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Up – Altas Aventuras – **** de *****

Redigido e editado por Daniel Esteves de Barros aos 02 de setembro de 2.009 e publicado pelo mesmo aos 03 de setembro de 2.009.

Up - Altas Aventuras

Ficha Técnica:
Título Original: Up.
Gênero: Animação / Aventura.
Tempo de Duração: 96 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://www.disney.com.br/cinema/up/
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Pete Docter.
Roteiro: Bob Peterson.
Elenco: Edward Asner (Carl Fredricksen), Chico Anysio (Carl Fredricksen – versão brasileira), Christopher Plummer (Charles Muntz), Jordan Nagai (Russell), Bob Peterson (Dug / Alpha), Delroy Lindo (Beta), Jerome Ranft (Gamma), John Ratzenberger (Tom), Mickie McGowan (Policial Edith), Danny Mann (Steve), Donald Fullilove (Enfermeiro George), Jess Harnell (Enfermeiro AJ), Josh Cooley (Omega), Elie Docter (Ellie – jovem), Jeremy Leary (Carl Fredricksen – jovem) e Pete Docter.

Sinopse: Carl Fredricksen (Edward Asner) é um vendedor de balões que, aos 78 anos, está prestes a perder a casa em que sempre viveu com sua esposa, a falecida Ellie. O terreno onde a casa fica localizada interessa a um empresário, que deseja construir no local um edifício. Após um incidente em que acerta um homem com sua bengala, Carl é considerado uma ameaça pública e forçado a ser internado em um asilo. Para evitar que isto aconteça, ele enche milhares de balões em sua casa, fazendo com que ela levante vôo. O objetivo de Carl é viajar para uma floresta na América do Sul, um local onde ele e Ellie sempre desejaram morar. Só que, após o início da aventura, ele descobre que seu pior pesadelo embarcou junto: Russell (Jordan Nagai), um menino de 8 anos.

Fonte Sinopse e Ficha Técnica: Adoro Cinema.

Up – Trailer:

Crítica:

A missão deste “Up – Altas Aventuras”, mais nova aposta da bilionária parceria entre Disney/Pixar, definitivamente, não é das mais fáceis. Substituir o espetacular “Wall-E” e, ao mesmo tempo, segurar com todas as forças o glamour que ronda o estúdio não é uma tarefa que exige pouca responsabilidade dos envolvidos com a mesma.

Não menos hercúlea é a missão do espectador que ainda nutre fortes laços com o mágico filme do robozinho e tem de esquecer-se daquela magnífica produção de 2.008 para poder conferir “Up – Altas Aventuras” (que a partir de agora chamarei unicamente pelo título original, ou seja, “Up”) de cabeça vazia e sem tentar estabelecer quaisquer elos ou criar quaisquer expectativas em cima desta animação tomando por base “Wall-E”.

Contudo, é justamente quando o filme começa que nos damos conta de que esta nova investida da Disney/Pixar perde veementemente para o seu antecessor em um quesito: sua parte gráfica. Se em “Wall-E” (ao menos durante o primeiro ato daquele longa) jurávamos não estar presenciando uma simples animação 3D, mas sim um filme com personagens de verdade, em “Up” temos a mais plena ciência de que realmente estamos diante de uma animação 3D muito bem feita, e só.

O que dizer então da dupla de protagonistas Carl/Russell se comparada ao personagem Wall-E que, ao lado de Gollum, da excepcional trilogia – “O Senhor dos Anéis”, se mostra a figura mais marcante do cinema nesta primeira década do século XXI? O velho e o garoto, indiscutivelmente, se completam e enchem “Up” de carisma, magia e emoção, mas não restam dúvidas de que um único gesto feito pelo simpático robozinho conseguia se mostrar ainda mais cativante do que praticamente tudo o que os dois protagonistas realizam juntos nesta animação.

Mas desvencilhemos “Up” de “Wall-E”, ok? Por mais duro que isto seja, deve-se avaliar um filme de maneira independente, e farei isso com “Up” a partir de agora.

A animação em questão começa muito bem. Deparamos-nos com um garoto que, assim como todos os outros, fantasia a sua vida vivendo entre um devaneio e a realidade. O pequeno e tímido Carl sonha em seguir os passos de seu ídolo Charles Muntz e viajar através de um veículo aéreo até a América do Sul, onde irá desbravar as maravilhas da natureza local. Carl conhece então a tagarela e espevitada Ellie que nutre as mesmíssimas paixões e desejos que ele. Ambos se tornam grandes amigos, crescem juntos e, como já era de se esperar, se casam.

Previsível, é claro, mas até aí a animação é simples e charmosa. Assim como o robô Wall-E (disse que evitaria comparações, não? Juro que esta será a última) nos remete à deliciosa sensação de estarmos dentro de um filme mudo enquanto ele protagoniza as suas divertidas palhaçadas isolado no planeta Terra (salvo pela companhia de sua barata de estimação, é claro), em “Up” temos à magistral sensação de estarmos assistindo a um curta metragem mudo durante os momentos em que a animação se dedica a desenvolver o casamento entre Carl e Ellie.

Por mais simples e batido que soe o romance de ambos, não há como não nos cativarmos com eles, seja vendo-os pintando a caixa de correio, seja vendo-os limpando a casa, seja vendo-os poupando dinheiro e armazenando tudo em um singelo recipiente, seja vendo-os sonhando com uma casa no topo de uma montanha localizada na América do Sul, seja vendo-os amargar a perda de um tão esperado filho que nem ao menos chegou a nascer.

Em uma sucessão de imagens que dura menos do que dez minutos, o filme já faz valer a pena o valor de seu ingresso, pois conseguimos rir, nos emocionar e nos lamentar com o triste fim que o matrimônio de ambos teve. É como se em dez minutos uma longa e duradoura estória nos fosse inteiramente narrada unicamente através do sábio uso de imagens que já falam por si só.

Eis que chegamos à trama principal. Carl, agora viúvo, torna-se um velho antipático, ranzinza e frustrado. A única lembrança concreta e material que possui de sua falecida esposa Ellie é a casa na qual viveram juntos durante as suas vidas inteiras e é justamente por este motivo que o protagonista recusa-se a abandonar a mesma.

Acontece um incidente, Carl é obrigado a ir para um asilo, mas antes, enche o seu lar de balões a fim de fazê-lo flutuar até a América do Sul. Graças à força do destino, o velho acaba involuntariamente levando consigo o garoto Russell, de oito anos, cuja tagarelice irrita o velho que, a partir de agora, deverá juntar forças e paciência para tolerar o mesmo.

Renasce então aquela relação exaustivamente batida entre o velho ranzinza e o garoto hiperativo e irritante. Sabe aquela química típica de Dennis Mitchel e o Sr. George Wilson? Pois é, ela é praticamente transportada para cá. O garoto que ama o velho e o velho que tenta fingir que odeia o garoto. Entretanto, há algo que difere completamente Carl e Russell de Dennis e Wilson. Aqui, um precisa do outro.

Carl perdeu a esposa e viu a vida se tornar insuportavelmente vazia e insossa sem essa. Russell viu o pai ir embora e raramente recebe visitas da parte deste. Ambos se tornam solitários e, por mais diferentes que sejam um do outro, eles se completam. Russell se torna o neto que Carl nunca teve, o segundo, por sua vez, se torna o avô que o primeiro também jamais possuiu e, francamente, não fosse a grande diferença de idade entre ambos, diria que a relação está muito mais para pai e filho do que avô e neto.

A dinâmica entra ambos é muito boa, contudo, previsível demais. Aliás, o filme todo é previsível, principalmente em suas gags. Dois exemplos (e se você segue o tipo que não gosta de saber de algumas piadas inseridas no roteiro antes de assistir ao filme, aconselho não ler o restante deste parágrafo e que pule diretamente para o final desta crítica): quando Russell exibe o seu GPS ao velho e, em uma jogada muito antigo que só acontece mesmo em Hollywood e sabemos perfeitamente que resultará em um pequeno “desastre”, abre os braços para tal fazendo com que a sua mão vá além de uma janela aberta, sabemos perfeitamente que o garoto irá arremessar o aparelho para fora. Uma previsibilidade de igual intensidade ocorre quando Carl tenta despistar a ave e o cão que passam a lhes seguir. Logo que o protagonista arremessa uma bola e uma barra de chocolates para distrair os animais e inicia uma pequena corrida para despistar os mesmos, temos a plena ciência de que, assim que parar para descansar, dará de cara com ambos.

Mas devo admitir que nem todo alívio cômico é previsível em “Up”. Prova disso é a cena em que o garoto faz uma pausa para “ir ao banheiro” e fica na dúvida se deveria cavar um buraco no solo antes ou depois de fazer as necessidades. E é praticamente impossível conter a gargalhada quando o jovem comenta: “___ Oh, era antes!”.

Avaliando-o como uma animação produzida pelos estúdios Disney/Pixar, “Up – Altas Aventuras” se mostra levemente (bem levemente mesmo) aquém de alguns exemplares já produzidos pela empresa. Ao avaliar o filme individualmente, no entanto, o mesmo revela-se bastante divertido e até mesmo criativo. E mesmo que a dinâmica entre os seus dois protagonistas se revele altamente batida e o seu humor seja bastante previsível, a trama conta com a sua parcela de originalidade (uma casa sendo levantada por balões e servindo de dirigível para dois atípicos aventureiros é a prova disso), nos emociona satisfatoriamente e conta com uma bela mensagem inserida em suas entrelinhas.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

Transformers 2 – A Vingança dos Derrotados – * de *****

Mencionei ontem no Twitter do Cine-Phylum que não estava nem um pouco afim de ir aos cinemas conferir a pré-estréia deste “Transformers – A Vingança dos Derrotados”. Não, essa minha falta de vontade em assistir ao filme não estava diretamente ligada à qualidade (ou a falta de) do mesmo, mas sim ao fato de a cópia que estava sendo exibida nos cinemas de minha cidade ser dublada. Sinceramente, não creio que seja nem um pouco ética esta minha atitude de criticar um filme dublado. Por quê? Porque não julgo um filme dublado uma obra cinematográfica original. Assistir a uma produção com o som original é extremamente importante para que possamos avaliar a atuação do elenco, já que o tom de voz que os atores emprega para compor os seus respectivos personagens é mais do que importante para o resultado final da obra. Destarte, peço para que o leitor leve em conta que, quando eu mencionar “atuações” na crítica a seguir, estarei me referindo à expressividade e ao carisma dos atores, descartando então o tom de voz dos mesmos.

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Ficha Técnica:
Título Original:Transformers: Revenge of the Fallen.
Gênero:Ação.
Tempo de Duração:147 minutos.
Ano de Lançamento:2009.
Site Oficial:www.transformersmovie.com
País de Origem:Estados Unidos da América.
Direção:Michael Bay.
Roteiro:Ehren Kruger, Roberto Orci e Alex Kurtzman.
Elenco:Shia LaBeouf (Sam Witwicky), Megan Fox (Mikaela Banes), Hugo Weaving (Megatron – voz), Josh Duhamel (Capitão Lennox), John Turturro (Agente Simmons / Jetfire – voz), Isabel Lucas (Alice), Tyrese Gibson (Sargento Epps), Matthew Marsden (Graham), Samantha Smith (Sarah Lennox), Glenn Morshower (General Morshower), Ramon Rodriguez (Leo Spitz), Kevin Dunn (Ron Witwicky), Julie White (Judy Witwicky), Michael Papajohn (Cal), John Benjamin Hickey (Theodore Galloway), Rainn Wilson (Professor), Frank Welker (Soundwave – voz), Peter Cullen (Optimus Prime – voz), Mark Ryan (Bumblebee – voz), Darius McCrary (Jazz – voz), Reno Wilson (Frenzy – voz), Robert Foxworth (Ratchet – voz), Jess Harnell (Ironhide / Barricade – voz) e Mike Patton (Mixmaster – voz).

Sinopse:Dois anos após a batalha entre os Autobots e os Decepticons, Sam Witwicky (Shia LaBeouf) enfrenta a ansiedade de entrar na faculdade. Isto significa que ele terá que morar separado de seus pais, Judy (Julie White) e Ron (Kevin Dunn), deixar a namorada Mikaela Banes (Megan Fox) e ainda explicar a situação ao seu amigo e protetor Bumblebee, já que pretende levar uma vida normal de agora em diante. Paralelamente o governo desativa o Setor 7, resultando na demissão do agente Simmons (John Turturro). Em seu lugar é criada a NEST, uma agência comandada pelo capitão Lennox (Josh Duhamel) e o sargento Epps (Tyrese Gibson), que trabalha em conjunto com os Autobots. Porém a NEST enfrenta a resistência de Theodore Galloway (John Benjamin Hickey), o consultor da segurança nacional, que a considera supérflua.

Fonte Sinopse: Adoro Cinema.

Transformers: Revenge of the Fallen – Trailer:

Crítica:

Começarei esta crítica praticamente da mesma forma que comecei a de “Anjos & Demônios”. Nunca assisti ao primeiro filme da franquia “Transformers”, nunca assisti ao desenho que passava na televisão (havia realmente um desenho animado que era exibido na TV? Juro que não me lembro) e nunca brinquei com os bonecos (cuja alcunha atribuída pela criançada na época era: “hóminhos”) dos personagens principais da série. E querem saber o que é pior? Nunca havia nem ao menos ouvido falar nestes tais “Transformers” antes do primeiro episódio da série ter sido lançado nos cinemas do mundo todo no ano de 2.007, e olha que sou da geração de 1.980 (nasci aos 17 de dezembro de 1.983), justamente quando os tais robôs alienígenas estavam no auge.

Mas o que seria eu então? Uma criança anormal? De forma alguma. Acontece que durante a minha infância me preocupava muito mais em assistir a desenhos como “Tom & Jerry”, “Faísca & Fumaça”, “Papa-Léguas”, “Tartarugas Ninja” e “Caverna do Dragão” a assistir os “Transformers” da vida. Logo, nem ao menos tomei ciência da existência do desenho animado durante os meus dias de garoto. Talvez seja justamente por este motivo que fui ao cinema local com toda a frieza que me é inerente. Não estava tão entusiasmado como alguns fãs que ali se encontravam estavam (inclusive, havia muitos “quarentões” na sessão, e sem a companhia dos filhos. Será que tratavam-se de nerds fãs incondicionais da série quando tinham vinte anos de idade? Pode apostar que sim), mas também não estava nem um pouco influenciado pelas críticas negativas que havia lido sobre o primeiro filme.

A sessão começa. Vejo-me sentado novamente na poltrona do meio da sala. Uns robôs, sem mais nem menos, aparecem na pré-história e saem matando seres humanos a torta e a direita, sem quaisquer propósitos pré-estabelecidos. E reside justamente aí a minha maior repugnância para com os filmes que envolvem extra-terrestres. Oras, por que um grupo de alienígenas iria almejar arriscar a própria espécie a fim de dominar um planet
a como este (que os próprios robôs, durante muitos momentos do filme, afirmam ser um lixo de planeta)? E por que os “grandalhões” malvados não exterminaram a raça humana e não dominaram o mundo, quando era mais fácil para eles o fazer durante a pré-história? Seria pelo fato de os Autobots (os “mocinhos” da vez) terem impedido? Mas por que cargas d’água um grupo de robôs alienígenas se preocuparia em salvar a nossa espécie?

Francamente, não sei dizer se as questões por mim levantadas acima são furos de roteiro ou fruto de minha ignorância no que diz respeito à franquia “Transformers”, mas caso seja a segunda opção (o que, creio eu, é bem provável), não tenho culpa se o filme não explicou isso durante a sua projeção. Ops… pára tudo, pára tudo (lembram-se do imbecil do João Kleber?)… Acabei de confirmar com o meu pai (e vejam bem, o meu pai sabe muito mais da série do que eu) que os Decepticons (os vilões da vez) na verdade fugiram do planeta natal deles e vieram se esconder na Terra e os Autobots vieram os perseguir. Foi isso mesmo o que aconteceu (pergunto a alguém que tenha assistido ao primeiro filme ou aos episódios da série televisiva, uma vez que o meu pai confessou não ter muita certeza do que estava falando)? Enfim, caso esteja completamente errado e vocês estejam rindo de minha cara (e da de meu progenitor também), novamente insisto que não é culpa minha que um filme com duas horas e vinte minutos de projeção pare um segundo sequer para explicar e/ou relembrar isso.

E falando em projeção, que longa extenso este, não? Sejamos honestos, duas horas e vinte minutos de duração para isso! Para uma estórinha mal contada destas, que não tem nem ao menos a dignidade de se valer por si só (sim, pois como havia dito, o fato de não ter assistido ao episódio anterior faz com que eu nada saiba sobre os reias intentos dos Decepticons aqui na Terra) e depende completamente do episódio anterior para funcionar! Eu me pergunto: o que passava pela cabeça de Michael Bay enquanto filmava tantas cenas altamente dispensáveis para o resultado final da obra? Por que não dar pequenas dicas a espectadores desavisados (como era o meu caso) sobre o real motivo do embate entre Autobots e Decepticons? Afinal de contas, “Transformers 2 – A Vingança dos Derrotados”, apesar de ser uma continuação, é (ao menos era para ser) um episódio extremamente independente do filme que lhe deu origem, ao contrário de “Kill Bill – Volume II”, por exemplo, onde deveríamos assistir ao primeiro longa metragem para entender a sua continuação, já que ambos formam um único filme.

Entretanto, mesmo que recomeçasse esta crítica agora, neste exato momento. Mesmo que soubesse todas as respostas para as perguntas que fiz. Mesmo que fosse o maior entusiasta e conhecedor de “Transformers” da face da Terra, teria achado o filme ruim.

Sim, “Transformers 2…” é ruim por si só, e sabem quem é o maior responsável por isso? Um doce para quem acertar. Claro, Michael Bay, o alvo favorito (ao lado do tão horrendo quanto Uwe Boll) dos críticos de Cinema do mundo todo. O Ed Wood de nossa geração dá sinais de sua incompetência logo no início do filme quando, ao realizar um rápido travelling ou um singelo afastamento de câmera, treme a mesma como se estivesse segurando uma britadeira ligada com a mão oposta. E o que dizer então das exageradas rotações de câmera de cento e oitenta graus quando filma um momento romântico do casal de protagonistas (ele bem que poderia ter aprendido a fazer decentes rotações com Christopher Nolan em “Batman – O Caveleiro das Trevas”)?

E quanto às demais características que sempre marcam, do modo mais negativo o possível, o trabalho do cineasta (gargalhadas pela palavra “cineasta”)? Da mesma forma que constatamos em muitos outros de seus filmes, em “Transformers 2…” Bay aplica inúmeras tomadas em slow motion enquanto mostra os protagonistas fugindo de uma recente explosão, gira a sua câmera “desenhando” uma esfera completa a fim de filmar porta-aviões estadunidenses e, é claro, faz questão de realizar closes de inúmeros soldados caminhando lentamente com aquele ar blasé, típico dos fracassados militares oriundos da Terra do Tio Sam.

Ah, e é claro que não podemos nos esquecer de mencionar o oportunismo (também característico do diretor) adotado com a finalidade de explorar todos os atributos das atrizes símbolos sexuais que trabalham com ele. Para se ter uma idéia, Megan Fox entra em cena montada em uma moto, inclinada para frente, com um short jeans excessivamente minúsculo e a bunda levantada bem ao alto (Está bem, confesso, meu lado pessoal adorou essa cena). E já que mencionei o (suculento) traseiro da atriz, o leitor tem alguma dúvida de que o diretor explora ao máximo esta parte do corpo dela? Basta dizer que, quando a mesma não é exibida com uma blusa deveras decotada e que mostra boa parte de seus seios, Bay faz questão de colocá-la em cena de um modo que a sua câmera consiga filmar os quadris da moça sendo fortemente apertados por uma calça branca extremamente justa (aliás, ela, assim como todos os outros personagens, passa o filme todo com a mesma roupa. Que figurino mais pobre esse, viu!).

E sei que já me estendi demais nesta crítica, principalmente para falar mal de Michael Bay, mas o leitor teria a bondade de me conceder mais uns minutinhos de seu tempo para criticar ainda mais o diretor (fazer o quê? O cara é um desastre em forma de cineasta)? Não bastassem todas as falhas cometidas pelo diretor, ele ainda tem a pachorra de empregar uma trilha-sonora visivelmente maniqueísta para conferir ao longa a sensibilidade que não tem competência para o fazer.

Mas vamos parar por aqui, a crítica já foi muito além do que deveria ter ido.

Em suma, “Transformers 2 – A Vingança dos Derrotados” é o típico filme de ação comercial proveniente dos grandes estúdios de Hollywood: divertido, cheio de adrenalina e repleto de efeitos especiais (visuais e sonoros) dignos de fazer cair o queixo, mas que jamais conseguem maquiar as terríveis falhas que são exibidas durante os seus desnecessariamente longos duzentos e vinte minutos de duração, variando desde a trama apenas razoável, passando pelas atuações nada convincentes por parte de todo o elenco, pelos alívios cômicos frustrantes, e pela falta de carisma dos personagens principais, encerrando-se no pavoroso trabalho de direção. Enfim, segue o estereótipo das obras cuja direção é assinada por um dos maiores engodos do Cinema nos últimos anos: Michael Bay.

Obs.: É impressão minha ou o personagem Leo (que nem ao menos diz a que veio no filme), próximo ao desfecho do longa, é adormecido com um choque em uma cena e, logo na outra, aparece acordado e agindo normalmente como se nada houvesse acontecido? É Sr. Bay, parece que o senhor comet
eu um dos erros de continuidade mais ridículos da história do Cinema, o que permite com que possamos lhe atribuir o título de Ed Wood dos anos 1.990 e 2.000.

Avaliação Final: 3,5 na escala de 10,0.

Glória Feita de Sangue – ***** de *****

Já fazia muito tempo, muito tempo mesmo, que eu não escrevia sobre um filme do mestre Stanley Kubrick (o maior ícone da história do Cinema, a meu ver) aqui no Cine-Phylum (a última vez foi quando comentei sobre o excelentíssimo “Barry Lyndon”), logo, decidi que era hora de voltar a faze-lo. Iria optar por escrever sobre “2001 – Uma Odisséia no Espaço” ou “Laranja Mecânica”, mas a verdade é que o meu fanatismo por ambos os filmes é tão gigantesco que conclui ser impossível exprimir a minha opinião em menos de 3.000 palavras de texto. Decidi então que o correto seria escrever sobre uma das poucas obras do diretor a que ainda não havia assistido. Meu dedo apontou para este “Glória Feita de Sangue” que, já de cara, revelou-se o meu terceiro ‘Kubrick’ predileto, conforme poderemos ver na crítica logo mais abaixo.

Ficha Técnica:

Título Original: Paths of Glory.

Gênero: Guerra.

Tempo de Duração: 87 minutos.

Ano de Lançamento: 1957.

País de Origem: Estados Unidos da América.

Direção: Stanley Kubrick.

Roteiro: Stanley Kubrick, Jim Thompson e Calder Willingham, baseado em livro de Humphrey Cobb.

Elenco: Kirk Douglas (Coronel Dax), Ralph Meeker (Phillip Paris), Adolphe Menjou (General George Broulard), George Macready (General Paul Mireau), Bert Freed (Sargento Boulanger), Kem Dibbs (Recruta Lejeune), Timothy Carey (Recruta Maurice Ferol), Wayne Morris (Tenente Roget), Richard Anderson (Major Saint-Auban), Joe Turkel (Recruta Pierre Arnaud), Peter Capell (Juiz da Corte Marcial) e Emile Meyer (Padre Dupree).

Sinopse:Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, Mireau (George Meeker), um general francês, ordena um ataque suicida e como nem todos os seus soldados puderam se lançar ao ataque ele exige que sua artilharia ataque as próprias trincheiras. Mas não é obedecido neste pedido absurdo, então resolve pedir o julgamento e a execução de todo o regimento por se comportar covardemente no campo de batalha e assim justificar o fracasso de sua estratégia militar. Depois concorda que sejam cem soldados e finalmente é decido que três soldados serão escolhidos para servirem de exemplo, mas o coronel Dax (Kirk Douglas) não concorda e decide interceder de todas as formas para tentar suspender esta insana decisão.

Fonte Sinopse:Adoro Cinema

Paths of Glory – Trailer:

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Crítica:

Qual é o real valor da glória? Pode ser tido como palatável o sacrifício de inúmeros homens em nome da glória de um só? Quantas vidas justificam a aquisição de uma estrela condecorativa? Até onde a vaidade de um único homem pode ir para conseguir marcar o seu nome na história de uma nação? É pertinente que, para tal, o mesmo se veja no direito de incumbir um grupo de militares a realizar uma missão que, na melhor das hipóteses, irá resultar na perda de mais da metade do batalhão?

Indagações como as supracitadas cruzam as nossas mentes a todo o instante enquanto assistimos à primeira parte de “Glória Feita de Sangue”, o sexto filme de Stanley Kubrick e o terceiro de sua carreira a ter o respaldo e o prestígio da crítica internacional. Até onde a ganância de um homem pode ir? Quantos patriarcas devem deixar as suas famílias desamparadas a fim de sustentar a vaidade de uma minoria? Qual é o limite da glória (se é que existe algum limite para a mesma)?

Todavia, o mais curioso desta etapa inicial de “Glória Feita de Sangue” reside na maleabilidade do roteiro em tornar compatível a trama diegética com os nossos respectivos cotidianos. Assim como estamos acostumados a presenciar em nossas vidas profissionais, percebemos que em um batalhão militar há também as costumeiras injustiças cometidas por pessoas que não conseguem distinguir o lado pessoal do lado profissional. Da mesma forma que nos empregos convencionais temos de lidar com bajuladores, colegas falsos e hipócritas, picuinhas, e superiores que prejudicam os seus subordinados pelo simples fato de nutrirem alguma intriga pessoal para com os mesmos, os recrutas de um batalhão parecem enfrentar as mesmíssimas situações, mas com uma grande diferença: aqui, se por algum motivo você não agradar a um superior, a pena máxima não é uma reles demissão, mas sim a morte da maneira mais direta o possível.

E não bastasse o filme abordar tantas questões primordiais, ele ainda consegue a façanha de ir além. Novamente passamos a tecer analogias em cima das experiências vivenciadas por soldados quando nos vemos diante de um tribunal militar. É fato que alguém deve ser julgado e condenado pelo previsível insucesso de uma missão, mas quem? A pessoa que organizou esta missão? Oras, quantas vezes você já viu o seu chefe ser responsabilizado pelo fracasso em uma tarefa? Pois é, a culpa sempre cai sobre o mais fraco e em “Glória Feita de Sangue” a estória não poderia acontecer de outra maneira.

É justamente quando percebemos que três humildes soldados deverão responder pela pena máxima imposta através de corte marcial, que o filme atinge o seu ápice. A obra, que aparentava não conseguir ser melhor do que já estava sendo durante a sua primeira metade, passa a ganhar um tratamento ainda mais primoroso. Não só o Coronel Dax (magistralmente encarnado por um Kirk Douglas frio e desesperançoso) ganha destaque aqui (conforme vinha acontecendo até então), como também os recrutas Lejeune (Kem Dibbs) e Maurice (Timothy Carey, na melhor atuação do filme) e o Sargento Boulanger (Bert Freed).

Acompanhar de perto a angústia dos três condenados é algo ainda mais fascinante do que assistirmos à explosiva batalha travada no início do longa ou testemunharmos às injustiças pelas quais os recrutas passam. À medida que vemos aqueles três pobres homens pagando por um erro que não cometeram, vários sentimentos passam a nos atormentar: bem como a agonia, a injustiça, a compaixão e a pena pelos mesmos, mas ainda assim, nenhum destes sentimentos martela tanto as nossas mentes quanto a indignação que passamos pela hipocrisia e desonestidade que somos obrigados a tomar parte naquela exata ocasião.

Como deixarmos de partilhar também com os sentimentos de Dax, que utiliza-se de todas as atribuições legais o possível para fazer justiça e impedir que os companheiros percam as suas vidas, mas percebe que, quanto mais rápido passa o tempo, menos chances terá de derrotar o sistema interno criado pelo próprio general, que parece ser extremamente desconexo com as regras gerais adotadas no país? A estória avança, Dax entra em profunda angustia ao notar a sua própria incapacidade, os condenados passam a questionar as suas vidas e a existência de Deus, a agonia aumenta cada vez mais e, enquanto o filme não tem o seu definitivo desfecho, nós, espectadores, roemos as unhas de tensão e, após o término da sessão, a perturbação não diminui nem um pouco, muito pelo contrário, só aumenta.

Mas é claro que, por mais angustiante que o roteiro de “Glória Feita de Sangue” seja, o filme não teria obtido o mesmo êxito não fosse o trabalho de Stanley Kubrick. Mais do que meramente empregar várias técnicas de direção a fim de tornar o filme mais rico (e aqui ele adota o uso de travellings, close in, close out e muitos outros elementos que enriquecem ainda mais a experiência cinematográfica), o cineasta (que é tido como um dos maiores da história da sétima Arte e é, disparado, o meu predileto), mesmo fazendo uso de uma direção demasiadamente fria como de praxe, confere à obra toda a sensibilidade necessária para que a mesma funcione corretamente bem.

Repare na maneira como Kubrick opta por filmar o julgamento dos recrutas, por exemplo. O diretor cria um plano de modo com que a sala aparente ser enorme e silenciosa, aumentando ainda mais a amargura que a cena, por si só, já nos transmitiria. O modo como Stanley retrata as possíveis últimas horas de vida dos recrutas também é fenomenal e extremamente introspectiva. Francamente, creio que nem mesmo Kurosawa em “Rashomon”, Lumet em “12 Homens e Uma Sentença” e Bergman em “O Sétimo Selo” e “Gritos & Sussurros” se mostraram capazes de fazer um estudo tão depressivo da angustia pré-morte (ou da concreta possibilidade desta) quanto Kubrick o fez neste filme.

Glória Feita de Sangue” é, além de um dos melhores dramas de guerra já feitos, uma obra-prima atemporal e introspectiva que certamente figura entre os mais importantes filmes já feitos para o Cinema.

Duas décadas e meia mais tarde, Stanley Kubrick voltaria a flertar com o gênero guerra no clássico “Nascido Para Matar”, mas não restam dúvidas de que o peso dramático inserido naquele filme não chega aos pés desta obra-prima magistral lançada comercialmente em 1.957.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

Poema – O Cadáver e o Efêmero Peregrino

Outro poema de minha autoria (pois é, disse que iria viciar nisso, não disse?). Este aqui foi baseado totalmente em fatos reais, vivenciados por mim na última noite de sábado (06 de junho de 2009), exceto, é claro, no que diz respeito à carga sobrenatural incluída nesta prosa, que deve ser encarada pelo leitor metaforicamente, e não literalmente ou até mesmo metafisicamente. O que o cadáver do poema vem a representar? Oras, leia e tire as suas próprias conclusões.

O Cadáver e o Efêmero Peregrino, por Daniel Esteves de Barros


Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

O impávido zéfiro castigava o peregrino

Que sem propósito e sem destino, traçava o seu caminho

Sozinho, ele perambulava pelas ermas vias urbanas

Lutando bravamente contra o frigido acoimo hiemal

Não havia um escopo neste seu excêntrico ato

Não havia uma insaciável busca por alvedrio

Não havia uma insaciável busca pelo inaudito

Não havia uma insaciável busca pela fleuma espiritual

Quiçá fosse apenas uma fuga existencial

Quiçá fosse apenas uma retrospecção de alguns de seus momentos infantes

Quiçá fosse apenas uma oportunidade de voltar ao passado

Quiçá fosse apenas uma atitude convulsiva de uma mente perturbada

Fosse o que fosse, aquilo era um desafio

Um repto sugerido a fim de confrontar a si mesmo

Não necessariamente uma busca, e sim uma fuga

Uma escapula do que já não mais lhe confortava

Pensamentos martelavam a cabeça do efêmero andarilho

O calor de tuas mãos não mais me aquece, matutava ele

Não mais violarei vosso nuvioso túmulo

Não mais farei amor contigo neste cemitério da vida

Teus abraços não mais me consolam

Tuas mãos encontram-se cada dia mais álgidas

O esputo de teus lábios carcome a minha carne

A macieza de tua vulva só me causa náuseas

Chega! Não mais relacionar-me-ei contigo

Teu formoso corpo não mais tem a mesma forma

Tua volúpia nada mais é do que a propagação de uma ilusão

De um passado que não mais voltará

Despeço-me de ti, ó minha eterna amada

O teu vulto, antes belo, agora se encontra putrefato

E é com poucas lamúrias e ressalvas que tomo esta decisão

Enterrar-te-ei novamente, para jamais voltar a violar vosso jazigo

Agora deverás descansar em paz

Vossa carne poderá, enfim, ser decomposta pelos vermes

E enquanto busco a magia que compõe a autodestruição

Vejo o teu corpo se esfacelando relutantemente em vosso ataúde

Findam-se os lúgubres e sinistros pensamentos

A despropositada e não alicerçada pequena jornada prossegue

A inclemente ventania ainda rasga-lhe o tecido carnal que lhe compõe o rosto

Corta-lhe a carne, alfineta-lhe a vulnerabilidade corpórea e atinge-lhe a alma

O efêmero andarilho se vê então diante de paredes de concreto

Tudo lhe lembra a infância, mas não mais os bons momentos desta

Os muros estão todos ali, parados, no exato lugar onde estiveram outrora

Nada mudou, tudo se encontra da mesma forma que se encontrara anos atrás

Pessoas se foram, pessoas chegaram, pessoas ali habitaram

E a inexorável passagem do tempo a todos castigou

Mas as residências permaneceram exatamente as mesmas

Com suas raras alterações, sendo a maioria imperceptíveis

Pequenas moradias ganharam adendos

Transformaram-se em lares ligeiramente suntuosos

Mas no saldo final, o peregrino constatou que poucas foram as mudanças

E, em sua maioria, mutações que atingiram um resultado ainda mais negativo

As pessoas sobrevivem, vivenciam semelhantes cotidianos

Transformam os seus pertences, mas não transformam a si mesmas

E os anos que lenta e maçantemente se passam, as acoimam

Mas jamais punem os seus pertences, que a tudo parecem resistir

Suas residências ali se mantêm com obstinada rigidez

Mas as pessoas que as construíram, não mais

Seriam então os seus bens ainda mais fortes e marcantes do que elas mesmas?

Tal questionamento perturba a mente do corriqueiro andarilho

Acabrunhado ainda mais pelo gigantesco e atormentador contraste social

Que pode ser visivelmente notado dentro de um insignificante espaço geográfico

Cuja discrepância vem a nos ser anunciada aos berros e alardes

Pequenas suntuosidades aqui, gradativas adversidades meia quadra abaixo

Tudo isto causa uma excessiva mortificação à alma do andarilho

Que se volta para trás e segue, de cabeça baixa, o seu desconexo rumo

E enquanto vaga pelas ermas e sorumbáticas vias urbanas

Passa a lucubrar e opta por voltar-se ao cemitério da vida

Voltei-me para ti, ó minha eterna amada, diz o peregrino

E o esquife se abre, o cadáver se levanta e uma mão puxa-lhe o braço

O efêmero andarilho é então definitivamente tragado pela terra

E é ali, que para a sua perene felicidade, passará o resto de seus dias

Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

Poema – A Bruma da Incerteza

Pois é, outro poema. Fazer o quê, não é? Com vocês:

A Bruma da Incerteza, por Daniel Esteves de Barros

Ó pálida fuligem, que paira sobre as nossas vidas
Encobristes os campestres caminhos
Proporcionou-nos o flerte com o desconhecido
Em face de ti nos caem as incertezas
Recalcadas sob o mais belo mistério
Que nos tira a visão concreta do caminho a ser traçado
Mas nos brinda com a possibilidade de encontrar o desconhecido
Aquilo que é novo, aquilo que está por vir

E há algo mais belo do que o misterioso?
O real progenitor da ciência e da arte, segundo Einstein
Vossa emblemática coberta que nos oculta a fatídica obviedade da vida
E que nos dá a esperança para continuarmos buscando a perfeição
Que jamais será alcançada, mas nos atribui o motivo de nossa existência
Traçando caminhos que, por ti, são tão lindamente ocultados
E nos proporcionam os mais embaraçosos questionamentos
Ora bons e instigantes, ora cruéis e perturbadores

Ó pálida fuligem, que a incerteza em nós nos proporciona
É a passos deveras cautelosos que rasgamos vosso véu
Descortinamos vosso conveniente arrimo ao desconhecido
E o concreto sentimento da mais dilatada imprecisão
Finalmente nos atinge por inteiro e faz-nos interrogarmos
O que escondestes tão sigilosamente de nós?
Dai-nos a devida concessão para que possamos amplamente averiguar?
E findarmos se nos escondes algo de bom, de ruim, ou mais do mesmo?

Fim de Semana Especial – Jean Renoir

Resolvi dedicar este fim de semana a assistir a alguns filmes de Jean Renoir, uma vez que o diretor não é só um de meus dez favoritos, como também tem uma contribuição para lá de importante à sétima Arte. Filho do famoso pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (que dentre vários quadros, pintou “Le Moulin de la Galette” e “O Almoço dos Remadores”), Jean foi extremamente subestimado durante a sua época, vindo a fazer sucesso apenas anos mais tarde, quando cineastas como Claude Chabrol, Jean-Luc Godard e François Truffaut involuntariamente criaram a “Nouvelle Vague” e passaram a afirmar que uma de suas maiores (se não a maior) fontes de inspiração havia sido o próprio Jean Renoir. Mas por que o cineasta fora tão subestimado, sendo que o mesmo conta com um leque de qualidades raríssimas em seu trabalho? Talvez porque Jean tivesse uma visão extremamente pessimista da sociedade pré-Segunda Guerra Mundial. Por mais que o sentimento da população européia dos anos 1.920 e 1.930 fosse extremamente ululante, é bem provável que as pessoas almejassem ir ao cinema com o intento de distrair a falta de esperança, e não alimentar a mesma. De uma forma ou de outra, Jean daria a volta por cima e marcaria o seu nome na história da Arte de maneira tão gloriosa quanto (ou quem sabe ainda mais gloriosa) o seu pai o fez, e é por este motivo que dedico estes quatro pequeninos textos a ele.
Tire au Flanc (Tire au Flanc, Comédia, 1.928, França, Jean Renoir) – **** de *****

Os trabalhos de Jean Renoir sempre estão bem à frente de seu tempo, pois neles temas como críticas sociais e a hipocrisia matrimonial são abordadas com grande frequência. “Tire au Flanc”, no entanto, segue na contramão e revela-se uma comédia bastante datada, tanto no que diz respeito à sua trama, como no que diz respeito às abordagens sociais e conjugais as quais traça.

A premissa, por si só, já é bastante interessante e aborda um tema muitíssimo comum na época: a vida no exército. Mas não só este estilo de vida ganha total destaque no filme, como também (e principalmente, diga-se) a abordagem que ele realiza sobre um indivíduo nobre que tem de lidar com o fato de ser um soldado como outro qualquer, já que, no quartel general, a sua posição social pouco importa aos demais cadetes, que aproveitam-se da situação para atazanar o pobre rico rapaz.

Além disso, o longa é bem divertido e conta com alguns momentos bem cômicos, especialmente quando faz o uso de diálogos para tal (sim, o filme é mudo, mas contém aquelas convencionais frases que são escritas sobre uma tela preta a fim de ilustrar as frases que os personagens “dizem”). Como não rir, por exemplo, com dizeres do tipo: “O Tenente estava disposto a arrumar uma noiva para si, independentemente de quem pertencesse tal noiva” (pois é, novamente Renoir aborda o adultério dentro da alta sociedade), “No exército, muitas vezes compensa você ser um completo imbecil, mas deve-se evitar passar dos limites” e “Ele é um perfeito idiota, mas há uma justificativa, ele é um poeta”.

Infelizmente, o mesmo humor que vigora a parte, digamos, “verbal” do longa faz bastante falta na construção do humor físico. Conforme dissera no início desta mini-crítica, “Tire au Flanc” conta com um humor datado. Contudo, não posso entrar em contradição e fugir daquilo que sempre defendi: “uma obra cinematográfica deve ser julgada de sempre acordo com a época a qual a mesma fora produzida”. É fato que muitos críticos fazem o contrário, mas no meu caso, prefiro seguir à risca a minha tese.

Juro que fiz isso e acabei ignorando o fato de que, mostrar pessoas se queimando com o café na mesa de jantar e tropeçando a todo o instante (dentre outras muitas situações exageradas que o filme nos apresenta) é deveras obsoleto. Para falar a verdade, esse tipo de humor, na época, nem antiquado era, muito pelo contrário, era bastante comum. O problema reside mesmo é na artificialidade das situações. O que Charles Chaplin sabia fazer naturalmente, Jean Renoir parece ter um pouco de dificuldade para o fazer.
Mas é como mencionei acima, “Tire au Flanc” é um filme divertido, interessante e que aborda, ainda que de soslaio, críticas sociais e a forte hipocrisia contida nos relacionamentos amorosos formados por membros da classe alta.

Seria óbvio demais mencionar que a direção de Renoir é fantástica e conta com várias técnicas, sobretudo de afastamento (destaque para a cena onde ele acompanha o protagonista adentrando o quartel pela primeira vez. Conforme o poeta avança, a câmera do diretor (que encontra-se de frente para ele) vai se afastando aos poucos) e tomadas aéreas? Seria? Tudo bem, então encerro esta mini-crítica por aqui.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

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A Cadela (La Chienne, Drama, 1.931, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Quando o filme se inicia, a primeira coisa que vemos é um curioso teatro de marionetes onde um dos bonecos nos alerta que o longa a seguir não se tratará de uma trama com heróis e vilões, mas sim de uma estória com pessoas comuns, como você e eu. Para ser sincero, não diria que é necessariamente assim, ao menos durante o início do filme. O protagonsita Maurice Legrand (Michel Simon), por exemplo, segue muito o estereótipo do ‘mocinho’ injustiçado. Legrand é constantemente humilhado pela autoritária (e também caricata, diga-se) esposa Adéle (Magdeleine Bérubet), é motivo de chacota entre os vizinhos e, principalmente, os colegas de trabalho, e, não bastasse isso tudo, ainda envolve-se com uma amante falsa e hipócrita chamada Lulu (Janize Marèze) que lhe tira muito dinheiro e entrega tudo ao namorado Dedé (Georges Flamant), um gigolô de marca maior.

Entretanto, mesmo contendo um caráter excessivamente estóico e sendo um homem de bom coração, Legrand está longe de ser o típico protagonista moralmente correto que o Cinema estava acostumado a presenciar em plena década de 1.930. Assim como a grande maioria dos personagens, o nosso ‘herói’ aqui comete erros imperdoáveis (e se você ainda não assistiu ao filme, sugiro que pare de ler este parágrafo e pule para o próximo), como furtar os cofres da empresa onde trabalha e permitir que um determinado personagem receba uma punição (merecida, diga-se) por um erro que não cometeu.

As demais figuras que compõem a trama também estão longe de seguir o código de conduta moral e todos revelam-se eticamente repugnantes. E é tecendo o caráter destes personagens tartufos e cínicos que o roteiro de André Girard e Jean Renoir explana todo o seu sentimento de pessimismo perante à sociedade da época (e até mesmo a sociedade atual, afinal de contas, os filmes de Renoir sempre estiveram bem a frente de seu tempo, uma vez que inspiraram Chabrol a criar a “Nouvelle Vague” no final dos anos 1.950), onde notamos que até as pessoas mais aparentemente dignas se mostram dissimuladas quando veem (sem circunflexo) uma corpórea oportunidade de prosperar na vida às custas de outras pessoas.

O grande trunfo de “A Cadela”, por sua vez, reside na direção de Renoir. Aqui, um dos mais brilhantes cineastas de todos os tempos, não só se destaca nas técnicas de afastamento de câmera, criação de ângulos perfeitos (a maior prova disso é uma cena onde o diretor posiciona sua câmera em um local do apartamento de Legrand onde podemos, em uma única tomada, ver a sua esposa abrindo o armário em um quarto e o protagonista pintando um quadro em outro), “travelings” e “deep focus” (esse último é pouco utilizado, mas ainda assim merece muito destaque), como também ao conferir à trama toda a sensibilidade a qual a mesma necessita para funcionar corretamente (em uma determinada tomada, Renoir balança a câmera com ímpeto enquanto filma Dedé e Lulu dançando uma valsa, para que assim possa mostrar toda a fúria pela qual o primeiro estava passando).

A Cadela” é, em suma, uma pequena grande obra-prima de Renoir. Uma mostra do majestoso trabalho que o cineasta viria a realizar ao longo dos anos 1.930.

Avaliação Final: 8,8 na escala de 10,0.

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Um Dia no Campo (Une Partie de Campagne, Drama, 1.936, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Um Dia no Campo” é considerada por muitos a obra-prima inacabada de Jean Renoir. Concordo com cada palavra. Não seria exagero afirmar que uma das maiores tragédias da história do Cinema foi a incapacidade do cineasta francês mais importante da década de 1.930 concluir definitivamente esta sua magistral ode à Arte Impressionista. Arte Impressionista? Sim, Arte Impressionista.

O cineasta realiza aqui uma homenagem a vários pintores que seguiam este movimento artístico, tais como: Guy de Maupassant, Claude Manet e, principalmente, seu pai, Pierre-Auguste Renoir. A mesma beleza e sensibilidade com a qual o seu progenitor registrava um grupo de pessoas almoçando e dançando em uma suntuosa festa (a propósito, considero “Le Moulin de la Galette” o mais belo quadro dentre os quais já tive a oportunidade de conferir), Jean adota aqui para filmar um grupo de pessoas fazendo um piquenique em um bosque.

O média é de uma beleza visual incrível e a união formada entre direção, fotografia e trilha-sonora transformam “Um Dia no Campo” em um dos filmes mais lindos da história do Cinema.

E não é só a formosa aparência da obra que merece destaque. O média ainda encontra tempo para fazer uma leve crítica à hipocrisia contida na vida matrimonial da alta-sociedade (o quê? Já citei isso acima? Fazer o quê, Renoir adora bater nessa tecla, ainda que se reinvente a cada filme).

Um Dia no Campo” falha apenas pelo fato de ser um filme inacabado, uma vez que a edição se vê obrigada a dar um grande salto no tempo a fim de manter a conexidade entre o início e o fim do média.

Destaque para a ponta que o diretor faz no filme, onde assume o papel do cozinheiro Père Poulain e esbanja carisma.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

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Não assisti a “A Regra do Jogo” recentemente, o fiz no final do ano passado, mas decidi republicar este texto aqui justamente a fim de aumentar a minha homenagem a este impressionante cineasta que fora Jean Renoir.

A Regra do Jogo (La Règle du Jeu, Drama, 1.939, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Jean Renoir foi, inquestionavelmente, um dos nomes que mais serviu de inspiração aos Cinemas moderno e contemporâneo. Antes mesmo de Federico Fellini estabelecer um complexo e contundente panorama sobre as nugacidades adotadas e cultivadas pela alta sociedade a fim de preencher o seu vazio existencial, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Antes mesmo de Woody Allen traçar as fragilidades de relacionamentos amorosos alicerçados em um pseudo sentimento de amor, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Introduzindo o espectador em sua obra-prima máxima com uma majestosa sinfonia composta por Wolfgang Amadeus Mozart, o filho de Auguste Renoir (um dos pintores impressionistas de maior renome na história da Arte) nos apresenta à filosofia adotada por ele quando o assunto em pauta é o amor: tal sentimento é rotativo e por este motivo é cada vez mais comum nos depararmos com indivíduos de todas as castas sociais que cometam adultérios.

Considerado um dos filmes cults de Arte mais importantes de todos os tempos, “A Regra do Jogo” utiliza de pano de fundo para retratar a filosofia adotada por Renoir uma suntuosa casa de campo no interior da França onde alguns aristocratas e seus respectivos empregados se unem durante um final de semana para caçar coelhos e faisões. A partir de então somos convidados a conhecer e a conviver, durante dois ou três dias, com um grupo de pessoas fúteis e materialistas. Todos os personagens do longa têm fortes desvios de caráter, porém, se vêem obrigados a maquiar isto perante à sociedade hipócrita e falsa onde vivemos. Homens traem suas esposas, mulheres traem seus maridos, todos alegam que a mentira é uma característica inerente ao ser humano, pessoas se apegam a medidas frívolas e nulas a fim de preencher o vazio existencial presente em seus insossos cotidianos e, no final… bem, no final (um dos desfechos mais imprevisíveis e surpreendentes da história do Cinema) ocorre uma tragédia, tragédia esta que nos faz lucubrar sobre até quando falsos moralismos cristãos irão imperar em nossas vidas (conforme diz um personagem do filme: “___ Corretos estão os mulçumanos que têm um harém ao seu dispor e podem dedicar o verdadeiro amor à mulher que mais ama, sem precisar desprezar as demais).

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

Um Corpo Que Cai – ***** de *****

Não gosto de dar nota 9,5 a qualquer filme que seja. Muitas vezes já dei notas exageradamente quebradas a muitas obras do Cinema, mas 9,5, sabe-se lá o porquê, nunca gostei de conferir a filme algum. Em “Um Corpo Que Cai” vi-me impossibilitado de manter esta tradição, pois sabia claramente que estava diante de um filme perfeito demais para receber uma nota 9,0 (avaliação que atribuo a produções excelentes). Entretanto, mesmo sendo uma obra praticamente completa e esmerada, “Um Corpo Que Cai” se revelou um longa metragem levemente falho quanto à ligeira previsibilidade contida em seu roteiro, uma vez que, com o passar do tempo, começamos a ter uma noção de como o filme irá se encerrar. De qualquer forma, o suspense é atormentador do início ao fim e nos deixa com um sentimento de curiosidade para lá de insuportável, conforme poderemos perceber mais abaixo, no texto do filme.

Ficha Técnica:
Título Original: Vertigo.
Gênero: Suspense.
Tempo de Duração: 128 minutos.
Ano de Lançamento: 1958.
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Alfred Hitchcock.
Roteiro: Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac.
Elenco: James Stewart (John “Scottie” Ferguson), Kim Novak (Madeleine Elster), Barbara Bel Geddes (Marjorie “Midge” Wood), Tom Helmore (Gavin Elster), Raymond Bailey (Médico de John), Konstantin Shayne (Pop Leibel), Ellen Corby, Lee Patrick, Henry Jones e Alfred Hitchcock.

Sinopse: Em São Francisco, um detetive aposentado (James Stewart) que sofre de um terrível medo de alturas é encarregado de vigiar uma mulher (Kim Novak) com possíveis tendências suicidas, até que algo estranho acontece nesta missão.

Fonte Sinopse: Adoro Cinema.

Vertigo – Trailer:

Crítica:

Ao lado de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Apocalypse Now”, “Um Corpo Que Cai” figura facilmente no topo da lista dos filmes mais aterrorizantemente perturbadores a que já assisti. E quando menciono “perturbadores” não me refiro à capacidade deste filme fazer com que nos sintamos mal após o término de sua sessão, como é o que acontece no perfeito “Clube da Luta”, no excelente “Dogville” e no ótimo “Violência Gratuita”, mas sim à perfeição com a qual o mesmo nos passa uma incômoda e desesperadora sensação de que, até o desfecho do longa, iremos morrer (a sensação que o filme de Kubrick nos passa) ou ficarmos completamente alucinados (a sensação que o filme de Coppola nos passa).

A princípio, o longa soa simples e convencional. Não reparamos em nada demais no mesmo. O protagonista é um velho detetive que se encontra afastado da polícia devido a um trauma que contraiu em uma missão onde ficou pendurado no telhado de um prédio a uma altura considerável do chão. Seu nome é John Ferguson, vulgo Scottie. Ferguson recebe uma proposta de um antigo colega de faculdade, Gavin Elster, que pede para que ele vigie a sua esposa, Madeleine Elster, que vem agindo com demasiada estranheza ultimamente, praticamente “vivendo” a vida de uma mulher que cometera suicídio no passado.

Conforme a trama vai se desenrolando e alguns pontos vão sendo claramente explicados, nos vemos diante de uma estória que mostra três possíveis caminhos a serem percorridos, e por mais que muitos deles se mostrem significantemente inverossímeis, eles jamais podem ser alcunhados de desconexos ou implausíveis de serem absorvidos dentro do contexto da obra em questão. Hitchcock cria aqui um emaranhado de possibilidades que podem muito bem ser estendidas tanto a um suspense, quanto a um terror paranormal, fazendo com que a curiosidade que passa a crescer dentro de nós, espectadores, se torne forte o bastante para não conseguirmos aprisioná-la racionalmente no interior de nossos próprios corpos, chegando a ponto de quase perdermos a razão e sairmos gritando pelas ruas.

O filme trata de um caso paranormal? De um encosto espiritual que muda completamente a personalidade de uma pessoa? De uma personagem com uma mera inclinação suicida? De um homicídio armado? De um caso de loucura elevada à máxima potência? Difícil respondermos até a metade da projeção. E por mais que a trama soe levemente previsível durante alguns poucos momentos, não há como deixarmos de levantar todas estas questões e traçarmos mentalmente as várias hipóteses as quais o longa pode real e definitivamente nos levar.

Enquanto não chegamos a uma exata conclusão do caso, passamos a nos perturbar imensamente. O filme incomoda, atormenta, ganha vida, nos abraça e não nos larga jamais. Chegamos a ter medo de ficar o acompanhando diante da tela e, quando o desfecho enfim acontece e os créditos finais aparecem, o suspense ainda se mostra capaz de nos deixar enleados com o que acabamos de presenciar em seus atormentadores últimos segundos de projeção.

E não só o suspense em si se revela intenso o bastante para nos fazer fixar e grudar os olhos na tela. Conforme fora mencionado na quarta linha do parágrafo anterior, o mistério tem uma luz quando o filme praticamente chega a sua metade. Mas então qual seria a graça de continuarmos acompanhando a trama por mais uma hora, já que sabemos parcialmente o que havia ocorrido? Respondendo sucintamente: a graça está em notarmos o modo como a vida de Ferguson fica alterada após o ocorrido. Os roteiristas Samuel A. Taylor e Alec Coppel acertam em cheio ao fazer com que os espectadores tenham um ligeiro conhecimento do ocorrido durante a metade do filme, pois é a partir daí que podemos sentir na pele o drama do protagonista, que sabe muito menos do que nós mesmos sabemos.

Passamos a nos incomodar com o rumo que a vida de Ferguson vai tomando e nutrimos uma vontade moral de penetrar na tela e dizer ao detetive o que realmente aconteceu. Obviamente nos vemos impossibilitados de realizar tal façanha, o que acaba nos atormentando ainda mais. Acompanhamos então a rotina de um homem que passa a viver a beira da loucura, até que um determinado incidente muda tudo. E é justamente quando pensamos que Scottie deixará de atormentar tanto a si mesmo que passamos a testemunhar uma subtrama ainda mais transtornadora. Trata-se do doentio romance que o protagonista passa a ter com uma personagem que surge próxima do desfecho do filme, algo que se revela tão cativante quanto o mistério que havíamos presenciado há pouco tempo atrás e se firma competente o bastante para segurar a trama com o mesmo ritmo com o qual esta se iniciou.

Entretanto, por mais destaque que a excelente trama mereça, não posso deixar de citar também a direção de Alfred Hitchcock. Por mais que o meu desejo ultimamente seja o de, cada vez mais, reduzir os meus textos, torna-se impossível não alongar esta crítica um pouco mais para falar do grande gênio do suspense cinematográfico e, considerado por muitos (o que está longe de ser o meu caso, mas enfim…), do Cinema como um todo, superando até mesmo mestres do naipe de Stanley Kubrick, Orson Welles, Jean-Luc Godard e Jean Renoir.

Hitchcock sempre levou fama de ser extremamente inventivo e ousado e “Um Corpo Que Cai” talvez seja a maior prova disso. Foi através deste filme que, a fim de fazer com que o espectador senti-se na pele a acrofobia característica do protagonista, o diretor criou a técnica chamada de “zoom out”, que viria a ser empregada por Stanley Kubrick em clássicos absolutos como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e, principalmente, “Laranja Mecânica”.

Um simples diretor teria filmado o excelente James Stewart olhando para baixo e fingindo estar com um terrível atordoamento, mas Hitchcock o fez de um modo muito
superior. Fez com que nós, espectadores, também partilhássemos da sensação vivenciada pelo protagonista. É como se “ganhássemos” o mesmo par de olhos utilizado por Scottie e começássemos a sentir a mesma vertigem que ele, o que só vem a fazer com que a trama toda soe ainda mais verossímil do que ela soaria nas mãos de um outro cineasta qualquer.

Não sei se “Um Corpo Que Cai” pode ser tida como a grande obra-prima da magistral carreira de Alfred Hitchcock. Talvez outras obras como “Janela Indiscreta”, “Psicose” e até mesmo “Rebecca – A Mulher Inesquecível” mereçam mais este título. Ou talvez não. Mas isso não importa. O importante é que “Um Corpo Que Cai” é um filme que deve obrigatoriamente fazer parte da lista de filmes assistidos por qualquer pessoa que se diga cinéfila.

Mais do que meramente recomendado, “Um Corpo Que Cai” é um filme obrigatório.

Avaliação Final: 9,5 na escala de 10,0.

Star Trek – **** de *****

Não sou fã incondicional da franquia “Star Trek” (exceto no que se refere ao filme “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan”, que é o único que considero como sendo uma verdadeira obra-prima do Cinema) e isso diz respeito tanto aos episódios feitos para a televisão, ao longo da década de 1.960, quanto aos episódios feitos para o Cinema, produzidos, em sua maioria, ao longo da década de 1.980. Contudo, o meu pai é simplesmente fanático pela série (a Velha Geração somente, apesar de ele gostar um pouco da Nova Geração) e coleciona quase tudo o que vê pela frente e refere-se à mesma. Logo, por mais que o meu fanatismo por “Star Trek” esteja longe de, sequer, engraxar as botas da paixão que nutro por “Star Wars”, respeito, e muito, a franquia, e ouso dizer que, principalmente por influencia de meu progenitor, tenho um conhecimento até que razoável sobre a mesma. Não sei, no entanto, se esse conhecimento é razoável o bastante para fazer uma análise dos filmes antigos com este mais novo episódio que acaba de chegar aos cinemas do mundo todo, mas enfim, vamos arriscar e vê no que dá.
Ficha Técnica:
Título Original: Star Trek
Gênero: Ficção Científica
Tempo de Duração: 126 minutos
Ano de Lançamento: 2009
Site Oficial: www.startrekmovie.com
Países de Origem: Estados Unidos da América e Alemanha
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Alex Kurtzman e Roberto Orci, baseado em série de TV criada por Gene Roddenberry
Elenco: Chris Pine (James Tiberious Kirk), Zachary Quinto (Spock), Leonard Nimoy (Spock Prime), Eric Bana (Nero), Bruce Greenwood (Capitão Christopher Pike), Karl Urban (Dr. Leonard “Bones” McCoy), Zoe Saldana (Nyota Uhura), Simon Pegg (Scotty), John Cho (Hikaru Sulu), Anton Yelchin (Pavel Chekov), Ben Cross (Sarek), Winona Ryder (Amanda Grayson), Chris Hernsworth (George Kirk), Jennifer Morrison (Winona Kirk), Rachel Nichols (Gaila), Faran Tahir (Capitão Robau), Clifton Collins Jr. (Ayel), Antonio Elias (Oficial Pitts), Freda Foh Shen (Kelvin Helmsman), Jimmy Bennet (James T. Kirk – jovem), Jacob Kogan (Spock – jovem), Tyler Perry (Almirante Richard Barnett), Ben Biswagner (Almirante James Komack) e Akiva Goldsman (Integrante do Conselho Vulcano).

Sinopse: James Tiberious Kirk (Chris Pine) é um jovem rebelde inconformado com a morte de seu pai. Certo dia, recebe convite para fazer parte da formação de novos cadetes para a Frota Estelar. Uma vez lá conhece Spock (Zachary Quinto), um vulcano que optou por deixar seu planeta porque é metade humano e discordava do preconceito. Durante o treinamento, e também na primeira missão, os dois vivenciam novas experiências provocadas por seus estilos diametralmente opostos. Assim, Spock, o cerebral, e Kirk, o passional, viverão uma grande aventura ao lado de outros tradicionais integrantes da tripulação da U.S.S. Enterprise, a mais avançada nave espacial da época. (Roberto Cunha).

Fonte Sinopse: Adoro Cinema

Star Trek – Trailer:

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Crítica:

Há muito tempo (muito tempo mesmo) citei que J. J. Abrams era uma das poucas falhas contidas no ótimo “Missão: Impossível 3”. Ao contrário de boa parte da crítica especializada, a “handcam” empregada pelo diretor não me agradara nem um pouco, haja visto o ritmo atordoantemente frenético que a mesma havia conferido ao filme que, sob mãos mais seguras e menos histéricas, nos seria capaz de proporcionar sequências de ação mais aproveitavelmente divertidas.

Em “Star Trek” digo justamente o contrário. O mérito da produção em questão é, acima de tudo, de J. J. Abrams. Desta vez o cineasta (que é também o responsável pela série televisava “Lost”, que eu nunca assisti e, sabe-se lá o porquê, nem pretendo faze-lo) adota uma direção mais segura e se mostra responsável por um trabalho de câmeras muito mais consistente do que o que havia realizado no longa estrelado pelo superestimado Tom Cruise.

E não apenas o modo como filma as cenas de ação ou as técnicas que adota para movimentar a sua câmera fazem deste seu mais novo trabalho algo digno dos mais sinceros elogios. Abrams destaca-se também ao utilizar algumas perspicácias que conferem à sua direção a aparência de ter sido realizada por um cineasta bem mais experiente. É o caso de uma cena onde um personagem menciona: “___ Aprendi isso com um amigo meu” e, logo em seguida, o diretor retira a câmera do foco que havia feito em cima do interlocutor e realiza um curto e rápido, embora suave, “travelling” no personagem o qual ele se referia. Sem necessitar dizer uma única palavra, já percebemos que o tal personagem era a pessoa a qual o interlocutor se referia. É como sempre dizem: uma imagem vale mais do que mil palavras e, no caso do Cinema, uma imagem competentemente filmada passa a valer muito mais.

Todavia, devo ressaltar que a grande maioria do público que vai aos cinemas contemplar “Star Trek” está, na verdade, ansiando buscar uma sessão nostalgia ao lado de personagens marcantes como o Capitão Kirk, o Sr. Sulu, o Dr. McCoy e, é claro, o Sr. Spok, e não testemunhar o trabalho de Abrams como diretor. A pergunta que fica no ar então é a seguinte: “o filme faz jus à clássica saga cinematográfica iniciada em 1.979 e, principalmente, à ainda mais clássica série televisiva que levava os seus respectivos apreciadores à loucura durante os anos 1.960?”. A resposta para esta questão é, como não poderia deixar de ser: depende.

Quando o filme em questão se inicia, logo sentimos falta da marcante música-tema que, ao contrário dos episódios anteriores, não abre este longa, o que nos resulta em uma certa frustração. Tentamos esquecer esta pequena grande falha e, conforme a projeção avança, percebemos que estamos diante de uma trama bastante complexa e intrincada, mas não há como deixarmos de reparar em dois pontos em especial. O primeiro é que “Star Trek” conta com cenas de ação em excesso e muitas vezes se esquece de parar para explorar os seus personagens ou a sua própria estória. O segundo apontamento é que a trama, apesar de abstrusa, não atinge o mesmo grau de complexidade que muitos episódios da série televisava, ou até mesmo da série cinematográfica (como “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan” (só uma curiosidade: é estranho notar que “Jornada nas Estrelas” é uma das poucas franquias cinematográficas onde o episódio original não apenas não é o melhor, como também é um dos piores), apenas para citar um exemplo) conseguiam atingir.

Mas em momento algum, no entanto, temos a sensação de que estamos assistindo a um filme “hollywoodiano” qualquer. Tampouco posso afirmar que “Star Trek” não resgata a magia do seriado que lhe deu origem. A música-tema original faz falta? E como. O excesso de cenas de ação soa estranho para um filme que carrega consigo a “marca” “Jornada nas Estrelas”? Certamente soa. A trama conta com mais ação do que ficção científica propriamente dita? Não resta uma dúvida sequer quanto a isso. Mas ainda assim o filme encontra-se em um patamar muito superior a das produções atualmente padronizadas por Hollywood.

Se a indústria cinematográfica vem, cada vez mais, insultando a nossa inteligência com baboseiras do naipe de “Velozes & Furiosos 4”, “Star Trek” aparece como um colírio para os nossos olhos e, ao invés de zombar do atilamento de seu público
alvo, realiza uma trama que, apesar de não ser tão complexa quanto o esperado, é muitíssimo bem vinculada, muitíssimo bem arquitetada e aborda de forma satisfatória questões físicas, astrofísicas e científicas.

“Star Trek” provavelmente não é a obra-prima que os fãs tanto esperavam, mas ainda assim revela-se uma agradabilíssima sessão nostálgica e faz jus aos mais clássicos momentos de toda a saga televisiva e cinematográfica que marcou uma geração inteira de adolescentes (que agora são nossos pais). A trama é suficientemente interessante, apesar de não ser tão complexa quanto o esperado; o elenco cumpre muito bem as suas funções; as cenas de ação, apesar de excessivas, são eletrizantes e extremamente bem dirigidas por J. J. Abrams, que realiza aqui o seu melhor trabalho direcionado à sétima Arte.

E se encerro no clichê, é porque não vejo outro modo de fazê-lo, mas enfim: “vida longa e próspera à nova investida cinematográfica da franquia “Star Trek”.”.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

Poema – O Deleite dos Egoístas

No alto de mais uma dentre minhas inúmeras crises existenciais, compus este poema que, para ser verdade, resume bem a minha ideologia e a minha pregação. Vamos à leitura do mesmo? Com vocês:

O deleite dos egoístas, por Daniel Esteves de Barros

Vivo em uma catártica e sorumbática ilusão
Na esperança de poder encontrar
Respostas que jamais virão
Para que a minha gana possa assim se saciar

Existindo em meio à falsidade
Onde minorias criam Deuses supersticiosos
Encarcerando o que deve ser tomado por verdade
Rasgando inverossímeis estradas que nos remetem a caminhos duvidosos

E o rancor que se debate dentro de mim
Privando-me de quaisquer formas de felicidades
Desesperado para externar até o fim
Uma fúria incontrolável e ideais recheados de desumanidades

A dor é inerente à minha mais forte e atual formação
Oriunda de sonhos completa e injustamente despedaçados
Culpa total de uma sociedade em integral contradição
Que alimenta um Deus sádico que os tornam derrocados

Jeová jaz desmembrado dentro de meu vulto
Matei-o sem quaisquer resquícios humanitários
Sua existência em meu interior consistia um insulto
A todos e quaisquer ideais libertários

E o mesmo recomendo a todo o cidadão de bem
A liberdade que tornará o Homem mais forte
É mister do rancor que dentro de ti provém
E que traz à hipocrisia a sua mais incandescente morte

A verdade, e somente a verdade, virá à tona
Sangue inimigo deverá ser inclementemente derramado
E as crises que a incerteza na humanidade proporciona
Terão o seu incessante fogo devidamente esmiuçado

A aniquilação do código de conduta pseudo-moralista
O extermínio de toda e qualquer forma de lei
A associação à filosofia ativa e gradativamente niilista
Trará ao homem a tão apetecida possibilidade de ser o seu próprio rei

Ilusões falsamente joviais estarão estilhaçadas
Arremessadas contra a irrompível muralha do fidedigno conhecimento
Proporcionando à humanidade bençãos por ela jamais experimentadas
A real tríplice santidade, formada pela ciência, razão e emoção, em esmerado alinhamento

O derruimento de dogmas propagadores da ululação
A volta à natureza e a concepção de ideais intrinsecamente solidificados
Outorgará, enfim, à humanidade inteira, a mais estável convicção
De que a misantropia é, de fato, o revide a todos os problemas por nós edificados

E a completa obliteração desta execrável e tartufa sociedade
Farás de nós indivíduos fortes e decididamente individualistas
Findando, de uma vez por todas, os questionamentos levantados pela humanidade
A resposta de tudo, enfim, encontra-se nas profundezas do nada, o deleite dos egoístas.

Anjos & Demônios – *** de *****

Serei honesto e sucinto aqui: nunca li livro algum escrito por Dan Brown e nem ao menos assisti a “O Código da Vinci” (e posso dizer com certeza que não perdi nada com isso, muito pelo contrário. Perderia algo se deixasse, por exemplo, de ler um livro escrito por Schopenhauer ou de assistir a um filme dirigido por Bresson) e nem me interessa faze-los durante algum dos longos dias que ainda me restam de vida. O motivo? Simples, várias das pessoas mais estúpidas, alienadas e descartáveis que conheci em toda a minha existência são fãs inveteradas de Dan Brown e, consequentemente, do filme que teve a sua origem baseada no livro que lhe concebeu toda essa fama superestimada (e é óbvio que não menciono isso generalizando ninguém, até mesmo porque, conheço também muitas pessoas inteligentes e notáveis que também são fãs incondicionais de Dan Brown). Levando tudo isso em conta, por que eu iria perder o meu precioso tempo com tamanha bobagem, se posso dedicá-lo à filosofia alemã, ou seja, à filosofia responsável pelo surgimento dos dois sistemas econômicos mais fortes já criados: o comunismo e o nazismo (que, sejamos francos, só não derrotaram o capitalismo pois foram poucos os países que tiveram a audácia de adota-los)? Mas no fim das contas eu até que considerei “Anjos & Demônios” um filme interessante, apesar de ser unicamente bom e nada mais.


Ficha Técnica:
Título Original: Angels & Demons.
Gênero: Suspense.
Tempo de Duração: 138 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://www.anjosedemoniosofilme.com.br/
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Ron Howard.
Roteiro: David Koepp e Akiva Goldsman, baseado em livro de Dan Brown.
Elenco: Tom Hanks (Robert Langdon), Ewan McGregor (Camerlengo Patrick McKenna), Ayelet Zurer (Vittoria Vetra), Nikolaj Lie Kaas (Assassino), Stellan Skarsgard (Comandante Richter), Pierfrancesco Favino (Inspetor Olivetti), Armin Mueller-Stahl (Cardeal Strauss), Thure Lindhardt (Chartrand), David Pasquesi (Claudio Vincenzi), Cosimo Fusco (Padre Simeon), Victor Alfieri (Tenente Valenti), Franklin Amobi (Cardeal Lamasse), Curt Lowens (Cardeal Ebner), Bob Yerkes (Cardeal Guidera), Marc Fiorini (Cardeal Baggia), Howard Mungo (Cardeal Yoruba), Rance Howard (Cardeal Beck), Steve Franken (Cardeal Colbert), Gino Conforti (Cardeal Pugini), Elya Baskin (Cardeal Petrov), Carmen Argenziano (Silvano Bentivoglio) e Thomas Morris (Urs Weber).

Sinopse: O professor de simbologia Robert Langdon (Tom Hanks), depois de decifrar o código DaVinci, é chamado pelo Vaticano para investigar o misterioso desaparecimento de quatro cardeais. Agora, além de enfrentar a resistência da própria igreja em ajudá-lo nos detalhes de sua investigação, Langdon precisa decifrar charadas numa verdadeira corrida contra o tempo porque a sociedade secreta por trás do crime em andamento tem planos de explodir o Vaticano. (Roberto Cunha).

Fonte Sinopse: Adoro Cinema

Angels & Demons – Trailer:

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Crítica:

Dan Brown é considerado um terrível engodo de acordo com a opinião de inúmeros críticos literários espalhados pelo mundo todo. Seus livros, segundo tais jornalistas, são dotados de muita criatividade e conseguem cumprir o objetivo de entreter o seu público alvo, mas suas estórias geralmente acabam dando origem a situações que beiram o absurdo. Isso sem contar, é claro, que as obras de sua autoria são escritas com uma incompetência estilística fora do comum, além de contarem com uma pobreza literária terrível. Pois conforme mencionei na pré-crítica deste filme, não li, e nem pretendo ler, qualquer um de seus livros que seja, mas se tomar por base este “Anjos & Demônios”, posso dizer que a descrição tecida pelos meus colegas de profissão da outra vertente artística encaixa-se perfeitamente nesta obra cinematográfica.

Criatividade é algo que não falta no filme “Anjos & Demônios”, muito pelo contrário, eu diria que até sobra. Sim, sobra, pois o roteiro, com o prévio perdão pela gíria que virá a ser empregada, “viaja na maionese”. Não, em momento algum “viajar na maionese” precisa ser necessariamente encarado como um defeito do longa, ao menos não desse longa em questão. A trama é, de fato, muito original, embora muitas vezes extrapole as margens do que tomamos por verossímil. A produção se mostra gritantemente artificial em alguns pontos, mas não há como não nos cativarmos com a mesma, nem que seja apenas para ver até quando o roteiro conseguirá sustentar-se com uma trama tão “viajada” (estou empregando gírias demais nesse texto, não?) quanto esta daqui.

Mas se por um lado a trama é “viajada”
demais (leia-se (exclusivamente neste caso), criativa em excesso), por outro lado o diretor Ron Howard se perde visivelmente durante a condução da mesma. Além do cineasta raramente movimentar a sua câmera no decurso do filme, quando ele finalmente decide o fazer realiza um trabalho digno de lamentações, uma vez que perde completamente o foco daquilo que está tentando filmar (algo que deve ser execrado ao máximo neste caso, pois estamos diante de uma obra de suspense e o jogo de movimentação de câmeras pode, ou não (como acontece aqui), ser fundamental para conferir à trama a intensidade a qual a mesma precisa para funcionar corretamente).

E não só a mão pesada de Howard atrapalha no desenvolvimento do filme, como também a insegurança do diretor. Aliás, sua direção se revela tão insegura aqui que, na certeza que o próprio cineasta parece ter de que não está conseguindo criar um clima de suspense imprescindível à obra, acaba empregando uma trilha sonora para lá de maniqueísta para tal. A propósito, há muito tempo não assistia a uma tergiversação tão grande para que se fosse adotado tão evidentemente o emprego de cantos gregorianos a todo o instante. A trilha sonora de “Anjos & Demônios” acaba, infelizmente, revelando-se incomoda, artificial e inconveniente, e, francamente, se o “troféu” Framboesa de Ouro abrangesse tal quesito, o mais novo filme de Ron Howard deveria, obrigatoriamente, ser indicado à premiação.

As atuações também são patéticas. Tom Hanks encarna o seu personagem conferindo ao mesmo uma boa (e apenas boa) dose de carisma, mas faltou muita empolgação ao ator, que também encontra-se extremamente fora de forma (não tanto quanto este que vos escreve, mas encontra-se) para encarnar um personagem tão ativo quanto o Professor Langdon. Ayelet Zurer, por sua vez, revela-se como a grande fragilidade do elenco. A atriz encarna a sua personagem com uma inexpressividade que há muito tempo eu não via no Cinema. Além de insossa, Zurer aparenta ser extremamente antipática e não convence em momento algum (bem como a sua personagem). Ewan McGregor é o grande destaque dentre os atores. Utilizando um tom de voz altamente terno, o ator transfere ao seu personagem a sutileza que lhe é cogente e faz com que o

seu camerlengo realmente se mostre um típico padre católico. E não é culpa do ator se o roteiro opta por (e se você ainda não assistiu a esse filme, aconselho que pule para o próximo parágrafo e pare de ler este aqui imediatamente) transformar Patrick McKenna em um moço bom demais, fazendo com que todo o espectador que tenha algum conhecimento em literatura policial/suspense desconfie logo de cara que ele é o grande vilão da estória (a culpa é sempre dos que aparentam ser bonzinhos, um grande clichê do gênero), fazendo com que a mesma revele-se muito previsível.

E já que critiquei o modo como o roteiro desenvolve o personagem de Ewan McGregor no final do parágrafo acima, farei a mesma coisa com os demais personagens neste parágrafo. Não restam dúvidas de que a grande falha do filme reside no desenvolvimento de seus personagens. O Professor Langdon aparece aqui mais como uma releitura do excepcional e inesquecível Sherlock Holmes do que qualquer outra coisa. Seja pelo excesso de racionalidade que o personagem de Tom Hanks demonstra, seja pelo fato dele formar conclusões corretas rápido demais, a criação de Brown aparece aqui mais como uma cópia moderna da criação de Sir Arthur Conan Doyle. Fraco também é o desenvolvimento da Dra. Vetra. A princípio, ela aparece como uma importantíssima física e, repentinamente, desponta como uma grande conhecedora de história católica, sem mais, nem menos. Mas pior mesmo é o assassino do filme (cujo nome nem me lembro, e também não faço muita questão de me lembrar). Encarando as pessoas sempre com um olhar ameaçador e dando sorrisinhos a fim de provocar os seus oponentes, o personagem se revela extremamente inverossímil, principalmente em uma cena em que tem totais condições de matar o protagonista e, sabe-se lá o porquê, não o faz. E é claro que, para obter êxito em suas missões, o assassino mata todos que vê pela frente, salvo os protagonistas que sempre são poupados por ele.

Mas não pense que “Anjos & Demônios” é um filme ruim. De forma alguma, está muito longe disso. Além da trama ser deveras criativa (conforme já fora mencionado) e contar com uma abundância em detalhes (o filme dá um show de história católica e Dan Brown realmente mostra que sabe do que está tratando, seja quando o assunto se foca no Vaticano, seja quando se foca em seitas como a Illuminati), ela se revela suficientemente inteligente (apesar de excessivamente absurda em diversos momentos) e interessante para nos prender até o seu último segundo, sem nem ao menos nos preocuparmos com os 140 minutos de projeção. E não bastasse a estória contar com tantas qualidades como as mencionadas há pouco, ela ainda se revela bastante inteligente quando enfoca o eterno conflito entre ciência/religião, utilizando para tal dois grandes representantes da mesma: o recente LHC e o Vaticano.


Longe de poder ser rotulada como um amontoado de argumentos anti-católicos, assim como fora considerada a obra literária que lhe serviu de inspiração, “Anjos & Demônios” chega aos cinemas contando com uma trama inteligente, bem arquitetada e divertida, apesar de absurda, megalomaníaca e inverossímil em diversos pontos. Em outras palavras, o filme parece fazer questão de ratificar tudo aquilo que os críticos de literatura vem falando há anos sobre o trabalho do superestimado Dan Brown.

Avaliação Final: 6,0 na escala de 10,0.


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