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Easy Rider: Sem Destino – ***** de *****

““Sem Destino”, ícone da contracultura e da liberdade sobre rodas, completa 40 anos”. Tal notícia, publicada no dia 17 de julho de 2009 no site do UOL, chamou a atenção de um amigo meu que, através do Twitter, sugeriu-me uma crítica do filme. “Oras, e por que não?” ___ Pensei eu. Afinal de contas, já havia muito tempo, mesmo, que almejava escrever uma crítica sobre o filme dirigido por Dennis Hopper e achei o presente momento mais do que oportuno. Assisti ao filme pela terceira vez no último domingo (19/07/2009) e dediquei-me, durante estes últimos dois dias, a escrever sobre o mesmo. O resultado podemos conferir logo mais abaixo:

EasyRider

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 22 de julho de 2.009.

Ficha Técnica:
Título Original: Easy Rider.
Gênero: Aventura / Drama.
Tempo de Duração: 95 minutos.
Ano de Lançamento: 1969.
Países de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Dennis Hopper.
Roteiro: Petter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern.
Elenco: Peter Fonda (Wyatt “Capitão América”), Dennis Hopper (Billy), Jack Nicholson (George Hanson), Antonio Mendonza (Jesus), Karen Black (Karen), Phil Spector (“Conexão”), Robert Walker Jr. (Jack), Luana Anders (Lisa), Sabrina Scharf (Sarah), Sandy Brown Wyeth (Joanne) e outros.

Sinopse: Wyatt (Peter Fonda) e Billy são dois jovens motoqueiros traficantes de droga que não se adaptaram à sociedade e seguem um estilo de vida altamente libertário, onde passam a maior parte de seu tempo circulando pelas rodovias estadunidenses sem qualquer destino pré-definido. Quando recebem uma satisfatória quantia em dinheiro para transportar uma considerável carga de cocaína até o outro lado do país, ambos decidem passar antes por Nova Orleans e participarem de um festival que está acontecendo na cidade. No meio do caminho, Wyatt (vulgo “Capitão América”) e Billy se relacionam com dezenas de pessoas bem diferentes das que estamos acostumados a conviver rotineiramente, dentre as quais destaca-se George Hanson (Jack Nicholson), um jovem advogado que dará um novo sentido à liberdade dos motoqueiros.

Easy Rider – Trailer:

Crítica:

Responda rápido: você se recorda de alguma seqüência de créditos, dentre todos os filmes a que já assistiu, mais marcante do que a contida em “Sem Destino”? Certamente não, estou errado? O estranho é que a cena que exibe os créditos do presente longa não é necessariamente original, e ainda assim causa um impacto indescritível às pessoas que a estão assistindo. Talvez seja pelo fato da mais do que clássica e indispensável “Born To Be Wild”, aliada às magníficas paisagens que são retratadas enquanto a mesma é executada, resumir maravilhosamente bem não só o filme que está sendo exibido no presente momento, como também uma geração inteira. E é justamente isso que “Sem Destino” acaba representando: toda uma geração.

Mais do que justamente premiado como “ícone cinematográfico máximo da contracultura”, “Sem Destino” é um filme que marcou a sociedade e a arte até os dias atuais, mesmo após tendo completado quarenta anos nesta última terça-feira, dia 14 de julho de 2009. Mas o que faz dele uma obra imortal? O simples fato de ter tirado o clássico absoluto “Born To Be Wild”, bem como outros grandes hits da época, dos circuitos independentes e ter ascendido-lhe ao mais glorioso sucesso que se possa imaginar? Bem, este foi um dos motivos, de fato, afinal de contas, o que seria do Heavy Metal sem Stepenwolf? O que seria dos motoqueiros de todo o mundo sem o seu hino definitivo (que, por sinal, tornou-se o hino mor dos amantes da liberdade sobre duas rodas pelo óbvio motivo de ter sido a música que acompanha os créditos iniciais deste longa)? E, acima de tudo, o que seria do Heavy Metal, do Stepenwolf e dos motoqueiros sem “Easy Rider: Sem Destino”?

É mais do que evidente, no entanto, que “Born To Be Wild” foi apenas um mero fator que acabou transformando “Sem Destino” em um clássico absoluto da sétima arte. O filme, definitivamente, não concentra os seus atributos única e exclusivamente em uma música, aliás, não só em uma música como também em toda a sua trilha-sonora, que figura facilmente entre as melhores da história do Cinema.

Sem Destino” é aquilo que toda a obra cinematográfica deveria ser. “Sem Destino” é arte. “Sem Destino” é o ícone máximo de uma geração inteira. “Sem Destino” é a perfeita espelhação de um excêntrico grupo social que serviu de amálgama entre a geração hippie e a geração punk (e por que não citar a geração headbanger?). E é exatamente isso que o transforma em uma obra-prima inquestionável.

Mas a qual excêntrico grupo social estaria eu me referindo, de fato, no parágrafo acima? Um grupo de pessoas fartas de levar um estilo de vida patético e convencional e que decide adotar uma existência “Easy Rider”. Calma, explico. As duas palavras de difícil conexidade que compõem o título original do filme formam, na realidade, uma gíria empregada pelo pessoal da época (fim dos anos 1.960 e início dos anos 1.970) a fim de definir o estilo de vida traçado pelos protagonistas do longa, ou seja, um estilo de vida livre e altamente distante dos ditames sociais. Uma “cavalgada fácil” (traduzindo ao pé da letra), sem ter de suportar o estresse de nossos cotidianos cíclicos, onde desperdiçamos uma existência inteira trabalhando em empregos insuportáveis que não nos leva a lugar algum que não seja a dependência de bens materiais inúteis que visam preencher as nossas mentes insatisfeitas.

A obra-prima de Dennis Hopper (que, pasmem, não só atuou como também dirigiu e roteirizou o filme), no entanto, não só é muito rica no campo sociológico (pois traz à tona um grupo socialmente alternativo) como também no campo filosófico. Particularmente, costumo alcunhar um filme desta espécie, assim como o recente “Na Natureza Selvagem” (que conseguiu a façanha de ser ainda melhor que o drama/aventura em questão), de: “filme filosófico niilista neutro”. Sim, é isso mesmo, filosófico niilista neutro.

Mas o que vem a ser isso? Seria algo que está exatamente em um ponto central de uma tênue linha que separa o niilismo ativo do niilismo passivo. Pegue uma produção niilista ativa (“Clube da Luta”, por exemplo), onde o foco reside no desenvolvimento de personagens que almejam destruir os dogmas da sociedade judaico-cristã-ocidental, e mescle com aspectos de uma produção niilista passiva (“Se7en – Os Sete Crimes Capitais”, curiosamente dirigido por David Fincher, o mesmíssimo diretor do já citado “Clube da Luta”), onde o roteiro foca-se em personagens pessimistas que não creem mais na sociedade e veem no fim da vida, ou na total obliteração social, a solução de seus problemas (ou da maioria deles, o que viria mais a calhar, já que falamos sobre niilismo passivo). O que temos então? Uma produção niilista neutra, ou seja, personagens que não suportam mais o convívio social e, como consequência, decidem se livrar de suas raízes civilizadas, sem que para isso vivam um irrompivelmente cíclico Eterno Retorno do Mesmo, torcendo para que a morte chegue o quanto antes, ou então saia por aí pregando o fim do cristianismo/judaísmo e à volta à natureza.

Aqui estamos diante justamente de dois homens que pouco se importam em desestruturar os padrões rotineiros vivenciados pela nossa sociedade ou acabar com os dogmas judeus e cristãos, assim como Nietzsche pregava. Tampouco estamos diante de pessimistas derrotistas que não veem mais esperança em nada, da mesma forma que Schopenhauer o fazia. Capitão América (Peter Fonda, excelente como o “semi-bicho grilo” cabeça e conciso) e Billy (mais excelente ainda como “semi-bicho grilo” descerebrado) querem apenas se afastar da sociedade, elevando o termo: “sexo, drogas e rock and roll” à máxima potência, mesclando-o ainda a diversos elementos como liberdade, estilo de vida alternativo e, é claro, motocicletas.

A maior ambição de ambos é a liberdade, aliás, não só eles, como todo e qualquer personagem que dá as caras no filme apetece a liberdade de uma forma ou de outra. Há aqueles que desejam a liberdade habitando um sítio e vivendo, praticamente, de agricultura de subsistência com a família (“___ Trabalha no que é seu e quando está deseja trabalhar. Deveria se orgulhar disso!”), os que buscam sociedades alternativas semi-epicuristas (leia-se: hippies) para tal (“___ Sou de uma cidade, uma cidade exatamente igual a qualquer outra cidade. E é justamente por este motivo que desejo estar aqui agora, neste lugar abandonado!”) e, é claro, os nômades contemporâneos, como é o caso dos protagonistas que parecem não se acomodar em nenhum tipo de sociedade.

Liberdade, a propósito, é a palavra que ressoa durante toda a projeção. E quer saber o que é melhor? Aqui, a liberdade não é encarada como um propósito burguês mesclado à glória e honra, algo muito comum nos grandes épicos (não que eu tenha algo contra este conceito “burguês” de liberdade, muito pelo contrário, mas enfim…), mas sim no sentido mais literal o possível desta palavra. É a liberdade de ir e vir, liberdade de viver a vida que escolheu para si próprio, liberdade de poder locomover-se pelo país inteiro, vivenciando novas experiências, conhecendo novos lugares, novos indivíduos.

E novos indivíduos é o que não falta por aqui. “Sem Destino” foca-se, é claro, nos protagonistas, mas os papéis coadjuvantes, por muitas vezes, mostram-se tão fortes quanto, o que faz com que o longa, apesar de contar com uma estória bem simples, jamais perca o seu interessante ritmo.

Como não se familiarizar com os integrantes de uma colônia hippie que, em apenas 15 minutos, é retratada da forma mais completa que já pude conferir no Cinema (e confesso que nem mesmo o interessante “Hair” retratou esta magistral sociedade alternativa de um modo tão amplo quanto o filme de Dennis Hopper, mesmo dedicando a sua projeção inteira para tal)? Como não se familiarizar com o advogado George que, dono de um espírito por vezes mais libertário do que o dos próprios protagonistas, demonstra claramente não suportar a convivência social civilizada que lhe é imposta e, em face disso, opta por seguir viagem junto de Billy e Capitão América?

Espere, citei George, não citei? Pois citar o incomparável personagem que revelou Jack Nicholson para o mundo, transformando-o em um astro, e não se aprofundar sobre o mesmo é como assistir a “Acossado” e não se encantar com a direção de Jean-Luc Godard. Por mais que “Sem Destino” tenha inúmeras qualidades, o filme não seria o mesmo sem a presença de Jack Nicholson que, em apenas vinte minutos em cena, nos brinda com aquela que gosto de alcunhar como: “melhor desempenho de ator coadjuvante da história do Cinema” (bem… da história do Cinema, não digo, mas sim dentre todos os filmes os quais já assisti).

O poder que George Hanson confere ao longa sessentista é algo fenomenal, tanto que, por mais fortes que cenas como a apresentação dos créditos ou o trágico desfecho sejam, elas não conseguem superar três sequências protagonizadas pelo personagem de Nicholson em especial. Refiro-me à passagem por um bar interiorano onde o trio sofre um preconceito terrível e duas conversas que os protagonistas tem sob o calor e a claridade de uma fogueira acesa, sendo que, em uma dessas cenas, os atores encontram-se sob real efeito alucinógeno causado pelo uso recente de maconha e discorrem sob a existência de objetos voadores não-identificados.

O destaque de “Easy Rider”, porém, fica por conta de uma conversa entre Hanson e Billy, onde o primeiro profere aquele que julgo como sendo o melhor discurso sobre liberdade já feito para o Cinema (ao menos, dentre os filmes os quais já assisti): “Eles não temem você. Temem o que você representa e, para eles, você representa a liberdade.”.

Encerrando esse texto… o quê? O final? Ah sim, por mais que insista na conversa entre Billy e George, não há como negar que o final de “Easy Rider” foi eleito pela grande maioria dos cinéfilos como o grande e definitivo momento do filme, bem como um dos grandes e definitivos momentos da sétima Arte. O que representa aquela tragédia, enfim? Que o sonho acabou? É provável, todavia, gosto de destacar também os caipiras preconceituosos que fazem parte da mesma. Seria mera coincidência ou a inserção de sujeitos ruralistas em meio a cena seria um modo sutil, embora extremamente eficiente, de transmitir-nos a mensagem de que, enquanto houver uma maioria de pessoas de mente pequena no mundo (não que todo o caipira tenha mente pequena, não vamos generalizar, mas a verdade é que a maioria deles nutrem preconceitos pelas coisas mais fúteis que se possa imaginar), a plena liberdade jamais será alcançada, por mais que as  minorias, caso dos protagonistas, lutem ou se esforcem para tal? Ou talvez não, talvez eu esteja completamente errado.

De uma forma ou de outra, “Easy Rider: Sem Destino” é mais do que um mero grito de liberdade. É mais do que o grande responsável pelo pleno sucesso de “Born To Be Wild”. É mais do que um grande clássico do Cinema. É mais do que uma obra de Arte. “Easy Rider: Sem Destino” é o representante cinematográfico definitivo de toda uma geração. E por mais que o filme seja ligeiramente (bem ligeiramente mesmo) arranhado por uma direção que, apesar de excepcional, é recheada de maneirismos e por uma edição desnecessariamente “moderninha”, o mesmo trata-se de uma obra-prima indispensável para os amantes do Cinema, da liberdade e da contracultura, em si.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

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