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Os Sete Samurais – ***** de *****

Admito vergonhosamente que os meus conhecimentos sobre o Cinema asiático, sobretudo o japonês, são bem limitados. O estranho é que admiro muito a cultura deste continente e, acima de tudo, do Japão. Sempre nutri um fortíssimo interesse sobre a história japonesa, principalmente no que diz respeito ao período Yamato, mas, curiosamente, nunca me preocupei em conhecer de maneira mais branda a sétima Arte importada da segunda maior potência econômica mundial. Reparando este erro apenas agora (antes tarde do que nunca), optei por locar alguns filmes do maior gênio do cinema japonês e analisar os mesmos. O primeiro fora “Yojimbo”, filme cuja crítica já fora postada aqui mesmo, nesta sessão do site, agora, optei por “Os Sete Samurais” que, não só é considerado como o mais importante filme oriental de todos os tempos, como também uma das quinze melhores obras da história do Cinema e uma experiência obrigatória no currículo de qualquer um que se julgue cinéfilo.

Ficha Técnica:
Título Original: Shicinin No Samurai.
Gênero: Drama.Ano de Lançamento: 1954.
Nacionalidade: Japão.
Tempo de Duração: 208 minutos.
Diretor: Akira Kurosawa.
Roteirista: Shinobu Hashimoto, Akira Kurosawa e Hideo Oguni.
Elenco: Takashi Shimura (Kambei Shimada), Toshirô Mifune (Kikuchiyo), Yoshio Inaba (Gorobei Katayama), Seiji Miyaguchi (Kyuzo), Minoru Chiaki (Heihachi Hayashida), Daisuke Katô (Shichiroji), Isao Kimura (Katsushiro), Kamatari Fujiwara (Manzo), Kokuten Kodo (Gisaku), Bokuzen Hidari (Yohei), Yoshio Kosugi (Mosuke), Yoshio Tsuchiya (Rikichi), Keiji Sakakida (Gasaku) e muitos outros.
Sinopse: Após ser saqueada freqüentemente por um grupo de saqueadores, uma aldeia situada no interior do Japão entra em colapso total, uma vez que passa a não possuir mais alimentos o bastante a fim de garantir a sua subsistência. Para evitar que tal crise se prolongue ainda mais, os aldeões decidem contratar um grupo de samurais para garantir a paz no local e garantir que a prosperidade reine no vilarejo. A dificuldade em contratar os serviços de tais mercenários, no entanto, aumenta consideravelmente quando os lavradores percebem que, a única forma de compensar os trabalhos desenvolvidos pelos guerreiros, é alimentando os mesmos, uma vez que eles não possuem quaisquer bens materiais que seja.

Shicinin No Samurai – Trailer:

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Crítica:

Mediante a sensibilidade das câmeras do gênio mor do Cinema asiático, Akira Kurosawa, quando “Os Sete Samurais” tem o seu início, passamos por uma desconfortável sensação de miséria. É justamente esta a sensação que este fabuloso épico almeja nos transmitir a princípio: a tão dolorosa realidade dos paupérrimos habitantes de um indigente vilarejo no interior do Japão que é pilhado freqüentemente por uma quadrilha de saqueadores.

O clima inserido no intróito da película é desesperador, aflito, lúgubre e urgente. É como se uma atitude drástica carecesse ser tomada o quanto antes, a fim de evitar a morte dos camponeses locais. Tais sensações transmitidas pela direção de Kurosawa, aliadas à trilha-sonora sombria e fúnebre de Fumio Hayasaka, conferem ao espectador uma inevitável impressão de que o filme está, na realidade, realizando uma ode ao Apocalipse. E é justamente este o sentimento presente nas mentes de cada um dos pobres camponeses indefesos: o de que o fim de tudo aquilo que eles têm por mundo, está verdadeiramente próximo.

Contudo, um sábio local sugere contratar um grupo de samurais que se sensibilizem com a causa deles e aceitem prestar serviços em troca de apenas três refeições diárias. É na cena em questão que Akira Kurosawa mostra, novamente, toda a sua genialidade, explorando a mentalidade de cada habitante do humilde vilarejo, retratando os diálogos de cada um destes, que variam desde os mais conformistas, que acreditam que lavradores nasceram para sofrer e, desta forma, devem aceitar o seu cruel destino, até os mais revolucionários que preferem pegar em armas e lutar contra os saqueadores arriscando a própria vida, passando pelos negativistas que crêem que a melhor solução é o suicídio e, por fim, encerrando o debate focando-se nos aldeões mais racionais, que aceitam a solução do sábio ancião e decidem tentar a impossível missão de contratar um grupo de samurais que protejam a aldeia, nem que para isso necessitem dispor de seus melhores alimentos.

A partir de então o filme assume uma outra postura filosófica. Se antes nos chocávamos com tamanha miséria e desespero, agora nos chocamos ainda mais ao sentirmos presentes o egoísmo e a ambição humana sendo abordadas em cena. De ode ao Apocalipse, o filme passa a realizar uma ode ao egoísmo humano e, acreditem, a sensação de angústia, estranhamente, não diminui nem um pouco, muito pelo contrário, aumenta. Não há como não nos comovermos, apenas para citar um exemplo, com a cena em que um aldeão, em pleno desespero, quase é espancado por um samurai após implorar que este proteja o seu vilarejo em troca de alimentos. Contudo, após passarem por humilhações de todos os tipos, os lavradores finalmente encontram um grupo com sete mercenários que, sem muitas perspectivas na vida, aceitam a missão.

Neste instante, o filme consegue nos cativar ainda mais do que já estava cativando outrora. O roteiro passa a confeccionar diálogos sensacionais sobre altruísmo, honra, amizade e egoísmo (desta vez, abordado de maneira um pouco menos ampla que anteriormente), e os protagonistas ganham uma abordagem extremamente ampla sobre o caráter de cada um deles. A química entre os samurais vai tornando-se cada vez mais visível e não há como não nos relacionarmos com os mesmos. É como se cada um deles fizesse parte de nós, tanto que, quando sentimos que estes correm sério risco de vida, tememos que algum membro de nossos corpos sejam decapitados, tamanha a relação que o roteiro estabelece entre o público e seus respectivos protagonistas.

A relação entre os mercenários e os plebeus também é muito bem abordada pelo roteiro. A princípio, temos a sensação de que está havendo ali um verdadeiro choque entre duas culturas amplamente diferentes, mas que, com o passar do tempo, não só o roteiro, como a sutil direção de Kurosawa e as engajadas atuações por parte de todo o elenco, fazem com que o público, assim como os guerreiros e os camponeses, se acostume com a confraternização que passa a se estabelecer entre ambos os lados.

E já que a palavra “sutileza” fora mencionada no parágrafo acima, não há como assistir ao longa em questão e não notar tal característica presente em quase todas as suas cenas. Kurosawa prova que é realmente um gênio e une diversos aspectos do longa tornando-o completamente sutil e agradável de ser assistido. Como resistir, por exemplo, ao cuidado com qu
e a direção de Arte nos transporta ao Japão Feudal? Ou ao modo como os figurinos incrementam ainda mais as características daquela época ao espectador? E, principalmente, ao trabalho cuidadoso que a edição sonora do filme realiza aqui, quando, sempre que conveniente, emite sons de água em movimento a fim de nos passar a tranqüilidade característica do vilarejo em períodos amistosos.

Mencionando novamente a direção de Kurosawa, só que, desta vez, destinando este parágrafo inteiro a fim de melhor descrevê-la, é dele o maior mérito deste grande épico do Cinema oriental ter tido toda a repercussão que teve mundo afora. O cineasta realiza aqui um trabalho irretocável e revolucionário. Além de utilizar freqüentemente os seus característicos verticals travellings com o intento de conferir maior visibilidade aos espectadores, Kurosawa mostra saber usar uma determinada imagem perfeitamente bem a fim de ilustrar um problema que os personagens do filme estão enfrentando. Vide a cena onde um camponês entra em desespero logo após ser saqueado e, para ilustrar o sentimento do aldeão de um modo realmente satisfatório, o diretor realiza um enquadramento onde exibe apenas a mão direita do lavrador coletando os pouquíssimos grãos de arroz que lhe restaram, esparramados pelo local. As batalhas que, por si só, já entrariam na história do Cinema, ganham ainda mais força e realismo sob a batuta do gênio japonês que cria ângulos fantásticos para poder acompanhá-las de modo dinâmico e convincente.

Considerado pela grande maioria dos cinéfilos e dos profissionais da área o mais completo filme oriental de todos os tempos, “Os Sete Samurais” vai, na realidade, muito além disso. O longa magistralmente dirigido por Kurosawa se revela uma experiência inigualável e única na vida de quem o assiste (e por mais que o seu remake estadunidense “Sete Homens e Um Destino” seja ótimo, ele jamais se equipara a este longa em questão), além de ser uma sessão inquestionavelmente obrigatória a todo o indivíduo que almeja ter um conhecimento, no mínimo, aceitável sobre o Cinema asiático e, por que não dizer, mundial.

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

Crítica – Yojimbo, o Guarda-Costas

Detesto passar pela sensação a qual estou passando agora, após terminar de assistir a este “Yojimbo”. Não, nada pessoal contra o filme, que por sinal é excelente, mas sim quanto ao fato de ter de avaliá-lo do ponto de vista artístico. Só para citar um exemplo, quando escrevi uma crítica sobre “Platoon” (nunca cheguei a publicar tal crítica) mencionei na mesma que achava o filme fabuloso, perfeito, mas artisticamente falando o mesmo possuía algumas falhas e estas não poderiam passar batidas. O mesmo ocorre com este “Yojimbo”, com a diferença de que, desta vez, darei ao mesmo uma nota mais alta do que eu acredito que ele mereça. O pior de tudo é que estou fazendo isto me espelhando no remake que Sergio Leone lançou em cima do filme de Kurosawa, o clássico de westernPor um Punhado de Dólares”. Reconheço que este “Yojimbo”, artisticamente falando, é superior ao longa protagonizado por Clint Eastwood, mas do ponto de vista pessoal, considero o filme italiano bem mais cativante (mesmo atribuindo nota 8,5 para este e nota 9,0 para a produção japonês). Enfim, estes são os ossos do ofício, não é sempre que se pode ser extremamente subjetivo, não é mesmo?

Sinopse: Ao chegar em um vilarejo no Japão tomado por duas facções criminosas, um destemido Samurai vê ali a oportunidade de ganhar muito dinheiro, trabalhando secretamente para as duas organizações. A partir daí, a rivalidade entre as duas gangues aumenta cada vez mais, mudando o destino dos habitantes do vilarejo de forma irreversível.

Yojimbo – Trailer

Crítica:

Após chegar a um vilarejo tomado por duas organizações criminosas, um mercenário vê ali a oportunidade de ganhar muito dinheiro realizando trabalhos sujos às duas facções e colocando uma contra a outra. A estória soa familiar? Pois é, ela já fôra utilizada inúmeras vezes pelo Cinema, inclusive em filmes como o westernPor um Punhado de Dólares” (de Sergio Leone e com Clint Eastwood no elenco) e o gangster O Último Matador” (protagonizado por Bruce Willis). Contudo, este “Yojimbo” conta com uma característica que o coloca a frente dos demais filmes com a mesma sinopse, foi ele o primeiro filme a utilizá-la.

Fazendo uso de uma direção de arte fantástica, a obra (não necessariamente “prima”) de Kurosawa nos transporta ao Japão do início do Século XIX, em uma vila paupérrima, onde duas grandes famílias criminosas controlam o local. Contudo, a pequena vila sofre uma série de mudanças com a chegada de um samurai forte e destemido. A partir daí, o roteiro nos presenteia com uma seqüência de reviravoltas bastante convenientes e uma estória interessante o bastante para nos manter entretidos até o desfecho da mesma.

Além da estória atraente e das reviravoltas que a mesma possui, o roteiro deste “Yojimbo” ainda conta com um desenvolvimento bastante interessante de seus personagens, tanto os primários quanto os secundários. Tomemos por exemplo o protagonista da estória, Sanjuro Kuwabatake (encarnado por Toshirô Mifune). Apesar de o mesmo conter vários dos clichês do gênero, tais como: a face inexpressiva, o jeitão de durão e a frieza adotada para tomar suas atitudes (isso sem contar que ele sozinho se mostra capaz de matar oito homens de uma única vez), o personagem, vez ou outra, demonstra uma ponta de humanismo em seu gélido coração ou então realiza uma piada satirizando a situação pela qual está passando, fato que torna o personagem mais, digamos, humano.

O desenvolvimento da rivalidade entre as famílias de Seibei (interpretado por Seizaburô Kawazu) e Ushitora (Kyu Sazanka) também é outro ponto extremamente salientado pelo roteiro, que parece fazer a máxima questão de manter o espectador informado sobre tudo o que está acontecendo entre ambas as facções, sem dar prioridade a uma ou a outra (diferentemente de “Por um Punhado de Dólares” que dá muito mais crédito à família dos Rojos do que à família dos Baxters).

A direção de Akira Kurosawa, como sempre, está perfeita. É incrível vermos como o diretor é capaz de criar ângulos excepcionais com a sua câmera e mais impressionante ainda é podermos notar a maneira eficiente com que ele “casa” diversos aspectos do longa, fazendo com que todos andem em perfeita harmonia. Ou melhor, todos não, quase todos.

Disse “quase todos” pois a trilha-sonora infelizmente é falha, além de repetitiva e cansativa. Para um filme desta categoria, Kurosawa deveria ao menos ter sido mais cuidadoso na escolha da trilha, esta que vem a ser uma das características que, indubitavelmente, mais colaboram com a relação público-película, e ter selecionado algo mais cativante e empolgante.

Os demais aspectos que não comentei neste texto são todos perfeitos, realçando a fotografia que dá ainda mais charme ao filme que, apesar de não ser perfeito, é um marco na história da Sétima Arte, tanto que ganhou vários remakes que, artisticamente falando, não superam o mesmo.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

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