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Especial – Harry Potter

É aquela coisa, é só uma continuação que integra uma franquia cinematográfica extremamente bem sucedida do ponto de vista financeiro aparecer e tudo quanto é crítico de Cinema faz um especial com todos os episódios que formam a tal série. Oras, que atitude mais oportunista e aproveitadora esta, não? Pois é, muito oportunista e aproveitadora mesmo. Enfim, deixe-me aproveitar descarada e imensamente do fato de “Harry Potter e o Enigma do Principe” estar sendo lançado nos cinemas do mundo todo durante esta semana e utilizar-me de um oportunismo altamente hipócrita para lançar as minhas críticas realizadas aos cinco primeiros episódios da franquia. Comecemos com “Harry Potter e a Pedra Filosofal

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 15 de julho de 2.009.

Harry Potter e a Pedra Filosofal – *** de *****

01

Lembro-me de que, durante a primeira reunião do grupo de escritores de minha cidade, debatemos sobre o porquê desse sucesso todo que J. K. Rowling fez pelo mundo com os livros da série Harry Potter. O que havia de tão especial nesta série literária a ponto de merecer todo esse sucesso exacerbado e esse assédio descontrolado por parte do público e da mídia? Eu, junto de outros colegas, defendi a hipótese de que Rowling conseguira mexer com a imaginação da criança e, em um mundo tão patético quanto este, onde a vida virtual parece ser infinitamente mais atrativa e convidativa do que a vida real, isso já seria o bastante para despertar a atenção dos jovens leitores, uma vez que o mundo de Harry Potter aparenta ser incrivelmente mais repleto de graça do que este mundo enfadonho e recursivo em que vivemos.

Contudo, a fim de transportar o leitor para o seu mundo fantástico (em ambos os sentidos da palavra), Rowling viu-se na necessidade de utilizar mais de seiscentas páginas para tal. Em face disso, surgiu a seguinte pergunta: quantos minutos seriam necessários para que um diretor obtivesse o mesmo resultado caso desejá-se adaptar o livro para as telonas? Chris Colombus apostou em 152 minutos e conseguiu, magistralmente, exportar as nossas mentes para o mágico (também em ambos os sentidos da palavra) e fantástico mundo de Harry Potter. E, com isso em vista, podemos afirmar que o filme é simplesmente perfeito, correto? De maneira alguma. Se há uma coisa da qual “Harry Potter e a Pedra Filosofal” passa longe, é da perfeição.

Não se tenha dúvidas de que é muito interessante adentrarmos em um mundo paralelo onde possamos conviver com inúmeros fatores que o difiram completamente deste nosso mundo real e chato. Pois neste episódio de abertura da franquia cinematográfica “Harry Potter” temos um leque de variedades que desafiam a nossa imaginação, podendo alternar desde um fantasma que é “quase-sem-cabeça”, até mesmo a uma pedra filosofal que traz consigo o elixir da vida, passando por castelos suntuosos, filhotes de dragão norueguês nascendo diretamente do ovo, unicórnios, centauros, capas de invisibilidade, chapeis seletivos falantes, duendes que administram um banco, pinturas animadas, um esporte cujas partidas são disputadas com muita adrenalina e uma forte carga de magia (apesar das regras deste serem deveras absurdas, mas tudo bem), escadas que se movem e um espelho capaz de nos revelar os mais profundos desejos de nossos corações.

Enfim, o universo descrito no parágrafo supra é o universo que Chris Colombus nos propõe a apresentar e consegue o fazer magistralmente, diga-se. Por 152 minutos nos vemos encantados dentro deste mundo alternativo e… opa… espera lá (pois é, informal deste jeito mesmo), é exatamente isso o que acontece. Assim como os bruxos deste universo paralelo exibido nas telas, os produtores da série conseguem nos enfeitiçar com um mundo belo e mágico e deduzem que isso já basta para nos encantar por completo. Ah, pra cima de mim não, meu amigo! Pensa que não percebi que, dos 152 minutos de projeção do filme, pouco mais de 20 foram realmente dedicados a desenvolver alguma estória que seja (que sim, trata-se de uma trama muito bem bolada, mas pessimamente desenvolvida)? Pois é, a magia lançada pelos bruxinhos protagonistas revela-se forte o bastante para cobrir o espectador com um encanto que cai sobre si, a ponto de o fazer deixar a sessão como se tivesse assistido a um convincente exemplar da indústria do entretenimento quando, na verdade, assistiu somente a um codilho cinematográfico mitológica e visualmente lindo, mas com muito pouco conteúdo.

E vamos para a sessão de “Harry Potter e a Câmara Secreta”, que espero que seja melhor.

Avaliação Final: 6,0 na escala de 10,0.

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Harry Potter e a Câmara Secreta – **** de *****

02

E, de fato, a sessão de “Harry Potter e a Câmara Secreta” foi bem superior à sessão de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Vários pontos que haviam deixado a desejar no primeiro filme acabaram recebendo um tratamento extremamente diferenciado neste segundo episódio da saga do bruxinho, dentre os quais destaco a direção de Chris Colombus. Longe de mostrar-se ligeiramente apático por trás das câmeras, assim como havia feito no longa anterior, Colombus investe aqui em uma série de técnicas que, mesmo fazendo com que o seu trabalho se mostre apenas correto, o coloca em um patamar bem acima de “…A Pedra Filosofal”. Em um determinado momento, por exemplo, o cineasta realiza um traveling aéreo que rotaciona por todo o magistral cenário da Escola de Bruxaria de Hogwarts e se encerra adentrando, através de uma pequena abertura, a estufa onde os alunos encontram-se assistindo a uma aula.

Colombus se mostra bastante sagaz também ao tomar certas cautelas que fazem com que o espectador tenha uma noção mais ampla do desenvolvimento temporal diegético da trama, como na cena em que, a fim de provar que uma importantíssima personagem encontra-se petrificada há um bom tempo, foca uma enfermeira substituindo um buquê de rosas murchas que localizava-se na superfície do criado-mudo ao seu lado, por rosas novas.

A grande evolução no que se refere ao quesito direção, no entanto, deve-se ao cuidado que o diretor toma para fazer com que a trama principal jamais seja relegada pelo mundo mágico de Harry Potter. Ao contrário do primeiro filme, onde Colombus parecia se preocupar mais em filmar um banquete oferecido aos alunos da escola do que dar maior ênfase à estória em si, em “…A Câmara Secreta” o cineasta toma o devido cuidado para que nos preparemos para o final da trama logo no início de sua projeção. Isso pode ser notado quando percebemos que o diretor se preocupa em colocar o elfo doméstico Dobby anunciando perigo eminente a Harry bem nos minutos iniciais do filme e, principalmente, quando constatamos, algumas cenas mais tarde, que o protagonista, estranhamente, começa a ouvir vozes do nada, algo que consegue manter o suspense desde o intróito da produção.

O roteiro, por sua vez, não só faz com que tenhamos ciência do grande perigo que está por vir durante praticamente todo o seu desenrolar, criando, com o auxílio da direção de Colombus, um instigante clima de urgência, como também nos apresenta a uma estória consideravelmente mais complexa, mais desenvolvida e mais bem amarrada do que a do primeiro filme (que era, de certa forma, bastante satisfatória).

Lamentável, todavia, é constatarmos que, mesmo conduzindo a sua trama e o seu argumento muito bem, o roteiro de Steven Kloves, associado ao trabalho de Chris Colombus, falha gravemente ao nos apresentar o, mais do que importante, personagem Tom Riddle de maneira demasiada abrupta. Ao mesmo tempo em que o roteiro de “…A Câmara Secreta” nos prepara muito bem para o tal cômodo ocultado do título, ele falha terrivelmente ao não nos preparar mais cautelosamente para o imprescindível Tom Riddle que, quando chega trazendo à tona a estória envolvendo a sua memória e tudo mais, acaba pegando o espectador negativamente de surpresa.

Ponto negativo também para o desenvolvimento gritantemente caricato de personagens como Draco Malfoy e o seu pai, Lucius.

E que venha “…O Prisioneiro de Azkaban”, e que minha torcida para que o terceiro episódio se mostre superior a este ótimo “…A Câmara Secreta” seja saciada.

Avaliação Final: 7,5 na escala de 10,0.

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Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – **** de *****

03

Cinematograficamente falando (não, não estou fazendo propaganda do blog concorrente), o que vem a ser mais importante: o roteiro ou a direção de um filme? Difícil responder, não? Vamos tomar os três primeiros episódios da série Harry Potter para discorrer sobre o assunto.

O 1º episódio conta com um roteiro interessante, de certa forma, mas com uma direção que se perde em meio ao fantástico mundo paralelo de Harry Potter e acaba se esquecendo, durante a maior parte de sua projeção, de conduzir uma estória definitiva.

O segundo episódio, por sua vez, conta com um roteiro ainda mais interessante e, embora a direção seja mais eficiente aqui do que havia se revelado outrora, mostra-se muito comprometida quando deixa para explicar uma complexa estória envolvendo Tom Riddle durante o final do filme, ou seja, quando parece se dar conta de que resta-lhe muito pouco tempo de projeção, vê-se obrigada a fazer tudo às pressas.

Neste “…O Prisioneiro de Azkaban”, no entanto, temos o roteiro menos importante (calma, já vou me explicar) dentre todos os três episódios produzidos até então, mas Alfonso Cuarón nos brinda com um trabalho espetacular e faz mágica (sim, péssimo e oportunista trocadilho) para transformar o mais dispensável (se é que assim posso chama-lo) capítulo da saga do bruxinho (lembrando que não estou levando em conta aqui os filmes que viriam a ser produzidos depois deste) no melhor de todos realizados até então.

E quando digo que este “…O Prisioneiro de Azkaban” é o menos importante dentre os três primeiros títulos da série criada por J. K. Rowling, na verdade estou levando em consideração a idéia básica desta franquia, ou seja, a guerra travada entre o protagonsita Harry Potter e seu arqui-rival Lorde Voldemort. Em “…A Pedra Filosofal”, Harry trava um confronto parcialmente direto com o seu grande inimigo. Já em “…A Câmara Secreta”, tal confronto assume um aspecto mais indireto, embora não menos perigoso.

Mas e quanto a “…O Prisioneiro de Azkaban”? Bem, sou obrigado a dizer que neste terceiro filme Voldemort é apenas citado, e só. O confronto da vez aparentemente ocorre entre personagens adjacentes ao grande duelo entre “Você-Sabe-Quem” e Potter, uma vez que, conforme fora dito, o primeiro nem ao menos dá as caras por aqui. E por mais que o longa traga uma galeria de personagens importantes para a franquia em si, não há como não notarmos que a ausência do inimigo mor do personagem encarnado por Daniel Radcliffe diminui consideravelmente o grau de importância e a dramaticidade da obra.

Entretanto, é como fora mencionado pouco mais acima, a direção de Cuarón prevalece sobre o roteiro de Steven Kloves, que também é ótimo, mas não teria a mesma força sem o ótimo trabalho do cineasta mexicano.

Se há uma palavra que possa definir o trabalho de Cuarón como um todo, essa palavra se chama: dinamicidade. Sabe aquelas típicas seqüências bobinhas envolvendo os tios de Harry Potter? Elas, infelizmente, ainda existem por aqui, mas a cena inserida neste terceiro episódio é tão curta que nem ao menos chega a causar incomodo. Sabe aquelas longas passagens pelo Beco Diagonal? Elas não mais dão às caras por aqui (apesar que confesso ter sentido falta delas e não acharia nem um pouco ruim caso as mesmas fossem mantidas, contanto, é claro, que não se estendessem tanto o quanto se estendiam nos filmes anteriores, sobretudo no 1º episódio). Aliás, o roteiro perde muito pouco tempo com cenas cuja importância seja meramente visual e logo em seus primeiros minutos nos apresenta a uma sensação de perigo eminente e direto (ao contrário do 2º filme onde a primeira cena que envolvia o elfo domesticado Dobby oferecia um certo perigo eminente, mas indireto).

O destaque do filme fica por conta de sua imprevisibilidade e pela maneira como Cuarón conduz a trama, principalmente pelo modo dinâmico como dirige as duas últimas seqüências do longa que são, de longe, o momento máximo da franquia (ao menos até agora).

Pois é, desta vez a direção fez total diferença e, por mais que o roteiro seja ótimo, apesar de não acrescentar tanto à saga quanto os outros dois anteriores, o resultado possivelmente não teria sido o mesmo nas mãos de Chris Colombus ou qualquer outro cineasta que seja.

E vamos ao 4º episódio da saga que, ao menos até agora, considero o pior dentre todos os filmes.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

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Harry Potter e o Cálice de Fogo – **** de *****

04

O Cinema é, de fato, extraordinariamente mágico. Há apenas três anos atrás, taxei este “… O Cálice de Fogo” como sendo o pior episódio da franquia Harry Potter. Porém, ao assisti-lo pela segunda vez, há menos de duas horas atrás, inferi que, decididamente, este quarto episódio passará a ser o meu predileto.

Mesmo que não conte com estórias tão bem boladas quanto as do primeiro e do segundo episódios (que, torno a dizer, foi pessimamente desenvolvida em “…A Pedra Filosofal” e não tão bem desenvolvida o quanto deveria em “…A Câmara Secreta”) e uma seqüência extremamente contínua e repleta de momentos tão marcantes quanto os da luta entre Lupin e Sirius Black, Harry Potter e os Dementadores e, é claro, o vira-tempo de Hermione, este quarto episódio se mostra o mais maduro (e maturo também, por que não?) e regular dentre todos os outros.

O longa se abre de forma aterrorizante (aterrorizante para um filme infantil, é claro), mostrando uma rápida reunião entre Lorde Voldemort e seus auxiliares. Desde então percebemos que trata-se, definitivamente, do capítulo mais sombrio e recheado de suspense dentre toda a franquia. A fotografia empregada é excepcional e alterna magistralmente entre tons demasiadamente escuros e cinzentos. O roteiro, por sua vez, se mostra competente o bastante para seguir o mesmo tom fúnebre.

Com o término desta rápida reunião, nos vemos diante de uma partida de quadribol, desta vez disputada em um estádio cuja direção de arte empregada para construí-lo é não menos do que fabulosa. Mas não se trata de uma partida de quadribol qualquer. Trata-se de um duelo espetacular que faz parte do Campeonato Mundial de Quadribol. Os efeitos especiais dão show aqui e percebemos a cautela para com os mesmos logo que presenciamos inúmeros fogos de artifício estourando nos céus e formando a imagem de um duende dançarino. Esta é a apresentação da seleção da Irlanda.

O jogo acaba. Os espectadores vão dormir em suas respectivas barracas, quando Comensais da Morte surgem repentinamente e destroem tudo o que veem pela frente. A partir de então o filme ganha ritmo, e só o perde mais para frente. O suspense aumenta ainda mais quando vemos o nome de Harry Potter surpreendentemente sair de dentro do tal Cálice de Fogo do título. Isto indica que ele deverá participar de um torneio mortal, envolvendo todo o tipo de magia negra que se possa imaginar. Mas como o Cálice, que nunca erra, poderia extrair o nome de Potter dali, uma vez que a regra não permite que participantes com a sua idade disputem o torneio? Esse questionamento permeia as nossas mentes durante o filme todo, o que aumenta gradativamente o suspense do mesmo.

O torneio tem o seu início, o protagonista da saga enfrenta vários desafios, passando por dragões aterrorizantes, sereias traiçoeiras e labirintos imprevisíveis. Todas as três provas carregadas com o mais forte clima de tensão que se possa imaginar. Parte disso deve-se claramente ao diretor estreante na série: Mike Newell. Veja o modo como o cineasta retrata a perseguição entre Harry Potter e um dragão, por exemplo. Newell não só acompanha a ação de modo fantástico, como também aproveita-se muito bem da paisagem colossal emanada pelo magistral castelo de Hogwarts, filmando-o lindamente durante todo o acossamento.

Contudo, o mesmo Newell que realiza aqui o trabalho de direção mais dinâmico de toda a série (sim, ele supera até mesmo Cuarón neste quesito) acaba falhando ao dar ênfase em demasia à briguinha tola entre Potter e Wesley e ao tão famoso Baile de Inverno que, sejamos francos, pouco acrescenta à trama, apesar da excepcional direção de arte que é empregada na construção do salão onde ocorre o evento ser digna de se encher os olhos.

O destaque do longa fica para a seqüência que sucede a prova do labirinto, mostrando uma empolgante e mortal luta entre Harry Potter e… bom, deixa para lá, melhor não estragar surpresas e não revelar o nome do oponente do bruxinho herói. Mas devo deixar claro que, se tal seqüência não conta com um trabalho de continuidade tão genial e eficiente quanto as cenas que fazem parte do desfecho de “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”, ela se mostra muito mais forte, individualmente falando, e revela-se o ponto máximo da saga até então.

E vamos para o quinto filme, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, que, quem sabe, talvez me traga várias surpresas também e faça com que eu mude completamente a nota oferecida há dois anos atrás (na época atribui uma nota 5,0 ao filme), assim como ocorreu com este quarto episódio?

Avaliação Final: 8,3 na escala de 10,0.

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Harry Potter e a Ordem da Fênix – * de *****

05

Pois é, conforme havia previsto, mudei completamente de opinião e, como consequência disso, modifiquei demasiadamente a nota atribuída a este filme também. O problema é que, infelizmente, acabei alterando tudo para pior.

Há uma personagem inserida neste “Harry Potter e a Ordem da Fênix” que acaba resumindo bem este filme inteiro. Refiro-me à Luna Lovegood, uma garota inexpressiva, insossa e praticamente sem alma. E é exatamente isso o que este quinto episódio da saga realmente é: um filme inexpressivo, insosso e sem alma. Tão sem alma que, dentre todos os cinco capítulos da série cinematográfica que optei por conferir novamente durante esta semana, este foi o que menos me deixou lembranças, já que o fato de tê-lo assistido há apenas dois anos atrás, e no cinema (o que geralmente torna um determinado filme ainda mais marcante do que o simples fato de assisti-lo em DVD) não foi o bastante para que o mesmo deixá-se quaisquer marcas que sejam em mim.

Também, era de se imaginar, não? Analisemos a primeira meia hora de projeção, para se ter uma idéia do que estou falando. Harry é ameaçado por dois Dementadores e invoca a magia “Expecto Patronus” para livrar-se dos mesmos, sua atitude é tida como desprezível pelo Ministério da Magia que decide o expulsar de Hogwarts. Entretanto, graças à influência de Dumbledore, o diretor consegue fazer com que o garoto seja devidamente julgado e, neste julgamento (o pior julgamento dentre os demais que já presenciei no Cinema, e olhe que não foram poucos), o protagonista é absolvido. Pois é, para se ter uma idéia do ritmo excessivamente lento de “…A Ordem da Fênix”, basta mencionar que trinta minutos são dedicados apenas para acusar Harry de utilizar magia fora da escola e absolve-lo (de maneira previsível, diga-se) logo em seguida.

E o que vem depois? Bem, o que vem depois é mais uma série de aborrecimentos e pequenos acontecimentos que pouco acrescentam à franquia cinematográfica. Sabemos que Harry e Dumbledore estão sendo acusados de mentir quanto à volta de Voldemort e que isso pode ser um complô de ambos para que o Ministro Cornélio Fudge perca o cargo. Para evitar que tal fato aconteça, o Ministro envia Dolores Umbridge, uma funcionária de sua total confiança, para espionar Hogwarts. Logo, a mesma assume uma postura ditatorial e mostra a sua verdadeira face por trás de toda a aparente candura que lhe era característica, no que mais me pareceu uma releitura da clássica enfermeira Louise Fletcher, a grande vilã do sensacional “Um Estranho no Ninho”.

Bem, só aí já tivemos mais de uma hora de filme desperdiçada, e nada, absolutamente nada, realmente relevante acontece. Eis que Harry Potter decide reativar a Ordem da Fênix do título e passa a ganhar a confiança daqueles que duvidavam de sua palavra quanto à volta de Voldemort. Harry inicia um treinamento entre os seus colegas para que os mesmos se vejam capazes de enfrentar o seu verdadeiro arquiinimigo e… bem, deduz-se que a partir desse instante o filme ganha a devida força a qual precisa para funcionar corretamente e fazer jus a seu episódio anterior, que era extremamente dinâmico e emocionante, correto? Errado. A partir de então vemos um roteiro que só se preocupa em fazer jovens girar a varinha para realizar truques de mágica e um cineasta que, cada vez mais, se afunda em um trabalho apático e pavoroso.

Pois é, Yates nem de longe lembra Newell ou Cuarón. O cineasta não se mostra capaz de conferir ritmo ao filme em momento algum durante os dois primeiros atos deste e, consequentemente, cria uma obra emocionalmente fria e enfadonha.

O roteiro também colabora imensamente para que “…A Ordem da Fênix” se mostre, cada vez mais, um filme dispensável, uma vez que poucas cenas mostram real relevância para a franquia em si (uma delas mostra um antigo embate entre o jovem Severo Snape e Tiago Potter, provando que o pai de Harry, bem como muitos de seus amigos, não são tão bonzinhos quanto se imaginava, algo que os torna muito mais humanos e menos caricatos).

Mas a chatice intragável dos dois primeiros atos acaba e chegamos ao final do filme, onde acontecimentos realmente importantes entram em ação. Refiro-me à uma nova batalha travada entre Harry e seu eterno inimigo, em pleno Ministério da Magia. E desta vez, a batalha é travada por vários bruxos representando ambos os lados: o bem e o mal, o que coloca Hermione, Rony, e muitos outros personagens, dentre os quais destaco o próprio Dumbledore, em uma posição muito mais ativa do que vinham mostrando nos outros episódios. É uma pena constatarmos no entanto que, apesar de ótima, a batalha acaba sendo inibida graças à (adivinhem) insossa direção de Yates, que jamais empolga e se mostra fria até mesmo no momento em que um importante personagem é assassinado, algo que deveria causar forte comoção em nós, espectadores, mas não causa.

Em suma, “Harry Potter e a Ordem da Fênix” subtrai muito e acrescenta pouco à saga que, até então, não havia decepcionado inteiramente em nenhum de seus episódios.

Avaliação Final: 3,5 na escala de 10,0.

Fim de Semana Especial – Jean Renoir

Resolvi dedicar este fim de semana a assistir a alguns filmes de Jean Renoir, uma vez que o diretor não é só um de meus dez favoritos, como também tem uma contribuição para lá de importante à sétima Arte. Filho do famoso pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (que dentre vários quadros, pintou “Le Moulin de la Galette” e “O Almoço dos Remadores”), Jean foi extremamente subestimado durante a sua época, vindo a fazer sucesso apenas anos mais tarde, quando cineastas como Claude Chabrol, Jean-Luc Godard e François Truffaut involuntariamente criaram a “Nouvelle Vague” e passaram a afirmar que uma de suas maiores (se não a maior) fontes de inspiração havia sido o próprio Jean Renoir. Mas por que o cineasta fora tão subestimado, sendo que o mesmo conta com um leque de qualidades raríssimas em seu trabalho? Talvez porque Jean tivesse uma visão extremamente pessimista da sociedade pré-Segunda Guerra Mundial. Por mais que o sentimento da população européia dos anos 1.920 e 1.930 fosse extremamente ululante, é bem provável que as pessoas almejassem ir ao cinema com o intento de distrair a falta de esperança, e não alimentar a mesma. De uma forma ou de outra, Jean daria a volta por cima e marcaria o seu nome na história da Arte de maneira tão gloriosa quanto (ou quem sabe ainda mais gloriosa) o seu pai o fez, e é por este motivo que dedico estes quatro pequeninos textos a ele.
Tire au Flanc (Tire au Flanc, Comédia, 1.928, França, Jean Renoir) – **** de *****

Os trabalhos de Jean Renoir sempre estão bem à frente de seu tempo, pois neles temas como críticas sociais e a hipocrisia matrimonial são abordadas com grande frequência. “Tire au Flanc”, no entanto, segue na contramão e revela-se uma comédia bastante datada, tanto no que diz respeito à sua trama, como no que diz respeito às abordagens sociais e conjugais as quais traça.

A premissa, por si só, já é bastante interessante e aborda um tema muitíssimo comum na época: a vida no exército. Mas não só este estilo de vida ganha total destaque no filme, como também (e principalmente, diga-se) a abordagem que ele realiza sobre um indivíduo nobre que tem de lidar com o fato de ser um soldado como outro qualquer, já que, no quartel general, a sua posição social pouco importa aos demais cadetes, que aproveitam-se da situação para atazanar o pobre rico rapaz.

Além disso, o longa é bem divertido e conta com alguns momentos bem cômicos, especialmente quando faz o uso de diálogos para tal (sim, o filme é mudo, mas contém aquelas convencionais frases que são escritas sobre uma tela preta a fim de ilustrar as frases que os personagens “dizem”). Como não rir, por exemplo, com dizeres do tipo: “O Tenente estava disposto a arrumar uma noiva para si, independentemente de quem pertencesse tal noiva” (pois é, novamente Renoir aborda o adultério dentro da alta sociedade), “No exército, muitas vezes compensa você ser um completo imbecil, mas deve-se evitar passar dos limites” e “Ele é um perfeito idiota, mas há uma justificativa, ele é um poeta”.

Infelizmente, o mesmo humor que vigora a parte, digamos, “verbal” do longa faz bastante falta na construção do humor físico. Conforme dissera no início desta mini-crítica, “Tire au Flanc” conta com um humor datado. Contudo, não posso entrar em contradição e fugir daquilo que sempre defendi: “uma obra cinematográfica deve ser julgada de sempre acordo com a época a qual a mesma fora produzida”. É fato que muitos críticos fazem o contrário, mas no meu caso, prefiro seguir à risca a minha tese.

Juro que fiz isso e acabei ignorando o fato de que, mostrar pessoas se queimando com o café na mesa de jantar e tropeçando a todo o instante (dentre outras muitas situações exageradas que o filme nos apresenta) é deveras obsoleto. Para falar a verdade, esse tipo de humor, na época, nem antiquado era, muito pelo contrário, era bastante comum. O problema reside mesmo é na artificialidade das situações. O que Charles Chaplin sabia fazer naturalmente, Jean Renoir parece ter um pouco de dificuldade para o fazer.
Mas é como mencionei acima, “Tire au Flanc” é um filme divertido, interessante e que aborda, ainda que de soslaio, críticas sociais e a forte hipocrisia contida nos relacionamentos amorosos formados por membros da classe alta.

Seria óbvio demais mencionar que a direção de Renoir é fantástica e conta com várias técnicas, sobretudo de afastamento (destaque para a cena onde ele acompanha o protagonista adentrando o quartel pela primeira vez. Conforme o poeta avança, a câmera do diretor (que encontra-se de frente para ele) vai se afastando aos poucos) e tomadas aéreas? Seria? Tudo bem, então encerro esta mini-crítica por aqui.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

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A Cadela (La Chienne, Drama, 1.931, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Quando o filme se inicia, a primeira coisa que vemos é um curioso teatro de marionetes onde um dos bonecos nos alerta que o longa a seguir não se tratará de uma trama com heróis e vilões, mas sim de uma estória com pessoas comuns, como você e eu. Para ser sincero, não diria que é necessariamente assim, ao menos durante o início do filme. O protagonsita Maurice Legrand (Michel Simon), por exemplo, segue muito o estereótipo do ‘mocinho’ injustiçado. Legrand é constantemente humilhado pela autoritária (e também caricata, diga-se) esposa Adéle (Magdeleine Bérubet), é motivo de chacota entre os vizinhos e, principalmente, os colegas de trabalho, e, não bastasse isso tudo, ainda envolve-se com uma amante falsa e hipócrita chamada Lulu (Janize Marèze) que lhe tira muito dinheiro e entrega tudo ao namorado Dedé (Georges Flamant), um gigolô de marca maior.

Entretanto, mesmo contendo um caráter excessivamente estóico e sendo um homem de bom coração, Legrand está longe de ser o típico protagonista moralmente correto que o Cinema estava acostumado a presenciar em plena década de 1.930. Assim como a grande maioria dos personagens, o nosso ‘herói’ aqui comete erros imperdoáveis (e se você ainda não assistiu ao filme, sugiro que pare de ler este parágrafo e pule para o próximo), como furtar os cofres da empresa onde trabalha e permitir que um determinado personagem receba uma punição (merecida, diga-se) por um erro que não cometeu.

As demais figuras que compõem a trama também estão longe de seguir o código de conduta moral e todos revelam-se eticamente repugnantes. E é tecendo o caráter destes personagens tartufos e cínicos que o roteiro de André Girard e Jean Renoir explana todo o seu sentimento de pessimismo perante à sociedade da época (e até mesmo a sociedade atual, afinal de contas, os filmes de Renoir sempre estiveram bem a frente de seu tempo, uma vez que inspiraram Chabrol a criar a “Nouvelle Vague” no final dos anos 1.950), onde notamos que até as pessoas mais aparentemente dignas se mostram dissimuladas quando veem (sem circunflexo) uma corpórea oportunidade de prosperar na vida às custas de outras pessoas.

O grande trunfo de “A Cadela”, por sua vez, reside na direção de Renoir. Aqui, um dos mais brilhantes cineastas de todos os tempos, não só se destaca nas técnicas de afastamento de câmera, criação de ângulos perfeitos (a maior prova disso é uma cena onde o diretor posiciona sua câmera em um local do apartamento de Legrand onde podemos, em uma única tomada, ver a sua esposa abrindo o armário em um quarto e o protagonista pintando um quadro em outro), “travelings” e “deep focus” (esse último é pouco utilizado, mas ainda assim merece muito destaque), como também ao conferir à trama toda a sensibilidade a qual a mesma necessita para funcionar corretamente (em uma determinada tomada, Renoir balança a câmera com ímpeto enquanto filma Dedé e Lulu dançando uma valsa, para que assim possa mostrar toda a fúria pela qual o primeiro estava passando).

A Cadela” é, em suma, uma pequena grande obra-prima de Renoir. Uma mostra do majestoso trabalho que o cineasta viria a realizar ao longo dos anos 1.930.

Avaliação Final: 8,8 na escala de 10,0.

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Um Dia no Campo (Une Partie de Campagne, Drama, 1.936, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Um Dia no Campo” é considerada por muitos a obra-prima inacabada de Jean Renoir. Concordo com cada palavra. Não seria exagero afirmar que uma das maiores tragédias da história do Cinema foi a incapacidade do cineasta francês mais importante da década de 1.930 concluir definitivamente esta sua magistral ode à Arte Impressionista. Arte Impressionista? Sim, Arte Impressionista.

O cineasta realiza aqui uma homenagem a vários pintores que seguiam este movimento artístico, tais como: Guy de Maupassant, Claude Manet e, principalmente, seu pai, Pierre-Auguste Renoir. A mesma beleza e sensibilidade com a qual o seu progenitor registrava um grupo de pessoas almoçando e dançando em uma suntuosa festa (a propósito, considero “Le Moulin de la Galette” o mais belo quadro dentre os quais já tive a oportunidade de conferir), Jean adota aqui para filmar um grupo de pessoas fazendo um piquenique em um bosque.

O média é de uma beleza visual incrível e a união formada entre direção, fotografia e trilha-sonora transformam “Um Dia no Campo” em um dos filmes mais lindos da história do Cinema.

E não é só a formosa aparência da obra que merece destaque. O média ainda encontra tempo para fazer uma leve crítica à hipocrisia contida na vida matrimonial da alta-sociedade (o quê? Já citei isso acima? Fazer o quê, Renoir adora bater nessa tecla, ainda que se reinvente a cada filme).

Um Dia no Campo” falha apenas pelo fato de ser um filme inacabado, uma vez que a edição se vê obrigada a dar um grande salto no tempo a fim de manter a conexidade entre o início e o fim do média.

Destaque para a ponta que o diretor faz no filme, onde assume o papel do cozinheiro Père Poulain e esbanja carisma.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

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Não assisti a “A Regra do Jogo” recentemente, o fiz no final do ano passado, mas decidi republicar este texto aqui justamente a fim de aumentar a minha homenagem a este impressionante cineasta que fora Jean Renoir.

A Regra do Jogo (La Règle du Jeu, Drama, 1.939, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Jean Renoir foi, inquestionavelmente, um dos nomes que mais serviu de inspiração aos Cinemas moderno e contemporâneo. Antes mesmo de Federico Fellini estabelecer um complexo e contundente panorama sobre as nugacidades adotadas e cultivadas pela alta sociedade a fim de preencher o seu vazio existencial, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Antes mesmo de Woody Allen traçar as fragilidades de relacionamentos amorosos alicerçados em um pseudo sentimento de amor, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Introduzindo o espectador em sua obra-prima máxima com uma majestosa sinfonia composta por Wolfgang Amadeus Mozart, o filho de Auguste Renoir (um dos pintores impressionistas de maior renome na história da Arte) nos apresenta à filosofia adotada por ele quando o assunto em pauta é o amor: tal sentimento é rotativo e por este motivo é cada vez mais comum nos depararmos com indivíduos de todas as castas sociais que cometam adultérios.

Considerado um dos filmes cults de Arte mais importantes de todos os tempos, “A Regra do Jogo” utiliza de pano de fundo para retratar a filosofia adotada por Renoir uma suntuosa casa de campo no interior da França onde alguns aristocratas e seus respectivos empregados se unem durante um final de semana para caçar coelhos e faisões. A partir de então somos convidados a conhecer e a conviver, durante dois ou três dias, com um grupo de pessoas fúteis e materialistas. Todos os personagens do longa têm fortes desvios de caráter, porém, se vêem obrigados a maquiar isto perante à sociedade hipócrita e falsa onde vivemos. Homens traem suas esposas, mulheres traem seus maridos, todos alegam que a mentira é uma característica inerente ao ser humano, pessoas se apegam a medidas frívolas e nulas a fim de preencher o vazio existencial presente em seus insossos cotidianos e, no final… bem, no final (um dos desfechos mais imprevisíveis e surpreendentes da história do Cinema) ocorre uma tragédia, tragédia esta que nos faz lucubrar sobre até quando falsos moralismos cristãos irão imperar em nossas vidas (conforme diz um personagem do filme: “___ Corretos estão os mulçumanos que têm um harém ao seu dispor e podem dedicar o verdadeiro amor à mulher que mais ama, sem precisar desprezar as demais).

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

Presságio e Ele Não Está Tão Afim de Você – Prévias

Odeio escrever estas prévias, pois a única vez que o fiz acabei não cumprindo com o prometido: postar uma crítica mais ampla do filme em questão, que na ocasião tratava-se do ótimo “Vicky Cristina Barcelona” de Woody Allen.
Mas acontece que estou tão atarefado hoje que não poderei postar a crítica completa de “Presságio” e “Ele Não Está Tão Afim de Você”, algo que farei apenas amanhã ou, no máximo, segunda-feira, dia 27.

Vamos às prévias, que nada mais serão do que duas críticas altamente objetivas, destes dois filmes que acabaram me surpreendendo da maneira mais positiva o possível:

Presságio (EUA/AUS, 2009, Alex Proyas) – **** de *****

Pontos Positivos:

* Original em muitos aspectos;
* Adota pouquíssimas características clichês do gênero;
* Tenso e assustador durante boa parte da projeção;
* Trama bastante inteligente, principalmente se comparada às demais produções do gênero;
* Trama surpreende em muitos momentos;
* Excelente emprego de efeitos visuais e efeitos sonoros;
* Ótima atuação de Nicolas Cage, o restante do elenco não atrapalha;
* Direção contida, mas bastante eficiente;
* Funciona muito bem como filme-pipoca.

Pontos Negativos:

* Drama familiar altamente dispensável;
* Alguns personagens revelam-se muito caricatos;
* Narrativamente lento em seu primeiro ato;
* Trilha-sonora “tenta” aplicar sustos nos espectadores apostando em acordes pesados.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

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Ele Não Está Tão Afim de Você (EUA, 2009, Ken Kwapis) – **** de *****

Pontos Positivos:

* Interessante abordagem sobre relacionamentos amorosos que são afetados pelas neuroses do dia a dia;
* Interessante abordagem sobre os rumos que os relacionamentos amorosos atuais estão tomando;
* Personagens dramaticamente atraentes;
* Ótima trama;
* Final feliz interessante e, de certa forma, diferente;
* Situações bem boladas e naturais;
* Não cai no melodrama barato em momento algum quando opta por adotar o drama durante alguns momentos;
* Algumas situações são bem divertidas;
* Direção bastante satisfatória;
* Edição alterna muito bem entre uma estória e outra;
* Elenco muitíssimo bem introsado, rendendo atuações altamente naturais (exceto Ben Afleck que, como era de se imaginar, se sai muito mal).
* Scarlett Johansson é gostosa pra caral… ops, não posso utilizar isso como ponto positivo do filme, peço ao leitor que esqueça essa última indicação.

Pontos Negativos:

* Excesso de personagens e subtramas acaba atrapalhando um estudo mais amplo dos personagens e subtramas mais interessantes;
* Apesar de ser uma comédia romântica, o filme deixa a desejar um pouco pelo lado cômico, mas consegue nos fazer rir bastante em alguns momentos.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

Amanhã começarei a escrever as críticas subjetivas dos filmes supra. Espero postá-las ainda à noite, mas caso não seja possível, o faço na segunda-feira.

Operação Valquíria – *** de *****

Primeiramente, gostaria de parabenizar a Prefeitura Municipal de Jahu (cidade onde resido) pela política cultural adotada recentemente: a de disponibilizar entrada franca em seu Cine Municipal. Se por um lado o povo jauense não tem acesso imediato à grande maioria dos filmes que estréiam nos grandes centros, por outro lado pode adquirir cultura gratuitamente.
Em segundo lugar, pretendia assistir a “Operação Valquíria” antes, mas me vi impossibilitado de o fazer na ocasião, me vendo na obrigação de conferí-lo apenas quando o mesmo fosse lançado em DVD. Felizmente o longa estrelado por Tom Cruise entrou no circuito do Cinema Municipal Jauense ainda hoje e me vi capaz de assistí-lo antes mesmo de ser lançado em vídeo.
O quê? Ah sim, o filme… bem, é assistível, mas deixa a desejar.
Não me estenderei muito e serei bastante objetivo, até mesmo porque já existem inúmeras críticas do mesmo e a minha opinião é gritantemente parecida com a da grande maioria dos demais críticos brasileiros, logo, não acrescentaria muita coisa ao filme.

De qualquer forma, gostaria de deixar registrada a minha opinião aqui:

Como thriller, “Operação Valquíria” funciona muito bem, ainda que aparente mais ser uma releitura de “Missão Impossível” (no que diz respeito ao segundo ato da obra) adaptada aos tempos da Segunda Grande Guerra do que qualquer outra coisa. O filme se mostra bastante tenso e, por mais que siga o mesmo caminho que muitas obras do gênero também seguem, não deixa de ser bastante interessante e cativante.
Como objeto de estudo histórico, “Operação Valquíria” comete terríveis falhas. A estória foi visivelmente deturpada a fim de criar um gancho dramático maior, estabelecendo assim um flerte mais, digamos, cativante com o espectador, mas a tentativa de elevar o Coronel Claus Von Stauffenberg ao status de herói é execrável. O longa ainda faz questão de ocultar o anti-semitismo característico do personagem de Tom Cruise, que também foi um dos grandes responsáveis pela invasão da Polônia.
Não bastasse isso, o longa é também artisticamente falho. Os motivos que levam o protagonista a iniciar uma campanha anti-Hitler não convencem em momento algum. O grande responsável por isso é Bryan Singer que, na utilização de uma direção excessivamente fria, não se vê capaz de conferir ao protagonista um desenvolvimento sensível, capaz de nos cativar com a sua causa logo de início.
A péssima atuação de Tom Cruise também se mostra um ponto fraquíssimo para o resultado final da obra.
Suas qualidades ficam por conta mesmo da original e interessante premissa e da proposta inicial, que é parcialmente cumprida (na tentativa de realizar um ótimo thriller com importantes pinceladas históricas, Singer acaba realizando apenas um ótimo thriller, e nada mais).

Avaliação Final: 6,0 na escala de 10,0.

Oscar 2009 – Melhores Curtas de Animação

Sei muito bem que o Oscar 2009 já aconteceu há duas semanas e, conforme previ, seria esquecido logo em seguida (afinal de contas, “Quem Quer Ser um Milionário?” está passando nos cinemas neste exato momento e, merecidamente, está sendo pouco comentado), mas prometi a mim mesmo que ia assistir a todas as produções que passaram pela cerimônia deste ano e, em seguida, comenta-las aqui no Cine-Phylum. Hoje optei pela categoria “Melhores Curtas de Animação”. Seguem abaixo os comentários das pequeninas animações e os vídeos completos de cada uma delas (salvo “This Way Up” que só consta no site da BBC).

Oktapodi, de Emud Mokhberi e Thierry Marchand (FRA) – ***** de *****

Comentário: Simplesmente sensacional! A qualidade gráfica é satisfatória, apesar de ficar bem aquém de muitas produções atuais, e em menos de três minutos o curta nos cativa, nos emociona, nos confere tensão e, acima de tudo, nos faz rir. A, literalmente, pequena odisséia da lula lutando para salvar a sua companheira de aquário é magistral. Nos cativamos quando vemos ambos dançando no aquário, nos emocionamos quando notamos a tristeza da protagonista do filme ao ver a sua parceira sendo levada, ficamos tensos quando vemos a fuga destas e rimos durante a curtíssima projeção inteira, embalados pela fantástica trilha-sonora. O final é imprevisível e divertido. Excelente curta.

Oktapodi – Filme Completo:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=XyuqtOuljSw&hl=pt-br&fs=1]

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

This Way Up, de Alan Smith e Adam Foulkes (ING) – ***** de *****

Antes do comentário sobre “This Way Up”, farei um “mea culpa”: peço mil desculpas ao leitor pelo erro crasso que cometi há pouco. Acontece que o “This Way Up” que eu havia assistido no Youtube e postado aqui era, nada mais nada menos, que o trailer da animação que concorreu ao prêmio da Academia. Pois é, eu sei, foi uma idiotice muito grande de minha parte realizar tal confusão e conforme eu mesmo havia dito, o curta era, de fato, curto demais. Contudo, temos que levar em conta algumas coisinhas. Primeiramente: custava a pessoa que postou o vídeo no Youtube ter descrito que o mesmo tratava-se de um trailer? Em segundo lugar, por que cargas d’água um micro filme de apenas oito minutos teria que ter um trailer de um minuto? Seria o mesmo que cortar um pão francês em dez fatias minusculas, pegar uma delas e cortar um pedaço ainda mais minúsculo e oferecer para que o consumidor pudesse provar se o pão está bom ou não (perdão pela analogia ridícula). Em último lugar, custava a BBC liberar o vídeo inteiro para o Youtube? Creio que ela nada teria a perder, muito pelo contrário, “This Way Up” teria sido muito mais divulgado e, quem sabe, faria sucesso o bastante a ponto de conseguir financiar um longa metragem tomando por base a mesma estória. Enfim, vamos ao comentário.

Comentário: Visivelmente inspirados por Tim Burton, Alan Smith e Adam Foulkes criam uma animação magistral com o melhor que pode se esperar do humor negro. O curta narra a bizarra estória de dois agentes funerários, pai e filho, que tem de atrevessar um longo caminho para pegar o caixão de uma falecida senhora e levá-lo ao cemitério. A animação é extremamente bem-feita, lembrando muito a parte gráfica do curta “Presto”, que será comentado mais abaixo. A direção também é excelente e tem o maior cuidado ao mostrar todos os mínimos detalhes inerentes ao funcionamento cômico da animação (vide o modo eficaz como a câmera acompanha o longo caminho que resultará em um grande estrago causado apenas por uma pétala de lírio – hilário), mas o que mais conta pontos para o resultado final de “This Way Up” é, inquestionavelmente, as situações bizarras e desastrosas pelas quais os seus protagonistas passam até chegar ao local desejado (e, fracamente, creio que pessoa alguma desejaria ser enterrada por sujeitos tão atrapalhados). O curta peca, no entanto, por se inspirar demais em Tim Burton, importando das obras deste até mesmo os números musicais (só que aqui não temos música, mas sim coreografia), resultando em uma desnecessária, embora bem feita, sequência no inferno.
This Way Up – Trailer:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=FrGvv-5_G1Y&hl=pt-br&fs=1]

This Way Up – Filme Completo: Clique Aqui

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Lavatory – Lovestory, de Konstantin Bronzit (RUS) – ***** de *****

Comentário: À primeira vista, aparenta ser um trabalho mais audacioso que os dois filmes supra. Não no que diz respeito à qualidade gráfica, que opta por vários contornos propositadamente sem cor, mas sim no que diz respeito à direção. Quando vemos um homem adentrando o banheiro, a câmera realiza um rápido “close in” e o segue até chegarmos à protagonista da estória. Notamos que ela é uma pessoa triste, vazia, e que sente falta de um grande amor. A estória dela nos cativa, mas demoramos um pouco para nos envolvermos com a mesma. O curta se revela longo demais (“Curta”? “Longo”? Pois é, da série: “antíteses da vida”). Se “This Way Up” precisava de uns minutos a mais para nos cativar definitivamente, “Lavatory – Lovestory” precisa de uns minutos a menos para fazê-lo. No mais é um filme emocionante, engraçadinho (sinônimo de “espirituoso” e não de “jocoso”), muito interessante, e com uma trilha-sonora das mais envolventes. A personagem se revela muito interessante em virtude de sua profissão (alguém já imaginou ver uma “bilheteira de sanitários masculinos” no Cinema, ainda que por alguns poucos minutos?) e o desfecho, apesar de previsível, é ótimo.

Lavatory – Lovestory – Filme Completo:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ajLrFugsdMw&hl=pt-br&fs=1]

Avaliação Final: 8,8 na escala de 10,0.

Presto, de Doug Sweetland (EUA) – ***** de *****

Comentário: “Presto” era, para muitos (inclusive para mim), considerado o grande favorito para vencer este prêmio. Mas o longa da Disney-Pixar contava com um pequeno “probleminha”: sua trama não conta com uma grande mensagem nas entrelinhas, assim como acontece com “La Maison em Petits Cubes”, “Lavatory – Lovestory” e “Oktapodi”. Já assisti a “Presto” uma vez e já comentei sobre o mesmo utilizando a pré-crítica do longa “Wall-E” para tal, mas não custa nada fazê-lo novamente aqui. Na ocasião disse que o mesmo era um curta “…cuja criatividade, simplicidade e sagacidade das piadinhas embutidas no roteiro, nos remete aos bons tempos de “Tom & Jerry”, “Pica-Pau” e é claro, “Mickey & Donald”…”. Hoje só tenho a ratificar o que disse outrora e, apesar de o filme não ter uma trama muito bem elaborada em seu contexto, revela-se muito fecundo no que diz respeito à criação das situações que envolvem os dois protagonistas. O curta se revela ainda mais interessante quando nos damos conta de que o confronto entre o coelho e o ilusionista, apesar de extremamente direto, ocorre há uma certa distância, o que exige dos roteiristas ainda mais criatividade. E eles dão conta do recado? Claro que sim. Comprove você mesmo assistindo ao vídeo abaixo.

Presto – F
ilme Completo:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=dGvCppS76nw&hl=pt-br&fs=1]

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

La Maison en Petits Cubes, de Kunio Kato (FRA) – ***** de *****

Comentários: Enfim, o pequeno grande vencedor da noite. Era o segundo favorito, e acabou passando a perna no excelente curta da Disney-Pixar. Mereceu? Sim. O filme demora um pouco para nos cativar e o seu visual pós-impressionista com uma temática surrealista não faz muito sentido durante os primeiros minutos. Contudo, o curta nos surpreende e ganha ritmo a partir do momento em que o protagonista mergulha na água e vai atrás de seu velho e estimado cachimbo. É aí que o visual triste e depressivo do filme, unido à música igualmente triste e depressiva, passa a fazer sentido. Nos vemos diante de um mundo que sofrera um desastre ambiental e ficara imergido nas águas de um oceano. Os habitantes se veem então obrigados a construir um cubículo em cima das casas onde moram, e conforme o nível do mar vai aumentando, mais cubículos vão sendo construídos, o que dá à produção o excelente título de “A Casa dos Pequenos Cubos”. Mas como já havia dito, o filme, aparentemente, trata da estória de um homem velho que mergulha no oceano para procurar um cachimbo perdido. A trama parece ser simples, mas está longe disso. Conforme o protagonista vai mergulhando por entre os cubículos, sua vida vai sendo narrada de modo episodicamente invertido, até chegarmos à infância do mesmo, quando a paisagem predominante era constituída por belas árvores e pastos cobertos com grama bem verde. O curta se revela então um alerta quanto à poluição e o aquecimento global terrestre, algo que pode vir a destruir tudo o que temos de mais belo: a natureza que nos cerca. Um filme introspectivo e belo. O melhor dos cinco, logo, mereceu o Oscar, de fato.

La Maison en Petits Cubes – Parte 1:

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La Maison en Petits Cubes – Parte 2:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=0G6ulLnMbcA&hl=pt-br&fs=1]

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Conclusão: Todos os curtas de animação mereceram concorrer, e a vitória de “La Maison en Petits Cubes” foi bastante justa. Em minha lista, o segundo lugar ficaria com “Oktapodi”, e “Presto” ocuparia a terceira posição, seguido de “This Way Up”, em quarto lugar e “Lavatory – Lovestory”, em último (e que último lugar de luxo, não? Afinal de contas, o curta russo é excelente, apesar de ser o menos forte dentre todos). No mais, a Academia revelou ser muito mais congruente nesta categoria que na de Melhor Filme, por exemplo, uma vez que mostrou ser muito mais seletiva e democrática (filmes de vários lugares do mundo concorreram) aqui.

O Dia em que a Terra Parou – ***** de *****

O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1.951, roteirizado por Harry Bates e Edmund H. North e dirigido por Robert Wise). – ***** de *****

Já disse isso várias vezes e torno a repeti-lo neste artigo: “gosto de analisar um filme embasado no período em que este foi lançado e não no período em que o assisti”. Por quê? Simples. Por uma questão de justiça e ética. Veja os efeitos visuais da clássica versão de “O Dia em que a Terra Parou”, por exemplo. São todos obsoletos, desde a criação do OVNI sobrevoando os céus de Washington no início do filme, aos raios lasers disparados pelo robô gigante Gort que desintegram as armas dos militares. Não restam dúvidas de que os efeitos visuais do remake que teve a sua estréia nos cinemas mundiais no dia de ontém são bem mais convincentes (apesar de que a probabilidade de serem tão revolucionários quanto é bem pequena), mas deve-se levar em conta a tecnologia adotada para fazer os filmes na época, e a tecnologia utilizada atualmente.
Contudo, se por um lado os efeitos visuais de “O Dia em que a Terra Parou” podem ser tidos como toscos nos dias de hoje, não há como negar a inventividade contida em seu roteiro. Apesar de contar com um clichê aqui e outro acolá, o longa dirigido por Robert Wise se revela a primeira ficção-científica sobre relações interplanetárias não ofensivas na história do Cinema (e se eu estiver errado, peço, por favor, que me corrijam). Fugindo de baboseiras do naipe de guerras interplanetárias, ou alienígenas que vêm até aqui com o único intento de destruir o planeta (e sejamos francos, por que um grupo de extraterrestres faria uma viagem longa e cansativa com o único propósito de nos destruir, sem mais nem menos? Pessoas como Dean Devlin e Roland Emmerich deveriam pensar nisso antes de criarem asneiras como “Independency Day”) os roteiristas Harry Bates e Edmund H. North nos oferece aqui um protagonista extremamente interessante: o alienígena Klaatu, que vem à Terra em missão de paz, pedir apenas para que suspendamos o uso de armas nucleares, evitando assim uma destruição do planeta e, consequentemente, do sistema solar.
O filme indaga, a todo tempo, a imbecilidade de nossas guerras e coloca a nossa raça em um patamar imaturo. Apesar de simples, o filme sempre nos remete à reflexões extremamente inteligentes sobre o dúbio rumo que nossos líderes políticos tomam a fim de evoluírem suas respectivas nações. E falando em nações, é incrível vermos a coragem do roteiro que, em plena década de 50 (quando Hollywood vivia a sua Era de Ouro), apresenta críticas severas à política de governo bélica estadunidense.
“O Dia em que a Terra Parou” peca, no entanto, ao criar um desfecho ligeiramente previsível para o seu protagonista. Há uma cena inserida em seu terceiro ato (que é claro, não revelarei qual é, muito menos o que acontece) que nos faz pensar em um final mais dramático, mais imprevisível, mais fora do comum, entretanto, na hora H, Bates e North pulam para trás e conferem a Klaatu um final mais, digamos, corretinho. O que eu tenho contra finais bonitinhos? Nada. Só sei que um desfecho mais trágico faria com que a obra tornasse ainda mais forte a mensagem que almeja passar.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Gritos e Sussurros – ***** de *****

Gritos e Sussurros (Viskningar Och Rop, 1.972, roteirizado e dirigido por Ingmar Bergman) – ***** de *****

Mais uma vez Ingmar Bergman realiza uma obra extremamente sensitiva abordando, sobretudo, questões existenciais. Mais uma vez tais indagações são levantadas minutos antes do óbito de uma pessoa. E por mais que estes questionamentos sobre a própria existência, realizados pouco antes da morte de um indivíduo, sejam um estereotipo nos filmes roteirizados e/ou dirigidos pelo maior cineasta da história da Escandinávia (vide “O Sétimo Selo”, apenas para citar um exemplo), não há como negar que Bergman se reinventa a cada produção por si realizada. Se Antonius Block decidira jogar xadrez contra a Morte personificada a fim de prolongar a sua própria existência e aproveitar o tempo ganho para refletir sobre o sentido da mesma, Karin e Maria, ao verem a irmã Agnes agonizando, tomam ciência de sua invulnerabilidade e passam a fazer a mesmíssima coisa.
Maria reflete sobre um gravíssimo erro que cometeu durante sua vida. Em virtude de uma falha, enfadonha e artificial união conjugal, mesclada à sua visível imaturidade, a bela mulher trai o marido com um antigo namorado, resultando numa tentativa de suicídio do cônjuge, fato que viria traumatizá-la por toda a sua existência. Karin, no entanto, sempre fora uma mulher fiel, porém o seu apego aos bens materiais e a frieza de seu casamento (ainda maior que o da irmã) a transformaram em uma mulher fortemente racional, neurótica, frustrada e insensível. É de Karin que vem aquela que julgo a cena mais marcante do filme: quando a mesma pega um pedaço de uma taça estilhaçada e fixa o olhar para a mesma dizendo: “___Isto é tudo uma mentira!”.
Conforme o leitor pôde reparar, tanto Karin, quanto Maria, são pessoas insatisfeitas com suas vidas. São mulheres infelizes por terem se apegado à hipocrisias morais e sociais (e nisso, o filme lembra muito “Persona – Quando Duas Mulheres Pecam”, meu Bergman predileto). A morte da irmã Agnes serve, não apenas para uni-las mais uma vez (sendo que Karin não nutria o menor afeto por Maria), como também para fazer as mesmas refletirem sobre o quão cruel fora a existência de ambas, o quão elas poderiam ter sido mais felizes e menos desgostosas consigo mesmas caso tivessem dado menos valor à posição social e se preocupado em manter uma relação mais afetiva entre si e a irmã moribunda. Concluindo, a fantástica obra de Bergman faz com que todos nós, espectadores, lucubremos sobre o excesso de racionalidade que as vezes conferimos à nossas vidas, a falta de atenção por nós atribuída até mesmo às pessoas mais próximas de nós e, acima de tudo, à submissão moral que nos impõem paradigmas cada vez mais frustrantes.
Os aspectos técnicos do longa também são um primor. Formando uma perfeita aliança entre direção e fotografia (oscarizada, diga-se), Ingmar Bergman e Sven Nykvist realizam um filme visualmente inesquecível. O segundo conclui um trabalho fascinante e confere ao filme o tom angustiante inerente ao tema abordado por este. É surpreendente vermos que, mesmo trabalhando com cores bastante vivas (sobretudo a cor vermelha que é muito utilizada aqui), o mestre da direção de fotografia consiga ainda a façanha de criar um clima cada vez mais pesado, claustrofóbico e depressivo. Bergman, então, dispensa comentários. Seu trabalho aqui é um dos melhores de toda a sua magnífica carreira. Adotando a magistral idéia de trabalhar mais com as imagens do que com os diálogos (assim como Sergio Leone viria a fazer em “Era Uma Vez na América”), o diretor sueco aumenta ainda mais a angústia presente em seu roteiro. O destaque fica por conta dos closes que ele realiza logo no início da obra, onde foca precisamente o ponteiro de vários relógios movimentando-se lentamente, técnica esta que colabora para que o filme nos transmita uma fortíssima dose de agonia logo em seu início.
Talvez a única falha do filme seja a falta de uma abordagem mais complexa no que diz respeito às personagens de Agnes e Anna (esta que, apesar de ser uma mera empregada, se mostrava mais preocupada com a moribunda que as próprias irmãs dela), uma vez que o roteiro destina pouco tempo para explorá-las devidamente (e mesmo que as desenvolva de maneira eficaz nas cenas finais, ainda assim não é o suficiente).

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Matar ou Morrer – ***** de *****

Matar ou Morrer (High Noon, 1952, de Fred Zimmermann) – ***** de *****

O leitor provavelmente já deve ter visto em algum outro filme, série de televisão, ou até mesmo desenho animado, uma cena onde uma pessoa adentra um saloon empurrando a porta com toda a força, ou então alguma outra seqüência onde um indivíduo, após ter sido provocado dentro de um bar, desfere um soco em seu desafeto iniciando uma rixa no estabelecimento comercial, ou então alguma outra cena onde a câmera realiza um horizontal travelling acompanhando lateralmente o trajeto do mocinho e do bandido antes destes iniciarem um duelo. Pois é, todas estas seqüências foram originalmente exibidas no clássico western de Fred Zinnemann, “Matar ou Morrer”, lançado oficialmente em 1952.
O bang bang tem como principal atrativo o clima extremamente tenso que ele passa ao espectador logo no início. Em seus primeiros minutos já sabemos que a situação que o Marshall (uma espécie de delegado federal) Will Kane se encontra é de extrema urgência. A partir de então, temos uma estória contada em tempo real (outra inovação no Cinema) onde cada minuto desperdiçado aparenta ser de uma fatalidade irreversível ao protagonista da estória. A eficiente edição de Elmo Williams e a direção de Fred Zinnemann, no entanto, conferem ainda mais tensão ao filme e revela-se imprescindível para o resultado final do mesmo. Repare, por exemplo, na inteligente decisão que o diretor toma ao, sempre que possível e conveniente, realizar um close in em um relógio, mostrando o ponteiro deste se movendo lentamente.
Os personagens também são magistralmente desenvolvidos, principalmente se levarmos em conta o pouco tempo que eles têm em cena, e o protagonista, interpretado por Gary Cooper, é o que mais se destaca neste quesito. Longe de ser o esteriotipado xerife durão dos filmes do gênero, Will Kane mostra algumas ressalvas quanto à sua valentia, como na cena em que um personagem lhe pergunta se está com medo de morrer e ele, humildemente, responde que sim. Mas o grande destaque, no que se refere à exploração do protagonista, está nas atitudes do mesmo. Afinal de contas, por que Kane simplesmente não vai embora da cidade, ao invés de confrontar os bandidos, uma vez que ele já se encontra aposentado? Seria por motivos morais? Motivos pessoais? Amor à profissão? Ou talvez seria para proteger a sua própria esposa? E já que mencionei a personagem de Gracy Kelly, devo atribuir um destaque especial a essa, cuja função no filme não é simplesmente ser a bela e meiga mocinha indefesa do mesmo, mas sim conter uma participação crucial no final do longa, quando o resultado do embate poderia ter sido completamente diferente, não fosse por sua intervenção. “Matar ou Morrer” é, de fato, o pai dos westerns xerife versus bandido e só isto já é o bastante para exigir de todo o cinéfilo uma conferida.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

Vicky Cristina Barcelona (prévia) – **** de *****

Acabei de assistir à “Vicky Cristina Barcelona” de Woody Allen (já disse que ele é um de meus roteiristas e diretores prediletos? Já, não é? Mais de mil vezes creio eu) e… uau. Honestamente não sei dizer se essa onomatopéia monossilábica (refiro-me ao “uau”, certamente) representa um elogio ou uma decepção… ops, pode parar por aí. Decepção com certeza não foi o que eu senti ao término desta mais nova obra do judeu mais neurótico da história do Cinema. Talvez seja um alívio pelo mesmo ter chegado ao fim, e quando digo alívio, refiro-me ao fato de poder colocar os meus neurônios para descansar. Francamente, nunca havia tido a oportunidade de conferir uma estória de amor tão confusa quanto esta. Meu Deus (e olhe que sou ateu) quantos personagens, quantas tramas, quantos vai-e-vens, quanta confusão! Mas enfim, não seria o amor o mais confuso dentre todos os sentimentos? Sim, quantas vezes amamos, esquecemos, e voltamos a amar novamente a mesmíssima pessoa? Enfim, “Vicky Cristina Barcelona” se revela uma experiência deliciosamente confusa e confesso humildemente (pela primeira vez no Cine-Phylum demonstrando um ou outro resquício de humildade) que preciso assisti-lo a mais uma vez (o que farei com imenso prazer) para poder escrever uma análise mais complexa.
Nunca pensei que fosse dizer isso, uma vez que considero os filmes de Woody Allen extremamente simples, embora reflexivos e subjetivos, mas pela primeira vez em minha vida saí completa e deliciosamente desnorteado de uma sessão Alleniana.

Avaliação Final: 8,5 (será?) na escala de 10,0.

Fim de Semana de 19 a 21/12/2008

Não cumpri a promessa que havia feito no último post, assistir a “Gomorra” e publicar uma crítica do mesmo aqui no Cine-Phylum. Infelizmente, enganei-me quanto à estréia do mesmo, imaginei que fosse passar nos cinemas aqui de minha cidade durante esta semana, mas não. Moral da estória: terei de viajar à cidade vizinha ainda hoje para conferir o mesmo. Enquanto não publico o texto de “Gomorra”, peço ao leitor que se contente com a mini-crítica de “Monty Python – O Sentido da Vida” e o curta-metragem que abre o mesmo: “Seguros Permanentes Crimson”:

Seguros Permanentes Crimson (The Crimson Permanent Assurance, 1.983, Dirigido por Terry Gilliam) – **** de *****

Antes do espectador poder se deliciar com o ótimo “O Sentido da Vida”, Terry Gilliam nos brindou com esse hilário curta que, apesar de ser muito mais longo do que deveria ser, conta com uma boa dose de humor non sense, revelando-se uma espécie de amostra do que poderíamos ver 17 minutos mais tarde no longa “O Sentido da Vida”. O curta inicia-se criticando a forma como o capitalismo explora e escraviza o proletariado, vemos logo de cara uma eficiente sátira ao excelente épico de William Wyler, “Ben-Hur”, e, posteriormente, ocorre um hilário motim. Daí para frente o curta vai se mostrando cada vez mais eficiente e o humor característico da trupe vai se tornando cada vez mais inteligente, seja demonstrando toda a sua criatividade (vide o modo como os velhinhos amotinados confeccionam suas espadas e as demais armas) ou o conhecimento de Gilliam em assuntos como economia (“___ E assim, a Crimson Permanent Assurance foi lançada ao mar das finanças internacionais.”). A Direção de Arte também é um espetáculo à parte. Note o cuidado adotado pela mesma ao montar um edifício inglês de arquitetura neoclássica ou um gigantesco prédio contemporâneo em Manhtattam. O que dizer então do cuidado que Gilliam adota ao conferir ao filme certos detalhes que o tornam cada vez mais engraçado, como é o caso das notas fiscais e rascunhos que ficam voando pelo cenário durante uma batalha? Infelizmente, o curta conta com alguns minutos a mais, tornando-se muito cansativo durante o seu desenrolar (só para se ter uma idéia, o mesmo era para ser um esquete inserido em meio ao longa “O Sentido da Vida”, mas Gilliam o considerou extenso demais para tal e resolveu fazer do mesmo um curta metragem que deveria ser inserido antes da obra principal), mas não há como não notar a eficiência deste.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

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Monty Python – O Sentido da Vida (Monty Python – The Meaning of Life, 1983, Dirigido por Terry Gilliam). – **** de *****

Não é a toa que “O Sentido da Vida” foi o último filme produzido pela trupe inglesa do Monty Python, afinal de contas, a decadência deste terceiro filme para “Em Busca do Cálice Sagrado” e “A Vida de Brian” é mais do que evidente. Contudo, todos os ingredientes do humor que eternizou o sexteto estão presentes neste longa sensacional: temos aqui tiradas inteligentes (vide a seqüência que satiriza o exacerbado número de filhos pertencentes a uma família residente em um subúrbio de Yorkshire), a exploração para lá de satisfatória do humor surreal e dadaísta (vide a seqüência divertidamente inconveniente que interrompe o filme para anunciar que estamos na metade do mesmo e o esquete do transplante de órgãos) e a banalização dos valores éticos, especialmente religiosos, no que diz respeito à postura conservadora adotada pela religião quanto às questões sexuais (vide a já citada cena da família domiciliada em Yorkshire).
As críticas costumeiras e imprescindíveis à confecção do humor Pythoniano também encontram-se presentes neste ótimo exemplar da comédia inglesa. Logo no início, o longa realiza um esquete satirizando à falta de atenção que o sistema de saúde inglês confere aos seus pacientes (é nesta cena que temos a famosa “máquina que faz “ping””), em seguida, temos uma condenação mais do que inteligente ao modo como a Igreja Católica centralizou o poder em suas mãos e nas mãos da classe dominante (e logo após esta cena contamos com o clipe da clássica música “Every Sperm Is Sacred”) e daí em diante o filme dá alfinetadas em tudo aquilo que julga hipócrita, como, por exemplo, a maneira que o conservadorismo religioso impede o avanço científico e tecnológico, bem como o controle da natalidade.
A inteligência que estava contida em “Em Busca do Cálice Ságrado” e “A Vida de Brian” também está distribuída de maneira extraordinariamente bem dosada neste “O Sentido da Vida”, é só observar a metáfora que a trupe faz sobre a origem da vida de acordo com a escala evolutiva de Darwins utilizando para isso efeitos especiais que transformam os seis integrantes do grupo em peixes dentro de um aquário, ou a cena onde temos uma homenagem a Ingmar Bergman e a sua obra-prima “O Sétimo Selo” quando uma pessoa é enterrada na mesma praia em que o protagonista Antonious Block joga xadrez com a morte, seria o personagem encontrando a morte (não em sua personificada como no filme sueco) no mesmíssimo local.
Mas e quanto ao título “O Sentido da Vida”, ele é realmente abordado? Bem, sim, mas muito pouco. É evidente que a principal intenção do longa é produzir um humor anárquico e fora de foco, mas há uma cena em especial onde o tema-título parece ser abordado, quando um garçom comenta: “___ Minha mãe sempre disse que o sentido da vida é levar alegria às pessoas.”. Pois, sinceramente, creio que os Python levaram isso a sério e decidiram virar comediantes justamente por este motivo: levar alegria às pessoas e preencher o vazio existencial de suas vidas. Uma pena que um filme tão primoroso conte com algumas cenas de alto teor escatológico e sem graça alguma, como a enfadonha seqüência em que um grupo militar ruma à selva para recuperar a perna de um de seus soldados e, principalmente, a asquerosa cena envolvendo o Sr. Creosote, o homem mais gordo do mundo.

Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.

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