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Alphaville – ***** de *****

alphaville

Crítica:

Certa vez afirmei (e o fiz há muito tempo atrás, antes mesmo de criar o “Cine-Phylum”, para que vocês possam ter uma noção) que, se algum dia o extraordinário “Admirável Mundo Novo”, obra-prima literária de 1932 do escritor inglês Leonard Aldous Huxley, fosse fidedignamente adaptado às telonas, teríamos então a maior obra cinematográfica da história da sétima Arte. Ao afirmar isso, contudo, não sabia da existência deste “Alphaville”, que sim, em muito me lembrou o livro de Huxley. Mas antes de realizar quaisquer analogias que seja, vamos falar da obra em questão e da pessoa responsável por ela: o genial Jean-Luc Godard.

Uma palavra resume bem este mestre do cinema: inovação. Seja como crítico de cinema, seja como cineasta, Godard sempre fez questão absoluta de inovar, seja para o bem, seja para o mal (e mesmo que adore “Je Vous Salue, Marie”, admito que a direção de Godard, por mais inovadora que tenha sido naquele filme, acabou se revelando exagerada e desnecessariamente estilizada). Em “Alphaville”, o mais importante diretor francês de todos os tempos, fez uso de vários aspectos do cinema de ficção científica e do cinema noir para que assim pudesse obter um resultado bastante completo. Reavivando o clássico detetive à lá Dick Trace e inserindo-o em um contexto futurista pouco e, ao mesmo tempo, muito convencional, Godard aposta alto em uma mistura que assustaria a qualquer espectador que se possa imaginar. Afinal de contas, um personagem como Lemmy Caution está para um filme de ficção científica assim como o Dr. Von Braun está para um filme gângster saído diretamente dos anos 1.930.

E essa salada de gêneros e gerações com aspecto visual pouco convidativo (e é claro que não me refiro ao aspecto visual diegético da obra, mas sim à estranha aparência que esta salada cinematográfica abstrata entre ficção científica / filme policial noir possui), mas palatavelmente digerível, reflete praticamente toda a carreira de Godard: um gênio ousado, inovador, intrépido, impertinente e que sempre une aspectos do passado com o presente, visionando assim um futuro mais do que aceitável na grande maioria de seus filmes. “Acossado” é a maior prova disso. Em sua obra-prima máxima, Jean-Luc pega características de um Humphrey Bogart oriundo de “O Falcão Maltês”, soma com aspectos sui generes, insere-o em um drama romântico existencialista protagonizado por um casal bastante desconexo, mas muito comum para a época e, com isso, estuda os típicos relacionamentos amorosos desestruturados que viria tomar conta de nosso mundo atual.

Em “Alphaville” a estória é praticamente a mesma. Godard extrai a premissa Homem versus máquina pertencente à obra-prima máxima de Fritz Lang, “Metrópolis” (muitos acreditam que “M – O Vampiro de Düsseldorf” seja mais digno deste título, mas continuo preferindo a ficção científica de 1.926 ao pai dos policiais noir de 1.931), soma esta com o seu toque especial de sempre, mescla o fruto de tudo isso com o cinema noir e diversos aspectos criados com o surgimento da nouvelle vague e, como resultado final, temos uma obra-prima excepcional que já nasce bem a frente de seu tempo.

Quanto mais os anos se desenrolam, mais “Alphaville” se torna moderno, verossímil, plausível de ser absorvido dentro de nosso contexto real. Quanto mais as décadas se desenvolvem, mais percebemos que as máquinas estão se tornando o lobo do Homem. Mais intensamente podemos notar o quão o criador passou a depender de sua cria. Nesta magistral ficção-científica, Godard deixa tudo isso extremamente claro, nos apresentando a uma cidade futurista, mas com um visual extremamente parecido com a Paris dos anos 1.960 (o que resulta em um grande acerto do filme, afinal de contas, é muito mais pertinente, aqui nesta trama, a criação de um futuro cujas evoluções tecnológicas não trazem benefício algum à humanidade), onde o cérebro do governo é representado pelo supercomputador Alpha 60, o irmão mais velho ou, de repente, o pai de Hal 9000 de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, que controla a “galáxia” (assim como é chamada no filme) inteira.

Não basta-se o fato de a sociedade toda ser controlada por este supercomputador, os habitantes da cidade de Alphaville ainda são proibidos de sentir quaisquer tipo de emoção que seja. Todas as pessoas aqui são obrigadas a unicamente trabalhar e nada mais. Não há questionamentos (jamais diga “por que”, diga apenas “porque”), não há liberdade de expressão, não há sentimentos (“Por que o mataram?” ___ Pergunta uma pessoa. A outra responde: “___Porque ele chorou a morte da esposa.”), não há nem mesmo a Arte. Não há absolutamente nada que fuja, ainda que de soslaio, da razão, da mais pura ciência e do enfadonho e cíclico cotidiano, que em hipótese alguma pode ser questionado.

Alphaville é o lar dos alienados, das pessoas que não possuem alma, que não possuem emoções, que não possuem vida e nem sentido. Uma cidade aterrorizantemente dominada pela falta de propósito individual, onde cada cidadão constitui apenas um número, um mero parafuso que permite com que a máquina do Estado continue funcionando corretamente. O Sistema controla a tudo e a todos, e as pessoas são apenas meros órgãos vitais, mas que podem ser substituídos a qualquer instante e que colaboram para com a sobrevivência do mesmo, sem obter quaisquer gratificações por isso.

Assim como em “Admirável Mundo Novo”, “Alphaville” também é tomado por pessoas que nada mais são do que meras ferramentas aprisionadas em um sistema político-econômico exacerbadamente totalitário, onde todas as regras da fria Teoria Clássica da Administração, idealizadas por Henry Fayol, são adotadas ao extremo, transformando operários em indivíduos literalmente descartáveis.

E já que mencionei a obra literária encantadoramente redigida por Huxley no parágrafo acima, como não comparar a conversação ocorrida entre Caution e o computador Alpha 60 (um dos melhores e mais instigantes diálogos da história do cinema, diga-se), ocorrido durante o segundo ato da projeção, com a confabulação entre o Selvagem e o Diretor do Centro de Incubação, descrito pouco antes do término da leitura de “Admirável Mundo Novo”? O formato do colóquio é diferente, mas o conteúdo é praticamente o mesmo. Se no livro o Selvagem defende William Shakespeare, nas telas o personagem Lemmy Caution defende a poesia em si (“___ O que transforma as trevas em luz?” ___ Pergunta a máquina. O homem responde: “___ A poesia.”), no que nos soa como uma clara referência de Godard à inerência de um mundo recheado com a sua maior paixão: a Arte.

Fortemente enriquecido por uma direção de arte fantástica, que, mesmo embasada na Paris dos anos 1.960, consegue nos remeter à idéia de um futuro não tão distante, “Alphaville” ainda funciona como um excepcional exercício de edição e direção (destaque para a tomada aérea que Godard realiza a fim de filmar uma perseguição automobilística), mas não restam dúvidas de que o forte desta obra-prima da ficção-científica reside mesmo em seu magistral roteiro que tece as mais ferrenhas críticas que se possa imaginar a um mundo onde o excesso de razão acaba criando uma sociedade sem propósito, sem sentido, sem conteúdo e fortemente enraizada nos conceitos tayloristas e fayolistas de administração, ou seja, um mundo não muito diferente do que vivemos hoje em dia, onde as máquinas, que são as nossas crias, parecem ter nos escravizado definitiva e indiretamente. Se em 1.959 Jean-Luc Godard fez de seu “Acossado” um divisor de águas para o cinema, em 1.965 ele fez a mesma coisa com “Alphaville”, sendo que, neste último, o genial cineasta acabou sendo mais específico já que, voluntária ou involuntariamente, transformou a sua obra em um divisor de águas do gênero ficção-científica, fazendo com que o mesmo concretiza-se visivelmente a função de “ponte” para obras inesquecíveis do gênero, bem como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Blade Runner – O Caçador de Andróides”. Peca apenas em seu “happy end”, com direito a “___ Je vous aime!” e outros aspectos hollywoodianos a mais. Não que o desfecho seja fraco ou desconexo, longe disso, mas um “sad end” certamente frisaria muito mais a mensagem que a obra nos apetece passar e fazer-nos refletir.

Obs.: O nome do conjunto habitacional composto por cerca de cinqüenta mil habitantes, situado na cidade de Barueri, estado de São Paulo, e destinado a pessoas com um nível social mais… digamos… confortável (entre eles muitos artistas (artistas?!) famosos, nacionalmente falando), trata-se de uma clara referência à obra cinematográfica analisada há pouco.

Obs. 2: Anna Karina, que faz par com o ator estadunidense Eddie Constantine, era a esposa do cineasta francês Jean-Luc Godard durante a época em que o filme foi lançado.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Je Vous Salue, Marie – **** de *****

Como todo e qualquer fã incondicional de Jean-Luc Godard, sempre que vejo toda e qualquer obra que esteja direta ou indiretamente ligada ao nome do cineasta e que esteja sendo comercializada, não penso duas vezes: abro a carteira, pego o cartão de crédito e adquiro tal bem material. Definitivamente, não há melhor forma de um cinéfilo pseudo-intelectual (bem como este que vos escreve) gastar o pouco dinheiro que possui com outra coisa que não seja um filme de Jean-Luc Godard. É como um programador especializado na linguagem de programação C++ gastar parte de seu patrimônio para adquirir o livro “Progamando em C++ – A Bíblia” de Kris Klander e Lars Jamsa, ou como uma “patricinha” burra, fútil e inútil (assim como todas elas, sem exceção, o são) torrar parte de seu patrimônio, ou melhor, parte do patrimônio do papai ou da mamãnio do papai, ou dependendo do caso, da mamegar o cart ao nome do cineastame do cineastae, dependendo do caso, com uma calça da Diesel Female. Por este motivo, ao ver o DVD de “Je Vous Salue Marie” sendo vendido pela irrisória quantia de R$ 12,90, não resisti à tentação e o adquiri sem pensar duas vezes. Oras, além de ser um filme de, ninguém mais, ninguém menos que, Jean-Luc Godard, é uma obra polêmica que provocou a ira de muitos cristãos (e o que pode ser mais cativante para um cinéfilo agnóstico, como é o meu caso, do que conferir uma obra cinematográfica que alarmou a Igreja e a mídia da época?). Todavia, ao terminar de assistir ao filme, inferi que o mesmo, assim como “A Última Tentação de Cristo”, era uma ótima obra cinematográfica, mas que não fazia jus a toda a polêmica que causou, conforme podemos conferir mais abaixo.

Ficha Técnica:
Título Original: Je Vous Salue, Marie.
Gênero: Drama.
Tempo de Duração: 75 minutos.
Ano de Lançamento: 1985.
País de Origem: França / Reino Unido / Suiça.
Direção: Jean-Luc Godard.
Roteiro: Jean-Luc Godard.
Elenco: Myriem Roussel (Maria), Thierry Rode (José), Johan Leysen (Professor de Ciências), Anne Gautier (Eva), Philippe Lacoste (Arcanjo Gabriel), Manon Andersen (A Menina), Malachi Jara Kohan (Jesus Cristo), Juliette Binoche (Juliette), Dick (A Criança) e Rapaz na Sala de Espera (Serge Musy).

Sinopse: Godard realiza aqui uma readaptação da concepção da Virgem Maria (Myriem Roussel) moldada nos dias atuais. Ao contrário da Maria bíblica, a protagonista deste filme é uma jovem comum, que joga basquete e trabalha no auto-posto de seu pai. A garota namora José (Thierry Rode), um taxista que, ao saber que a sua parceira está grávida, a acusa de traição, pois eles jamais mantiveram conjunções carnais entre si. O Anjo Gabriel (Philippe Lacoste), no entanto, se esforça para persuadir José de que Maria não o traiu, e que a mesma continua virgem e carrega consigo o filho de Deus. Paralelamente a esta trama, é narrada a estória de um professor (Johan Leysen) que mantém um caso de amor com a sua aluna Eva (Anne Gautier) e passa a discutir com a mesma a origem da vida na Terra.

Je Vous Salue, Marie – Trailer:

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Crítica:

Por mais que tente, não consigo idolatrar os ‘Godard’ da década de 1.980. Adoro incondicionalmente os seus filmes produzidos durante a década de 1.970 e, principalmente, os abrolhados durante a década de 1.960 (tanto que “Acossado” figura facilmente entre meus três filmes prediletos), mas dentre as produções mais atuais que dirigiu, nenhuma consegue agradar-me por completo, o que inclui até mesmo este “Je Vous Salue, Marie”. A impressão que fica é a de que o cineasta francês, após ter contribuído imensamente para a solidificação da Nouvelle Vague, decidiu inovar cada vez mais, a ponto de se ver obrigado, a cada filme que realiza, estar sempre inventando moda. É como se Godard se visse forçado a se reinventar a cada novo trabalho, adotando então maneirismos deveras desnecessários para tal.

Assim como na grande maioria de seus filmes oitentistas, em “Je Vous Salue, Marie” Godard explicita uma necessidade exacerbada e desnecessária de querer se auto-afirmar como gênio (seria um complexo de inferioridade característico dos artistas?), algo que ele já provou ser através de seus trabalhos sessentistas. Não que a sua direção aqui seja ruim, muito pelo contrário, é fantástica como sempre, mas não resta dúvidas de que a abundância de maneirismos empregados pelo gênio francês atrapalha consideravelmente no resultado final da obra.

Ao mesmo tempo em que posicionar a câmera apropinquada e fixamente à nuca de uma pessoa, enquanto esta assiste a uma aula de ciências, se mostra uma tática um tanto o quanto inteligente de fazer com que o espectador se sinta sentado exatamente atrás da moça, fazer cortes a todo o instante utilizando telas inteiramente negras com os dizeres: “En Ce Temps Lá” (“Naquela época”, em português) revela-se uma tentativa um tanto o quanto desesperada, desnecessária e carregada de alarde de se reinventar.

Mas e quanto a toda polêmica em volta do filme em questão? Mera neurose propagada pela mídia alarmista, pela Igreja conservadora e pela censura néscia daquela época. Não há nada de controverso na obra em si, salvo as excessivas cenas de nudez exibidas durante a sua projeção, mas nada que acabe justificando, de fato, toda a inquietação feita em cima da produção. Em momento algum notamos uma tentativa de ofender as crenças católicas. Também não podemos presenciar a suposta ode que o grande gênio da cinematografia francesa realizou ao cristianismo aqui (conforme muitos críticos alegam) pelo simples fato dele não ter realizado ode alguma (ou será que as pessoas que defendem tal tese (incluindo o Papa João Paulo II, pessoa a qual respeito muito) esqueceram-se de que Godard tem uma leve inclinação ao ateísmo (não tanto o quanto Federico Fellini, Ingmar Bergman, Marlon Brando e Luís Buñuel tinham, mas enfim…)?).

Pois se “Je Vous Salue, Marie” é um filme que nada tem de polêmico e não tece criticas, nem elogios, ao cristianismo, o que faz dele uma obra digna de ser assistida e venerada? Uma única palavra: versatilidade. Godard transfere para as telonas (e graças ao recente lançamento em DVD: para as telinhas também) uma original readequação do magnum opus da história do cristianismo: o nascimento de seu mártir. Como ele seria se fosse readaptado aos dias atuais? Como seria José? Como seria o Anjo Gabriel? Como seriam os três reis magos? E, acima de tudo, como seria Maria? Como seria a Maria moderna, em uma época onde carregar consigo uma missão divina consiste em um desafio ainda maior do que há dois mil anos atrás, uma vez que, atualmente, manter um perfeito equilíbrio entre corpo e alma torna-se cada vez mais difícil?

Mas não apenas o dogma mor do cristianismo é ilustrado aqui, como também o axioma absoluto adotado pela ciência cética, ou seja, o caminho percorrido através de métodos empíricos e/ou filosóficos que levem os pesquisadores a alcançar resultados cada vez mais concretos que se revelam capazes de derrubar definitivamente as teorias criacionistas. Assim como Godard realiza um complexo estudo sobre o nascimento de Cristo adaptado aos dias atuais, ele o faz de forma ainda mais perfeita quando opta por abordar (magistralmente, diga-se) uma subtrama dotada dos mais bem argumentados diálogos filosóficos e que é protagonizada por um professor de ciências (que crê na hipótese de nós, seres humanos, sermos descendentes de alienígenas) e sua aluna (e o fato do nome desta ser Eva, definitivamente, não se trata de mera coincidência), com a qual mantém um caso de amor secreto.

Em suma, ignore toda a polêmica envolvendo “Je Vous Salue, Marie”, pois trata-se de muitos relâmpagos para pouca tempestade. O filme é, na realidade, uma excelente abordagem contemporânea dos dois mais elevados pontos defendidos pela Igreja e pela Ciência: o nascimento de Cristo, por parte da primeira, e os métodos empíricos, adotados pela segunda, a fim de tornar obsoletas as teorias criacionistas. A fita é ótima e, não fosse por alguns maneirismos adotados por Godard a fim de, desnecessariamente, se auto-afirmar como um verdadeiro gênio da história do Cinema, o resultado final teria sido ainda mais completo do que realmente foi.

Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.

Acossado – ***** de *****

Havia prometido adotar recentemente uma escrita bem mais resumida, não? Sim, e sejamos francos, estava cumprindo tal promessa, não estava? Mas e quando o objeto da análise tratar-se de um de meus três filmes prediletos? Como continuar cumprindo tal promessa e utilizar um texto curtíssimo para resumir um filme que tem tanta coisa a dizer, como é o caso de “Acossado”? Como resumir em poucas palavras toda a idolatria que nutro pela obra-prima de Jean-Luc Godard? Impossível. Ou melhor, impossível não é, já que resenhei o meu filme predileto em apenas minúsculas 25 linhas de texto, mas confesso que senti-me extremamente mal por resumir toda a obra-prima de Francis Ford Coppola em tão poucas palavras. Não farei o mesmo com “Acossado” e, portanto, preparem-se (caso se interessem pela leitura do artigo infra) para uma redação bem longa, recheada de fanatismo, mas bastante detalhada e feita com muita paixão.


Ficha Técnica:
Título Original: À Bout de Souffle.
Gênero: Romance / Policial.
Tempo de Duração: 87 minutos.
Ano de Lançamento: 1960.
País de Origem: França.
Direção: Jean-Luc Godard.
Roteiro: Jean-Luc Godard, baseado em estória de François Truffaut.
Elenco: Jean-Paul Belmondo, (Michael Poiccard), Jean Seberg (Patricia Franchisi), Daniel Boulanger (Inspetor de polícia), Jean-Pierre Melville (Parvulesco), Henri-Jacques Huet (Antonio Berrutti), Van Doude (Jornalista), Claude Mansard (Claudius Mansard), Jean-Luc Godard (Informante), Richard Balducci (Tolmatchoff) e Roger Hanin (Cal Zombach).

Sinopse: Após furtar um carro e, na fuga, matar um policial, Michel (Jean-Paul Belmondo) parte para Paris a fim de recuperar o dinheiro que um indivíduo está lhe devendo e propor à sua amante Patricia (Jean Seberg), uma jovem estadunidense aspirante a jornalista, que viaje com ele para a Itália. Enquanto tenta persuadir a garota e encontrar o homem que lhe deve o dinheiro, Michel perde o senso da realidade e comete alguns delitos pela cidade, mesmo sendo procurado incansavelmente pela polícia, em razão do assassinato que cometera há pouco.

À Bout de Souffle – Trailer:

Crítica:

Não tem jeito, começarei com o clichê: o Cinema pode (e deve) ser dividido da seguinte forma: antes e depois de “Acossado”. E falo sério mesmo, não estou me fazendo de fã incondicional e/ou irracional do filme, não. Deseja que eu fundamente o meu argumento? Pois bem, então vamos lá.

Antes de “Acossado” o Cinema contava com obras noir como os excelentes: “O Falcão Maltês” (ou “Relíquia Macabra”, caso o leitor prefira), “Pacto de Sangue” (um de meus ‘Wilder’ favoritos) e “O Terceiro Homem” (meu segundo ‘Welles’ predileto, perdendo apenas para “Cidadão Kane”, é claro). Jean-Luc Godard (que até então era apenas um crítico da Sétima Arte que detestava amplamente o jeito de se fazer Cinema adotado por Christian-Jacque, Jean Delannoy e Gilles Grangier) buscou inspiração nos filmes supra e lançou este fabuloso “Acossado” que, dotado de muita filosofia e estética cinematográfica, viria a influenciar visivelmente verdadeiros clássicos do Cinema estadunidense, principalmente produções magistrais realizadas na década de 70, tais como: “Taxi Driver”, “Uma Rajada de Balas” (sim, eu sei, o policial dirigido por Arthur Penn é da década de 60, mas está tão próximo dos anos 70 que achei plausível citá-lo aqui) e “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (não se assustem, mais abaixo explico a citação do mais famoso filme de Woody Allen). Meus argumentos o satisfizeram agora? Não! Pois continuemos a fundamentar então.

A fim de provar definitivamente que “Acossado” é o divisor de águas entre o Cinema Clássico e o Cinema Moderno, direciono as seguintes perguntas ao leitor: o que seria do Cinema atual sem a década de 70? O que seria da década de 70 sem Francis Ford Coppola e Martin Scorsese? O que seria do Cinema da década de 80 sem Brian de Palma? O que seria do Cinema da década de 90 sem Quentin Tarantino? E o que seria da década de 70, de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian de Palma e Quentin Tarantino sem a Nouvelle Vague? Por fim, o que seria da Nouvelle Vague sem Jean-Luc Godard e este seu “Acossado”? Impossível de se imaginar, não? Pois é, e tendo tudo isso em vista, pode-se findar que o Cinema realmente é dividido em: antes e depois de “Acossado”, não? Certamente que sim.

Mas, e individualmente falando? O que podemos esperar de “Acossado” analisando-o como um filme qualquer? É realmente uma obra cinematográfica de qualidade? Ou trata-se apenas de um exercício de estilo vazio que, involuntariamente, acabou inspirando muitas outras obras-primas e, apenas por este motivo, é elogiado com tanto fervor por críticos de Cinema do mundo inteiro?

Bem, juro que enquanto assistia à obra em questão procurei esquecer-me de toda a badalação que o filme carregava consigo. Esqueci-me de que era a mais famosa obra do mais famoso cineasta francês de todos os tempos; esqueci-me de que era um dos grandes responsáveis pelo surgimento do importantíssimo movimento alcunhado de Nouvelle Vague (o grande responsável foi “Nas Garras do Vício” de Claude Chabrol); esqueci-me de que fora um filme demasiadamente improvisado, feito sem quaisquer planejamentos, onde o diretor e roteirista Jean-Luc Godard escrevia o roteiro (baseado em argumento de François Truffaut que, mais tarde, viria a se tornar seu arqui-rival) durante a manhã e, à tarde, dirigia o filme (ou seja, a produção começou a ser filmada com um roteiro totalmente incompleto). Enfim, fiz um esforço e esqueci-me de tudo isso, optando por avaliar esta produção como uma outra qualquer. Mesmo assim, analisando-a da maneira mais individualista possível, considerei-a fenomenal.

A sensação que tive enquanto assistia a “Acossado” acabou sendo a mesmíssima sensação que tive enquanto assistia a “8 ½” de Federico Fellini: a de estar diante de um dos dez melhores filmes que já havia tido a oportunidade de assistir em toda a minha vida. E, para falar a verdade, “Acossado” é mais do que isso, é um de meus três filmes prediletos, perdendo apenas para “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “O Poderoso Chefão”, que ficam, respectivamente, em segundo e primeiro lugar em minha lista de filmes prediletos.

Mas deixando de lado esse meu fanatismo entranhado e analisando o filme frigidamente, não há como deixarmos de depreender que “Acossado” atinge a perfeição em todos os aspectos possíveis, a começar pela direção de Godard que revela-se, nesta obra, a primeira a utilizar a técnica que viria a ser alcunhada de handcam, rompendo de vez um paradigma adotado pelo Cinema.

Com a câmera literalmente na mão, o genial cineasta francês confere um realismo fora do comum à trama. E não apenas o doce e suave balanço horizontal de sua máquina nos proporciona tal sensação. O modo como o diretor realiza vários enquadramentos, a forma enérgica que utiliza para movimentar a câmera durante as cenas mais tensas e a sapiência (e olha que este fora o seu primeiro longa metragem) adotada com o intento de criar cenas clássicas (sobretudo durante o desfecho do filme, quando o diretor segue Michel, que corre desesperadamente por uma rua de Paris) também conferem ao filme um toque realista excepcional, além de fazer com que nos cativemos definitivamente com o mesmo.

A edição empregada em “Acossado” também eleva a obra-prima de Godard a um patamar que o Cinema mundial raramente conseguiu alcançar, principalmente pelo modo como a mesma “brinca” a todo o instante com a passagem de tempo no filme. Ora ela dá saltos consideráveis no tempo, ora ela ameaça avançar gradativamente, mas volta ao mesmíssimo lugar em que parou. Tal técnica confere uma dinâmica excepcional à obra, que jamais perde o seu ritmo.

A trilha-sonora, então, é empregada de um modo mais do que conveniente. Além de nos remeter a uma instigante aura de Film Noir, acrescenta à produção os tons de suspense, humor e romance que revelam-se imprescindíveis para o sucesso completo da mesma. Sabe aquela trilha-sonora que você ouve e passa longos dias relembrando-a? Pois é, a trilha de “Acossado” é uma destas, bem como as de “O Poderoso Chefão”, “Dr. Jivago”, “A Primeira Noite de um Homem”, “Três Homens em Conflito”, “Os Sete Samurais”, “Lawrence da Arábia”, “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, “Barry Lyndon”, “Os Bons Companheiros”, “Pulp Fiction – Tempos de Violência”, “Casablanca”, “…E o Vento Levou”, “Ben-Hur”, “Laranja Mecânica”, “Taxi Driver” (a propósito, a trilha do filme em questão é muitíssimo parecida com a deste filme de Scorsese) e de muitos outros filmes inesquecíveis.

Mas o trunfo de “Acossado” reside mesmo em seu roteiro. Godard já acerta logo de cara ao nos introduzir, do modo menos sutil o possível (e isso, acreditem, trata-se de um grande elogio), à conturbada vida do fora-da-lei Michel Poiccard. É como se o diretor nos fizesse um convite com os seguintes dizeres: “Está afim de acompanhar de perto a vida de um perigoso criminoso durante alguns dias?”, e, sem nem ao menos esperar a nossa aquiescência no que se concerne a tal solicitação, Godard simplesmente segura-nos a mão e nos puxa para dentro da estória e da vida de Michel, sem quaisquer pedidos de licença, sem quaisquer cerimônias e sem quaisquer delongas. Ele simplesmente o faz do modo mais brusco e inesperado o possível, o quê, certamente, é sensacional.

Sabe-se lá como, Godard acaba conseguindo a façanha de fazer com que nos cativemos com o filme logo em seu primeiro segundo. Sentimos como se já conhecêssemos Michel há algum tempo, como se já fossemos íntimos do mesmo, tamanha a familiaridade que o gênio francês nos transmite logo no início da trama, quando a mesma se abre com a seguinte frase: “No fundo, sou burro!”. Exatamente, em menos de dois segundos de projeção, o protagonista nos faz logo de cara uma espécie de confissão. E aí eu pergunto: “Como podemos não nos cativar com um sujeito destes?”.

Tudo em Michel chama a atenção, tudo mesmo. A começar pelo fato deste ser uma releitura de vários personagens encarnados por Humphrey Bogart nos anos 1.940 (reparem na clara homenagem que o filme realiza ao astro de “O Tesouro de Sierra Madre”, quando a imagem de Michel é refletida em um vidro que protege a imagem de Bogard, ou seja, a imagem deste atrás, e a imagem daquele à frente, mostrando que um é o sucessor do outro), passando pelos trejeitos parecidos com os de um bonachão italiano mesclados ao charme de um galanteador francês, o terno que traja durante boa parte da trama, o chapéu que lhe cobre os olhos, o cigarro no canto direito da boca soltando fumaça durante a projeção inteira, a ignorância dele e, é claro, os diálogos completamente desconexos que solta durante o filme todo. Repare, por exemplo, quando ele comenta, olhando diretamente para a câmera, ou seja, para nós, espectadores: “___ Amo a França. Se não gosta do mar, se não gosta da montanha, e se não gosta da cidade…”… enfim, é melhor nem concluir os dizeres do protagonista, sob pena de retirar o timming cômico embutido na cena. Tudo o que posso dizer é que, justamente quando esperávamos que Michel fosse nos dar uma outra alternativa para amarmos a sua terra natal, ele simplesmente conclui o que havia começado a dizer de uma forma extremamente brutal e desconexa, o que nos faz instantaneamente soltar uma gostosa gargalhada.

Aliás, o filme todo é desconexo (daí o motivo da edição constantemente dar saltos para frente e para o nada) e bem-humorado, sobretudo o par romântico formado por Michel e Patricia. E é justamente no affair de ambos que o filme atinge o seu clímax. A melhor cena de “Acossado” não reside em uma perseguição, nem em um tiroteio, nem em um momento essencialmente dramático, mas sim em uma simples conversa na qual o casal tem em uma simples cama de hotel. Isso mesmo, uma singela conversa na cama, sem nenhuma cena picante ou coisa do tipo.

Muitos poderão achar os diálogos de ambos completamente sem pé, nem cabeça, mas a verdade é que toda a carga dramática do filme está ali. Ambos falam sobre tudo e, ao mesmo tempo, sobre nada, sobre absolutamente nada. Patricia pede ao parceiro que diga algo simpático, este não sabe o que dizer, a garota então contorna a situação embaraçosa comentando o quão bonito é o cinzeiro dele, ele diz que era de um avô seu que morou uns tempos na suíça e, sem mais nem menos, emenda com uma conversa onde relata que este seu mesmo antepassado adquiriu um Rolls-Royce uma vez e o carro suportou quinze anos sem ter uma única falha mecânica.

E é justamente neste romance desconexo e sem razão de ser, que o filme aposta todas as suas fichas. E aposta certo. O caso de amor entre Michel e Patricia nada mais é do que um epítome da grande maioria dos casos amorosos existentes naquela época, e por que não dizer, em nossa época? É por isso que não há como negar que Godard fez uma obra muito a frente de seu tempo, uma obra que relataria o acaso, o preenchimento existencial embasado no sexo e em uma reles aventura, sem qualquer conteúdo. Em um determinado momento Patricia, imatura, sonhadora e infantil comenta que gostaria que eles fossem como Romeu e Julieta, mas como isso seria possível? Há algo que possa unir um casal tão desconexo?

Ele é um inculto, ela, uma aspirante a intelectual; ele é rude, ela, um doce de pessoa; ele é audacioso, ela, excessivamente cautelosa; ele é objetivo, ela, um poço de subjetividade; ele é resoluto, ela, um baú de perplexidade; ele não tem quaisquer perspectivas fora do submundo do crime, ela, uma aspirante a jornalista com uma próspera carreira pela frente. E aí perguntamos: “Por quê?! Por que uma moça destas se interessa por um tipinho destes?!”. Oras, pelos mesmos motivos que as garotas mais perfeitamente lapidadas se interessam pelos tipos mais asquerosos: pelo sexo (está aí o motivo da analogia deste filme com “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” conforme citado no primeiro parágrafo) e pela aventura.

Nossas existências se repetem cada dia mais. Vivemos sempre o mesmo, passamos sempre pelas mesmas situações. Imagine uma garota como Patricia. Ela tem futuro? E como. Tem todas as ferramentas necessárias para prosperar na vida? E como. Mas o que é que ela não tem? Emoção. Fazer sexo com um marginal é algo que, ao mesmo tempo em que a assusta e a carrega de incertezas (uma vez que a garota, aparentemente, nasceu com o rei na barriga e o romance com Michel foge bastante do estilo de vida que preparou-se, durante toda a adolescência, para levar quando adulta), confere uma experiência instigantemente diferente na vida da moça. É como se ela estivesse flertando com o perigo, com uma vida instável, mesmo morrendo de medo de seguir com isso adiante.

E é desta forma ingênua, através de uma estória objetivamente simples (mas muito complexa se prestarmos atenção nas entrelinhas), que Godard realiza o seu amplo panorama artístico sobre nossas existências carregadas do mais insuportável tédio. A fim de fugir das rotinas das grandes cidades, as garotas, cheias de ponto de interrogação em suas mentes, não estão mais interessadas nos rapazes maduros e prontos para o compromisso sério, mas sim nas aventuras, nas possíveis emoções que um affair possa lhes proporcionar. E mesmo que o amor não seja verdadeiro, mesmo que não contenha um pingo de química sequer, isso parece não importar mais, o que importa realmente é a possibilidade de risco, que mesmo não ocorrendo tão frequentemente (como é o caso do filme em questão), já é, no mínimo, uma possibilidade, uma chance de levar uma vida mais, digamos, cool.

A fim de produzir a sua obra-prima definitiva, Jean-Luc Godard utilizou-se de uma simples fórmula: somou tudo o que o Cinema havia produzido de melhor até então, multiplicou a soma por inúmeros elementos peculiares e, como resultado, obteve o dígito mais extenso e incontável que se possa imaginar, o que reflete também no extenso e incontável número de qualidades que esta pintura em forma de película possui. Em suma, e sem cálculos matemáticos, “Acossado” tomou emprestadas características valiosíssimas do Cinema ianque para que as mesmas pudessem ser lapidadas e devolvidas à Terra do Tio Sam com um valor ainda mais alto do que quando cruzaram o Oceano Atlântico no final dos anos 1.950 e início dos anos 1.960. Por fim, encerro esta crítica (enorme, diga-se) da mesma forma que a iniciei: o Cinema, definitivamente, se divide em: antes e depois de “Acossado”.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.


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