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Especial – Harry Potter

É aquela coisa, é só uma continuação que integra uma franquia cinematográfica extremamente bem sucedida do ponto de vista financeiro aparecer e tudo quanto é crítico de Cinema faz um especial com todos os episódios que formam a tal série. Oras, que atitude mais oportunista e aproveitadora esta, não? Pois é, muito oportunista e aproveitadora mesmo. Enfim, deixe-me aproveitar descarada e imensamente do fato de “Harry Potter e o Enigma do Principe” estar sendo lançado nos cinemas do mundo todo durante esta semana e utilizar-me de um oportunismo altamente hipócrita para lançar as minhas críticas realizadas aos cinco primeiros episódios da franquia. Comecemos com “Harry Potter e a Pedra Filosofal

Redigido, editado e publicado por Daniel Esteves de Barros aos 15 de julho de 2.009.

Harry Potter e a Pedra Filosofal – *** de *****

01

Lembro-me de que, durante a primeira reunião do grupo de escritores de minha cidade, debatemos sobre o porquê desse sucesso todo que J. K. Rowling fez pelo mundo com os livros da série Harry Potter. O que havia de tão especial nesta série literária a ponto de merecer todo esse sucesso exacerbado e esse assédio descontrolado por parte do público e da mídia? Eu, junto de outros colegas, defendi a hipótese de que Rowling conseguira mexer com a imaginação da criança e, em um mundo tão patético quanto este, onde a vida virtual parece ser infinitamente mais atrativa e convidativa do que a vida real, isso já seria o bastante para despertar a atenção dos jovens leitores, uma vez que o mundo de Harry Potter aparenta ser incrivelmente mais repleto de graça do que este mundo enfadonho e recursivo em que vivemos.

Contudo, a fim de transportar o leitor para o seu mundo fantástico (em ambos os sentidos da palavra), Rowling viu-se na necessidade de utilizar mais de seiscentas páginas para tal. Em face disso, surgiu a seguinte pergunta: quantos minutos seriam necessários para que um diretor obtivesse o mesmo resultado caso desejá-se adaptar o livro para as telonas? Chris Colombus apostou em 152 minutos e conseguiu, magistralmente, exportar as nossas mentes para o mágico (também em ambos os sentidos da palavra) e fantástico mundo de Harry Potter. E, com isso em vista, podemos afirmar que o filme é simplesmente perfeito, correto? De maneira alguma. Se há uma coisa da qual “Harry Potter e a Pedra Filosofal” passa longe, é da perfeição.

Não se tenha dúvidas de que é muito interessante adentrarmos em um mundo paralelo onde possamos conviver com inúmeros fatores que o difiram completamente deste nosso mundo real e chato. Pois neste episódio de abertura da franquia cinematográfica “Harry Potter” temos um leque de variedades que desafiam a nossa imaginação, podendo alternar desde um fantasma que é “quase-sem-cabeça”, até mesmo a uma pedra filosofal que traz consigo o elixir da vida, passando por castelos suntuosos, filhotes de dragão norueguês nascendo diretamente do ovo, unicórnios, centauros, capas de invisibilidade, chapeis seletivos falantes, duendes que administram um banco, pinturas animadas, um esporte cujas partidas são disputadas com muita adrenalina e uma forte carga de magia (apesar das regras deste serem deveras absurdas, mas tudo bem), escadas que se movem e um espelho capaz de nos revelar os mais profundos desejos de nossos corações.

Enfim, o universo descrito no parágrafo supra é o universo que Chris Colombus nos propõe a apresentar e consegue o fazer magistralmente, diga-se. Por 152 minutos nos vemos encantados dentro deste mundo alternativo e… opa… espera lá (pois é, informal deste jeito mesmo), é exatamente isso o que acontece. Assim como os bruxos deste universo paralelo exibido nas telas, os produtores da série conseguem nos enfeitiçar com um mundo belo e mágico e deduzem que isso já basta para nos encantar por completo. Ah, pra cima de mim não, meu amigo! Pensa que não percebi que, dos 152 minutos de projeção do filme, pouco mais de 20 foram realmente dedicados a desenvolver alguma estória que seja (que sim, trata-se de uma trama muito bem bolada, mas pessimamente desenvolvida)? Pois é, a magia lançada pelos bruxinhos protagonistas revela-se forte o bastante para cobrir o espectador com um encanto que cai sobre si, a ponto de o fazer deixar a sessão como se tivesse assistido a um convincente exemplar da indústria do entretenimento quando, na verdade, assistiu somente a um codilho cinematográfico mitológica e visualmente lindo, mas com muito pouco conteúdo.

E vamos para a sessão de “Harry Potter e a Câmara Secreta”, que espero que seja melhor.

Avaliação Final: 6,0 na escala de 10,0.

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Harry Potter e a Câmara Secreta – **** de *****

02

E, de fato, a sessão de “Harry Potter e a Câmara Secreta” foi bem superior à sessão de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Vários pontos que haviam deixado a desejar no primeiro filme acabaram recebendo um tratamento extremamente diferenciado neste segundo episódio da saga do bruxinho, dentre os quais destaco a direção de Chris Colombus. Longe de mostrar-se ligeiramente apático por trás das câmeras, assim como havia feito no longa anterior, Colombus investe aqui em uma série de técnicas que, mesmo fazendo com que o seu trabalho se mostre apenas correto, o coloca em um patamar bem acima de “…A Pedra Filosofal”. Em um determinado momento, por exemplo, o cineasta realiza um traveling aéreo que rotaciona por todo o magistral cenário da Escola de Bruxaria de Hogwarts e se encerra adentrando, através de uma pequena abertura, a estufa onde os alunos encontram-se assistindo a uma aula.

Colombus se mostra bastante sagaz também ao tomar certas cautelas que fazem com que o espectador tenha uma noção mais ampla do desenvolvimento temporal diegético da trama, como na cena em que, a fim de provar que uma importantíssima personagem encontra-se petrificada há um bom tempo, foca uma enfermeira substituindo um buquê de rosas murchas que localizava-se na superfície do criado-mudo ao seu lado, por rosas novas.

A grande evolução no que se refere ao quesito direção, no entanto, deve-se ao cuidado que o diretor toma para fazer com que a trama principal jamais seja relegada pelo mundo mágico de Harry Potter. Ao contrário do primeiro filme, onde Colombus parecia se preocupar mais em filmar um banquete oferecido aos alunos da escola do que dar maior ênfase à estória em si, em “…A Câmara Secreta” o cineasta toma o devido cuidado para que nos preparemos para o final da trama logo no início de sua projeção. Isso pode ser notado quando percebemos que o diretor se preocupa em colocar o elfo doméstico Dobby anunciando perigo eminente a Harry bem nos minutos iniciais do filme e, principalmente, quando constatamos, algumas cenas mais tarde, que o protagonista, estranhamente, começa a ouvir vozes do nada, algo que consegue manter o suspense desde o intróito da produção.

O roteiro, por sua vez, não só faz com que tenhamos ciência do grande perigo que está por vir durante praticamente todo o seu desenrolar, criando, com o auxílio da direção de Colombus, um instigante clima de urgência, como também nos apresenta a uma estória consideravelmente mais complexa, mais desenvolvida e mais bem amarrada do que a do primeiro filme (que era, de certa forma, bastante satisfatória).

Lamentável, todavia, é constatarmos que, mesmo conduzindo a sua trama e o seu argumento muito bem, o roteiro de Steven Kloves, associado ao trabalho de Chris Colombus, falha gravemente ao nos apresentar o, mais do que importante, personagem Tom Riddle de maneira demasiada abrupta. Ao mesmo tempo em que o roteiro de “…A Câmara Secreta” nos prepara muito bem para o tal cômodo ocultado do título, ele falha terrivelmente ao não nos preparar mais cautelosamente para o imprescindível Tom Riddle que, quando chega trazendo à tona a estória envolvendo a sua memória e tudo mais, acaba pegando o espectador negativamente de surpresa.

Ponto negativo também para o desenvolvimento gritantemente caricato de personagens como Draco Malfoy e o seu pai, Lucius.

E que venha “…O Prisioneiro de Azkaban”, e que minha torcida para que o terceiro episódio se mostre superior a este ótimo “…A Câmara Secreta” seja saciada.

Avaliação Final: 7,5 na escala de 10,0.

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Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – **** de *****

03

Cinematograficamente falando (não, não estou fazendo propaganda do blog concorrente), o que vem a ser mais importante: o roteiro ou a direção de um filme? Difícil responder, não? Vamos tomar os três primeiros episódios da série Harry Potter para discorrer sobre o assunto.

O 1º episódio conta com um roteiro interessante, de certa forma, mas com uma direção que se perde em meio ao fantástico mundo paralelo de Harry Potter e acaba se esquecendo, durante a maior parte de sua projeção, de conduzir uma estória definitiva.

O segundo episódio, por sua vez, conta com um roteiro ainda mais interessante e, embora a direção seja mais eficiente aqui do que havia se revelado outrora, mostra-se muito comprometida quando deixa para explicar uma complexa estória envolvendo Tom Riddle durante o final do filme, ou seja, quando parece se dar conta de que resta-lhe muito pouco tempo de projeção, vê-se obrigada a fazer tudo às pressas.

Neste “…O Prisioneiro de Azkaban”, no entanto, temos o roteiro menos importante (calma, já vou me explicar) dentre todos os três episódios produzidos até então, mas Alfonso Cuarón nos brinda com um trabalho espetacular e faz mágica (sim, péssimo e oportunista trocadilho) para transformar o mais dispensável (se é que assim posso chama-lo) capítulo da saga do bruxinho (lembrando que não estou levando em conta aqui os filmes que viriam a ser produzidos depois deste) no melhor de todos realizados até então.

E quando digo que este “…O Prisioneiro de Azkaban” é o menos importante dentre os três primeiros títulos da série criada por J. K. Rowling, na verdade estou levando em consideração a idéia básica desta franquia, ou seja, a guerra travada entre o protagonsita Harry Potter e seu arqui-rival Lorde Voldemort. Em “…A Pedra Filosofal”, Harry trava um confronto parcialmente direto com o seu grande inimigo. Já em “…A Câmara Secreta”, tal confronto assume um aspecto mais indireto, embora não menos perigoso.

Mas e quanto a “…O Prisioneiro de Azkaban”? Bem, sou obrigado a dizer que neste terceiro filme Voldemort é apenas citado, e só. O confronto da vez aparentemente ocorre entre personagens adjacentes ao grande duelo entre “Você-Sabe-Quem” e Potter, uma vez que, conforme fora dito, o primeiro nem ao menos dá as caras por aqui. E por mais que o longa traga uma galeria de personagens importantes para a franquia em si, não há como não notarmos que a ausência do inimigo mor do personagem encarnado por Daniel Radcliffe diminui consideravelmente o grau de importância e a dramaticidade da obra.

Entretanto, é como fora mencionado pouco mais acima, a direção de Cuarón prevalece sobre o roteiro de Steven Kloves, que também é ótimo, mas não teria a mesma força sem o ótimo trabalho do cineasta mexicano.

Se há uma palavra que possa definir o trabalho de Cuarón como um todo, essa palavra se chama: dinamicidade. Sabe aquelas típicas seqüências bobinhas envolvendo os tios de Harry Potter? Elas, infelizmente, ainda existem por aqui, mas a cena inserida neste terceiro episódio é tão curta que nem ao menos chega a causar incomodo. Sabe aquelas longas passagens pelo Beco Diagonal? Elas não mais dão às caras por aqui (apesar que confesso ter sentido falta delas e não acharia nem um pouco ruim caso as mesmas fossem mantidas, contanto, é claro, que não se estendessem tanto o quanto se estendiam nos filmes anteriores, sobretudo no 1º episódio). Aliás, o roteiro perde muito pouco tempo com cenas cuja importância seja meramente visual e logo em seus primeiros minutos nos apresenta a uma sensação de perigo eminente e direto (ao contrário do 2º filme onde a primeira cena que envolvia o elfo domesticado Dobby oferecia um certo perigo eminente, mas indireto).

O destaque do filme fica por conta de sua imprevisibilidade e pela maneira como Cuarón conduz a trama, principalmente pelo modo dinâmico como dirige as duas últimas seqüências do longa que são, de longe, o momento máximo da franquia (ao menos até agora).

Pois é, desta vez a direção fez total diferença e, por mais que o roteiro seja ótimo, apesar de não acrescentar tanto à saga quanto os outros dois anteriores, o resultado possivelmente não teria sido o mesmo nas mãos de Chris Colombus ou qualquer outro cineasta que seja.

E vamos ao 4º episódio da saga que, ao menos até agora, considero o pior dentre todos os filmes.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

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Harry Potter e o Cálice de Fogo – **** de *****

04

O Cinema é, de fato, extraordinariamente mágico. Há apenas três anos atrás, taxei este “… O Cálice de Fogo” como sendo o pior episódio da franquia Harry Potter. Porém, ao assisti-lo pela segunda vez, há menos de duas horas atrás, inferi que, decididamente, este quarto episódio passará a ser o meu predileto.

Mesmo que não conte com estórias tão bem boladas quanto as do primeiro e do segundo episódios (que, torno a dizer, foi pessimamente desenvolvida em “…A Pedra Filosofal” e não tão bem desenvolvida o quanto deveria em “…A Câmara Secreta”) e uma seqüência extremamente contínua e repleta de momentos tão marcantes quanto os da luta entre Lupin e Sirius Black, Harry Potter e os Dementadores e, é claro, o vira-tempo de Hermione, este quarto episódio se mostra o mais maduro (e maturo também, por que não?) e regular dentre todos os outros.

O longa se abre de forma aterrorizante (aterrorizante para um filme infantil, é claro), mostrando uma rápida reunião entre Lorde Voldemort e seus auxiliares. Desde então percebemos que trata-se, definitivamente, do capítulo mais sombrio e recheado de suspense dentre toda a franquia. A fotografia empregada é excepcional e alterna magistralmente entre tons demasiadamente escuros e cinzentos. O roteiro, por sua vez, se mostra competente o bastante para seguir o mesmo tom fúnebre.

Com o término desta rápida reunião, nos vemos diante de uma partida de quadribol, desta vez disputada em um estádio cuja direção de arte empregada para construí-lo é não menos do que fabulosa. Mas não se trata de uma partida de quadribol qualquer. Trata-se de um duelo espetacular que faz parte do Campeonato Mundial de Quadribol. Os efeitos especiais dão show aqui e percebemos a cautela para com os mesmos logo que presenciamos inúmeros fogos de artifício estourando nos céus e formando a imagem de um duende dançarino. Esta é a apresentação da seleção da Irlanda.

O jogo acaba. Os espectadores vão dormir em suas respectivas barracas, quando Comensais da Morte surgem repentinamente e destroem tudo o que veem pela frente. A partir de então o filme ganha ritmo, e só o perde mais para frente. O suspense aumenta ainda mais quando vemos o nome de Harry Potter surpreendentemente sair de dentro do tal Cálice de Fogo do título. Isto indica que ele deverá participar de um torneio mortal, envolvendo todo o tipo de magia negra que se possa imaginar. Mas como o Cálice, que nunca erra, poderia extrair o nome de Potter dali, uma vez que a regra não permite que participantes com a sua idade disputem o torneio? Esse questionamento permeia as nossas mentes durante o filme todo, o que aumenta gradativamente o suspense do mesmo.

O torneio tem o seu início, o protagonista da saga enfrenta vários desafios, passando por dragões aterrorizantes, sereias traiçoeiras e labirintos imprevisíveis. Todas as três provas carregadas com o mais forte clima de tensão que se possa imaginar. Parte disso deve-se claramente ao diretor estreante na série: Mike Newell. Veja o modo como o cineasta retrata a perseguição entre Harry Potter e um dragão, por exemplo. Newell não só acompanha a ação de modo fantástico, como também aproveita-se muito bem da paisagem colossal emanada pelo magistral castelo de Hogwarts, filmando-o lindamente durante todo o acossamento.

Contudo, o mesmo Newell que realiza aqui o trabalho de direção mais dinâmico de toda a série (sim, ele supera até mesmo Cuarón neste quesito) acaba falhando ao dar ênfase em demasia à briguinha tola entre Potter e Wesley e ao tão famoso Baile de Inverno que, sejamos francos, pouco acrescenta à trama, apesar da excepcional direção de arte que é empregada na construção do salão onde ocorre o evento ser digna de se encher os olhos.

O destaque do longa fica para a seqüência que sucede a prova do labirinto, mostrando uma empolgante e mortal luta entre Harry Potter e… bom, deixa para lá, melhor não estragar surpresas e não revelar o nome do oponente do bruxinho herói. Mas devo deixar claro que, se tal seqüência não conta com um trabalho de continuidade tão genial e eficiente quanto as cenas que fazem parte do desfecho de “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”, ela se mostra muito mais forte, individualmente falando, e revela-se o ponto máximo da saga até então.

E vamos para o quinto filme, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, que, quem sabe, talvez me traga várias surpresas também e faça com que eu mude completamente a nota oferecida há dois anos atrás (na época atribui uma nota 5,0 ao filme), assim como ocorreu com este quarto episódio?

Avaliação Final: 8,3 na escala de 10,0.

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Harry Potter e a Ordem da Fênix – * de *****

05

Pois é, conforme havia previsto, mudei completamente de opinião e, como consequência disso, modifiquei demasiadamente a nota atribuída a este filme também. O problema é que, infelizmente, acabei alterando tudo para pior.

Há uma personagem inserida neste “Harry Potter e a Ordem da Fênix” que acaba resumindo bem este filme inteiro. Refiro-me à Luna Lovegood, uma garota inexpressiva, insossa e praticamente sem alma. E é exatamente isso o que este quinto episódio da saga realmente é: um filme inexpressivo, insosso e sem alma. Tão sem alma que, dentre todos os cinco capítulos da série cinematográfica que optei por conferir novamente durante esta semana, este foi o que menos me deixou lembranças, já que o fato de tê-lo assistido há apenas dois anos atrás, e no cinema (o que geralmente torna um determinado filme ainda mais marcante do que o simples fato de assisti-lo em DVD) não foi o bastante para que o mesmo deixá-se quaisquer marcas que sejam em mim.

Também, era de se imaginar, não? Analisemos a primeira meia hora de projeção, para se ter uma idéia do que estou falando. Harry é ameaçado por dois Dementadores e invoca a magia “Expecto Patronus” para livrar-se dos mesmos, sua atitude é tida como desprezível pelo Ministério da Magia que decide o expulsar de Hogwarts. Entretanto, graças à influência de Dumbledore, o diretor consegue fazer com que o garoto seja devidamente julgado e, neste julgamento (o pior julgamento dentre os demais que já presenciei no Cinema, e olhe que não foram poucos), o protagonista é absolvido. Pois é, para se ter uma idéia do ritmo excessivamente lento de “…A Ordem da Fênix”, basta mencionar que trinta minutos são dedicados apenas para acusar Harry de utilizar magia fora da escola e absolve-lo (de maneira previsível, diga-se) logo em seguida.

E o que vem depois? Bem, o que vem depois é mais uma série de aborrecimentos e pequenos acontecimentos que pouco acrescentam à franquia cinematográfica. Sabemos que Harry e Dumbledore estão sendo acusados de mentir quanto à volta de Voldemort e que isso pode ser um complô de ambos para que o Ministro Cornélio Fudge perca o cargo. Para evitar que tal fato aconteça, o Ministro envia Dolores Umbridge, uma funcionária de sua total confiança, para espionar Hogwarts. Logo, a mesma assume uma postura ditatorial e mostra a sua verdadeira face por trás de toda a aparente candura que lhe era característica, no que mais me pareceu uma releitura da clássica enfermeira Louise Fletcher, a grande vilã do sensacional “Um Estranho no Ninho”.

Bem, só aí já tivemos mais de uma hora de filme desperdiçada, e nada, absolutamente nada, realmente relevante acontece. Eis que Harry Potter decide reativar a Ordem da Fênix do título e passa a ganhar a confiança daqueles que duvidavam de sua palavra quanto à volta de Voldemort. Harry inicia um treinamento entre os seus colegas para que os mesmos se vejam capazes de enfrentar o seu verdadeiro arquiinimigo e… bem, deduz-se que a partir desse instante o filme ganha a devida força a qual precisa para funcionar corretamente e fazer jus a seu episódio anterior, que era extremamente dinâmico e emocionante, correto? Errado. A partir de então vemos um roteiro que só se preocupa em fazer jovens girar a varinha para realizar truques de mágica e um cineasta que, cada vez mais, se afunda em um trabalho apático e pavoroso.

Pois é, Yates nem de longe lembra Newell ou Cuarón. O cineasta não se mostra capaz de conferir ritmo ao filme em momento algum durante os dois primeiros atos deste e, consequentemente, cria uma obra emocionalmente fria e enfadonha.

O roteiro também colabora imensamente para que “…A Ordem da Fênix” se mostre, cada vez mais, um filme dispensável, uma vez que poucas cenas mostram real relevância para a franquia em si (uma delas mostra um antigo embate entre o jovem Severo Snape e Tiago Potter, provando que o pai de Harry, bem como muitos de seus amigos, não são tão bonzinhos quanto se imaginava, algo que os torna muito mais humanos e menos caricatos).

Mas a chatice intragável dos dois primeiros atos acaba e chegamos ao final do filme, onde acontecimentos realmente importantes entram em ação. Refiro-me à uma nova batalha travada entre Harry e seu eterno inimigo, em pleno Ministério da Magia. E desta vez, a batalha é travada por vários bruxos representando ambos os lados: o bem e o mal, o que coloca Hermione, Rony, e muitos outros personagens, dentre os quais destaco o próprio Dumbledore, em uma posição muito mais ativa do que vinham mostrando nos outros episódios. É uma pena constatarmos no entanto que, apesar de ótima, a batalha acaba sendo inibida graças à (adivinhem) insossa direção de Yates, que jamais empolga e se mostra fria até mesmo no momento em que um importante personagem é assassinado, algo que deveria causar forte comoção em nós, espectadores, mas não causa.

Em suma, “Harry Potter e a Ordem da Fênix” subtrai muito e acrescenta pouco à saga que, até então, não havia decepcionado inteiramente em nenhum de seus episódios.

Avaliação Final: 3,5 na escala de 10,0.

A Duquesa – ** de *****

“A Duquesa” foi um dos poucos filmes que concorreram ao Oscar neste ano que eu não pude assistir antes da cerimônia. Desta forma, tinha que faze-lo assim que me sobrasse algum tempo, principalmente levando em conta que o filme estreou nos circuitos nacionais a muito tempo e, na ocasião, vi-me incapaz de conferi-lo. Faço-o agora então, na hora errada, mas enfim, antes tarde do que nunca, não?

Crítica:

Quando comentei sobre “Elizabeth – A Era de Ouro”, por volta de fevereiro do ano passado, deixei bem claro que o filme em questão emergia em um oceano de frivolidades, pois dava muito mais ênfase ao triângulo amoroso abordado do que às questões políticas com as quais a protagonista estava envolvida na época. E tendo em vista que tais questões estavam ligadas ao período mais glorioso da história da Grã-Bretanha, ou seja, a vitória naval sobre a Espanha durante o conturbado período das inquisições ibéricas, tal deslize do roteiro não poderia ser perdoado sob hipótese alguma.

Pouco tempo depois (menos de um ano) de “Elizabeth – A Era de Ouro” sair dos circuitos nacionais, chega este “A Duquesa” com uma proposta não muito diferente: retratar um triângulo amoroso, que mais para frente viria a ser um quadrado amoroso, envolvendo membros importantíssimos da corte britânica e deixar as questões políticas de lado. Contudo, “A Duquesa” tem uma clara vantagem sobre “Elizabeth…”, no filme protagonizado por Keira Knightley, a ocultação dos fatos políticos se revela infinitamente mais conveniente do que no filme protagonizado por Cate Blanchet.

Tomando como pano de fundo a Inglaterra do final da sétima década do século XVIII, o filme nos apresenta à duquesa Georgiana Carvish (Keira Knightley), casada com William Carvish (Ralph Fiennes), Duque de Devonshire (região pantanosa ao sul da Inglaterra, para quem já leu o excepcional “O Cão dos Baskervilles” de Sir Arthur Conan Doyle, é exatamente a região onde se passa a estória mais famosa protagonizada por Sherlock Holmes). O Duque, como era costume na época, desejava um descendente do sexo masculino para deixar de herdeiro. A esposa, no entanto, só conseguia lhe “dar” filhos do sexo feminino, o que causa certo ódio por parte do marido.

Lendo o parágrafo acima, dá-se a entender que o longa irá cair naquela velha estória de sempre, não? É exatamente isso o que acontece. Eles se casam, ela promete um filho, não consegue um garoto, o Duque, que já não demonstrava grande amor pela moça, passa a despreza-la cada vez mais, arruma inúmeras amantes para lhe satisfazer, e ela, pobrezinha, sente-se isolada, sem o amor do marido, no palácio em que mora e passa a se interessar por um amigo de infância.

O roteiro aparenta ser previsível e sem criatividade, não? Pois é, é justamente isso que o é, e mais, não se preocupa nem um pouco em explorar os seus personagens ou, ao menos, criar uma forte carga dramática sobre eles. Por exemplo, Georgiana era viciada em jogos de azar, mas o filme raramente explora o seu problema de um modo aprofundado. Tudo aqui é mostrado superficialmente, através de uma ou outra cena em que a moça aparece jogando cartas. E os sentimentos verdadeiros dela por Charles Gray (Dominic Cooper)? De fato são verdadeiro sim, mas percebemos isso de tanto que ouvimos a moça falar, pois o roteiro não se preocupa nem um pouco em criar situações que nos façam ter certeza disso. O flerte entre Georgiana e Charles é mostrado de um modo sucinto demais no início da projeção. Eles são mostrados apenas como amigos, que trocam um ou outro olhar entre si, e quando o romance de ambos esquenta definitivamente, não convence. A sensação que temos é a de que a Duquesa não ama o rapaz, de fato, apenas o usa para escapar do rude marido, que trai a moça com aquela que já fora sua melhor amiga, Bess Foster.

E falando em Bess Foster, que atuação apagada a de Hayley Atwell, não? Sua expressão é sempre a mesma, ela jamais convence, nem quando fala do marido que a maltratava, nem quando reencontra os filhos que já não via há anos, nem em momento algum. O resto do elenco se mostra satisfatório, mas apenas isso, nada mais. Salvo por Keira Knightley e Ralph Fiennes, cujas discussões de seus respectivos personagens revelam-se o ponto alto do filme, uma vez que passa a exigir de ambos atores atuações firmes e consistentes e ambos correspondem magnificamente bem ao exigido (Knightley, aliás, está perdoada do péssimo trabalho que realizou no bom “Desejo & Reparação”).

Mas ao iniciar este texto, lembro-me de que falava que a ocultação política do filme não era, ao todo, inconveniente, não? Pois é, a Inglaterra passava por uma considerável mudança política, onde o partido de oposição, que era infinitamente mais libertário que o partido de situação, estava para assumir o poder da ilha mais importante do mundo e a Duquesa Georgiana teve a sua participação nisso, e é claro que o roteiro falha em não abordar tal fato com mais precisão, contudo, além do papel de Carvish não ter sido tão diretamente importante para o trunfo dos opositores, este acontecimento histórico não teve, nem em sonhos, o mesmo peso que teve a vitória naval da Inglaterra sobre a Espanha. Logo, o roteiro jamais se mostra totalmente falho quando opta por dar mais ênfase à vida pessoal da Duquesa.

Aliás, a vida pessoal dela, por si só, já se mostra dramaticamente forte o bastante para merecer uma adaptação para as telonas. A questão é: como fazer isso de um modo satisfatório? E aí voltamos a todos os pontos falhos que citei acima, o longa deveria ter desenvolvido melhor os personagens, ter criado uma relação publico/protagonista muito maior a ponto de nos cativarmos com ela, sobretudo com os seus sentimentos por Gray e, principalmente, ter sido menos previsível. Francamente, em menos de vinte minutos de filme sabemos perfeitamente que a Duquesa não conseguirá dar um filho do sexo masculino ao seu marido, o mesmo dará ainda menos amor à esposa, arrumará algumas amantes, passará a flertar com a sua melhor amiga, se tornará amante da mesma, e por aí vai, até “nascer”, de fato, o previsível caso de amor entre Georgiana e Gray.

Ao menos o filme não é previsível em seu final, quando percebemos a tristeza que passa a fazer parte da vida da jovem nobre. Afinal de contas, ela terá toda a riqueza material que desejar, mas jamais encontrará o verdadeiro amor, e o que é pior, ela nada vez de errado para merecer tal “punição”, apenas não se viu capaz de “presentear” o marido com um filho do sexo masculino no momento em que ele deseja isto. O roteiro prima também por não fugir muito da estória real, que lhe serviu de base. Por outro lado, creio que uma ou outra liberdade histórica adotada para dramatizar a trama (que, sejamos francos, não é tão dramatizada quanto deveria) não seria uma má idéia.

Mas o filme não é ruim ao extremo, muito pelo contrário. Além das já citadas ótimas atuações de Fiennes e Knightley, o filme conta com uma beleza visual fantástica, que parece tentar suprir todo o vazio emocional que o longa nos confere. A fotografia realça bem os ambientes externos da produção, a direção de arte, por sua vez, cria ambientes internos suntuosos e dignos de se encher os olhos (ainda assim achei a vitória de “… Benjamin Button” justa nesta categoria) e os figurinos são simplesmente um espetáculo, algo que o filme realmente tem de melhor, e parece saber aproveitar a cada momento que pretende recriar a época que está sendo retratada nas telonas.

“A Duquesa” é, enfim, um longa dotado de uma beleza visual incrível, mas de um vazio dramático indesc
ulpável (exceto pelo triste final do filme).

Avaliação Final: 5,0 na escala de 10,0.

Na Mira do Chefe – *** de *****

Certa vez, pouco antes de dar-se início à Copa do Mundo de 2002, comentava com o meu pai que o Brasil, felizmente, não iria levar a taça para casa em virtude de sua péssima campanha nas Eliminatórias anterior (os motivos pelos quais torcia contra a Seleção Brasileira (e ainda torço veementemente contra e, francamente, sempre torci e sempre torcerei contra a mesma) explico em uma ocasião mais apropriada, mas é claro que o leitor, sagaz como é, já deve ter deduzido que tem algo relacionado à alienação em massa proporcionada pela mesma). Ele, por sua vez, disse que as chances do Brasil faturar o troféu eram enormes, pois se a Seleção encontrava-se fraca naquele momento, as outras equipes estavam igualmente medíocres (e desta vez falo no sentido pejorativo da palavra, e não na qualidade de mediano como sempre costumo fazer) e tinham ainda menos chances de vencerem a Copa. O que isto tudo tem a ver com “Na Mira do Chefe”? Bem, com o filme em si, nada, mas com a sua participação no Oscar, tudo. Se “Na Mira do Chefe” está concorrendo ao aclamado Oscar de Melhor Roteiro Original e já arrematou vários outros prêmios importantes para a sétima Arte, é porque 2008 foi um ano vergonhoso para o Cinema e, na falta de coisa melhor, premia-se a primeira obra diferente que se vê pela frente, mesmo esta se revelando uma produção apenas na média e nada mais.

Ficha Técnica:
Título Original: In Bruges
Gênero: Comédia.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.inbruges.co.uk/
Nacionalidade: Inglaterra e Bélgica.
Tempo de Duração: 107 minutos.
Direção: Martin McDonagh.
Roteiro: Martin McDonagh.
Elenco: Colin Farrell (Ray), Brendan Gleeson (Ken), Ralph Fiennes (Harry Waters), Clémense Poésy (Chloë), Jérémie Renier (Eirik), Thekla Reuten (Marie), Jordan Prentice (Jimmy), Elizabeth Berrington (Natalie), Eric Godon (Yuri), Sachi Kimura (Imamoto), Anna Madeley (Denise) e Ciarán Hinds (Padre).
Sinopse: Harry Waters (Ralph Fiennes), chefe de um grupo de matadores de aluguel, envia dois de seus profissionais, Ray (Colin Farrell) e Ken (Brendan Gleeson), a Bruges, uma cidadela medieval localizada na Bélgica. Ken, um intelectual de carteirinha, logo se apaixona pela arquitetura gótico-medieval local e a importância histórica que tem a cidade. Ray, um rapaz estúpido e inculto, não consegue partilhar com o amigo a mesma opinião. Em primeiro lugar, porque ele não se adapta ao local, uma vez que é o típico jovem boêmio e cidades pacatas não lhe agradam nem um pouco, em segundo lugar, porque carrega consigo o trauma de uma missão mal-sucedida, e isto lhe pesa a consciência de um modo que passa a ter sérias dificuldades para se distrair.

In Bruges – Trailer:

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Crítica:

Ao contrário do que muitos podem imaginar, inclusive os(as) senhores(as), a profissão de crítico de Cinema não é das mais fáceis, muito menos, das mais gratificantes. Uma coisa é “brincar” de crítico e poder escolher os filmes os quais serão objetos de crítica, outra coisa é você se ver obrigado a assistir a uma penca de filmes os quais não assistiria em uma ocasião normal. Por este motivo, creio que os críticos da sétima Arte passam tanto tempo assistindo a tanta asneira que o Cinema, mormente Hollywood, nos “empurra” que, ao verem uma produção um pouco diferente das demais, já elevam esta a um patamar muito mais alto do que realmente merece ser elevada. Quando o gênero em pauta então é a comédia, nem se fale. Tendo em vista que a grande maioria dos filmes que passam pelos cinemas, sobretudo os cinemas chinfrins, são as comédias, é mais do que natural que as produções desta espécie sejam as que mais confiram títulos ruins ou péssimos (como é o caso da maioria) ao mercado cinematográfico (tanto que, na grande maioria das vezes, os “vencedores” do Framboesa de Ouro são os filmes de comédia).

Aí surge um “Na Mira do Chefe”. Um filme que, aparentemente, tenta ser diferente, fugir dos clichês habituais do gênero, trazer o novo à pessoas que já estão fartas do “mais do mesmo”. De fato, a produção consegue o fazer com certo êxito, não se tenha nem dúvidas, mas isso não quer dizer necessariamente que seja um filme lá muito bem sucedido. O leitor deve-se lembrar de quando eu mencionei, ao escrever sobre “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que todo o filme que tente inovar, por pior que seja, merece o mínimo de respeito, não se lembra? Pois é, mas por outro lado, ao comentar o fraco “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte” mencionei que, muitas vezes, na tentativa de inovar (no caso desta comédia romântica, ela tenta inovar muito pouco, muito pouco mesmo), o filme acaba se revelando ainda pior do que se revelaria caso seguisse os tradicionalismos de sempre. Ainda assim mantive a minha opinião costumeira e conferi alguns pontos extras ao longa dirigido por Howard Deutch pela tentativa (ainda que falha) deste inovar.

E quanto a “Na Mira do Chefe”? Bem, o mesmo não conseguiu obter o mesmo êxito que “Onde os Fracos Não Têm Vez” obteve, mas ao menos não se revelou tão falho quanto “Amigos, Amigos, Mulheres à Parte” se revelou. Muito longe disso. Assim como o filme de Martin McDonagh está longe de ser ótimo, excelente ou perfeito, ele também está longe de ser péssimo, ruim, ou apenas razoável. “Na Mira do Chefe” se revela, durante a maior parte de seu tempo, uma produção satisfatória, agradável, mas apenas isso. Aí surge um aglomerado de críticos rasgando seda para o filme, dizendo que o mesmo é uma nova obra-prima da comédia de humor negro. Festivais como o Globo de Ouro e o Bafta atribuem prêmios importantíssimos ao longa e o Oscar ainda o indica na categoria de Melhor Roteiro Original. Oras, sejamos racionais. Será que o Cinema está tão decadente a ponto de um filme merecer tanto crédito por ser, apenas, diferente?

O longa começa muito lento, com muito pouco ritmo. Piadas fracas vão surgindo, como a cena em que o personagem de Colin Farrell zomba de uma família obesa. O roteiro vai, cada vez mais, nos apresentando a situações que não fazem o filme levantar vôo (e já nem me lembro (e nem quero) mais se vai acento circunflexo no primeiro ‘o’ ou não) de maneira alguma. Os atores até que fazem a sua parte, realizam grandes atuações, sobretudo Colin Farrell que trabalha muito bem (muito bem mesmo). O diretor Martin McDonagh também faz um bom trabalho, apesar de realizar algo que particularmente não me atrai nem um pouco: criar uma espécie de cartão-postal da cidade de Bruges ao dar ênfase demais aos pontos turísticos da mesma. Não que a cidade não mereça ser enfocada, muito pelo contrário, Bruges é encantadora. A eficiente fotografia empregada por Eigil Bryld torna a paisagem e a arquitetura locais ainda mais belas de serem admiradas por nós, espectadores (a propósito, quando sai o próximo vôo para a Bélgica? Gostaria de poder apreciar a sua arquitetura de perto.). Entretanto, quando um filme começa a dar muita ênfase ao cenário ou a paisagem do local em que a trama se desenrola, sempre suspeitem de uma coisa: o mesmo está tentando suprir a falta de conteúdo de seu roteiro com a beleza visual de suas locações. E “Na Mira do Chefe”, lamentavelmente, faz isso
com certa frequência.

Passam-se os minutos. Os personagens de Farrell e Gleeson vão se revelando mais cativantes, mas ainda assim não há como não notarmos o modo artificial com que o roteiro desenvolve o protagonista Ray. Após ter sido contratado para eliminar um padre, Ray, involuntariamente, acerta uma pessoa inocente e acaba tirando-lhe a vida (e não vou descrever que espécie de pessoa era essa que o protagonista matou involuntariamente, sob pena de tirar o peso dramático da cena). O fato confere um trauma terrível ao personagem, que sofre fortes ameaças de entrar em profunda depressão e, até mesmo, cometer suicídio. Contudo, se a consciência do protagonista era tão pesada assim, como ele podia se revelar tão radiante e despreocupado no início do filme, quando conheceu Chloë (Clémense Poésy) e passou a paquerá-la? E por mais linda que a moça seja (e ela realmente é), acredito que isso não seria argumento o suficiente para que ele pudesse simplesmente esquecer-se do ocorrido. Logo, o roteiro falha gritantemente (isso para não dizer “berrantemente”) ao abordar esta alteração de humor constante do protagonista do modo mais indelicado o possível.

Felizmente, temos os personagens secundários do filme. Estes sim são construídos de um modo extremamente interessante. Variamos desde o skinhead assaltante até o chefe de quadrilha que conta com um código de ética fortíssimo (o qual jamais quebra) e passamos pelo anão racista, pela narcotraficante internacional e muitos outros personagens completamente curiosos. Aliás, desde que assisti ao ótimo “Snatch – Porcos e Diamantes” não via uma gama tão vasta de personagens bizarros e hilários quanto neste “Na Mira do Chefe”. E o roteiro sabe os utilizar de um modo realmente magistral, inserindo-os em situações tão absurdas quanto eles mesmos o são.

Os diálogos do longa também são fenomenais e a mesmíssima citação que fiz ao comentar o ótimo “Frost/Nixon”, faço ao comentar esta obra de McDonagh: “Gostaria de destacar também os diálogos do filme. Confesso que, durante alguns momentos, as falas de seus personagens me remeteram à deliciosa sensação de estar assistindo a um filme roteirizado por Woody Allen”. Como não se esbaldar em gargalhadas ao ouvir coisas do tipo: “___ Havia uma época em que ser skinhead consistia em matar palestinos de 12 anos, mas hoje em dia parece ser um pré-requisito para ser gay.” e “___ Eu sou americano, mas por favor, não me culpe por isso.”.

Resumidamente, “Na Mira do Chefe” é um filme que não começa nada bem. Temos um protagonista deveras artificial, cujas mudanças de caráter não são estudadas pelo roteiro de um modo verdadeiramente satisfatório. O longa não tem ritmo em seu início, o senso de humor empregado demora bastante para funcionar e a direção de Martin McDonagh, à primo, parece se importar mais em criar uma sequência de cartões-postais da cidade de Bruges do que de conduzir o filme de um modo realmente aceitável. Tais falhas vão sendo corrigidas com o desenrolar da trama. O elenco é extremamente competente (o que já era de se esperar de um elenco encabeçado por profissionais excelentes como Colin Farrell, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes). Farrell realiza uma das melhores atuações de sua carreira e, se o roteiro é extremamente artificial na abordagem de seu personagem, ele nada tem a ver com isso. Sua atuação é cativante e convincente. Ralph Fiennes, então, nem se comenta. A sua presença é devastadora e, quando o mesmo entra em cena, o filme ganha uma força fora do comum. Surgem os personagens secundários, sujeitos dotados de características para lá de bizarras, hilárias, curiosas e interessantes. A trama vai criando situações engraçadas, mas no geral, o longa está há anos luz de merecer o prestígio que vem, exageradamente, recebendo. Um bom filme, apenas isso.
Avaliação Final: 7,0 na escala de 10,0.

O Leitor – **** de *****

É, no mínimo, curioso o caso deste “O Leitor”. Em um ano bizarro onde o melhor filme acabou sendo, curiosamente, o filme de maior bilheteria (refiro-me a “Batman – O Cavaleiro das Trevas”), a obra de Nolan fora esnobada pela Academia por mero preconceito. No lugar, vários filmes superestimados acabaram sendo selecionados para a disputa do prêmio principal do Cinema, incluindo “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “Quem Quer Ser um Milionário?”, que detém total favoritismo na conquista do prêmio que será atribuído no dia 22 de fevereiro deste ano de 2009. No entanto, uma grande surpresa surgiu dentre os principais candidatos. Refiro-me a este “O Leitor” que, até então, apareceu como a grande zebra do Oscar. Um filme em que ninguém apostava uma única ficha surge, inexplicavelmente, entre os principais indicados e, pasmem, dentre os quais eu já assisti, a obra dirigida por Stephen Daldry revelou-se a melhor de todas.

Ficha Técnica:
Título Original: The Reader.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 2008.
Site Oficial: http://www.thereader-movie.com/
Nacionalidade: Estados Unidos da América / Alemanha.
Tempo de Duração: 124 minutos.
Diretor: Stephen Daldry.
Roteirista: David Hare, baseado em livro de Bernhard Schlink.
Elenco: David Kross (Michael Berg – jovem), Kate Winslet (Hanna Schmitz), Ralph Fiennes (Michael Berg – adulto), Jeanette Hain (Brigitte), Susanne Lothar (Carla Berg), Alissa Wilms (Emily Berg), Florian Bartholomäi (Thomas Berg), Friederike Becht (Angela Berg), Matthias Habich (Peter Berg), Bruno Ganz (Prof. Rohl), Max Mauff (Rudolf), Karoline Herfurth (Marthe), Lena Olin (Rose Mather / Ilana Mather), Alexandra Maria Lara (Ilana Mather – jovem) e Frieder Venus (Médico).

Sinopse: Michael Berg (David Kross) é um jovem que perambulava pelas ruas de Berlin sem imaginar que era portador de uma doença contagiosa. Quando o mesmo começa a passar mal nas ruas, recebe a ajuda de Hanna Schmitz (Kate Winslet), uma mulher rude e bem mais velha que ele. Com o passar do tempo, o jovem vai se interessando pela moça e ela por ele, até viverem um caso amoroso que irá mudar as suas vidas para sempre.

The Reader – Trailer:

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Crítica:

Hollywood parece ter caído em uma moda que confesso não ser lá muito fã: a inclusão de mais de um filme em uma única fita. Quê?! Pergunta o leitor assustado. Sim, eu sei que parece confuso, mas no fim das contas não é. Citarei alguns exemplos. Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” temos, a princípio, um drama policial à lá “Fogo Contra Fogo” que, ao chegar em sua segunda metade, se converte em um drama existencial onde o protagonista começa a questionar se a sua presença contribui ou atrapalha no combate ao crime organizado de Gotham City. Em “Quem Quer Ser um Milionário?” (depois do Bafta será que alguém ainda duvida que ele “leva” o Oscar de Melhor Filme esse ano?), a metade inicial que abordava a sofrida infância do protagonista teve o seu brilho ofuscado por uma estória de amor típica de um ‘filmeco’ de “Sessão da Tarde” que foge completamente do que o roteiro aparentava querer retratar em seu início. Em “Austrália” então nem se comente a fragilidade e a artificialidade com que tal recurso é empregado. O início do longa, que descaradamente pajeia clássicos como “…E o Vento Levou”, “O Mágico de Oz” e, principalmente, “Lawrence da Arábia”, se revela divertidinho, mas descamba para o piegas e o excessivamente melodramático em sua metade final, quando sentimos que a sinopse inicial do filme é abandonada sem quaisquer resquícios de sutileza e o roteiro parte para algo completamente diferente do que havíamos visto até então.

Entretanto, não é porque um filme adota este recurso “dois em um” que ele pode ser automaticamente tachado de ruim, artificial, ou seja lá o que for. Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, por exemplo, o roteiro e a edição do filme se revelam sagazes o bastante para encerrar uma estória e dar início a outra de um modo que nos cative cada vez mais com a obra. A mesma coisa não ocorre com “Quem Quer Ser um Milionário?”, uma vez que a previsibilidade de sua segunda estória anula muitas expectativas que havíamos criado em cima da primeira metade do filme. Em “Austrália” o emprego de tal recurso revela-se sofrível, algo que faz com que o filme se torne inteiramente ruim. Mas e em “O Leitor”? No filme dirigido por Stephen Daldry o uso deste recurso (se é que pode ser alcunhado desta forma) é adotado a fim de mesclar três filmes em um só, fazendo com que, ao mesmo tempo em que este soe um tanto o quanto desconexo em alguns de seus momentos, revele-se intrigante durante a maior parte de sua projeção.

A princípio, o longa lembra um pouco “Um Tango em Paris”. Michael é um garoto de apenas 15 anos que vive na Berlin pós-guerra, quando o povo alemão estava com a moral baixa pela derrota sofrida durante a Segunda Guerra Mundial e pela vergonha do holocausto. Naquela época, a taciturnidade imperava entre os alemães e, seguindo o exemplo destes, o adolescente era demasiadamente calado, não possuía amigos e a sua existência resumia-se a nada. Em um dia gélido e chuvoso o jovem começa a passar mal e a vomitar pelas ruas. É aí que ele conhece Hanna, uma mulher carrancuda, mal-humorada, rude e que aparenta desconhecer todas as regras básicas de etiqueta (só para se ter uma idéia, ela testa a temperatura do ferro de passar cuspindo na superfície deste), mas que mostra o mínimo de atenção para com o jovem e leva-o até a sua casa. Michael começa a nutrir um forte e estranho interesse pela moça, passando a visitá-la com freqüência e envolvendo-se em um bizarro relacionamento onde ambos passam a fazer sexo sem nem ao menos saberem os nomes um do outro.

Durante esta parte podemos notar que o filme utiliza o caso amoroso dos dois como uma forma de retratar a estranha situação em que a Alemanha encontrava-se naquele período. Conforme já fora dito, o país encontrava-se inerte em uma profunda vergonha graças ao holocausto. As pessoas aparentavam ser frias e rudes devido aos seus comportamentos, mas na verdade eram carentes e necessitavam de ajuda. Logo, o relacionamento entre Michael e Hanna funcionava como uma forma de ambos exprimirem os seus sentimentos, em uma nação onde isso era praticamente impossível. O romance entre eles não é belo, mas sim triste, na medida em que os mantém sob uma farsa. Eles mal se conhecem, como podem se amar? E nisso, o filme peca terrivelmente ao tentar ‘glamourizar’ além da conta as seqüências envolvendo cópula carnal, uma vez que as mesmas não visam transmitir alegria, mas sim o sofrimento individual de ambos, que torna-se mútuo quando eles estão juntos.

Entretanto, o romance entre Michael e Hanna vai sendo desenvolvido de modo cada vez mais magistral pelo roteiro. Para que o garoto obtenha o direito de fazer sexo com ela, a moça passa a exigir que este a leia um livro diariamente. Logo, percebemos que um supre as necessidades de outro. Hanna é analfabeta, como conseqüência disso precisa que alguém leia uma ficção para ela, não apenas para que possa se distrair com uma estória qualquer, mas também para poder preencher as lacunas vazias de sua vida. Michael é um garoto muito solitário, a família não lhe confere atenção. Ele busca em Hanna algo muito além de experiência sexual. É nela que ele se reconforta. É nela que ele encontra um propósito para a sua vida. O casa
l se completa, pois um se apóia no outro e ambos ganham muito mais energia quando estão juntos. Energia o bastante para encararem a vida de frente.

Até este momento pensamos que o filme irá tratar somente do romance entre ambos e que iremos testemunhar o apogeu e/ou a queda de tal relacionamento. Ledo engano. O filme de romance encerra-se repentinamente e Hanna sai de cena sem mais nem menos. Oito anos mais tarde, porém, Michael torna-se acadêmico de Direito e, coincidentemente, participa de um júri onde vê a sua ex-amante (é com hífen ou não?) sendo acusada de exterminar um grande grupo de judeus em um campo de concentração (repare que “O Leitor”, a partir deste momento, assume uma postura parecida com a do excelente “O Julgamento de Nuremberg”). Hanna, de fato, tem a sua parcela de culpa, mas acaba sendo punida de um modo muito mais rígido do que realmente merecia pelo simples fato de ocultar o seu analfabetismo. Bastava dizer que não sabia escrever e pronto, sua pena cairia de um modo extremamente considerável. Mas por que Hanna não assumiu a verdade? Por vergonha. Vergonha de si mesmo, este era o sentimento pelo qual o povo alemão passava naquela época, desde o término da guerra.

O que nós, espectadores, passamos a sentir a partir de então é confusão. O filme se mostra ligeiramente desconexo entre uma estória e outra, apesar de ser bem surpreendente (quem iria esperar que uma estória de amor fosse tomar tais proporções?). Durante uma parte considerável entre o primeira e o segunda ato de “O Leitor”, sentimos que um é extremamente independente do outro e, assim, funcionariam melhor separadamente. O terceiro ato do filme, no entanto, vem para eliminar esta desconfortável sensação parcialmente (e eu disse apenas parcialmente). Passamos a ver mais relação entre o primeiro e o segundo ato, embora os dois, mesmo com o término do filme, continuem não possuindo um elo verdadeiramente completo.

Outra falha de “O Leitor” consiste em sua estrutura não-linear (hífen?). Se tal recurso funcionava magistralmente bem em filmes como “Pulp Fiction – Tempo de Violência”, “Cidadão Kane”, “Rashomon” e até mesmo no recente “Missão Impossível 3”, no longa dirigido por Stephen Daldry o mesmo estraga a surpreendente reviravolta incluída em seu roteiro. Sim, pois quando percebemos que o Michael adulto, muito bem interpretado por Ralph Fiennes, irá narrar um antigo caso de amor, logo concluímos que este não fora bem sucedido por algum motivo, e quando o rapaz passa a se relacionar com Hanna, não nos cativamos tanto o quanto deveríamos nos cativar com o relacionamento de ambos, pois sabemos de antemão que os dois irão romper mais cedo ou mais tarde.

Mas no final das contas o saldo de “O Leitor” é extremamente positivo. Se o roteiro se revela desconexo em algumas partes e a narrativa não-linear estraga uma interessante surpresa que teríamos na metade do filme, a obra ao menos realiza um amplo estudo sobre a vergonha e a frieza em que a Alemanha pós-guerra encontrava-se inerte na época retratada tomando como pano de fundo o bizarro romance entre duas pessoas completamente frígidas. E por mais que o relacionamento entre ambos seja previsível, graças a estrutura não-linear empregada pelo filme, é praticamente impossível não se cativar, de uma forma ou de outra, com o mesmo. Os responsáveis por isso, além do roteiro que os explora muito bem, são os atores que rendem atuações fantásticas, sobretudo Kate Winslet que encarna Hanna perfeitamente bem (e por mais que a atuação de Meryl Streep como a Irmã Aloysius Beauvier em “Dúvida” seja superior a de Winslet, creio que o Oscar de Melhor Atriz deverá ficar com o par de Leonardo DiCaprio em “Foi Apenas um Sonho”, como uma forma de compensá-la pelos seus trabalhos em outros filmes menos recentes) e os demais aspectos técnicos e artísticos que compõem o longa.

Obs.: Queria ter feito este comentário ao longo da crítica, mas achei que tiraria um pouco o foco da mesma, uma vez que centrei-me em seus personagens e não nos aspectos técnicos da produção. A mixagem de som de “O Leitor” conseguiu conquistar-me de modo fascinante. É incrível notarmos o profissionalismo com que os microfones foram instalados no cenário, sendo que, principalmente durante a seqüência inicial do filme, podemos ouvir com perfeição certos ruídos que só têm a acrescentar à trama, tais como: talheres tinindo, o café sendo depositado em uma xícara, uma colher se chocando contra um ovo com a intenção de quebra-lo, dentre muitas outras coisas. É uma lástima, aliás, que a Academia não tenha indicado o filme neste categoria. Vergonhoso também é não indicá-lo a Melhor Maquiagem, uma vez que o trabalho que “envelhece” Kate Winslet é praticamente perfeito.

Obs. 2: Um grande amigo meu atentou-me para um detalhe com relação a este texto. Trata-se de um erro crasso de minha parte durante a seguinte frase: “Hanna, de fato, tem a sua parcela de culpa, mas acaba sendo punida de um modo muito mais brando do que realmente merecia pelo simples fato de ocultar o seu analfabetismo.“. Ok, na verdade, eu iria colocar rígido, mas sabe-se lá o porquê escolhi brando no lugar. Enfim, um erro imbecil de minha parte, mas que já fora corrigido. Agradeço ao meu amigo Thiago Rozante.

Avaliação Final: 8,2 na escala de 10,0.

A Lista de Schindler – ***** de *****

Voltando a postar na sessão de “Filmes Clássicos”, optei por reeditar este texto de “A Lista de Schindler”, que havia publicado no site Cinema em Cena a cerca de dois ou três anos atrás e postá-lo aqui no Papo Cinema. Entretanto, minha intenção não era assistir ao longa novamente, almejava apenas dar uma analisada no texto, mudá-lo em alguns pontos, e postá-lo, mas não resisti e acabei assistindo ao filme pela terceira vez em minha vida. A sensação não pôde ser diferente, mais uma vez me derreti em lágrimas ao final da obra-prima de Steven Spielberg (oras, homens também choram, e também possuem sentimentos, não?). Logo após o término da sessão, reli o meu texto e optei por alterá-lo em algumas partes. O resultado o leitor poderá conferir logo mais abaixo, onde não poupei elogios para explanar sobre um de meus quinze filmes prediletos.


Ficha Técnica:
Título Original: The Schindler’s List.
Gênero: Drama.
Ano de Lançamento: 1993.
Nacionalidade: EUA.
Tempo de Duração: 195 minutos.
Diretor: Steven Spielberg.
Roteirista: Steven Zaillian, baseado em obra-literária de Thomas Keneally.
Elenco: Liam Neeson (Oskar Schindler), Ben Kingsley (Itzhak Stern),Ralph Fiennes (Amon Goeth), Caroline Goodall (Emilie Schindler), JonathanSagall (Poldek Pfefferberg), Embeth Davidtz (Helen Hirsch), Malgoscha Gebel(Victoria Klonowska), Shmulik Levy (Wilek Chilowicz), Mark Ivanir (MarcelGoldberg), Béatrice Macola (Ingrid) e Andrzej Seweryn (Julian Scherner).

Sinopse: Oskar Schindler é um homem ganancioso, egoísta, totalitário e membro honorário do Partido Nazista. Um sujeito tão inescrupuloso que utiliza toda a sua malícia e o seu poder de persuasão para enriquecer-se cada vez mais através da guerra e do trabalho escravo judeu. No entanto, após assistir ao extermínio de um gueto judeu em uma cidade na Alemanha e se chocar completamente ao presenciar a maneira como estes eram tratados nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, Schindler muda completamente o seu modo de pensar e agir, a ponto de sensibilizar-se totalmente com a causa judia e criar uma lista gigantesca de trabalhadores judeus que viria a precisar para trabalhar em sua fábrica de armas. Com isto, Schindler gasta toda a sua fortuna a fim de comprar o maior número possível de trabalhadores judeus, fazendo assim com que os nazistas não os maltratem nos campos de concentração, providenciando com que estes tenham uma vida bem melhor e mais digna como funcionários de suas fábricas.

The Schindler’s List – Trailer:

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Crítica:

“A Lista de Schindler” é o tipo de filme que Steven Spielberg (“E.T. – O Extraterrestre”), infelizmente, não está acostumado a dirigir. Não que eu tenha algo contra os demais projetos do diretor estadunidense, mas, convenhamos, nenhum deles se equipara a este longa em questão.

Inicialmente, os produtores de “A Lista…”almejavam que o diretor do longa fosse Martin Scorsese (este que considero comosendo um dos ícones máximos da história do Cinema mundial). No entanto, odiretor ítalo-americano recusou a proposta alegando que um cineasta estadunidense descendente de judeus poderia capturar muito mais a alma e a essência do filme do que ele próprio capturaria. Foi aí que Scorsese recomendou Spielberg.
O resultado, por incrível que pareça, foi altamente positivo e, quando digo:“por incrível que pareça”, é porque não sou um grande fã do trabalho de Spielberg como diretor e confesso que o julgo ligeiramente superestimado pelopúblico e pela crítica. Devo dizer também que considero a direção deste pouco ousada e que os seus filmes sempre dependem muito de efeitos visuais para funcionarem bem.
Neste longa, no entanto, a proposta de Spielberg é totalmente diferente. Desta vez o diretor descendente de judeus abandona os efeitos especiais que estão presentes em 90% de seus filmes, e nos brinda com uma estória deveras interessante que, ao invés de ser focada em alienígenas, dinossauros e outras coisas do tipo, retrata fielmente o holocausto que os nazistas exerceram sobre os judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
A propósito, umdos maiores responsáveis pela fidelidade com que o longa aborda os verdadeiros acontecimentos históricos é Steven Zaillian que nos presenteia com um roteiro adaptado com perfeição (tanto que foi eleito pelos críticos de cinema do mundotodo como sendo o 49° melhor roteiro da história do Cinema, em uma pesquisarealizada recentemente) do livro de Thomas Keneally, também intitulado de “A Lista de Schindler”. E já que mencionei o livro de Keneally, gostaria de dizer que considero o roteiro adaptado de Zaillian ainda melhor que o livro original, já que este é muito mais dinâmico do que aquele.
Mas voltando à direção de Spielberg, devo dizer que o grande destaque desta vai para a maneira descritiva com que ele retrata, por trás de sua detalhista câmera, o modo desumano como os judeus eram tratados nos campos de concentração nazistas. Outro ponto positivo, com relação à direção do filme, é que em momento algum Spielberg apela para a violência gratuita, sendo que, caso adireção do filme fosse de Scorsese provavelmente o diretor ítalo-americano iria acabar apelando um pouco mais para as cenas de violência tornando o longa ligeiramente sensacionalista, fato que não acontece com Spielberg (por mais que eu seja fã incondicional de Scorsese, reconheço que Spielberg dirigiu “A Lista de Schindler” de um modo que fez com que o longa soasse bastante realista, cruel e, ao mesmo tempo, nem um pouco apelativo, fato que não acredito que teria ocorrido caso a direção fosse do ítalo-americano responsável por “Touro Indomável”).
As atuações magníficas por parte do trio principal de atores também acrescentam muito ao longa. Ralph Fiennes (“O Morro dos Ventos Uivantes”) encarna com maestria o cruel e insano comandante Amon Goeth, um homem que odeia os judeus acima de tudo, mas que ainda assim, acaba se apaixonando pela sua própria empregada doméstica, que vem a ser uma judia. Para tentar esconder o amor que sente por esta, Goeth espanca a moça com freqüência e sofre a cada dia mais com isso. São poucos os atores que conseguiriam interpretar um personagem com uma mente tão complexa como a de Goeth de maneira tão perfeita como Fiennes o faz aqui, e é por este motivo queconsidero a sua atuação uma das 50 melhores atuações masculinas de todos ostempos.

Ben Kingsley (“Gandhi”) também não fica muito atrás eencarna com extrema competência Itzhak Stern, realizando uma atuação completamente segura e convincente, figurando também entre as 50 melhores atuações masculinas da história do cinema.

No entanto, a melhor atuação do filme é, de longe, a de Liam Neeson (“Fé Demais Não Cheira Bem”), interpretando com uma incrívelperfeição o protagonista do filme, Oskar Schindler. Neeson encarna seu papel deuma maneira tão natural, que em momento algum a mudança de personalidade de Schindler soa de maneira artificial e falsa, algo que dificilmente seria obtido com tanta perfeição por qualquer outro ator que fosse. Particularmente, creio que a atuação de Neeson neste filme figura entre as dez melhores atuações masculinas da história do Cinema, e sim, encontr
o-me em pleno uso da razão quando afirmo isso.

A fotografia em preto e branco de Janusz Kaminski também é outro grande acerto do filme, já que confere ao mesmo um ar de profunda melancolia, fazendo com que o espectador se sensibilize ainda mais com as barbáries cometidas contra os judeus durante este assombroso episódio da história da humanidade.
A trilha-sonora de John Williams (que também assinou por “Star Wars” e “Indiana Jones”),por sua vez, figura facilmente entre as melhores e, ao mesmo tempo, mais tristes, da história do Cinema. O grande destaque para a trilha do filme ficacom a cena final (que sem dúvida alguma é uma das mais emocionantes já produzidas pela Sétima Arte), quando a música tema é colocada de fundo aumentando ainda mais os sentimentos de melancolia e de tristeza presentes no momento, enquanto os milhares de judeus, que escaparam do holocausto graças a Oskar Schindler, colocam várias pedras no túmulo do industrial alemão como uma formade gratidão a este.
“A Lista de Schindler” conta ainda com uma infinidade de cenas inesquecíveis, tais como: o massacre do gueto judeu, o extermínio de vários judeus nos campos de concentração, o espancamentoda empregada doméstica de Amon Goeth, os prantos desesperados de Schindler quando este lamenta por não ter trocado seu broche de ouro e seu carro pelavida de outros vários judeus (esta inclusive é a cena mais marcante da carreirade Liam Neeson), o cantarolar dos judeus sobreviventes ao holocausto enquanto estes caminham para uma nova vida após o término da guerra, além é claro, da magnífica cena que encerra o filme com chave de ouro: a homenagem que os judeus, salvos por Oskar Schindler, prestam a ele, depositando várias pedras simbólicas em seu túmulo (mencionei esta cena ao final do parágrafo anterior).
Quase tão memoráveis quanto às cenas supracitadas, são duas frases ditas pelo personagem de Ben Kingsley, que marcaram, e muito, o filme: “___ Esta lista é um bem absoluto. Esta lista… é a vida. Em volta das suas margens fica o abismo, a morte.” e “___ Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro.”.
Finalizando, este é o tipo de filme que aquece a alma de quem o assiste e nosleva a pensar que, por mais cruel que o mundo possa ser, sempre há uma boa pessoa disposta a arriscar tudo o que tem a fim de salvar milhares de vidas.
Em suma, “A Lista de Schindler” é um filme praticamente perfeito, onde todos os realizadores parecem ter se esforçado ao máximo a fim de obter um magnífico resultado final, que é justamente o que acaba acontecendo. A direção de Spielberg é detalhista e não contém quaisquer apelos que seja, as atuações do elenco não poderiam ser melhores, o roteiro de Zaillian foi perfeitamente bem adaptado do livro, a trilha-sonora de Williams está entre as melhores e mais tristes da história do Cinema e a fotografia em preto e branco de Kaminski realça ainda mais a melancolia que a película almeja nos passar.
Completando o parágrafo acima, “A Lista de Schindler” não só é o melhor trabalho de toda a carreira de Steven Spielberg como também se revela um dos melhores filmes já realizados até então. É uma verdadeira lástima que Spielberg não dirija mais películas deste tipo e com a mesma competência demonstrada aqui.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

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