradamente comercial. Custava ter se dado conta disso desde o início da projeção? Caso Mann o tivesse feito, “Inimigos Públicos” teria nos brindado com uma metade inicial bastante parecida com a sua metade final e, consequentemente, a experiência teria se revelado muito mais satisfatória como um todo.

Destaque para a recriação da época (década de 1.930, no caso), que é feita desde a direção de Arte que espalha cartazes publicitários típicos daquele período por todo o cenário, até mesmo ao simples, mas bem bolado, fato de nos vermos capazes de assistir a alguns segundos de Looney Toones (em preto-e-branco, diga-se) dentro de uma sala de cinema (já que, na ocasião, as pessoas menos favorecidas, financeiramente falando, não tinham acesso à televisão).

Avaliação Final: 7,3 na escala de 10,0.

Era Uma Vez na América – **** de *****

Certamente, o único grande clássico de Leone que eu ainda não havia tido a oportunidade de assistir. Foi seguindo as recomendações de um colega de trabalho (refiro-me à minha carreira de funcionário público), que, surpreendentemente, se revelou um cinéfilo quase tão fanático (ou mais) quanto eu, que decidi assistir a este “Era Uma Vez na América” o quanto antes. Durante o seu início, o longa acabou superando todas as minhas expectativas, contudo, em seus momentos finais a estória toda foi por água abaixo. Uma pena, lamentavelmente uma pena, poderia ter facilmente entrado na minha lista de filmes prediletos, mas acabou não o fazendo, ficando com o singelo título de “filme ótimo”. De qualquer forma, é um clássico do Cinema e assisti-lo se revela algo imprescindível a qualquer pessoa que se julgue cinéfila.

Ficha Técnica:
Título Original: Once Upon a Time in America.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 1984.
Nacionalidade: Itália / Estados Unidos.
Tempo de Duração: 236 minutos.
Diretor: Sergio Leone.
Roteiristas: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini e Sergio Leone, baseado em livro de Harry Grey.
Elenco: Robert De Niro (David Aaronson), James Woods (Maximillian Bercouicz), Elizabeth McGovern (Deborah), Treat Williams (Jimmy O’Donnell), Tuesday Weld (Carol), Burt Young (Joe), Joe Pesci (Frankie Monaldi), Danny Aiello (Chefe de Polícia Aiello), William Forsythe (Philip Stein), James Hayden (Patrick Goldberg), Darlanne Fluegel (Eve), Larry Rapp (Fat Moe), Dutch Miller (Van Linden), Robert Harper (Sharkey), James Russo (Bugsy), Jennifer Connelly (Jovem Deborah) e Sergio Leone (cobrador).

Sinopse: No último filme de sua carreira, o cineasta Sergio Leone explora o mundo da máfia judia em Nova York. Narrando a estória de quatro amigos que, nos anos 1920, iniciam-se no submundo da marginalidade cometendo pequenos crimes, o longa traça um panorama sobre a amizade destes durante várias fases de suas vidas até que, graças à traição de um membro da quadrilha, o bando acaba tendo um trágico final.

Once Upon a Time in América – Trailer:

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Crítica:

Sensibilidade. Essa é a palavra que nos vem à mente quando pensamos em um filme de Sergio Leone. E se lucubrarmos um pouco mais, a palavra “sensibilidade” se mescla com algumas outras e forma uma sentença que passa a condizer mais com o que o cineasta italiano nos é capaz de transmitir através de sua Arte. Que tal então precedermos o vocabulo “sensibilidade” por “captação de” e procedermos a mesma por “artística”? Sim, “captação de sensibilidade artística”, é isso o que Leone nos passa mediante os seus filmes, sobretudo, clássicos absolutos como “Por uns Dolares a Mais”, “Três Homens em Conflito”, “Era Uma Vez no Oeste” e, é claro, este último regalo do grande legado cultural que o cineasta ofertou à humanidade: “Era Uma Vez na América”.

Assim como em quase todos os grandes clássicos de Leone, esta obra-prima do Cinema “gangster” submerge em poços de taciturnidades. Taciturnidades estas que valem muito mais do que mil palavras proferidas ininterruptamente. O silêncio aqui se revela muito conveniente, mais do que isso, diria até mesmo que é inerente à apreciação completa da trama. Qualquer diálogo que ouse contrastar com a maravilhosa trilha-sonora de Ennio Morricone soada ao fundo se torna mais do que mal vindo, se revela um agente desarmoniozo, um aniquilador de elos estabelecidos entre público e obra-prima.

Mas que silêncio tão importante vem a ser esse? O mesmo silêncio que abre clássicos absolutos como “Três Homens em Conflito”, representados pela isenção de diálogos que, magistralmente, nos remete à sensação de estarmos presenciando uma pintura em movimento, capaz de introduzir o espectador à trama capturando-o de tal maneira que passamos a nos sentir encarcerados (no melhor sentido o possível da palavra) dentro desta, como se fossemos parte inseparável da obra cinematográfica.

Como Leone consegue isso? Não sei dizer, só sei que o diretor o faz, e muito bem feito, diga-se de passagem. Da mesma forma que sentíamos a riqueza de detalhes de “Era Uma Vez no Oeste” nos transportar suavemente para o lado oposto do visor fazendo o uso de pequenos efeitos de sonoplastia, como o perturbador rugido de um velho moinho volteando ou então o som emitido por uma mosca voando pelo cenário, percebemos que a mesma riqueza de detalhes fora empregada também em “Era Uma Vez na América” com o mesmo propósito. E sabem o que é o melhor nisso tudo? Leone conseguiu faze-lo com ainda mais êxito neste drama de 1984 do que o fizera no western de 1969.

Vide a seqüência inicial, por exemplo. Temos uma gama de efeitos de sonoplastia cuidadosamente distribuídos pelo filme que tornam a trama altamente verossímil. É como se realmente estivéssemos dentro do cenário. Como não se sentir inserido na obra ouvindo os ruídos de um telefone tocando, ou de um trem chegando à estação, ou até mesmo ao perceber a importância que Leone atribui, inclusive, ao som que um par de sapatos emite enquanto o indivíduo que o está calçando caminha por uma sala vazia? É justamente este tipo de característica que torna os filmes do mestre dos western spaghetti tão prazerosos de serem assistidos.

Mas não é exclusivamente através de silêncios profundos, ou semi-profundos, e ruídos extremamente convenientes que se alicerça a total captação artística deste “Era Uma Vez na América“. Não, muito pelo contrário, a preocupação que o cineasta tem para com o modo como as cenas são filmadas colaboram muito mais com o resultado final do filme, artisticamente falando. Como não se cativar com o modo com que Leone concretiza algo tão abstrato quanto a inocência durante uma cena extremamente simples, embora indubitavelmente precisa em seu objetivo mor, onde um garoto come um modesto pedaço de bolo (repare que, ao tomar tal atitude, a criança opta pela inocente e deliciosa sensação que se tem ao degustar um doce, ao invés de por em prática a sua tão esperada iniciação sexual. É o maior deleite de uma criança confrontando, e derrotando, o maior deleite de uma pessoa adulta, tudo em uma única cena)?

A crueldade e a frieza com que a máfia realiza as suas operações também pode ser resumida em uma única cena do filme e o que mais acaba surpreendendo é o modo como a mesma é executada: sem utilizar violência física, ou até mesmo verbal ou psicológica. Refiro-me à seqüência hilária, e ao mesmo tempo revoltante e vil, em que os quatro amigos de infância, agora ligados à máfia judia, trocam um grande número de bebês dentro de uma maternidade. Ao mesmo tempo em que presenciamos toda a sagacidade e originalidade do roteiro mostrando o modo como os gangsters realizam uma espécie de seqüestro (com a diferença de que, aqui, a vítima não é mantida em cativeiro sob a tutela dos seqüestradores) sem nem ao menos ameaçar a integridade física
ou o direito à liberdade das vítimas, nos sentimos tremendamente perturbados e inconformados com a crueldade e a frieza adotadas pelos bandidos durante tal ação. Afinal de contas, o que pode ser mais cruel: colocar a cabeça de um cavalo de corrida debaixo dos lençóis do proprietário do mesmo ou tirar de inúmeros pais, mesmo sem utilizar-se de violência e/ou grave ameaça, o direito que estes possuem à guarda de seus filhos? A aspereza da cena agrava-se ainda mais quando os marginais dizem: “___ Somos mais fortes que o destino. Damos pais com condições de conferirem vidas boas à crianças que deveriam ter famílias pobres, e fazemos o contrário com as demais crianças.“. Sem dúvida, algo repugnante. Em menos de vinte minutos Leone se mostra capaz de retratar toda a maldade presente no submundo do crime, e o que é melhor, sem fazer uso de violência direta. Algo que o Cinema jamais havia presenciado antes, nem mesmo em “O Poderoso Chefão“.

Contudo, de que adianta tanta sensibilidade artística sendo projetada bem diante de nossos olhos se não tivermos grandes profissionais para vivenciá-las? Pois é, Leone pensou muito a respeito disso e chamou um elenco absurdamente competente para cumprir tal tarefa. O destaque dentre os atores, como não poderia deixar de ser, fica com a soberba dinâmica desenvolvida entre a dupla Robert De Niro e James Woods. O primeiro, como sempre, adere às suas clássicas expressões para compor o seu personagem, variando desde a elevação labial demonstrando preocupação, ao seu clássico sorriso sem dentes de orelha a orelha. Woods, por sua vez, faz o milagre de conseguir roubar a cena do próprio De Niro sempre que entra em ação. Detentor de um carisma mais do que inerente à construção de Maximillian Bercouicz, o ator esbanja talento durante o filme todo e nos presenteia com um trabalho extremamente consistente. O elenco secundário, inclusive os atores mirins, que se mostram perfeitamente bem entrosados, também cumpre magistralmente bem a sua função e se mostra altamente imprescindível para o satisfatório resultado final do filme.

Outro atributo extremamente importante do filme é a sua montagem. É fascinante vermos o modo como Nino Baragli consegue realizar convenientes e gigantescos saltos temporais retroativos e ultrativos de modo vastamente sutil, a ponto de nem percebermos que a narrativa avançou, ou regrediu, décadas e mais décadas a partir do momento em que a mesma parou. E é claro que, tão importante quanto a montagem de Baragli para a obtenção de tal clarividência na estrutura da narração, é a direção de Leone que confere efeitos imperceptíveis à composição desta. Note a seqüência em que o personagem de Robert De Niro sai pela porta de uma estação ferroviária e, logo em seguida, adentra pela mesma porta que havia saído outrora. Apesar de tal cena ter sido realizada em uma única tomada, ela surpreende o espectador por avançar 35 anos na trama, de modo que nem notamos tal progressão.

Analisando tudo o que fora mencionado até este exato momento, o leitor deve ter observado que o filme é pura perfeição técnica e artística, correto? Não, infelizmente não. Os momentos finais deste “Era Uma Vez na América” acabaram sendo uma das mais decepcionantes sensações que já tive ao assistir a um determinado filme. É lamentável vermos o modo como um roteiro brilhante, que até então havia realizado um complexo estudo sobre a amizade, a ambição, a crueldade, a ganância, o poder e o crime organizado, se propõe a encerrar a sua narrativa de modo extremamente simplório, nada original e, mormente, artificial.

O desfecho trazendo um “Noodles” arrependido, bom caráter e carregado de valores morais é de uma artificialidade que chega a causar gravíssimos incômodos e insuportáveis repulsas ao espectador. Um modo completamente tolo e dispensável de se encerrar a saga de um dos maiores mafiosos da estória do Cinema. A alteração da índole do protagonista da estória, além de previsível, se revela uma solução exorbitantemente simplória que os roteiristas acabaram adotando a fim de amarrar as pontas de um longa-metragem de quase quatro horas de duração (indiscutivelmente, o mais longo filme que já assisti em toda a minha vida). Uma pena, uma obra tão perfeita quanto esta merecia um desfecho muito menos “redondinho” do que o que lhe fora atribuído. De qualquer forma, uma obra fantástica, indispensável ao “currículo” de um cinéfilo.

Obs.: Não deixem de conferir total atenção à participação marcante que o diretor Sergio Leone realiza no filme como vendedor de ingressos na estação ferroviária.

Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.

Crítica – Yojimbo, o Guarda-Costas

Detesto passar pela sensação a qual estou passando agora, após terminar de assistir a este “Yojimbo”. Não, nada pessoal contra o filme, que por sinal é excelente, mas sim quanto ao fato de ter de avaliá-lo do ponto de vista artístico. Só para citar um exemplo, quando escrevi uma crítica sobre “Platoon” (nunca cheguei a publicar tal crítica) mencionei na mesma que achava o filme fabuloso, perfeito, mas artisticamente falando o mesmo possuía algumas falhas e estas não poderiam passar batidas. O mesmo ocorre com este “Yojimbo”, com a diferença de que, desta vez, darei ao mesmo uma nota mais alta do que eu acredito que ele mereça. O pior de tudo é que estou fazendo isto me espelhando no remake que Sergio Leone lançou em cima do filme de Kurosawa, o clássico de westernPor um Punhado de Dólares”. Reconheço que este “Yojimbo”, artisticamente falando, é superior ao longa protagonizado por Clint Eastwood, mas do ponto de vista pessoal, considero o filme italiano bem mais cativante (mesmo atribuindo nota 8,5 para este e nota 9,0 para a produção japonês). Enfim, estes são os ossos do ofício, não é sempre que se pode ser extremamente subjetivo, não é mesmo?

Sinopse: Ao chegar em um vilarejo no Japão tomado por duas facções criminosas, um destemido Samurai vê ali a oportunidade de ganhar muito dinheiro, trabalhando secretamente para as duas organizações. A partir daí, a rivalidade entre as duas gangues aumenta cada vez mais, mudando o destino dos habitantes do vilarejo de forma irreversível.

Yojimbo – Trailer

Crítica:

Após chegar a um vilarejo tomado por duas organizações criminosas, um mercenário vê ali a oportunidade de ganhar muito dinheiro realizando trabalhos sujos às duas facções e colocando uma contra a outra. A estória soa familiar? Pois é, ela já fôra utilizada inúmeras vezes pelo Cinema, inclusive em filmes como o westernPor um Punhado de Dólares” (de Sergio Leone e com Clint Eastwood no elenco) e o gangster O Último Matador” (protagonizado por Bruce Willis). Contudo, este “Yojimbo” conta com uma característica que o coloca a frente dos demais filmes com a mesma sinopse, foi ele o primeiro filme a utilizá-la.

Fazendo uso de uma direção de arte fantástica, a obra (não necessariamente “prima”) de Kurosawa nos transporta ao Japão do início do Século XIX, em uma vila paupérrima, onde duas grandes famílias criminosas controlam o local. Contudo, a pequena vila sofre uma série de mudanças com a chegada de um samurai forte e destemido. A partir daí, o roteiro nos presenteia com uma seqüência de reviravoltas bastante convenientes e uma estória interessante o bastante para nos manter entretidos até o desfecho da mesma.

Além da estória atraente e das reviravoltas que a mesma possui, o roteiro deste “Yojimbo” ainda conta com um desenvolvimento bastante interessante de seus personagens, tanto os primários quanto os secundários. Tomemos por exemplo o protagonista da estória, Sanjuro Kuwabatake (encarnado por Toshirô Mifune). Apesar de o mesmo conter vários dos clichês do gênero, tais como: a face inexpressiva, o jeitão de durão e a frieza adotada para tomar suas atitudes (isso sem contar que ele sozinho se mostra capaz de matar oito homens de uma única vez), o personagem, vez ou outra, demonstra uma ponta de humanismo em seu gélido coração ou então realiza uma piada satirizando a situação pela qual está passando, fato que torna o personagem mais, digamos, humano.

O desenvolvimento da rivalidade entre as famílias de Seibei (interpretado por Seizaburô Kawazu) e Ushitora (Kyu Sazanka) também é outro ponto extremamente salientado pelo roteiro, que parece fazer a máxima questão de manter o espectador informado sobre tudo o que está acontecendo entre ambas as facções, sem dar prioridade a uma ou a outra (diferentemente de “Por um Punhado de Dólares” que dá muito mais crédito à família dos Rojos do que à família dos Baxters).

A direção de Akira Kurosawa, como sempre, está perfeita. É incrível vermos como o diretor é capaz de criar ângulos excepcionais com a sua câmera e mais impressionante ainda é podermos notar a maneira eficiente com que ele “casa” diversos aspectos do longa, fazendo com que todos andem em perfeita harmonia. Ou melhor, todos não, quase todos.

Disse “quase todos” pois a trilha-sonora infelizmente é falha, além de repetitiva e cansativa. Para um filme desta categoria, Kurosawa deveria ao menos ter sido mais cuidadoso na escolha da trilha, esta que vem a ser uma das características que, indubitavelmente, mais colaboram com a relação público-película, e ter selecionado algo mais cativante e empolgante.

Os demais aspectos que não comentei neste texto são todos perfeitos, realçando a fotografia que dá ainda mais charme ao filme que, apesar de não ser perfeito, é um marco na história da Sétima Arte, tanto que ganhou vários remakes que, artisticamente falando, não superam o mesmo.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Crítica – Era Uma Vez na América

Os filmes de Sergio Leone são geralmente pontuados por longos e contemplativos silêncios. Silêncios que explicitam toda uma situação dramática, toda uma nuance das personagens. Silêncios que falam mais do que uma hora de diálogos. Era Uma Vez na América carrega em si essa característica marcante do diretor, a dos planos longos, silenciosos, apenas com a bela trilha sonora de Morricone ao fundo. Todo um conflito se desnudando. A máfia começando a tomar forma numa Nova York pútrida, fedida, corrupta.
Leone entra no território de Coppola e, posteriormente, de Scorsese com um filme antes de tudo sensível, porém não romantizado. Consegue como poucos trabalhar com um elenco infantil. Ele tem a sensilibidade necessária para comover o espectador numa cena em que uma criança come um simples bolo e nos chocar noutra onde uma criança é assassinada. O retrado da adolescência que o diretor pinta aqui, é um dos mais belos já visto. Impossível não se vê ali. O diretor trata esse período da vida com humor, mas também não deixa de expôr o lado cruel da vida dessas crianças sugadas pela criminalidade. É a visão da máfia pelo olha puro e inocente da infância, uma infância roubada que vê ali uma forma de subir na vida, de ganhar status, de ser respeitado pelos demais. Se quando vemos aquelas crianças vestidas como gângsters não conseguimos conter uma risadinha, Leone trata logo em seguida de nos dar um choque de realidade, mostrado que não há nada de engraçado naquilo tudo.
Num filme encabeçado por monstros cinematográficos, é curioso que a parte mais brilhante seja justamente a mais inexperiente.

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