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Semana de 14 a 20/12/2008
Sei que durante esta semana não publiquei tantos artigos aqui no Cine-Phylum quanto gostaria, mas nem por isso mantive inerte a minha vida de aficionado pela sétima Arte, muito pelo contrário. Durante estes últimos dias fiz questão de assistir a três filmes que não havia tido a oportunidade de assistir em outras ocasiões. São eles: “Rashomon” de Akira Kurosawa, “Cassino” de Martin Scorsese e “A Regra do Jogo” de Jean Renoir. Contudo, tive uma semana corrida (uma vez que, mesmo estando livre durante a noite inteira, precisei resolver alguns singelos problemas pessoais e aproveitei este período do dia para fazê-lo) e não me vi capaz de escrever os costumeiros textos de aproximadamente mil palavras que sempre publico por aqui. Sendo assim, não me resta outra alternativa senão escrever mini-críticas sobre as respectivas obras. Comecemos então:
Rashomon (Idem, 1.950, dirigido por Akira Kurosawa) – ***** de *****
Dentre os filmes de Kurosawa que já tive a oportunidade de assistir, este “Rashomon” talvez seja o que melhor comprova a genialidade deste como diretor (o que não quer, necessariamente, dizer que seja o seu melhor filme, uma vez que considero “Os Sete Samurais” um longa ligeiramente superior a este). Logo no início da obra de 1.950 somos brindados com movimentações de câmera para lá de fantásticas. Repare na cena em que um lenhador ruma até o bosque para recolher lenha e Kurosawa o acompanha com um horizontal travelling, fazendo, logo em seguida, o rápido e conveniente uso de um vertical travelling. Posteriormente o diretor posiciona a câmera de um modo que possamos acompanhar o personagem através de um ângulo lateral de 225 graus a sudoeste e, por fim, volta a realizar novamente um horizontal travelling, só que desta vez mais ágil e ousado (pela maneira como impetra o bosque) que o anterior.
Mas o grande trunfo do filme fica por conta da filosofia pessimista adotada por este a fim de abordar a maldade e o egoísmo inerentes à raça humana. Utilizando de pano de fundo para tal o assassinato de um nobre e o atentado violento ao pudor cometido contra a sua esposa, o longa conta com uma primorosa edição que, além de alternar entre passado e presente de maneira sensacional fazendo com que o mesmo ganhe muita dinamicidade e não se revele nem um pouco cansativo, apresenta quatro historietas que narram quatro pontos de vista diferentes em relação ao crime de um modo um tanto o quanto imparcial e detalhista, unindo-os ao final da trama de uma forma simples e nada confusa. Os diálogos são magistralmente fenomenais e, juntamente com o brilhante roteiro, nos faz refletir sobre o quão cruéis e egoístas podemos ser, voluntária ou involuntariamente falando. Por outro lado, em sua cena final, o filme também nos mostra que, apesar de toda a maldade presente em nossa raça, há também gestos benevolentes capazes de tirar parcialmente a humanidade do estado de putrefação que esta sempre se encontrou.
Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.
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Cassino (Casino, 1.995, dirigido por Martin Scorsese) – ***** de *****
Ao criticar um determinado filme detesto ter que compará-lo a uma outra obra qualquer do mesmo gênero, mas no caso de “Cassino” e “Os Bons Companheiros” não há como fazê-lo de modo diferente. Por que? Porque os mesmos foram produzidos nos mesmíssimos anos 1.990, roteirizados pelos mesmíssimos roteiristas, dirigidos pelo mesmíssimo diretor, editados pela mesmíssima editora, estrelados pela mesmíssima dupla de atores (apesar de que este longa conta apenas com a dupla De Niro e Pesci. Ray Liotta, infelizmente, ficou de fora do elenco, quebrando o magnífico trio de “Os Bons Companheiros”), narrados pela mesmíssima estrutura narrativa e focados no mesmíssimo tema: a máfia. Contudo, há uma diferença básica entre este longa e o dirigido por Scorsese em 1.990: a escalada social de seus protagonistas. Se em “Os Bons Companheiros” Henry Hill se torna um hábil narcotraficante e, ainda assim, não consegue atingir os mais altos patamares da máfia (uma vez que ele não possui ascendência italiana), em “Cassino” Sam “Ace” Rothstein (apesar de judeu) se torna um poderoso diretor de uma das propriedades mais lucrativas de sua organização. O resultado da obra? Se por um lado o longa protagonizado por Robert De Niro não se revela tão eficiente, cativante e dinâmico quanto o longa protagonizado por Ray Liotta, por outro lado ele nos realiza uma abordagem mais complexa sobre o apogeu e a queda de seu protagonista (e se você acha que o personagem de Liotta era regado de vantagens, espere só até ver o personagem de De Niro).
A direção de Scorsese é, como de praxe, perfeita e repleta de ângulos e movimentações sensacionais realizados por sua câmera. Note a presteza adotada pelo diretor enquanto este filma a seqüência que ilustra o processo desenvolvido pelos funcionários do cassino dentro da sala de contagem, fazendo uso de todas as espécies de travellings existentes. E o que dizer então da breve cena onde temos a impressão de ter uma câmera dentro de um canudo utilizado para cheirar cocaína? As atuações também estão todas fantásticas e o trio de atores principais conta com uma química simplesmente fenomenal (apesar de estar longe de ser tão boa quanto a dinâmica desenvolvida pelo trio Liotta, De Niro e Pesci em “Os Bons Companheiros”). O roteiro se revela bastante competente não só ao abordar o apogeu e a queda de seu protagonista, conforme já fora previamente mencionado, como também ao retratar toda a corrupção e a imundice ética e moral presente nos cassinos de Las Vegas. Infelizmente a edição de Thelma Schoonmaker não se encontra no mesmo nível dos demais aspectos do filme. Longe de realizar um trabalho tão eficaz quanto o que fora realizado em “Os Bons Companheiros”, Schoonmaker deixa de “cortar algumas gordurinhas” que certamente confeririam ao filme um tom mais ágil e vivo, algo mister a uma obra desta espécie.
Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.
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A Regra do Jogo (La Règle du Jeu, 1.939, dirigido por Jean Renoir) – ***** de *****
Jean Renoir foi, inquestionavelmente, um dos nomes que mais serviu de inspiração aos Cinemas moderno e contemporâneo. Antes mesmo de Federico Fellini estabelecer um complexo e contundente panorama sobre as nugacidades adotadas e cultivadas pela alta sociedade a fim de preencher o seu vazio existencial, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Antes mesmo de Woody Allen traçar as fragilidades de relacionamentos amorosos alicerçados em um pseudo sentimento de amor, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Introduzindo o espectador em sua obra-prima máxima com uma majestosa sinfonia composta por Wolfgang Amadeus Mozart, o filho de Auguste Renoir (um dos pintores impressionistas de maior renome na história da Arte) nos apresenta à filosofia adotada por ele quando o assunto em pauta é o amor: tal sentimento é rotativo e por este motivo é cada vez mais comum nos depararmos com indivíduos de todas as castas sociais que cometam adultérios.
Considerado um d
os filmes cults de Arte mais importantes de todos os tempos, “A Regra do Jogo” utiliza de pano de fundo para retratar a filosofia adotada por Renoir uma suntuosa casa de campo no interior da França onde alguns aristocratas e seus respectivos empregados se unem durante um final de semana para caçar coelhos e faisões. A partir de então somos convidados a conhecer e a conviver, durante dois ou três dias, com um grupo de pessoas fúteis e materialistas. Todos os personagens do longa têm fortes desvios de caráter, porém, se vêem obrigados a maquiar isto perante à sociedade hipócrita e falsa onde vivemos. Homens traem suas esposas, mulheres traem seus maridos, todos alegam que a mentira é uma característica inerente ao ser humano, pessoas se apegam a medidas frívolas e nulas a fim de preencher o vazio existencial presente em seus insossos cotidianos e, no final… bem, no final (um dos desfechos mais imprevisíveis e surpreendentes da história do Cinema) ocorre uma tragédia, tragédia esta que nos faz lucubrar sobre até quando falsos moralismos cristãos irão imperar em nossas vidas (conforme diz um personagem do filme: “___ Corretos estão os mulçumanos que têm um harém ao seu dispor e podem dedicar o verdadeiro amor à mulher que mais ama, sem precisar desprezar as demais).
Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.
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Apenas para avisar ao leitor, esta noite (19/12/2008), possivelmente, estarei assistindo ao polêmico “Gomorra”, filme italiano de Matteo Garrone que, segundo muitos críticos, é a melhor obra cinematográfica sobre a máfia produzida desde 1.974, ano em que foi lançado nos cinemas do mundo todo um tal de “O Poderoso Chefão – Parte II”, já ouviram falar? Pois é, contudo, não confio nem um pouco em comentários do tipo: “Este é o melhor filme de um determinado gênero produzido desde tal ano”. Prefiro, como sempre, dirigir-me ao cinema mais próximo sem criar prévias expectativas positivas ou negativas antes do término da sessão. A crítica? Provavelmente saia amanhã (20/12/2008).
Até lá,
um forte abraço a todos!
Daniel Esteves de Barros – Editor do blog Cine-Phylum e co-editor do site Papo Cinema
Crítica – O Sétimo Selo
Aproveitando a pausa que terei de adotar, totalmente contra a minha vontade, em minha rotina de cinéfilo (que consiste em assistir a, no mínimo, dois filmes por fim-de-semana), decidi postar algumas de minhas críticas prediletas e optei por começar com “O Sétimo Selo” do grande gênio do Cinema Existencialista, “Ingmar Bergman”. Talvez esta nem esteja entre minhas críticas prediletas, mas provavelmente foi uma das que mais me deram trabalho para ser redigidas e por este motivo a escolhi:
Título Original: Det Sjunde Inseglet
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (Suécia): 1956
Estúdio: Svensk Filmindustri
Distribuição: Janus Films
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman, baseado em peça de Ingmar Bergman
Produção: Allan Ekelund
Música: Erik Nordgren
Direção de Fotografia: Gunnar Fischer
Desenho de Produção: P.A. Lundgren
Figurino: Manne Lindholm
Edição: Lennart Wallén
Elenco: Max Von Sydow (Antonius Block), Gunnar Björnstrand (Jöns), Bengt Ekerot (Morte), Nils Poppe (Jof), Bibi Andersson (Mia), Inga Gill (Lisa), Maud Hansson (Bruxa), Inga Landgré (Esposa de Antonius Block), Gunnel Lindblom (Garota), Bertil Anderberg (Raval), Anders Ek (Monge), Gunnar Olsson (Pintor da igreja), Erik Strandmark (Jonas Skat) e Åke Fridell.
Sinopse: Após dez anos, um cavaleiro (Max Von Sydow) retorna das Cruzadas e encontra o país devastado pela peste negra. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte (Bengt Ekerot) surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Objetivando ganhar tempo, convida-a para um jogo de xadrez que decidirá se ele parte com a Morte ou não. Tudo depende da sua vitória no jogo e a Morte concorda com o desafio, já que não perde nunca.
Crítica:
Nunca, em toda a minha vida, imaginei criar coragem o bastante para fazer uma crítica sobre “O Sétimo Selo”. Provavelmente isto se deve à complexidade que abrange a obra de uma maneira geral. Filmes como “Persona” (de Ingmar Bergman também) e “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (não preciso dizer quem é o cineasta responsável por esta obra-prima, não é mesmo?) são, inquestionavelmente, mais complexos que o longa estrelado por Max Von Sydow (que futuramente viria a fazer papéis para lá de marcantes na história do Cinema, dentre os quais destaco o padre no longa “O Exorcista”), contudo, a pessoa que assistir a qualquer um dos dois filmes supracitados certamente saberá que se trata de obras cinematográficas para lá de complexas e por este motivo são plausíveis de sofrerem uma análise mais apurada. Diferente é este “O Sétimo Selo” que, aos olhos de uma pessoa que não possua o menor senso de visão artística, trata-se de uma obra simplória e com uma estória fácil de ser absorvida e até mesmo concluída. A verdade é que estes indivíduos não são capazes de compreender as inúmeras metáforas incluídas no roteiro. A própria cena em que Antonious Block joga xadrez com a morte (uma das mais memoráveis da história do Cinema, diga-se de passagem) pode parecer desconexa, fantástica em demasia e até mesmo tola para a grande maioria dos que assistirem ao filme, mas a verdade é que poucos são capazes de enxergar o quão filosófica é a mesma, pois esta representa o principal objetivo de vida de um ser humano: enganar a morte o máximo possível para prolongar a vida cada vez mais. Contudo, no “jogo da vida” (aqui representado pelo jogo de xadrez) quem sempre vence é a morte. Bergman também aborda diversas questões existenciais durante o desenrolar do longa, tais como: o propósito (neste caso, o despropósito) do relacionamento amoroso entre o homem e a mulher, a existência de Deus e do Demônio, a ambição humana e muito mais. Infelizmente, o longa, vez ou outra, opta por utilizar um humor completamente bobo e algumas filosofias baratas e desnecessárias.
Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

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